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FLIX JCOME NETO

Entre representao e realidade histrica: consideraes sobre a

configurao social da sociedade homrica

2011

FLIX JCOME NETO

Entre representao e realidade histrica: consideraes sobre a

configurao social da sociedade homrica

Dissertao de Mestrado em Estudos Clssicos,

especialidade de Mundo Antigo, apresentada Faculdade de

Letras da Universidade de Coimbra, sob a orientao da

Professora Doutora Maria do Cu Grcio Zambujo Fialho e

do Professor Doutor Delfim Ferreira Leo.

2011

RESUMO

A tese hegemnica acerca das caractersticas principais da sociedade homrica

sustenta que esta era uma sociedade tribal e socialmente igualitria. De uma parte,

esta dissertao faz uma reviso crtica desta tese, de outra parte, apresenta

evidncias filolgicas, literrias e histricas da presena de classes sociais nos

Poemas Homricas e na realidade histrica grega do sculo oitavo a.C. Do ponto

de vista filolgico, faz-se uma anlise dos vocbulos que possuem conotao

sociopoltica como agathos, esthlos, kakos, cheiron, e principalmente aphneios, o

termo mais preciso usado por Homero para destacar a classe dominante e que

pouco comentado pelos defensores da sociedade homrica enquanto tribal. Do

ponto de vista literrio, recorre-se ao modelo terico-metodolgico do

Inconsciente Poltico de Fredric Jameson junto com conceitos da Narratalogia

para discutir a querela do Canto II da Ilada entre Tersites, Agammnon e

Odisseu, dando nfase ao modo pelo qual o narrador principal esvazia o carter

poltico da interveno de Tersites como uma forma de resolver de maneira

imaginria os conflitos sociais de outro modo insolveis. Usando a base

psicanaltica que o programa analtico de Jameson prpoe, sustenta-se que o

Real que est sendo suprimido pela resoluo mgica dos conflitos na narrativa

justamente o antagonismo social advindo do agravamento da desigualdade

social e da reemergncia das classes sociais no decorrer do sculo oitavo de

Homero. Assim, o surgimento de Tersites na narrativa visto como um sintoma

deste Real, quando os homens livres no-nobres rompem as estratgias

ideolgicas de conteno do elemento dissidente fabricadas pela viso de mundo

aristocrata que controla o universo ficcional da epopeia. No que concerne ao

aspecto histrico, dado destaque ao impacto causado na sociedade grega por

conta das mudanas estruturais advindas com o Renascimento grego do sculo

oitavo, a fim de mostrar que uma das consequncias deste processo histrico foi o

agravamento da estratificao social entre ricos e pobres, que pode ser

percebido nos Poemas Homricos concebidos como fontes histricas deste

perodo j classista da Histria da Grcia.

RSUM

La thse hgmonique sur les caractristiques principales de la socit homrique

soutient quil sagissait dune socit tribale et socialement galitaire. D'une part,

cette dissertation fait une analyse critique de cette thse, d'autre part, elle prsente

des preuves philologiques, historiques et littraires de la prsence des classes

sociales dans les Pomes Homriques et dans la ralit historique grecque du

huitime sicle a.C. Du point de vue philologique, nous faisons une analyse des

mots qui ont des connotations socio-politiques, comme agathos, esthlos, kakos,

cheiron, et surtout aphneios, le terme plus prcis utilis par Homre pour mettre

en vidence la classe sociale dominante et qui est peu discut par les dfenseurs

de la socit homrique tribale. Du point de vue littraire, nous recourons au

modle thorique et mthodologique de l'Inconscient Politique de Fredric

Jameson, ainsi que des concepts de la Narratologie pour discuter la querelle du

deuxime Chant de lIliade entre Thersite, Ulysse et Agamemnon, en mettant

l'accent sur la manire dont le narrateur principal vide la nature politique de

l'intervention de Thersite comme un moyen de rsoudre de forme imaginaire les

conflits sociaux autrement insolubles. En utilisant la base psychanalytique que

l'analyse du programme de Jameson propose, nous soutenons que le Rel qui

est supprim par la rsolution magique des conflits dans le rcit est prcisment

l'antagonisme social provenant de l'aggravation des ingalits sociales et de la

rmergence des classes sociales au long du huitime sicle. Ainsi, l'mergence de

Thersite dans le rcit est vue comme un symptme du Rel, quand les hommes

libres non nobles rompent les stratgies idologiques de confinement de l'lment

dissident fabriques par la vision du monde aristocrate qui contrle l'univers

fictionnel de l'pope. En ce qui concerne l'aspect historique, l'accent est mis sur

l'impact des changements structurels dans la socit grecque dcoulant de la

Renaissance grecque du huitime sicle, pour montrer que l'une des

consquences de ce processus historique a t l'aggravation de la stratification

sociale entre les riches et les pauvres, visible dans les Pomes Homriques

conus comme sources historiques de cette priode dj classiste de l'Histoire de

la Grce.

AGRADECIMENTOS

Como insinua o poeta grego Konstandinos Kavafis (1863-1933), atravs do

seu poema taca, a grande ddiva divina recebida por Odisseu no foi o efetivo

regresso taca, mas antes a longa viagem de volta para casa, repleta de surpresas

e ensinamentos ao viajante.

Agora que cheguei taca, devido concluso deste trabalho, sinto-me na

obrigao de expressar profundos agradecimentos a algumas pessoas sem as quais

eu teria sucumbido diante das adversidades que encontrei na viagem da

construo deste texto. Em primeiro lugar, minha me, Violeta M. Gondim

Jcome, por ter oferecido todas as condies materiais para que este trabalho

fosse desenvolvido. Em segundo lugar, companheira Aparecida Alves de

Siqueira, cujo afeto e pacincia foram fundamentais para que eu pudesse fazer

todos os artigos que concluam o primeiro ano do mestrado, talvez o momento

mais crtico desta viagem.

Eu gostaria de agradecer fortemente o apoio e a dedicao dos orientadores

desta dissertao: a Professora Doutora Maria do Cu Grcio Zambujo Fialho e o

Professor Doutor Delfim Ferreira Leo. Por fim, uma nota de agradecimento

tambm ao apoio institucional do Centro de Estudos Clssicos e Humansticos da

Universidade de Coimbra, que ofereceu-me os recursos bibliogrficos e humanos

indispensveis para a realizao deste trabalho.

memria do meu pai, Marclio Jcome de Almeida

NDICE

Introduo 1 - A Tese da sociedade homrica como tribal 1.1. Aspectos filolgicos e literrios

08 14 18

1.2. Aspectos histricos

24

2 - A configurao social da sociedade homrica: aspectos filolgicos

31

2.1. Ocorrncias de oposio de classe no uso dos termos homricos para bom e mau

31

2.2. Lxicos da riqueza e da pobreza nos Poemas como ndices do agravamento da estratificao social no sculo VIII a.C

44

3- A configurao social da sociedade homrica: aspectos literrios

52

4- A configurao social da sociedade homrica: aspectos histricos

77

Concluso

99

Bibliografia 103

8

Introduo

G.E.M. de Ste. Croix's monumental Class Struggle in the Ancient Greek

World, the most complete and rigorous Marxist assessment of ancient society ever

attempted (at least in English), includes an analysis of the role of class in the

Athenian democracy (Ober 1989, 12). Esta citao, advinda de um classicista

no marxista, revela bem a importncia do livro de Ste Croix (1981) para o estudo

da configurao das classes e dos conflitos no seio da historiografia sobre a

Grcia. No entanto, a minha leitura deste livro foi marcada pela constatao de

uma lacuna que me deixou deveras reflexivo: a quase completa negligncia de

Homero como fonte para a luta de classes mesmo dentro de um livro de mais de

setecentas pginas dedicadas aos conflitos de classe na Grcia.

Embora Ste Croix no seja explcito em nenhum momento sobre o que ele

realmente pensava sobre a configurao social representada nos Poemas

Homricos, acredito que ele julgava que os Poemas eram poucos teis para o

investigador da histria social porque refletiam apenas uma viso de mundo

exclusiva da aristocracia e, assim, no deixavam espao para qualquer voz

conflitante advinda de outras classes sociais1. A par desta observao da relao

entre literatura, ideologia ou viso de mundo e histria, outro elemento que penso

ter corroborado para a ausncia de Homero do livro de Ste Croix vincula-se a

tradicional explicao das mudanas sociais na passagem da Dark Age para a

Grcia Arcaica, onde o povo comum aparee ausente, sendo um mero

espectador das transformaes sociais decorridas durante o regime de pequenos

chefes da Dark Age, bem como na sociedade retratada nos Poemas. Assim, o

homem livre no-nobre apenas obedeceria seus chefes aristocrticos, no

possuindo qualquer poder poltico, at que j no perodo arcaico, em tempos da

reform