filosofia da ciência - rubem alves

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por Simone Aparecida Lisniowski em 09/08/2007)

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RUBEM ALVES

FILOSOFIA DA CINCIAINTRODUO AO JOGO E SUAS REGRAS

Editora Brasiliense 1981____________________________ Rubem Alves Filosofia da Cincia

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Nota do escaneador: Este texto foi escaneado, corrigido e editado tendo como referncia a edio de 1981. A numerao indicada no texto foi revista inclusive tendo como referncia a edio de 2002 feita pela Editora Loyola. Aparentemente o autor desejou seguir uma numerao onde determinada seqncia no foi ou no devia ser seguida. Por exemplo, no Captulo 2, salta-se de A.1 para E.1 e no Captulo 11, salta-se o C.1.

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Se um danarino desse saltos muito altos, poderamos admir-lo. Mas se ele tentasse dar a impresso de poder voar, o riso seria seu merecido castigo, mesmo se ele fosse capaz, na verdade, de saltar mais alto que qualquer outro danarino. Saltos so atos de seres essencialmente terrestres, que respeitam a fora gravitacional da Terra, pois que o salto algo momentneo. Mas o vo nos faz lembrar os seres emancipados das condies telricas, um privilgio reservado para as criaturas aladas... Kierkegaard (...) e sereis como Deus, conhecendo o bem e o mal. Moto da comunidade cientfica, Massachusetts Institute of Technology segundo mural do

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Para o Srgio e o Marcos. Que a cincia lhes seja alegre, como empinar papagaios.

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SumrioCaptulo 1 O Senso Comum e a Cincia (I) Captulo 2 O Senso Comum e a Cincia (II) Captulo 3 Em Busca de Ordem Captulo 4 Modelos e Receitas Captulo 5 Decifrando Mensagens Cifradas Captulo 6 Pescadores e Anzis Captulo 7 A Aposta Captulo 8 A Construo dos Fatos Captulo 9 A Imaginao Captulo 10 As Credenciais da Cincia Captulo 11 Verdade e Bondade

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Captulo I O SENSO COMUM E A CINCIA (I)

A cincia nada mais que o senso comum refinado e disciplinado. G. Myrdal

A.1 O que que as pessoas comuns pensam quando as palavras cincia ou cientista so mencionadas? Faa voc mesmo um exerccio. Feche os olhos e veja que imagens vm sua mente. A.2 As imagens mais comuns so as seguintes:

o gnio louco, que inventa coisas fantsticas; o tipo excntrico, ex-cntrico, fora do centro, manso, distrado; o indivduo que pensa o tempo todo sobre frmulas incompreensveis ao comum dos mortais; algum que fala com autoridade, que sabe sobre que est falando, a quem os outros devem ouvir e ... obedecer.

A.3 Veja as imagens da cincia e do cientista que aparecem na televiso. Os agentes de propaganda no so bobos. Se eles usam tais imagens porque eles sabem que elas so eficientes para desencadear decises e comportamentos. o que foi dito antes: cientista tem autoridade, sabe sobre o que est falando e os outros devem ouvi-lo e obedec-lo. Da que imagem de cincia e cientista pode e usada para ajudar a vender cigarro. Veja, por exemplo, os novos tipos de cigarro, produzidos cientificamente. E os laboratrios, microscpios e cientistas de aventais imaculadamente brancos enchem os olhos e a cabea dos telespectadores. E h cientistas que anunciam pasta de dente, remdios para caspa, varizes, e assim por diante. A.4 O cientista virou um mito. E todo mito perigoso, porque ele induz o comportamento e inibe o pensamento. Este um dos resultados engraados (e____________________________ Rubem Alves Filosofia da Cincia

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trgicos) da cincia. Se existe uma classe especializada em pensar de maneira correta (os cientistas), os outros indivduos so liberados da obrigao de pensar e podem simplesmente fazer o que os cientistas mandam. Quando o mdico lhe d uma receita voc faz perguntas? Sabe como os medicamentos funcionam? Ser que voc se pergunta se o mdico sabe como os medicamentos funcionam? Ele manda, a gente compra e toma. No pensamos. Obedecemos. No precisamos pensar, porque acreditamos que h indivduos especializados e competentes em pensar. Pagamos para que ele pense por ns. E depois ainda dizem por a que vivemos em uma civilizao cientfica... O que eu disse dos mdicos voc pode aplicar a tudo. Os economistas tomam decises e temos de obedecer. Os engenheiros e urbanistas dizem como devem ser as nossas cidades, e assim acontece. Dizem que o lcool ser a soluo para que nossos automveis continuem a trafegar, e a agricultura se altera para que a palavra dos tcnicos se cumpra. Afinal de contas, para que serve a nossa cabea? Ainda podemos pensar? Adianta pensar? B.1 Antes de mais nada necessrio acabar com o mito de que o cientista uma pessoa que pensa melhor do que as outras. O fato de uma pessoa ser muito boa para jogar xadrez no significa que ela seja mais inteligente do que os no-jogadores. Voc pode ser um especialista em resolver quebra-cabeas. Isto no o torna mais capacitado na arte de pensar. Tocar piano (como tocar qualquer instrumento) extremamente complicado. O pianista tem de dominar uma srie de tcnicas distintas oitavas, sextas, teras, trinados, legatos, staccatos e coorden-las, para que a execuo ocorra de forma integrada e equilibrada. Imagine um pianista que resolva especializar-se (note bem esta palavra, um dos semideuses, mitos, dolos da cincia!) na tcnica dos trinados apenas. O que vai acontecer que ele ser capaz de fazer trinados como ningum s que ele no ser capaz de executar nenhuma msica. Cientistas so como pianistas que resolveram especializar-se numa tcnica s. Imagine as vrias divises da cincia fsica, qumica, biologia, psicologia, sociologia como tcnicas especializadas. No incio pensava-se que tais especializaes produziriam, miraculosamente, uma sinfonia. Isto no ocorreu. O que ocorre, freqentemente, que cada msico surdo para o que os outros esto tocando. Fsicos no entendem os socilogos, que no sabem traduzir as afirmaes dos bilogos, que por sua vez no compreendem a linguagem da economia, e assim por diante. A especializao pode transformar-se numa perigosa fraqueza. Um animal que s desenvolvesse e especializasse os olhos se tornaria um gnio no mundo das____________________________ Rubem Alves Filosofia da Cincia

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cores e das formas, mas se tornaria incapaz de perceber o mundo dos sons e dos odores. E isto pode ser fatal para a sobrevivncia. O que eu desejo que voc entenda o seguinte: a cincia uma especializao, um refinamento de potenciais comuns a todos. Quem usa um telescpio ou um microscpio v coisas que no poderiam ser vistas a olho nu. Mas eles nada mais so que extenses do olho. No so rgos novos. So melhoramentos na capacidade de ver, comum a quase todas as pessoas. Um instrumento que fosse a melhoria de um sentido que no temos seria totalmente intil, da mesma forma como telescpios e microscpios so inteis para cegos, e pianos e violinos so inteis para surdos. A cincia no um rgo novo de conhecimento. A cincia a hipertrofia de capacidades que todos tm. Isto pode ser bom, mas pode ser muito perigoso. Quanto maior a viso em profundidade, menor a viso em extenso. A tendncia da especializao conhecer cada vez mais de cada vez menos. C.1 A aprendizagem da cincia um processo de desenvolvimento progressivo do senso comum. S podemos ensinar e aprender partindo do senso comum de que o aprendiz dispe. A aprendizagem consiste na manuteno e modificao de capacidades ou habilidades j possudas pelo aprendiz. Por exemplo, na ocasio em que uma pessoa que est aprendendo a jogar tnis tem a fora fsica para segurar a raquete, ela j desenvolveu a coordenao inata dos olhos com a mo, a ponto de ser capaz de bater na bola com a raquete. Na verdade, com a prtica ela aprende a bater melhor na bola, . . Mas bater na bola com a raquete no parte do aprendizado do jogo de tnis. Trata-se, ao contrrio, de uma habilidade que o jogador possui antes de sua primeira lio e que modificada na medida em que ela aprende o jogo. o refinamento de uma habilidade j possuda pela pessoa. (David A. Dushki (org.). Psychology Today An Introduction. p. 65). C.2 O que senso comum? Esta expresso no foi inventada pelas pessoas de senso comum. Creio que elas nunca se preocuparam em se definir. Um negro, em sua ptria de origem, no se definiria como pessoa de cor. Evidentemente. Esta expresso foi criada para os negros pelos brancos. Da mesma forma a expresso senso comum foi criada por pessoas que se julgam acima do senso comum, como uma forma de se diferenciarem das pessoas que, segundo seu critrio, so intelectualmente inferiores. Quando um cientista se refere ao senso comum,____________________________ Rubem Alves Filosofia da Cincia

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ele est, obviamente, pensando nas pessoas que no passaram por um treinamento cientfico. Vamos pensar sobre uma destas pessoas. C.3 Ela uma dona-de-casa. Pega o dinheiro e vai feira. No se formou em coisa alguma. Quando tem de preencher formulrios, diante da informao profisso ela coloca prendas domsticas ou do lar. Uma pessoa comum como milhares de outras. Vamos pensar em como ela funciona, l na feira, de barraca em barraca. Seu senso comum trabalha com problemas econmicos: como adequar os recursos de que dispe, em dinheiro, s necessidades de sua famlia, em comida. E para isto ela tem de processar uma srie de informaes. Os alimentos oferecidos so classificados em indispensveis, desejveis e suprfluos. Os preos so comparados. A estao dos produtos verificada: produtos fora de estao so mais caros. Seu senso econmico, por sua vez, est acoplado a outras cincias. Cincias humanas, por exemplo. Ela sabe que alimentos no so apenas alimentos. Sem nunca haver lido Veblen ou Lvi-Strauss, ela sabe do valor simblico dos alimentos. Uma refeio uma ddiva da dona-de-casa, um presente. Com a refeio ela diz algo. Oferecer chourio para um marido de religio adventista, ou feijoada para uma sogra que tem lceras, romper claramente com uma poltica de coexistncia pacfica. A escol