fazendeiro do ar (drummond) poemas selecionados

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"Fazendeiro Do Ar", Poemas Selecionados de Carlos Drummond de Andrade

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  • FAZENDEIRO DO AR (1952-1953)

  • HABILITAO PARA A NOITE

    Vai-me a vista assim baixandoou a terra perde o lume?Dos cem prismas de uma jia,quantos h que no presumo.

    Entre perfumes rastreioesse bafo de cozinha.Outra noite vem descendocom seu bico de rapina.

    E no quero ser dobradonem por astros nem por deuses,polcia estrita do nada.

    Quero de mim a sentenacomo, at o fim, o desgastede suportar o meu rosto.

  • NO EXEMPLAR DE UM VELHO LIVRO

    Neste brejo das almaso que havia de inquietopor sob as guas calmas!

    Era um susto secreto,eram furtivas palmasbatendo, louco inseto,

    era um desejo obscurode modelar o vento,eram setas no muro

    e um grave sentimentoque hoje, varo maduro,no punge, e me atormento.

  • BRINDE NO BANQUETE DAS MUSAS

    Poesia, marulho e nusea,poesia, cano suicida,poesia, que recomeasde outro mundo, noutra vida.

    Deixaste-nos mais famintos,poesia, comida estranha,se nenhum po te eqivale:a mosca deglute a aranha.

    Poesia, sobre os princpiose os vagos dons do universo :em teu regao incestuoso,o belo cncer do verso.

    Azul, em chama, o telrioreintegra a essncia do poeta,e o que perdido se salva...Poesia, morte secreta.

  • DOMICLIO

    ... O apartamento abriajanelas para o mundo. Crianas vinhamcolher na maresia essas notciasda vida por viver ou da inconsciente

    saudade de ns mesmos. A pobrezada terra era maior entre os metaisque a rua misturava a feios corpos,duvidosos, na pressa. E do terrao

    em solitude os ecos refluame cada exlio em muitos se tornavae outra cidade fora da cidade

    na garra de um anzol ia subindo,adunca pescaria, mal difuso,problema de existir, amor sem uso.

  • O QUARTO EM DESORDEM

    Na curva perigosa dos cinqentaderrapei neste amor. Que dor! que ptalasensvel e secreta me atormentae me provoca sntese da flor

    que no se sabe como feita: amor,na quintessncia da palavra, e mudode natural silncio j no cabeem tanto gesto de colher e amar

    a nuvem que de ambgua se diluinesse objeto mais vago do que nuveme mais defeso, corpo! corpo, corpo,

    verdade to final, sede to vria,e esse cavalo solto pela cama,a passear o peito de quem ama.

  • RETORNO

    Meu ser em mim palpita como forado chumbo da atmosfera constritora.Meu ser palpita em mim tal qual se foraa mesma hora de abril, tornada agora.

    Que face antiga j se no descoralendo a efgie do corvo na da aurora?Que aura mansa e feliz dana e redourameu existir, de morte imorredoura?

    Sou eu nos meus vinte anos de lavourade sucos agressivos, que elaborauma alquimia severa, a cada hora.

    Sou eu ardendo em mim, sou eu emborano me conhea mais na minha floraque, fauna, me devora quanto pura.

  • CONCLUSO

    Os impactos de amor no so poesia(tentaram ser: aspirao noturna).A memria infantil e o outono pobrevasam no verso de nossa urna diurna.

    Que poesia, o belo? No poesia,e o que no poesia no tem fala.Nem o mistrio em si nem velhos nomespoesia so: coxa, fria, cabala.

    Ento, desanimamos. Adeus, tudo!A mala pronta, o corpo desprendido,resta a alegria de estar s, e mudo.

    De que se formam nossos poemas? Onde?Que sonho envenenado lhes responde,se o poeta um ressentido, e o mais so nuvens?

  • A DISTRIBUIO DO TEMPO

    Um minuto, um minuto de esperana,e depois tudo acaba. E toda crenaem ossos j se esvai. S resta a mansadeciso entre morte e indiferena.

    Um minuto, no mais, que o tempo cansa,e sofisma de amor no h que venaeste espinho, esta agulha, fina lanaa nos escavacar na praia imensa.

    Mais um minuto s, e chega tarde.Mais um pouco de ti, que no te dobras,e que eu me empurre a mim, que sou covarde.

    Um minuto, e acabou. Relgio solto,indistinta viso em cu revolto,um minuto me baste, e a minhas obras.

  • VIAGEM DE AMRICO FAC

    Sombra mantuana, o poeta se encaminhaao inframundo deserto, onde a corolanoturna desenrola seu mistriofatal mas transcendente; queles paos

    tecidos de pavor e argila cndida,onde o amor se completa, despojadoda cinza dos contactos. Desta margem,diviso, que se esfuma, a esquiva barca,

    e aceno-lhe: Gentil, gentil esprito,sereno quanto forte, que me ensinasa arte de bem morrer, fonte de vida,

    uniste o raro ao raro, e compusestede humano desacorde, isento, puro,teu cntico sensual, flauta e celeste.

  • CIRCULAO DO POETA

    Nesta manh de trao fino e ardente,passei, caro Fac, por tua casa.Inda estavas dormindo (ou j dormias)o sono mais perfeito, mas vagavas

    na safira em que os seres se deliam,entre pardais bicando luz, e pombas,nesse contentamento vaporosoque a vida exala quando j cumprida.

    Senti tua presena maliciosa,transfundida na cr, no espao livre,nos corpos nus que a praia convidava.

    No sabiam de ti, que eras um deles,e levavam consigo, dom secreto,uma negrinha em flor, um verso hermtico.

  • CONHECIMENTO DE JORGE DE LIMA

    Era a negra Ful que nos chamavade seu negro vergel. E eram trombetas,salmos, carros de fogo, esses murmriosde Deus a seus eleitos, eram puras

    canes de lavadeira ao p da fonte,era a fonte em si mesma, eram nostlgicasemanaes de infncia e de futuro,era um ai portugus desfeito em cana.

    Era um fluir de essncias e eram formasalm da cr terrestre e em volta ao homem,era a inveno do amor no tempo atmico,

    o consultrio mtico e lunar(poesia antes da luz e depois dela),era Jorge de Lima e eram seus anjos.

  • O ENTERRADO VIVO

    sempre no passado aquele orgasmo, sempre no presente aquele duplo, sempre no futuro aquele pnico.

    sempre no meu peito aquela garra. sempre no meu tdio aquele aceno. sempre no meu sono aquela guerra.

    sempre no meu trato o amplo distrato.Sempre na minha firma a antiga fria.Sempre no mesmo engano outro retrato.

    sempre nos meus pulos o limite. sempre nos meus lbios a estampilha. sempre no meu no aquele trauma.

    Sempre no meu amor a noite rompe.Sempre dentro de mim meu inimigo.E sempre no meu sempre a mesma ausncia.

  • CEMITRIOS

    GABRIEL SOARES

    O corpo enterrem-me em So Bentona capela-mor com um letreiro que digaAqui jas um pecadorSe eu morrer na Espanha ou no marmesmo assim l estar minha campae meu letreiroNo dobrem sinos por mime se faam apenas os sinaispor um pobre quando morre

    CAMPO-MAIOR

    No Cemitrio de Batalho os mortos do Jenipapono sofrem chuva nem sol; o telheiro os protege,asa imvel na runa campeira.

    DOMSTICO

    O co enterrado no quintalTodas as memrias sepultadas nos ossosA casa muda de donoA casa olha foi destrudaA 30 metros no ar a guria v a gravura de um coQue isso mezinha

    e a me respondeEra um bicho daquele tempoAh que fabuloso

  • DE BOLSO

    Do lado esquerdo carrego meus mortos.Por isso caminho um pouco de banda.

    ERRANTE

    Urnaque minha tia carregou pelo Brasilcom as cinzas de seu amor tornado incorruptvelmisturado ao vestido preto, saia branca, boca morenaurna de cristal urna de silho urna praieira urna oitocentistaurna molhada de lgrimas grossas e de chuva na estradaurna bruta esculpida em paixo de andrade sem paz e sem remissovinte anos viajeiraurna urna urnacomo um grito na pele da noite um lamento de bichotalvez entretanto azul e com florinhasurna a que me recolho para dormir enrodilhadourna eu mesmo de minhas cinzas particulares.

  • MORTE DE NECO ANDRADE

    QUANDO MATARAM

    Neco Andrade, no pude sentir bastante emoo porque tinha de representar no teatrinho de amadores, e essa responsabilidade comprimia tudo.

    A faca relumiou no campo assim a vislumbrei, ao circular a notcia e Neco, retorcendo-se, tombou do cavalo, e o assassino se curva para verificar a morte, e a tarde se enovela em vapores escuros, edesce a umidade.

    Caminhei para o palco temeroso de no lembrar a frase longa e difcil que me cabia proferir. O mau amador vive rodo de dvidas. Receava a desa-provao do auditrio, e sua prvia reflexo em mim j frustrava o gesto, j tolhia a produo do mais autntico.

    O CAVALO

    erra alguns instantes na plancie, dedicao sem alvo. O assassino pondera o entardecer. E vela os despojos, enquanto mede as possibilidadesde fuga. Evm a os soldados, atrados pelo vento, pelo grito final do Andrade, pela secreta abdicao do criminoso, que, na medula, se sabe perdido. No podemos matar nosso patro; de ventre vasado, le se vinga.

    O cadver de Neco atravessa canhestramente o segundo ato, da esquerda para a direita, volta, hesita, sai, instala-se nos bastidores em baixo da escada. As deixas perdem-se, o dilogo atropela-se, Neco estse esvaindo em silncio e eu, seu primo, no sei socorr-lo.

    O ASSASSINO

    chega preso, a multido aode cadeia, todos o contemplam a um metro, nem isso, de distncia. Joana roa-lhe a manga do palet, sujo de terra. Est sentado, mudo. Na casa de Neco. em frente ponte, luzes se armam em velrio, e a escada toda sonora de botas e botinas rinchando.

    Agora o palco ficou vazio para caber a forma baia e ondulante que

  • progride, esmagando palavras. Da montaria de Neco pendem as caambas de Neco. Vai pisar em mim. Afastou-se, no trote deserto.

    SERIA REMORSO

    por me consagrar ao espetculo quando j o sabia morto? No, que o espetculo grande, e seduzia para alm da ordem moral. E nossos ramos de famlia nem se davam. Pena de perd-lo, nutrida de alguma velha lembrana particular, que floresce mesmo entre cls adversrios? Pena comum, que toda morte violenta faz germinar? Nem isso. Mas o ventre vasado, como se fosse eu que o vasasse, eu menino, desarmado. Intestinos de Neco, emaranhados, insolentes, vista de estranhos. Vede o interior de um homem, a sede da clera; aqui os prazeres criaram raiz, e o que obscuro em nosso olhar, encontra explicao.

    E TUDO

    se desvenda: sou responsvel pela morte de Neco e pelo crime de Augusto, pelo cavalo que foge e pelo c