fernando pessoa - antologia poética

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  • 5/28/2018 Fernando Pessoa - Antologia Po tica

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    ANTOLOGIA POTICA

    POEMAS PESSOANOS

    (Poemas Ortnimos)

    FERNANDO PESSOA

    Esta obra respeita as regras

    do Novo Acordo Ortogrfico

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    A presente obra encontra-se sob domnio pblico ao abrigo do art. 31 do

    Cdigo do Direito de Autor e dos Direitos Conexos (70 anos aps a morte do

    autor) e distribuda de modo a proporcionar, de maneira totalmente gratuita,

    o benefcio da sua leitura. Dessa forma, a venda deste e-book ou at mesmo a

    sua troca por qualquer contraprestao totalmente condenvel em qualquer

    circunstncia. Foi a generosidade que motivou a sua distribuio e, sob o

    mesmo princpio, livre para a difundir.

    Para encontrar outras obras de domnio pblico em formato digital, visite-nos

    em: http://luso-livros.net/

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    BREVE NOTA SOBRE FERNANDO PESSOA

    Fernando Antnio Nogueira Pessoa (1888 - 1935), mais conhecido como

    Fernando Pessoa, considerado um dos maiores poetas da Lngua

    Portuguesa, e da Literatura Universal, muitas vezes comparado com Lus de

    Cames. O crtico literrio Harold Bloom considerou a sua obra um "legado

    da lngua portuguesa ao mundo".

    Pessoa foi igualmente empresrio, editor, crtico literrio, jornalista,

    comentador poltico, tradutor, inventor, astrlogo e publicitrio, ao mesmo

    tempo que produzia a sua obra literria em verso e em prosa. Como poeta,

    desdobrou-se em mltiplas personalidades conhecidas como heternimos,

    objeto da maior parte dos estudos sobre sua vida e sua obra. Centro irradiador

    da heteronmia, auto denominou-se um "drama em gente".

    Considera-se que a grande criao esttica de Pessoa foi a inveno

    heteronmica que atravessa toda a sua obra. Os heternimos, diferentemente

    dos pseudnimos, so personalidades poticas completas: identidades que, em

    princpio falsas, se tornam verdadeiras atravs da sua manifestao artstica

    prpria e diversa do autor original. Entre os heternimos, o prprio Fernando

    Pessoa passou a ser chamado ortnimo, porquanto era a personalidade

    original. Entretanto, com o amadurecimento de cada uma das outras

    personalidades, o prprio ortnimo tornou-se apenas mais um heternimo

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    entre os outros. Os trs heternimos mais conhecidos (e tambm aqueles com

    maior obra potica) foram lvaro de Campos, Ricardo Reis e Alberto Caeiro.

    Um quarto heternimo de grande importncia na obra de Pessoa BernardoSoares, autor do Livro do Desassossego, importante obra literria do sculo

    XX.

    A obra ortnima de Pessoa passou por diferentes fases, mas envolve

    basicamente a procura de um certo patriotismo perdido, atravs de uma

    atitude sebastianista reinventada. O ortnimo foi profundamente influenciado,

    em vrios momentos, por doutrinas religiosas (como a teosofia) e sociedades

    secretas (como a Maonaria). A poesia resultante tem um certo ar mtico,

    heroico (quase pico, mas no na aceo original do termo) e por vezes

    trgico. Pessoa um poeta universal, na medida em que nos foi dando,

    mesmo com contradies, uma viso simultaneamente mltipla e unitria da

    vida. Uma explicao para a criao dos trs principais heternimos e o semi-

    heternimo Bernardo Soares, reside nas vrias formas que tinha de olhar o

    mundo, apoiando-se no racionalismo e pensamento oriental.

    O ortnimo considerado, s por si, como simbolista e modernista pela

    evanescncia, indefinio e insatisfao, bem como pela inovao praticada

    atravs de diversas sendas de formulao do discurso potico.

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    O compndio que se segue rene toda a composio potica ortnima de

    Pessoa.

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    FICHA PESSOAL

    Ficha pessoal, tambm referida como nota autobiogrfica, intitulada no original "Fernando

    Pessoa", dactilografada e assinada pelo escritor em 30 de Maro de 1935 (em algumas

    edies est 1933, por lapso). Publicada pela primeira vez, muito incompleta, como

    introduo ao poema memria do Presidente-Rei Sidnio Pais, editado pela Editorial

    Imprio em 1940. Publicada em verso integral em Fernando Pessoa no seu Tempo,

    Biblioteca Nacional, Lisboa, 1988, pp. 1722.

    ***

    FERNANDO PESSOA

    Nome completo: Fernando Antnio Nogueira Pessoa.

    Idade e naturalidade: Nasceu em Lisboa, freguesia dos Mrtires, no prdio

    n. 4 do Largo de S. Carlos (hoje do Diretrio) em 13 de Junho de 1888.

    Filiao: Filho legtimo de Joaquim de Seabra Pessoa e de D. Maria Madalena

    Pinheiro Nogueira. Neto paterno do general Joaquim Antnio de Arajo

    Pessoa, combatente das campanhas liberais, e de D. Dionsia Seabra; neto

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    materno do conselheiro Lus Antnio Nogueira, jurisconsulto e Diretor-Geral

    do Ministrio do Reino, e de D. Madalena Xavier Pinheiro. Ascendncia geral:

    misto de fidalgos e judeus.

    Estado civil: Solteiro.

    Profisso: A designao mais prpria ser "tradutor", a mais exata a de

    "correspondente estrangeiro" em casas comerciais. O ser poeta e escritor no

    constitui profisso, mas vocao.

    Morada: Rua Coelho da Rocha, 16, 1. Dto. Lisboa. (Endereo postal - Caixa

    Postal 147, Lisboa).

    Funes sociais que tem desempenhado: Se por isso se entende cargos

    pblicos, ou funes de destaque, nenhumas.

    Obras que tem publicado: A obra est essencialmente dispersa, por

    enquanto, por vrias revistas e publicaes ocasionais. o seguinte o que, de

    livros ou folhetos, considera como vlido: "35 Sonnets" (em ingls), 1918;

    "English Poems I-II" e "English Poems III" (em ingls tambm), 1922; livro

    "Mensagem", 1934, premiado pelo "Secretariado de Propaganda Nacional" na

    categoria Poema". O folheto "O Interregno", publicado em 1928 e

    constitudo por uma defesa da Ditadura Militar em Portugal, deve ser

    considerado como no existente. H que rever tudo isso e talvez que repudiar

    muito.

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    Educao: Em virtude de, falecido seu pai em 1893, sua me ter casado, em

    1895, em segundas npcias, com o Comandante Joo Miguel Rosa, Cnsul de

    Portugal em Durban, Natal, foi ali educado. Ganhou o prmio Rainha Vitriade estilo ingls na Universidade do Cabo da Boa Esperana em 1903, no

    exame de admisso, aos 15 anos.

    Ideologia Poltica: Considera que o sistema monrquico seria o mais prprio

    para uma nao organicamente imperial como Portugal. Considera, ao

    mesmo tempo, a Monarquia completamente invivel em Portugal. Por isso, a

    haver um plebiscito entre regimes, votaria, embora com pena, pela Repblica.

    Conservador do estilo ingls, isto , liberal dentro do conservantismo, e

    absolutamente anti reacionrio.

    Posio religiosa: Cristo gnstico e portanto inteiramente oposto a todas as

    igrejas organizadas e, sobretudo, Igreja Catlica. Fiel, por motivos que mais

    adiante esto implcitos, Tradio Secreta do Cristianismo, que tem ntimas

    relaes com a Tradio Secreta em Israel (a Santa Kabbalah) e com a essncia

    oculta da Maonaria.

    Posio inicitica: Iniciado, por comunicao direta de Mestre a Discpulo,

    nos trs graus menores da Ordem dos Templrios de Portugal.

    Posio patritica: Partidrio de um nacionalismo mstico, de onde seja

    abolida toda a infiltrao catlico-romana, criando-se, se possvel for, um

    sebastianismo novo que a substitua espiritualmente, se que no catolicismo

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    portugus houve alguma vez espiritualidade. Nacionalista que se guia por este

    lema: "Tudo pela Humanidade; nada contra a Nao".

    Posio social: Anti-comunista e anti-socialista. O mais deduz-se do que vai

    dito acima.

    Resumo de estas ltimas consideraes: Ter sempre na memria o mrtir

    Jacques de Molay, Gro-Mestre dos Templrios, e combater, sempre e em

    toda a parte, os seus trs assassinos - a Ignorncia, o Fanatismo e a Tirania.

    Lisboa, 30 de Maro de 1935.

    [assinatura autgrafa]

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    NOTA PRELIMINAR

    1 - Em todo o momento de atividade mental acontece em ns um duplo

    fenmeno de perceo: ao mesmo tempo que tempos conscincia dum estado

    de alma, temos diante de ns, impressionando-nos os sentidos que esto

    virados para o exterior, uma paisagem qualquer, entendendo por paisagem,

    para convenincia de frases, tudo o que forma o mundo exterior num

    determinado momento da nossa perceo.

    2 - Todo o estado de alma uma passagem. Isto , todo o estado de alma

    no s representvel por uma paisagem, mas verdadeiramente uma paisagem.

    H em ns um espao interior onde a matria da nossa vida fsica se agita.

    Assim uma tristeza um lago morto dentro de ns, uma alegria um dia de sol

    no nosso esprito. E - mesmo que se no queira admitir que todo o estado de

    alma uma paisagem - pode ao menos admitir-se que todo o estado de alma

    se pode representar por uma paisagem. Se eu disser "H sol nos meus

    pensamentos", ningum compreender que os meus pensamentos so tristes.

    3 - Assim, tendo ns, ao mesmo tempo, conscincia do exterior e do nosso

    esprito, e sendo o nosso esprito uma paisagem, tempos ao mesmo tempo

    conscincia de duas paisagens. Ora, essas paisagens fundem-se, interpenetram-

    se, de modo que o nosso