felipe demier - populismo e historiografia

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  • Revista Mundos do Trabalho, vol. 4, n. 8, julho-dezembro de 2012, p. 204-229.

    Populismo e historiografia na atualidade: lutas operrias, cidadania e nostalgia do varguismo

    Felipe Demier*

    Resumo: O presente artigo tem por objetivo levar a cabo uma discusso acerca do movimento de reviso

    historiogrfica do populismo. Bastante em voga nas dcadas de 1960, 1970 e 1980, as interpretaes

    historiogrficas sobre o perodo 1930-1964 baseadas na noo de populismo passaram a ser criticadas de

    modo mais enftico nas ltimas duas dcadas. Nas pginas deste artigo, abordaremos, de forma crtica, duas

    das principais correntes que conduziram (conduzem) esse movimento de reviso historiogrfica do populismo,

    o qual parece ganhar cada vez mais adeptos nos espaos acadmicos e miditicos.

    Palavras-chave: Populismo; Revisionismo; Trabalhismo.

    Abstract: This paper aims to carry out a discussion on the movement of historiographical revision of populism.

    Quite in vogue in the 1960's, 1970's and 80's, historiographical interpretations over the period 1930-1964

    based on the notion of "populism" began to be criticized most emphatically in the last two decades. In the

    pages of this article, we will discuss, critically, the two main currents that led (lead) the movement of

    historiographical revision of populism, which seems to gain more and more followers in the media and

    academic spaces.

    Keywords: Populism; Revisionism; Labor Movement.

    Nos ltimos anos, os vocbulos populismo e populistas, em suas acepes mais

    liberais e vulgares, voltaram a ser utilizados em larga escala nos mass media brasileiros. Um

    tanto quanto indiscriminadamente, costumam ser empregados para se referir

    pejorativamente a quaisquer governos e governantes que, mais em termos retricos do que

    prticos, procuram se distanciar do dogma neoliberal e ousam questionar a infalibilidade

    papal de Washington. Assim, Hugo Chvez, Evo Morales, Rafael Corra, Daniel Ortega, e at

    mesmo o ex-presidente Lus Incio Lula da Silva, so tachados sumariamente de populistas.

    De uma verborragia anti-imperialista a um simples aumento do salrio mnimo, passando

    pela ampliao de programas assistencialistas focalizados, tudo visto como populismo

    pelos editores da grande imprensa. Com suas irascveis crticas s lideranas demaggicas

    que buscam sustentao poltico-social nas sempre perigosas massas populares, o vil

    jornalismo poltico da atualidade parece fantasticamente nos conduzir de volta s dcadas

    de 1950 e 1960. Tambm pela historiografia brasileira atual, a polarizao daquelas agitadas

    dcadas foi trazida tona novamente, como objeto de estudo. No polo oposto dos escribas

    miditicos de ontem e de hoje (embora dispondo de um significativo espao nos jornais e

    programas televisivos), alguns conhecidos historiadores levaram a cabo nas ltimas dcadas

    e o continuam fazendo um movimento de reabilitao historiogrfica do populismo

    * Doutor em Histria pela Universidade Federal Fluminense felipedemier@yahoo.com.br

    http://dx.doi.org/10.5007/1984-9222.2012v4n8p204

  • Julho-dezembro de 2012

    205 FELIPE DEMIER

    brasileiro e de suas lideranas polticas. Esses pesquisadores opuseram-se, desse modo,

    tanto s concepes tericas formalistas e abertamente antipopulares, que condenaram o

    populismo por seu distanciamento da democracia liberal institucionalizada quanto,

    principalmente, a uma historiografia marxista que vira naquele uma forma especfica de

    dominao poltica de classe num perodo de acelerada urbanizao e industrializao do

    pas.

    Buscando se diferenciar desses dois extremos interpretativos, os historiadores

    revisionistas1 rejeitaram a prpria ideia de populismo: se, antes disseram eles , o termo

    teria servido de acusao a Vargas e outras lideranas polticas populares por parte das

    elites adeptas da excluso poltica das massas, depois, tal conceito teria ganhado um

    estatuto conceitual por meio das linhas de intelectuais marxistas que, desejosos de uma

    revoluo socialista nos moldes leninistas, voltaram suas baterias contra o varguismo (numa

    espcie de aliana tcita, em termos de teoria, com aquelas elites). Assim, no lugar do

    populismo, os revisionistas propuseram, j h algum tempo, o conceito de trabalhismo, o

    qual vem paulatinamente ganhando mais espao nas novas pesquisas histricas sobre o

    Brasil contemporneo. Tendo o conflito poltico do perodo populista reduzido a uma

    simples disputa entre trabalhistas e elites antipopulares, os historiadores revisionistas

    colocaram-se claramente ao lado dos primeiros. Prioritariamente, dirigiram suas crticas aos

    cientistas sociais marxistas que, nos anos 60 e 70 do sculo passado, teriam menosprezado

    as diferenas entre ambas, construdo uma viso negativa do trabalhismo (batizando-o de

    populismo).

    O movimento de reviso historiogrfica do populismo, entretanto, mais amplo e

    sofisticado do que sua corrente revisionista, congregando tambm, por exemplo, autores

    que, mais esquerda no plano terico-poltico, expuseram a existncia de inmeras e

    combativas lutas operrias entre 1930 e 1964, questionando, desse modo, a tese de um

    sindicalismo populista tal como fora proposta pelos formuladores marxistas do populismo,

    isto , a de um movimento sindical integralmente subsumido lgica estatal-populista.

    Embora significativamente distintos dos revisionistas, tambm esses historiadores, a nosso

    ver, deixaram se levar, de certa forma, pelo discurso dos atores polticos da poca; agora

    no mais pelo dos chefes de estado e lideranas polticas populistas/trabalhistas, mas

    sim pelo dos dirigentes sindicais reformistas, ligados, em grande parte, ao Partido Comunista

    Brasileiro (PCB). Ao mesmo tempo em que iluminaram as antes obscurecidas mobilizaes

    operrias ocorridas no perodo 1930-1964, esses revisores do populismo mas no

    revisionistas! procuraram reabilitar tambm muitos daqueles que as dirigiram, e que o

    fizeram, em ltima anlise (e, s vezes, em primeira) por um vis de colaborao de classe,

    1 A alcunha de revisionistas (de longa tradio nos debates marxistas) foi empregada pelo filsofo marxista

    Caio Navarro de Toledo para se referir aos historiadores que, a partir de 2004, comearam a defender mais abertamente uma reviso conservadora das interpretaes sobre o Golpe de 1964 (TOLEDO, Caio Navarro de. As falcias do revisionismo. In: Crtica Marxista, n. 19. Campinas, 2004, p. 27-48). Tomamos aqui o termo emprestado de Toledo, at porque, para alm do carter do debate que aqui propomos (de perspectiva similar ao realizado pelo filsofo marxista), muitos dos historiadores revisionistas do populismo por ns abordados so justamente os mesmos responsveis pela tal reviso conservadora do Golpe de1964.

  • Revista Mundos do Trabalho, vol. 4, n. 8, julho-dezembro de 2012, p. 204-229.

    206 POPULISMO E HISTORIOGRAFIA NA ATUALIDADE

    pautado pela lgica da cidadania. De certo modo, pode-se dizer que esses historiadores

    acabaram por reificar algumas formas rebaixadas de subjetividade apresentadas pelo

    proletariado brasileiro de ento. Terminologicamente vale antecipar , no chegaram a

    recusar o uso do conceito de populismo.

    Este artigo tem por finalidade abordar criticamente esse heterogneo movimento

    de reviso historiogrfica sobre o populismo brasileiro. Primeiramente, faremos um debate

    cientfico e fraternal com um dos campos desse movimento, mais especificamente, com uma

    das correntes que o constituem, composta pelos historiadores aos quais nos referimos

    (ainda que sem nome-los) no pargrafo acima. Depois, finalmente, chegaremos ao debate,

    duro porquanto politicamente mais necessrio que o anterior, com a corrente revisionista.

    A TEORIA DO POPULISMO EM XEQUE: OS DOIS CAMPOS DA REVISO HISTORIOGRFICA

    EM CURSO

    Desde meados da dcada de 1960, particularmente aps o Golpe de Estado de 1964,

    parcela expressiva de pesquisadores das reas de sociologia e cincia poltica dedicou-se

    compreenso do papel desempenhado pela classe trabalhadora em diversos mbitos da vida

    nacional, com destaque para as conexes existentes entre o desenvolvimento urbano-

    industrial do pas e as estruturas poltico-representativas dos trabalhadores a partir de 1930.

    Destarte, tiveram lugar seminal trabalhos sobre o que hoje se costuma denominar mundo

    do trabalho. Ligados Universidade de So Paulo (USP) e herdeiros do antigo Centro de

    Sociologia da Indstria e do Trabalho (CESIT), intelectuais como Fernando Henrique Cardoso,

    Octavio Ianni, Jos Albertino Rodrigues, Maria Sylvia de Carvalho Franco, Luiz Pereira, Paul

    Singer, Juarez Brando Lopes, Lencio Martins Rodrigues, Boris Fausto, Jos de Souza

    Martins, Gabriel Cohen e Francisco Weffort, muitos deles orientados (formal ou

    informalmente) por Florestan Fernandes, realizaram consagrados trabalhos acerca de

    temticas como industrializao, urbanizao, empresariado, movimento operrio,

    sindicalismo, conflito social, estado e desenvolvimento econmico.2

    Muitos dos cientistas sociais dessa gerao, com destaque para o cientista poltico

    Francisco Weffort e o socilogo Octavio Ianni, se puseram a interpretar o processo de

    incorporao das massas populares ao processo poltico brasileiro no ps-1930, tomando

    por centro as polticas estatais de cunho social e, em especial, a formatao da estrutura

    sindical brasileira de matriz corporat