financas islamicas e estrategia

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  • P ode o mercado financeiro ser regido por leis religiosas? Por mais que primeira vista soe estranho, a resposta sim. Finanas isl-micas a expresso usada para designar as operaes realizadas com a preocupao de respeitar as orientaes da Sharia, conjunto de regras que direciona o comportamento dos muulmanos. Talvez a expresso mais correta em portugus fosse ativi-dade financeira condizente com a Sharia. Em ingls, essa prtica chamada de Sharia-compliant.

    Segundo matria publicada na revista The Economist, em 2014, esse mercado j atingia aproximadamente dois trilhes de dlares. E mais: entre 2009 e 2013, ele cresceu em mdia 17,6% ao ano. At 2018, as estimativas sugerem um crescimento ainda maior: cerca de 20% ao ano.

    Um aspecto importante de ser compreendido que as finanas islmicas no interessam apenas aos seguidores do islamismo. Ao contrrio, esse segmento inclui fundos de investimento baseados em diversos pases ocidentais e um mercado de ttulos Sharia-compliant (chamados sukuk),

    que explorado de forma crescente por bancos, empresas e governos em diversas partes do mundo. Finanas islmicas tm merecido ateno por parte de estrategistas de empresas nacionais e de rgos governamentais. A seguir, apresenta-mos os conceitos bsicos desse mercado, a fim de chamar a ateno para seu potencial como horizonte estratgico para organizaes pblicas e privadas brasileiras.

    RAZES DA EXPANSOAlm dos nmeros impressionantes citados, outros fato-

    res mostram que as finanas islmicas devem ser tratadas com ateno pelos estrategistas. O primeiro, e talvez mais bvio, a demografia: o islamismo a religio que mais cresce no mundo. Em 2010, era praticada por 1,8 bilho de pessoas, ou cerca de 23% da populao mundial. Alm disso, segundo o instituto norte-americano de pesquisas Pew Research Center, entre 2010 e 2050, o nmero de muul-manos no mundo deve crescer 73%, enquanto a quanti-dade de cristos aumentar 35% e a de hindus, 34%. Isso elevar a 30% a proporo de muulmanos na populao

    FINANAS ISLMICAS E ESTRATGIA

    | POR ANTONIO GELIS FILHO E LEILA MOHAMAD ABDUNI

    UM SISTEMA FINANCEIRO ISLMICO ISTO , QUE RESPEITA OS PRINCPIOS DA SHARIA EST EM RPIDO

    DESENVOLVIMENTO NO MUNDO. ELE NO INTERESSA APENAS AOS SEGUIDORES DA RELIGIO MUULMANA,

    MAS A ORGANIZAES E GOVERNOS DO MUNDO INTEIRO.

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  • mundial. Parece bastante razovel supor que parte sig-nificativa dessas pessoas procurar servios financeiros condizentes com a Sharia.

    O segundo fator a percepo de que os princpios das finanas islmicas podem reduzir a volatilidade tpica desse mercado. Em tempos de alta incerteza, como os atuais, essa uma caracterstica atraente e ajuda a expli-car o fato de ele ser procurado tambm por no muulma-nos. Talvez o melhor exemplo seja o do banco britnico de varejo Al-Rayan, que opera inteiramente dentro dos princpios da Sharia. Segundo reportagem publicada no jornal The Independent em maio de 2015, 83% dos novos depositantes que ingressaram no ano anterior no eram muulmanos.

    Tambm relevante como fator de expanso, o lanamento de ttulos Sharia-compliant uma possibilidade aberta a pases de maioria no muulmana e a empresas, ainda que seus acionistas, controladores e gestores no sejam segui-dores da religio. Em outubro de 2014, o Reino Unido tornou-se o primeiro pas ocidental a captar recursos por

    meio de ttulos Sharia-compliant (algo que j havia sido feito por Hong Kong), em uma operao de 200 milhes de dlares. Foi seguido no mesmo ano por Luxemburgo e pelo banco norte-americano Goldman Sachs, que cap-tou 500 milhes de dlares em outra emisso de sukuk. Vale notar que a familiaridade com finanas islmicas pode servir como fator diferenciador em empresas em processo de internacionalizao e que estejam ingres-sando em mercados com grande populao muulmana.

    A SHARIA COMO PRINCPIOA Sharia o cdigo de conduta que dirige cada aspecto

    da vida de um muulmano. Suas fontes so o Alcoro, livro sagrado da religio islmica, e o Hadith, um corpo de ensi-namentos derivados da vida de Mohammad e de seus com-panheiros. A aplicao desses ensinamentos a situaes concretas forma a jurisprudncia islmica, ou Fiqh.

    Embora os ensinamentos do Alcoro e do Hadith sejam considerados infalveis, sua interpretao pode mudar: h diferentes escolas de jurisprudncia islmica, algumas

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  • delas sunitas, outras xiitas. Os pases nos quais a Sharia a base do sistema judicirio so poucos, a includos Ir, Paquisto e Arbia Saudita. Na maior parte dos pa-ses de maioria muulmana, a Sharia um cdigo de con-duta individual, cuja conexo com o sistema judicirio limitada ou ausente.

    Como guia de conduta pessoal, a Sharia um cdigo tico que deve ser seguido pelos muulmanos individu-almente, independentemente de sua aplicao pelo poder judicirio local. Vrios de seus princpios so relevan-tes para as atividades econmicas, como os sintetizados no quadro.

    FINANAS ISLMICAS EM AO: TAKAFUL E SUKUKOs contratos de seguro do mundo ocidental so um

    excelente exemplo de violao dos princpios da Sharia, que probem elementos de incerteza (gharar) e aposta (maysir). Muitos seguros tambm violam o princpio da proibio dos juros (riba). A soluo islmica foi o desenvolvimento do takaful, um instrumento finan-ceiro de 1.400 anos, mas com grande evoluo nas lti-mas dcadas. Nele, a ideia central no contrato de seguro ocidental, de uma aposta entre segurador e segurado, substituda pela formao de um fundo coletivo. Em outras palavras, caso o infortnio ocorra, o risco ser partilhado entre todos os participantes. A remunerao da empresa operadora do seguro feita por meio de uma taxa de administrao dos fundos. H muitas variaes, mas esse o modelo bsico.

    J os sukuks so frequentemente equipados s debntu-res ou outros ttulos de dvida de empresas ou governos, aquilo que em ingls chamamos genericamente de bonds. A diferena est novamente na aplicao dos princpios da Sharia. Como a especulao proibida, no sukuk o investi-dor considerado detentor de parte dos ativos do emissor, e no apenas de um ttulo de dvida. Isso lhe d direitos sobre os lucros eventuais obtidos pelo emissor e tambm o torna participante de suas perdas. Alm disso, o sukuk no pode

    PRINCPIOS COMO COMPARTILHAMENTO DE RISCO E PROIBIO DE JUROS, ESPECULAO E APOSTA CARACTERIZAM AS FINANAS ISLMICAS, FAZENDO COM QUE

    SEJAM PERCEBIDAS COMO MAIS RESILIENTES E MENOS VOLTEIS O QUE PODE SER UM ATRATIVO INTERESSANTE.

    PRINCPIOS DA SHARIA APLICVEIS A ATIVIDADES ECONMICASPara que um contrato seja vlido pela Sharia, necessrio que sua adequao aos princpios isl-micos seja verificada por um corpo de religiosos e estudiosos. Caso essa adequao seja comprovada, emite-se um certificado de observncia (Certificate of Sharia Compliance). Entre os princpios mais dire-tamente ligados a atividades econmicas, esto:

    Juros so proibidos: entre outras razes, por beneficiar apenas pessoas que no trabalham e por no promover a justia social.

    Especulao e aposta so proibidas: os con-tratos islmicos de seguro, por exemplo, devem ser estruturados de maneira a evitar que se asseme-lhem a um jogo.

    Compartilhamento do risco: em um empre-endimento islmico, as partes no so vistas como financiador e empreendedor, mas como parceiros em uma empreitada, sem qualquer garantia de lucro.

    Proibio de determinadas atividades: inves-timentos em certos setores, como jogo, tabaco, lcool e derivados da carne suna, so proibidos.

    Obrigatoriedade do Zakat: trata-se de doao obrigatria, destinada aos carentes. Alm da fun-o humanitria, reduz o acmulo de dinheiro no investido em atividades produtivas.

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  • estar lastreado em bens ligados s j mencionadas ativida-des vedadas aos muulmanos.

    H muitos outros contratos em finanas islmicas: murabah, istisn, waklah, apenas para mencionar alguns. Porm, como possvel perceber nos dois exem-plos acima, trata-se de um mecanismo preferencialmente lastreado na economia real. Isso faz com que as finanas islmicas sejam percebidas como intrinsicamente mais resilientes e menos volteis o que pode constituir um atrativo interessante.

    PERSPECTIVAS NO BRASILO universo das finanas islmicas apenas comea a

    ser explorado no Brasil. As oportunidades estratgicas, entretanto, so enormes. Uma maior disseminao de conhecimento e informaes sobre o assunto neces-sria para conscientizar agentes pblicos e privados, e para que os primeiros passos sejam dados na constru-o de um espao adequado para o desenvolvimento da atividade.

    *Os autores agradecem a colaborao do Sheikh Jihad Hassan Hammadeh, Diretor da WAMY - Assembleia Mundial da Juventude Islmica, para a composio deste artigo.

    PARA SABER MAIS:- Islamic Financial Services Board. Disponvel em: ifsb.org/index.php - Big Interest, No Interest. The Economist. 13 de setembro de 2014. Disponvel em:

    economist.com/news/finance-and-economics/21617014-market-islamic-financial-products-growing-fast-big-interest-no-interest

    ANTONIO GELIS FILHO > Professor da FGV/EAESP > antonio.gelis@fgv.br LEILA MOHAMAD ABDUNI > Graduanda em Administrao de Empresas pela FGV/EAESP> leila.abduni@gmail.com

    AS FINANAS ISLMICAS DEVEM SER TRATADAS COM ATENO PELOS

    ESTRATEGISTAS. NOS PRXIMOS ANOS, O NMERO DE MUULMANOS NO MUNDO

    DEVE CRESCER 73%, ENQUANTO A QUANTIDADE DE CRISTOS AUMENTAR

    35% E A DE HINDUS, 34%.

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