fausto, boris. 'história do brasil' (apenas alguns trechos)

Download FAUSTO, Boris. 'História do Brasil' (apenas alguns trechos)

Post on 01-Dec-2015

95 views

Category:

Documents

7 download

Embed Size (px)

DESCRIPTION

FAUSTO, Boris. 'História do Brasil' (apenas alguns trechos)

TRANSCRIPT

  • 274 HISTORIA DO BRASIL A PRIMEIRA REPOBLIC1 275

    ao setor cafeeiro ou se chocaram corn ele. Esse comportamento, na apa-rncia estranho, se deve principalmente ao fato de que o presidente da Repti-blica tinha de preocupar-se nao so corn o caf mas com os interesses geraisdo pals. Esses interesses passavam pela estabilizaco das financas e peloacordo corn os credores externos. 0 presidente Rodrigues Alves, por exem-pla, nos primeiros anos do s6culo, nao era contrasio a medidas para so-lucionar a crise existente na 6poca e melhorar a renda dos cafeicultores -classe a qual pertencia, coma declarava em seus pronunciamentos. Mas, poroutro lado, nao se sentia em condicees de desagradar a Casa Rothschild,principal sustentculo da politica de contencao das emissOes, equilibria or-camentirio e valorizacao da moeda.

    Os Rothschild - como principals agentes financeiros do Brasil no exte-rior - opuseram-se ao Convenio de Taubat6, que previa a adocao-Ele medidastendentes a estabilizar o cambia brasileiro em niveis mais baixos. Eles temiamo surgimento de problemas no servico da divida. Rodrigues Alves aceitou opanto de vista dos Rothschild, convertendo-se no principal obsticulo ao apoioda Uniao as iniciativas de Sao Paulo. Esse apoio foi obtido no govern se-guinte, de Afonso Pena (1906-1909).

    Urn argumento muito comum para se demonstrar o controle do Estadopelos interesses cafeeiros e o da politica cambial, posta em pratica pelasgovernantes republicanos. Afirma-se que essa politica consistia

    -

    mente em desvalorizar o mil-rOis, para sustentar a [curia da rafeic_ultura-em.moeda naciortaL-A afirmativa vem acompanhada da nocao de que, por meiodesse mecanismo, ocorreu o que o economista Celso Furtado chamou de"socializacao de perdas". Ou seja: desvalorizando a moeda nacional parafavorecer a cafeicultura exportadora, o governo encarecia as importacOes quedeveriam ser pagas pelo conjunto da populacao. Desse modo, as perdas dosetor cafeeiro seriam socializadas, isto 6, divididas por toda a sociedade.

    A associacao entre desvalorizando da moeda brasileira e protecao aosinteresses da cafeicultura tern lido recentemente bastante contestada. Naovamos entrar na complexidade dos argumentos. Lembremos apenas que atendencia, a longo prazo, de depreciacao cambial vem sendo encarada maiscomo resultado da precaria situacdo das financas brasileiras do que como umadeliberada opcao governamental para favorecer o setor exportador.

    6.10. PRINCIPALS MUDANCAS SOCIOECONOMICAS - 1890 A _1241

    Passemos agora a examinar algumas das principals mudancas socio-econOmicas ocorridas no Brasil, a partir das animas decadas do s6culo XIXate 1930.

    6.10.1. A IMMRACAO

    Comecemos pilla imigracao em massa. 0 Brasil foi um dos paises recep-tores dos 'talkies de europeus e asidticOs que vieram para as Am6ricas ernbusca de oportunidade de trabalho e ascensao social. Ao lado dele figuram,entre outros, os Estados Unidos, a Argentina e o Canada.

    Cerca de 3,8 milhOes de estrangeiros entraram no Brasil entre 1887 e1930. 0 period() 1887-1914 concentrou o maior mimero, corn a cifra apro-ximada de 2,74 milhOes, cerca de 72% do total. Essa concentracao se explica,entre outros fatores, pela forte demanda de fat-ca de trabalho para a lavourade cafe, naqueles anos. A Primeira Guerra Mundial reduziu muito o fluxo deimigrantes, mas apiis o fim do conflito (1918) constatamos uma nova correnteimigrat6ria que se prolonga ate 1930.

    -

    Tabela 4. Imigracao Liquida: Brasil, 1881-1930 (em milhares)Chegadas Portugueses Italianos Espanh6is Alemaes Japoneses

    1881-1885 133,4 32 47 8 81886-1890 391,6 19 59 8 31891-1895 659,7 20 57 14 11896-1900 470,3 15 64 13 11901-1905 279,7 26 48 16 11906-1910 391,6 37 21 22 41911-1915 611,4 40 17 21 3 21916-1920 186,4 42 15 22 3 71921-1925 386,6 32 16 12 13 51926-1930 453,6 36 9 7 6 13

    3964,3 29 36 14 5 3

    Foote: Leslie Bethel' (ed.), The Cambridge ilDrary of Latin America, vol. IV, p.

  • 276 HISTORIA DO BRASH.

    A partir de 1930, a crise mundial iniciada em 1929 e as mudancas poll-ticas no Brasil e na Europa fizeram corn que o ingresso de imigrantes comoforca de trabalho deixasse de ser significative. Os japoneses constituiram aOnica exceed, pois, tomando-se periodos de tempo de dez anos, foi entre 1931e 1940 que des entraram no pals em maior niimero.

    N ha dados gerais precisos sobre o percentual de retorno de imigrantesa seus paises de origem. Considerando o mimero de estrangeiros que entraramno Brasil pelo porto de Santos e os que sairam pelo mesmo porto comopassageiros de terceira classe, constatamos o seguinte. Entre 1892 e 1930ingressaram 1,895 milho de pessoas e regressaram 1,017 milhao.

    As regiOes Centro-Sul, Sul e Leste foram as que receberam imigrantesmacicamente. Um dado eloqiiente nesse sentido: ern 1920, 93,4% da popula-cdo estrangeira vivendo no Brasil estavam nessas regiOes. 0 Estado de SdoPaulo se destacou no conjunto, concentrando sozinho a maioria de todos osresidentes estrangeiros no pats (52,4%). Essa preferOncia se explica pelasfacilidades concedidas pelo Estado (passagens, alojamento) e pelas oportu-nidades de trabalho abertas por uma economia em expansdo.

    Considerando-se o periodo 1887-1930, os italianos formaram o grupomais numeroso, corn 35,5% do total, vindo a seguir os portugueses (29%) eos espanhOis (14,6%). Mas antes de examinarmos as trds etnias majoritdrias,assinalemos que grupos relativamente pouco numerosos, em termos globaiS,foram qualitativamente importantes. 0 caso mais expressivo e o dos japoneses,os quais vieram sobretudo para o Estado de Sao Paulo. Em 1920, 87,3% dosjaponeses moravam nesse Estado. A primeira leva chegou a Santos em 1908,corn destino as fazendas de cafe. Apesar da dificuldade em fixar os japonesesnas fazendas, a administracdo paulista, ate 1925, concedeu em vdrios anossubsidios para a imigracdo japonesa. No curso da Primeira Guerra Mundial,corn a interrupcdo do fluxo europeu, havia o temor de que "faltassem bracospara a lavoura". A partir de 1925, o governo japonas passou a financiar asviagens dos imigrantes. Os japoneses, por essa Opoca, ja ndo eram encami-nhados para as fazendas de cafe. Eles se fixaram no campo por mais tempodo que qualquer outra etnia, mas como pequenos proprietarios, tendo urn papelexpressivo na diversificacdo das atividades agricolas.

    Outros grupos minoritarios importantes foram os sirio-libaneses e osjudeus, os quais tiveram algumas caracteristicas semelhantes. Ao contrdrio

    A PFAU/ ILI REPUBLICA 277

    Imigrantes italianos de classe media. Foto de passe pone da familia de Arturo Brussi.

    Familia de columns diante de uina porn lateral da Hospedaria dos Imigrantes.

  • 278 IIISTORIA DO BRASIL A PRIMEIRA REPOBLICA 279

    Passaporte de imigrante /ituano, trabalhador da fazenda Pitangueiras, Sao Pau-lo, 1926.

    Passaporte de imigrante lituana, trabalhadora da colania Lettonia. Estado deSao Paulo, 1926.

    dos japoneses, dos italianos e dos espanh6is, os dois grupos se concentraram,desde sua chegada, principalmente nas cidades. Ambos constituiram tambernuma imigracdo esponanea, no subsidiada, pois o auxilio governamentalbrasileiro so era fornecido a quem fosse encaminhado para as fazendas. Ossfrio-libaneses comecaram a chegar ao Brasil, em nameros significativos, nocomeco do sOculo; os judeus vieram depois, sobretudo a partir da clOcada de1920. Muitos sfrio-libaneses iniciaram a vida na nova terra como mascates,vendendo mercadorias de porta em porta, ou de porteira em porteira, naspequenas cidades do interior e nas fazendas. Depois, no coffer dos anos, variosdeles se tornaram comerciantes corn negacios instalados e industrials. EssatrajetOria foi semelhante a de muitos judeus, que partiram da condigdo demascate, substituindo os sirio-libaneses, corn mais tempo no pals e ja emascenso.

    Os italianos vieram principalmente para Sao Paulo e para o Rio Grandedo Sul. Em 1920, 71,4% dos italianos existentes no Brasil viviam no Estadode SO Paulo e representavam 9% de sua populacdo total. A origem regionalse alterou no curso dos anos. Enquanto os italianos do norte predominaramate a virada do sOculo, os do sul sobretudo calabreses e napolitanos passa-ram a chegar em major flamer, a partir do sOculo XX.

    Os italianos foram a principal etnia que forneceu mo-de-obra para alavoura de caf. Entre 1887 e 1900, 73% dos imigrantes que entraram noEstado de sao Paulo eram italianos, embora nem todos tenham-se fixado naagricultura. A pobreza dessa gente se revela, entre outros dados, pelo fato deque os subsidios oferecidos pelo governo paulista representaram uma forteatracdo. Problemas nesse esquema repercutiram diretamente no volume dofluxo de imigrantes.

    As ma's condicOes de recepcdo dos recOm-chegados levou o governoitaliano a tomar medidas contra o recrutamento de imigrantes. Isso aeon-teceu provisoriamente entre maw de 1889 e julho de 1891. Em marco de1902, uma deciso das autoridades italianas conhecida como DecretoPrinetti nome do ministro das RelacOes Exteriores da Italia proibiu aimigracdo subsidiada para o Brasil. Dal para a frente, quern quisesse emigrarpara o Brasil poderia continuar a faze-lo livremente, mas sem obter passa-gens e outras pequenas facilidades. A medida resultou de crescentes queixasdos italianos residentes no Brasil a seus cOnsules sobre a precariedade de

  • 280 HISTORIA DO BRASIL A PRIMEIRA REPOBLICA 281

    sua candied() de vida, agravada pelas periOdicas crises do cal& E possivelque a melhora do quadro socioeconOmico na Italia tenha tambOm concor-rido para eta

    0 fluxo da imigragao italiana nao se interrompeu. Entretanto, o DecretoPrinetti, a crise do caf e a situacao no pais de origem contribuiram parareduzi-lo. Considerando as entradas e saidas de imigrantes sem distincao denacionalidade pelo porto de Santos, verificamos que, em vat:jos anos, o ntimerodos que sai