fico, carlos. versões e controvérsias sobre 1964 e a ditadura militar

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  • EFEMRIDES

    Em 7 de setembro de 1972, a ditadura militar tomou conta das comemo-raes da principal efemride do perodo: o Sesquicentenrio da Indepen-dncia do Brasil. As festas tiveram um carter oficial e algo sombrio: o gene-ral Mdici presidiu um desfile na avenida Paulista, vendedores ambulantesofereciam monculos com a fotografia de dom Pedro I e o principal ato sim-blico da comemorao foi a lgubre cerimnia de translao de parte docorpo do imperador (o corao ficou em Portugal) para a capela do Monu-mento do Ipiranga depois de os despojos mortais terem peregrinado por to-do o pas.

    No cabvel celebrar um golpe de Estado como o de 31 de maro de1964, mas estes quarenta anos tambm podem ser caracterizados como umaefemride, se pensarmos no sentido que a expresso assumiu para os histo-riadores brasileiros, principalmente a partir de meados dos anos 80 depoisdo fim do regime militar , quando tivemos o Bicentenrio da ConjuraoMineira (no mesmo ano do Bicentenrio da Revoluo Francesa), o Cente-nrio da Abolio da Escravido e o da Proclamao da Repblica, apenas pa-ra citar as mais importantes. Muitos eventos e publicaes marcaram as da-

    Verses e controvrsias sobre 1964e a ditadura militar

    Carlos Fico1

    UFRJ

    RESUMO

    O principal objetivo deste artigo expore discutir as mais importantes correntesda historiografia sobre o Golpe de 1964e confrontar algumas questes contro-vertidas sobre represso poltica, censu-ra e outros temas da ditadura militar.Palavras-chave: Historiografia; Golpe deEstado; Ditadura militar.

    ABSTRACT

    The main purpose of this article is to pre-sent and discuss the principal trends ofhistoriography or Brazilian 1964 coupdtat and discuss some controversialquestions censorship, political repressionand other subjects concerning Brazilianmilitary dictatorship history.Keywords: Historiography; Braziliancoup dtat; Dictatorship History.

    Revista Brasileira de Histria. So Paulo, v. 24, n 47, p.29-60 - 2004

  • tas, fomentando pesquisas, debates e revises. O ano de 2004 pontuado poraniversrios importantes, como os cinqenta anos do atentado da rua Tone-lero e do suicdio de Getlio Vargas ou os vinte das Diretas, J!, campanhalanada em 1983, mas que cresceu em 1984. Portanto, muito oportuno queaproveitemos para fazer um balano da produo relacionada a 1964 (e seusdesdobramentos) efemride aqui entendida como fato importante, embo-ra no grato.

    Tem sido notvel, neste ano, o interesse despertado pelos eventos de to-da sorte que vo marcando a data, diferentemente de dez anos atrs, quandoseminrios acadmicos sobre os trinta anos do golpe de 64 tiveram de ser can-celados ou contaram com baixa freqncia de pblico. Milhares de pessoas,na maioria jovens, tm comparecido a debates em todo o Brasil. A imprensaacompanha com interesse atividades acadmicas regra geral ignoradas. V-rias publicaes voltadas para o tema tm sido lanadas. Qual a causa de ta-manha aceitao? A explicao certamente fundamenta-se no fato de que ve-lhos mitos e esteretipos esto sendo superados, graas tanto pesquisahistrica factual de perfil profissional quanto ao que poderamos caracterizarcomo um desprendimento poltico que o distanciamento histrico possibi-lita: tabus e cones da esquerda vo sendo contestados sem que tais crticaspossam ser classificadas de reacionrias. Processa-se uma mudana geracio-nal, sendo cada vez mais freqente que pesquisadores do tema no tenhamparti pris. Nesse sentido, tem sido destacado o pequeno apreo dos principaisatores histricos do perodo do golpe de 64 pela democracia (inclusive a es-querda);2 o deslocamento de sentido, operado sobretudo aps a Campanhada Anistia, relativo s esquerdas revolucionrias que foram para a luta arma-da, outrora apresentadas como integrantes da resistncia democrtica;3 o per-fil vacilante, a inabilidade e o possvel golpismo de Joo Goulart, diferente-mente do mito do presidente reformista vitimado por reacionrios,4 e assimpor diante. Ao mesmo tempo, clichs sobre o golpe de 64, os militares e o re-gime tambm vo sendo abandonados, como a idia de que s aps 1968 hou-ve tortura e censura; a suposio de que os oficiais-generais no tinham res-ponsabilidade pela tortura e o assassinato poltico,5 a impresso de que asdiversas instncias da represso formavam um todo homogneo e articula-do,6 a classificao simplista dos militares em duros ou moderados etc.Por tudo isso, podemos falar de uma nova fase da produo histrica sobre operodo.

    Tambm crescente o interesse de jovens historiadores e de estudantesde cursos de graduao em histria pelos temas do perodo 1964-1985. A op-

    Carlos Fico

    Revista Brasileira de Histria, vol. 24, n 4730

  • o radicaliza, por assim dizer, o acerto da hiptese avanada pelo saudosoJos Roberto do Amaral Lapa, quando previu, ainda em 1976, que o predo-mnio dos estudos sobre a fase colonial seria suplantado pelas pesquisas so-bre o perodo republicano.7 Ele falava em uma espcie de conspirao anti-contempornea, pois, at aquela poca, catedrticos passadistas induziam ou quase impunham o estudo dos fatos histricos mais remotos, enobre-cidos pela ptina do tempo. Num primeiro momento (anos 80), avultaramos estudos sobre a Primeira Repblica, destacando temas como o surgimentodo movimento operrio. Hoje em dia, notvel a quantidade de pesquisas so-bre questes recentssimas da histria do Brasil, o que deve ter sido estimula-do pelo interesse que a melanclica trajetria nacional contempornea como dizia o tambm saudoso Francisco Iglsias8 suscita.

    A abordagem propriamente histrica da ditadura militar recente. Po-deramos dizer que se trata de uma espcie de movimento de incorporao,pelos historiadores, de temticas outrora teorizadas quase exclusivamente porcientistas polticos e socilogos e narradas pelos prprios partcipes. De fato,a literatura sobre o golpe de 64 e o regime que o sucederia ficaria marcada,em uma primeira fase, por dois importantes gneros. O primeiro foi uma es-pcie de politologia: inspirados sobretudo pela vertente norte-americana daCincia Poltica, muitos estudiosos buscaram explicar e classificar, em termosquase nominalistas, as crises militares de pases como o Brasil. Seriam os mi-litares uma instituio autnoma, marcada pelo isolamento e unidade, ou es-tariam a servio de determinados grupos sociais? Um nico modelo tericodaria conta de explicar, por exemplo, os regimes militares latino-americanos?Haveria alguma singularidade no caso brasileiro? Esses debates, que produzi-ram expressiva bibliografia, nunca chegaram a verdadeiramente animar oshistoriadores, mas pelo menos uma contribuio significativa para o enten-dimento do golpe foi dada por essa corrente como se ver.

    O segundo gnero predominante no que poderia ser caracterizado co-mo primeira fase dos estudos sobre o perodo foi a memorialstica, que cres-ceu sobretudo a partir da distenso poltica patrocinada pelo governo de Er-nesto Geisel. Foi, de algum modo, a primeira tentativa de construo de umanarrativa histrica sobre o perodo, embora j existisse uma ou outra incur-so nesse sentido, especialmente no que se refere ao governo Goulart e suaruna.9 Foi essa memorialstica que constituiu o primeiro conjunto de versessobre a ditadura militar, algumas das quais se revelariam mitos ou estereti-pos. Do ponto de vista oficial, livros como os de Lus Viana Filho, chefe daCasa Civil de Castelo Branco, e de Daniel Krieger, lder do governo no Sena-

    Verses e controvrsias sobre 1964 e a ditadura militar

    31Julho de 2004

  • do,10 serviram para construir o perfil do primeiro general-presidente comomoderado e legalista. Pouco tempo depois sairiam os de Jayme Portella deMello e Hugo Abreu,11 destacando diferenas que desmentiam a unidade mi-litar. Do lado da esquerda, depoimentos como os de Fernando Gabeira e Al-fredo Sirkis12 que foram grandes sucessos editoriais contribuiriam paraa mitificao da figura do ex-guerrilheiro, por vezes tido como um ingnuo,romntico ou tresloucado, diludo no contexto cultural de rebeldia tpico dosanos 60, algo que no condiz com as efetivas motivaes da assim chamadaluta armada expresso que, diga-se, traduz mal as descontinuadas e in-certas iniciativas militares da esquerda brasileira de ento, pois, nas cidades,tais incurses mais se assemelhavam a algum tipo de contrapropaganda, ten-do o aspecto de crimes comuns (assaltos a bancos e seqestros) e, no campo,ficaram marcadas pela inpcia e carter absconso, nada obstante, infelizmen-te, terem causado a morte de muitas pessoas.

    CONTROVRSIAS

    As mencionadas moderao de Castelo e transmutao da luta arma-da em resistncia democrtica so apenas dois exemplos de lista bem maisextensa de conflitos suscitados pela memorialstica. Poderamos falar de umesgotamento do gnero? Com o passar do tempo, natural que os depoimen-tos rareiem e de algum modo tornem-se iterativos, sendo este o caso, porexemplo, dos testemunhos sobre a luta armada. Segundo Jacob Gorender,do lado da esquerda, certamente no esto esgotadas as fontes capazes defornecer revelaes significativas, mas o principal j foi extrado dessas fon-tes. Ficaram por esclarecer detalhes, sobretudo concernentes a atuaes indi-viduais.13 No se trata de desqualificar o gnero, mas de bem entend-lo, poisas memrias (oficiais, da esquerda e de outros grupos sociais) so antes obje-tos de anlise do que fontes de acesso a uma suposta verso verdadeira. Veja-mos algumas verses que, por repetio, fixaram-se no senso comum comoaceitas.

    Reiteradamente caracterizado como legalista e moderado, o perfil deCastelo Branco serviu at mesmo para adjetivar um conjunto de militares quecom ele partilhariam uma formao intelectual mais refinada (diferentemen-te dos troupiers, propensos a aes prticas e mtodos violentos), um apegos normas legais e uma forma mais branda de tratar os inimigos da revolu-o. Atributos to atraentes parecem derivar muito mais da benevolncia dos

    Carlos Fico

    Revista Brasileira de Histria, vol. 24, n 4732