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  • Anais do Congresso Internacional de Estudos sobre frica e Brasil, Garanhuns: NEAB/UPE, 2015. v. 1, p. 201

    A construo do gnero na obra de Milton Hatoum

    Le Pardon, La Vrit, La Rconciliation: Quel Genre?

    (Jacques Derrida)

    Fernanda Zach (UFV)

    Resumo

    A escrita deste ensaio trata da anlise dos estudos de gnero presentes na obra de Milton

    Hatoum, no conto O adeus do comandante do livro A cidade ilhada. Pretende-se analisar

    como o trabalho da construo de gnero transita pelos papis que so definidos e construdos

    em um contexto social, repensando criticamente estas representaes e a naturalizao de

    discursos culturais, como podemos pensar na sociedade patriarcal. Neste nterim encontram-

    se ainda imbricados outros processos como a representao da diversidade cultural.

    Palavras-chave: Milton Hatoum, gnero, diversidade cultural.

    Abstract

    The aim of this essay is talking about the analysis genre studies present in the Milton

    Hatoums tale O adeus do comandante in the book A cidade ilhada. We intend to analyze the

    work of Genres Building moving through the built and finished roles in the social context,

    rethinking critically these depictions and the naturalization of cultural discourses besides how

    we can think the patriarchal society. Although in this research, we can find other processes as

    the depiction of cultural diversity.

    Key- Words: Milton Hatoum, genre, cultural diversity

    Introduo

    Desde que surgiu, em meados de 1989, a literatura Hatouniana foi muito bem recebida

    pelos leitores e mdia, que o consagraram como um dos autores mais traduzidos e premiados

    da literatura contempornea brasileira. A heterogeneidade de seus temas trata de assuntos

    como cultura, memria, regionalismo, identidade, entre outros, e chama a ateno para a

    construo e representao de seus personagens. A diversidade cultural presente nos enredos

    ainda rica e multifacetada.

  • Anais do Congresso Internacional de Estudos sobre frica e Brasil, Garanhuns: NEAB/UPE, 2015. v. 1, p. 202

    Em sua obra Hatoum traz, como ele mesmo intitula confisso de brasileiros comuns

    e impressiona pelos recortes do cotidiano, pela forma concisa com que articula a linguagem, o

    regionalismo e a multiculturalidade presentes e mpares. Portador de um gosto peculiar pela

    conciso e pelo enxugamento da trama, Hatoum acredita na fora potica das palavras e

    desfila uma capacidade de reduzir, resumir o que vai ser dito, conceito este teorizado nas

    consideraes de Ezra Pound(2006), no seu livro ABC da Literatura, onde discorre sobre a

    habilidade peculiar de alguns artistas, em condensar em poucas palavras muitas ideias, o que

    julga ser o caso de poucos e raros escritores e poetas, como o caso do autor analisado neste

    estudo.

    A cidade ilhada o primeiro livro de contos do escritor, que traz na bagagem quatro

    romances premiados, e apresenta nesta nova proposta momentos condensados de

    sensibilidade e filosofia, um refinado labor da palavra, pensada, repensada, construda e

    desconstruda, enfim, aprimorada, que traz em seus contos um tom de crnica e uma grande

    presena do criticismo.

    Lendo seus textos possvel revisitar as palavras do filsofo Derrida (2006) quando na

    primeira parte de seu ensaio sobre o Mito de Babel, levanta questionamentos sobre o que a

    Babel, invocando o Dicionrio Filosfico de Voltaire, e problematizando a alegoria da ponte

    entre o eu e o outro, de seu estado de imperfeio e possibilidade de aprimoramento,

    constante construo e desconstruo: a obra de Hatoum povoada destas muitas

    possibilidades. Contudo, o dilogo que o texto hatouniano faz com as teorias do filsofo

    francs no se limita a apenas este vis. Como herana que Derrida (2006) recebe do filsofo

    alemo Friederich Nietzsche, em seu texto sobre a Desconstruo, destaca a necessidade de

    olhar o no-dito, as entrelinhas e no apenas o ipsis litteris, mas o olhar para o unimportant,

    pois o texto excludo, recalcado, como nas teorias da psicanlise, constitui pea to valiosa

    anlise quanto aquilo expresso literalmente.

    Partindo de tais pressupostos pretende-se destacar os processos da construo da

    identidade de gnero no conto hatouniano O adeus do comandante como objeto de anlise

    deste estudo que para tal, exige uma teorizao prvia que seja pertinente s questes de

    gnero problematizadas.

    Identidade de Gnero e a Ps Modernidade

  • Anais do Congresso Internacional de Estudos sobre frica e Brasil, Garanhuns: NEAB/UPE, 2015. v. 1, p. 203

    A configurao das identidades femininas e masculinas no decurso dos anos, trouxe

    para a modernidade alguns debates em meio a estudos sociais e histricos. Colquios

    cientficos acadmicos h muito pesquisam e questionam acerca das consideraes em torno

    dos estudos de gnero.

    Desde crianas somos condicionados a manter um padro de regras e costumes que

    reafirmam nossas caractersticas, femininas ou masculinas, como cdigos que vo nos rotular:

    o menino recebe o carrinho e a cor azul, a menina, a boneca e a cor rosa. A trajetria da vida

    sexual feminina e masculina no ocidente portanto, caracterizada pelas diferenas, no s

    biolgicas e fsicas, mas no que tange aos interesses e aspiraes que vo se estabelecendo

    atravs de fronteiras culturais que se sustentam frente sexualidade do homem ou da mulher.

    Homens e mulheres vem sendo alvo de pesquisas nas mais diversas reas, como

    sociologia, psicologia e literatura. Classificar parmetros que definam a masculinidade ou

    definir critrios que a delimitem na contemporaneidade, um desafio para os estudiosos.

    Papeis historicamente atribudos aos homens, como os clichs de que homem no chora, ou

    que sua funo ser racional e provedor do lar, vem sendo debatidos e questionados visto que

    nos tempos atuais o homem vem se tornando um ser favorecido de sensibilidade, demostrando

    dificuldades no seu exerccio de poder sobre a famlia, mais subjetivo e reflexivo, menos

    racional.

    A autora e historiadora francesa Elisabeth Badinter destaca em seu ensaio XY Sobre a

    identidade masculina, que uma das caractersticas da masculinidade em destaque na

    contemporaneidade a heterogeneidade. Esta identidade se encontra associada a algumas

    aes como os verbos penetrar, possuir e dominar, entre outros, como afirmao pelo poder

    da fora. Em contraposio, a identidade feminina constitui-se de forma antagnica e

    subserviente, ao passo que suas caractersticas seriam o oposto: dcil, passiva e submissa.

    Resumidamente, segundo as teorias da escritora, poderamos sujeitar as identidades sexuais

    inscritas no conceito de dominao da mulher pelo homem. Neste nterim, segundo a autora, a

    homossexualidade seria classificada como uma patologia ou perturbao da identidade de

    gnero (homossexualismo). Segundo consideraes de Badinter(1993) a respeito da

    construo da identidade masculina, a autora cita um exemplo dramtico existente em

    civilizaes primitivas da Nova Guin: trata-se de um rito de passagem onde os garotos

    adolescentes so submetidos a extrema violncia, e depois de torturados, forados a beber o

    prprio lquido masculino (esperma), como forma de auto afirmao do prprio sexo. Para a

  • Anais do Congresso Internacional de Estudos sobre frica e Brasil, Garanhuns: NEAB/UPE, 2015. v. 1, p. 204

    crtica, no que tange a construo da identidade masculina socialmente, o pnis a

    possibilidade do menino ascender ao primado da masculinidade (...).

    Como contribuio para os conceitos a respeito da construo da identidade de gnero,

    podemos destacar tambm a escritora e feminista francesa Simone de Beauvoir (...) que

    colaborou muito atravs da produo acerca da constituio feminina em seus romances, alm

    de uma profunda anlise sobre o papel das mulheres na sociedade e polmicas teorias, que a

    academia aceitou sem questionamentos, como a de que a mulher no nasceria mulher, mas se

    tornaria uma mulher.

    A psicanalista Jerzu Tomaz (2001), conceitua a feminilidade como um conceito

    bastante complexo - injunes discursivas, possibilidades lgicas, indicativas da posio do

    sujeito na cultura e que segundo Brando (2014) essa complexidade se d pois ele depende

    do contexto em que aplicado.

    Podemos sugerir contudo, que a definio de gnero perpassa trajetos de significados e

    traos que um indivduo possua ou adquira em sua vivncia e assim os atribua como sendo

    masculinos ou femininos. Ressaltamos ainda que o termo identidade de gnero empregado

    para caracterizar aspectos que o indivduo possui, e que contribuem para a conscincia que ele

    tem do prprio sexo, mas que segundo Badinter (1992), nossas definies se daro por

    processos de identificao e diferenciao com outros indivduos.

    Na famlia brasileira entre os sculos XVI e XVII, a autoridade regia absoluta pelo

    homem, inclusive sobre a vida da prpria mulher. Badinter (1993) considera o advento do

    Patriarcado, que define o homem, pai e proprietrio, como base da escala familiar na

    sociedade, e um dos marcos que definem o homem como ser privilegiado socialmente,

    situando-o num patamar superior a mulher:

    Ele se julga mais forte, mais inteligente, mais corajoso, mais responsvel,

    mais criativo ou mais racional. Esse mais justifica sua relao hierrquica

    com as mulheres, ou pelo menos com a sua. (BADINTER, 1993)

    O Patriarcado no Brasil

    A literatura intelectual feminista dos ltim

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