filosofia da ciência e metodologia econômica

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  • ISSN 1519-4612

    Universidade Federal Fluminense

    TEXTOS PARA DISCUSSO

    UFF/ECONOMIA

    Universidade Federal Fluminense Faculdade de Economia

    Rua Tiradentes, 17 - Ing - Niteri (RJ) Tel.: (0xx21) 2629-9699 Fax: (0xx21) 2629-9700

    http://www.uff.br/econ

    esc@vm.uff.br

    Doutoranda em Economia (UFF). E-mail: cmcavalcante@gmail.com.

    Filosofia da cincia e metodologia econmica: do

    positivismo lgico ao realismo crtico

    Carolina Miranda Cavalcante TD 210

    Maro/2007

  • Economia Texto para Discusso 210

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    FILOSOFIA DA CINCIA E METODOLOGIA ECONMICA: DO POSITIVISMO LGICO AO REALISMO CRTICO1

    Carolina Miranda Cavalcante2 cmcavalcante@gmail.com

    Resumo O objeto desse artigo a reconstruo de alguns debates travados no mbito da filosofia da cincia, desde o positivismo lgico at o realismo crtico, passando pelos seus crticos mais referidos nesses debates, a saber, Popper, Kuhn e Lakatos. Essa discusso filosfica tem como objetivo indicar como idias desenvolvidas no campo da filosofia da cincia se refletem no campo da metodologia econmica. A relevncia do resgate desses debates filosficos justifica-se pelo fato de que freqentemente algumas teorias econmicas so sustentadas com base em argumentos metodolgicos. Palavras-chave: filosofia da cincia, metodologia econmica, positivismo lgico, tericos do crescimento do conhecimento, realismo crtico. Abstract This article is concerned with the reconstruction of some debates that takes place in the domain of the philosophy of science, since logical positivism until critical realism, through its most referred critics, that is, Popper, Kuhn and Lakatos. The aim of this philosophical discussion is to point out how ideas discussed in the domain of philosophy of science are reflected in the domain of economic methodology. The relevance of bringing these philosophical debates into light are justified by the fact that some economic theories are often sustained with recourse to metodological arguments. Keywords: philosophy of science, economic methodology, logical positivism, growth of knowledge tradition, critical realism.

    1 Esse artigo foi confeccionado com base em minha Monografia de concluso de curso, terceiro lugar no XV Prmio de Monografia Economista Celso Furtado, realizado pelo Corecon-RJ. As idias aqui contidas tambm fazem parte do captulo terceiro de minha Dissertao de Mestrado. As referncias bibliogrficas desses trabalhos Cavalcante (2005; 2007) encontram-se no final do artigo, juntamente com as demais referncias. 2 Doutoranda em Economia (UFF). Esse artigo resultado de diversos debates, tanto no mbito das Bancas s quais essas idias foram submetidas quanto aos colegas da ps-graduao e alunos da graduao que tiveram acesso a alguma verso dessa sntese que aqui apresento. Assim sendo, agradeo a todos que fizeram crticas e sugestes ao longo desse tempo em que desenvolvia a pesquisa que deu origem a esse artigo. Por fim, agradeo o apoio financeiro do CNPq.

  • Economia Texto para Discusso 210

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    1. Introduo

    O objetivo desse artigo reunir algumas das contribuies de autores e correntes de pensamento em filosofia da cincia, desde o positivismo lgico at as crticas de Karl Popper, Thomas Kuhn, Imre Lakatos, bem como do realismo crtico, tal qual sugerido por Tony Lawson a partir dos escritos de Roy Bhaskar. A reconstruo desses debates filosficos deriva sua importncia do fato de que os posicionamentos tericos em Economia so comumente defendidos com base em argumentos metodolgicos. Na medida em que a metodologia econmica reflete algumas discusses travadas no mbito da filosofia da cincia, a reconstruo desses debates se coloca como uma questo fundamental na compreenso das disputas tericas em Economia.

    O artigo estrutura-se da seguinte forma. No item 2 fao uma breve exposio do projeto lgico-positivista, que tem incio na dcada de 1920 a partir da troca de idias entre um grupo de fsicos e matemticos interessados em questes filosficas. Tal grupo ficou conhecido como Crculo de Viena (Caldwell, p.11). Na medida em que se desenrolavam seus debates epistemolgicos, os lgico-positivistas se depararam com problemas que ameaavam a viabilidade de seu projeto. Tais problemas foram contornados pela proposta do modelo hipottico-dedutivo de explicao cientfica, tambm considerado no item 2.

    O pensamento de Popper apresentado no item 3 em separado, visto que seu esquema conceitual no totalmente identificvel com nenhuma das referidas escolas de pensamento. Embora possa se argumentar no sentido de que seu pensamento seja compatvel com alguns elementos de determinadas tradies em filosofia da cincia, sua proposta permanece no incorporvel de maneira completa a qualquer dessas tradies. Uma outra peculiaridade em relao ao autor que Popper apresentara suas crticas ao positivismo lgico desde a dcada de 1920, sendo um dos seus primeiros crticos.

    No item 4 so consideradas os esquemas conceituais de Kuhn e Lakatos tericos de crescimento do conhecimento , responsveis pela modificao do foco dos debates em filosofia da cincia, fornecendo assim uma alternativa ao positivismo lgico. Apesar de ter encontrado diversas crticas no mbito da filosofia da cincia, as idias lgico-positivistas ainda encontraram expresso na proposta instrumentalista de Milton Friedman, que defende a concepo da Economia como uma cincia positiva, livre de valores. O instrumentalismo metodolgico objeto do item 5.

    Conforme se argumenta no item 6, embora seja uma alternativa, os tericos do crescimento do conhecimento no constituem a nica alternativa ao positivismo lgico. Nesse sentido, o realismo crtico sustentado por Lawson sugerido como capaz de fornecer uma resposta s inconsistncias do positivismo lgico tanto no mbito epistemolgico quanto no mbito ontolgico. A crtica ontolgica precisamente o que distingue o realismo crtico dos demais crticos do positivismo lgico. Ao final, as principais idias apresentadas nesse artigo so sintetizadas numa breve concluso. 2. Crculo de Viena: do surgimento do projeto do positivismo lgico

    O positivismo lgico no constituiu o primeiro esforo filosfico no sentido de demarcar o discurso cientfico dos demais discursos, considerados no cientficos (Feij, 2003, p.15). Contudo, inaugura um corpo de conhecimentos que assume uma relativa autonomia nos debates cientficos e filosficos, a saber, a filosofia da cincia. O ponto programtico central do projeto lgico-positivista consistia em eliminar todas as asseres de contedo metafsico do discurso cientfico. Embora as asseres metafsicas no fossem

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    consideradas falsas, a elas no era atribudo qualquer significado cognitivo3. Com isso, pretendiam os lgico-positivistas construir um discurso cientfico seguramente destacado das concepes do senso comum.

    No mbito do projeto lgico-positivista o objeto da cincia definido como composto de elementos empricos, capturveis na experincia sensvel e tratados com recurso ao mtodo da anlise lgica. Deste modo, o objetivo da filosofia a anlise lgica; e seu objeto de estudo so as cincias empricas e positivas (Caldwell, 1982, p.13). O positivismo lgico reconhecia trs tipos de proposies: analticas, sintticas e metafsicas. As proposies analticas so definidas como aquelas referentes a asseres tautolgicas, e.g., todos os solteiros so homens no casados; as proposies sintticas so aquelas que podem ser verificadas empiricamente, e.g., o gato est sobre o tapete; por fim, as proposies metafsicas no podem ser verificadas empiricamente, no possuindo significado cognitivo, e.g., a afirmao roubar errado exprime uma avaliao normativa, mas no fornece qualquer explicao lgica acerca do mundo4.

    De acordo com o critrio de cientificidade lgico-positivista, apenas as proposies que possussem significado cognitivo seriam consideradas cientficas, enquanto as proposies sem significado cognitivo seriam ditas no-cientficas. Como somente s proposies analticas e sintticas era atribudo significado cognitivo, enquanto as proposies metafsicas eram consideradas sem significado cognitivo, apenas as primeiras eram consideradas cientficas luz do projeto lgico-positivista. Uma vez explicitada a natureza das proposies analisadas pelo positivismo lgico precisamos compreender como separar proposies com significado cognitivo (analticas e sintticas) de proposies sem significado cognitivo (metafsicas). Um critrio de demarcao se fazia necessrio.

    O primeiro critrio de demarcao entre proposies com e sem significado cognitivo foi o da verificao. O critrio da verificao estabelecia que as proposies deveriam ser testadas empiricamente, caso fossem validadas seriam consideradas sintticas, com significado cognitivo, portanto, cientficas. A invalidao de uma proposio a qualificaria como metafsica, sem significado cognitivo, conseqentemente, no cientfica. Todavia, o critrio da verificao possua uma sria limitao, a saber, requeria um nmero infinito de testes empricos para que uma proposio fosse verificada conclusivamente e a ela pudesse ser atribudo, com segurana, o estatuto cientfico, no metafsico. Como a realizao de testes infinitos uma tarefa impossvel, adotou-se o critrio da confirmao, que demandava um nmero finito de testes, em que uma proposio ganharia mais confiana na medida em que fosse confirmada em um nmero crescente de testes empricos (Caldwell, 1982, 20-23).

    O debate em torno do critrio de demarcao entre proposies significativas e no significativas evidenciou um dos problemas encontrados pelo positivismo lgico, a saber, no possvel verificar conclusivamente uma proposio cientfica, dado o problema da testabilidade infinita. Mesmo que o critrio da confirmao seja adotado, no se pode garantir que uma proposio at ento confirmada v passar pelo prximo teste e