farsa de inês pereira- gil vicente

Download Farsa de Inês Pereira- Gil Vicente

Post on 22-Mar-2016

218 views

Category:

Documents

4 download

Embed Size (px)

DESCRIPTION

mais em leialiteratura.com

TRANSCRIPT

  • Farsa ou Auto de Ins Pereira, de Gil Vicente Texto proveniente de: A Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro A Escola do Futuro da Universidade de So Paulo Permitido o uso apenas para fins educacionais. Texto-base digitalizado por: Projecto Vercial - Literatura Portuguesa < http://www.ipn.pt/opsis/litera/> Copyright 1996, 1997, 1998, OPSIS Multimdia com o apoio do Projecto Geira Este material pode ser redistribudo livremente, desde que no seja alterado, e que as informaes acima sejam mantidas. Para maiores informaes, escreva para . Estamos em busca de patrocinadores e voluntrios para nos ajudar a manter este projeto. Se voc quer ajudar de alguma forma, mande um e-mail para ou

    FARSA OU AUTO DE INS PEREIRA Gil Vicente

    A seguinte farsa de folgar foi representada ao muito alto e mui poderoso rei D. Joo, o terceiro

    do nome em Portugal, no seu Convento de Tomar, era do Senhor de MDXXIII. O seu argumento que porquanto duvidavam certos homens de bom saber se o Autor fazia de si mesmo estas obras, ou se furtava de outros autores, lhe deram este tema sobre que fizesse: segundo um exemplo comum que dizem: mais quero asno que me leve que cavalo que me derrube. E sobre este motivo se fez esta farsa.

    A figuras so as seguintes: Ins Pereira; sua Me; Lianor Vaz; Pro Marques; dous Judeus (um

    chamado Lato, outro Vidal); um Escudeiro com um seu Moo; um Ermito; Luzia e Fernando. Finge-se que Ins Pereira, filha de ha molher de baixa sorte, muito fantesiosa, est lavrando

    em casa, e sua me a ouvir missa, e ela canta esta cantiga: Canta Ins: Quien con veros pena y muere Que har quando no os viere? (Falando) INS Renego deste lavrar E do primeiro que o usou; diabo que o eu dou, Que to mau d'aturar. Oh Jesu! que enfadamento, E que raiva, e que tormento, Que cegueira, e que canseira! Eu hei-de buscar maneira D'algum outro aviamento. Coitada, assi hei-de estar Encerrada nesta casa Como panela sem asa, Que sempre est num lugar? E assi ho-de ser logrados

  • Dous dias amargurados, Que eu possa durar viva? E assim hei-de estar cativa Em poder de desfiados? Antes o darei ao Diabo Que lavrar mais nem pontada. J tenho a vida cansada De fazer sempre dum cabo. Todas folgam, e eu no, Todas vm e todas vo Onde querem, seno eu. Hui! e que pecado o meu, Ou que dor de corao? Esta vida he mais que morta. Sam eu coruja ou corujo, Ou sam algum caramujo Que no sai seno porta? E quando me do algum dia Licena, como a bugia, Que possa estar janela, j mais que a Madanela Quando achou a alelua. Vem a Me, e no na achando lavrando, diz: ME Logo eu adivinhei L na missa onde eu estava, Como a minha Ins lavrava A tarefa que lhe eu dei... Acaba esse travesseiro! Hui! Nasceu-te algum unheiro? Ou cuidas que dia santo? INS Praza a Deos que algum quebranto? Me tire do cativeiro. ME Toda tu ests aquela! Choram-te os filhos por po? INS Prouvesse a Deus! Que j razo De eu no estar to singela. ME Olhade ali o mau pesar... Como queres tu casar Com fama de preguiosa? INS Mas eu, me, sam aguosa E vs dais-vos de vagar. ME Ora espera assi, vejamos. INS Quem j visse esse prazer! ME Cal'-te, que poder ser Que ame a Pscoa vm os Ramos. No te apresses tu, Ins. Maior o ano que o ms: Quando te no precatares, Viro maridos a pares, E filhos de trs em trs. INS Quero-m'ora alevantar. Folgo mais de falar nisso, Assi me d Deos o paraso,

  • Mil vezes que no lavrar Isto no sei que me faz ME Aqui vem Lianor Vaz. INS E ela vem-se benzendo... (Entra Lianor Vaz) LIANOR Jesu a que me eu encomendo! Quanta cousa que se faz! ME Lianor Vaz, que isso? LIANOR Venho eu, mana, amarela? ME Mais ruiva que uma panela. LIANOR No sei como tenho siso! Jesu! Jesu! que farei? No sei se me v a el-Rei, Se me v ao Cardeal. ME Como? e tamanho o mal? LIANOR Tamanho? eu to direi: Vinha agora pereli redor da minha vinha, E hum clrigo, mana minha, Pardeos, lanou mo de mi; No me podia valer Diz que havia de saber S'era eu fmea, se macho. ME Hui! seria algum muchacho, Que brincava por prazer? LIANOR Si, muchacho sobejava Era hum zote tamanhouo! Eu andava no retouo, To rouca que no falava. Quando o vi pegar comigo, Que m'achei naquele p'rigo: Assolverei! - no assolvers! Tomarei! - no tomars! Jesu! homem, qu'has contigo? Irm, eu te assolverei Co breviairo de Braga. Que breviairo, ou que praga! Que no quero: aqui d'el-Rei! Quando viu revolta a voda, Foi e esfarrapou-me toda O cabeo da camisa. ME Assi me fez dessa guisa Outro, no tempo da poda. Eu cuidei que era jogo, E ele... dai-o vs ao fogo! Tomou-me tamanho riso, Riso em todo meu siso, E ele leixou-me logo. LIANOR Si, agora, eram, Tambm eu me ria c Das cousas que me dizia: Chamava-me luz do dia.

  • Nunca teu olho ver! Se estivera de maneira Sem ser rouca, bradar'eu; Mas logo m'o demo deu Catarro e peitogueira, Ccegas e cor de rir, E coxa pera fugir, E fraca pera vencer: Porm pude-me valer Sem me ningum acudir... O demo (e no pode al ser) Se chantou no corpo dele. ME Mana, conhecia-te ele? LIANOR Mas queria-me conhecer! ME Vistes vs tamanho mal? LIANOR Eu m'irei ao Cardeal, E far-lhe-ei assi mesura, E contar lhe-ei a aventura Que achei no meu olival. ME No ests tu arranhada, De te carpir, nas queixadas? LIANOR Eu tenho as unhas cortadas, E mais estou tosquiada: E mais pera que era isso? E mais pera que o siso? E mais no meio da requesta Veio hum homem de ha besta, Que em v-lo vi o p'raso, E soltou-me, porque vinha Bem contra sua vontade. Porm, a falar a verdade, J eu andava cansadinha: No me valia rogar Nem me valia chamar: Aque de Vasco de Fois, Acudi-me, como sois! E ele... seno pegar: Mais mansa, Lianor Vaz, Assi Deus te faa santa. Trama te d na garganta! Como! isto assi se faz? Isto no revela nada... Tu no vs que so casada? ME Deras-lhe, m hora, boa, E mordera-lo na coroa. LIANOR Assi! fora excomungada. No lhe dera um empuxo, Porque sou to maviosa, Que cousa maravilhosa. E esta a concruso. Leixemos isto. Eu venho Com grande amor que vos tenho, Porque diz o exemplo antigo Que a amiga e bom amigo

  • Mais aquenta que o bom lenho. Ins est concertada Pera casar com algum? ME At `gora com ningum No ela embaraada. LIANOR Eu vos trago um casamento Em nome do anjo bento. Filha, no sei se vos praz. INS E quando, Lianor Vaz? LIANOR Eu vos trago aviamento. INS Porm, no hei-de casar Seno com homem avisado Ainda que pobre e pelado, Seja discreto em falar LIANOR Eu vos trago um bom marido, Rico, honrado, conhecido. Diz que em camisa vos quer INS Primeiro eu hei-de saber Se parvo, se sabido. LIANOR Nesta carta que aqui vem Pera vs, filha, d'amores, Veredes vs, minhas flores, A discrio que ele tem. INS Mostrai-ma c, quero ver LIANOR Tomai. E sabedes vs ler? ME Hui! e ela sabe latim E gramtica e alfaqui E tudo quanto ela quer! INS (l a carta) Senhora amiga Ins Pereira, Pro Marquez, vosso amigo, Que ora estou na nossa aldea, Mesmo na vossa mercea M'encomendo. E mais digo, Digo que benza-vos Deos, Que vos fez de to bom jeito. Bom prazer e bom proveito Veja vossa me de vs. Ainda que eu vos vi Est'outro dia folgar E no quisestes bailar, Nem cantar presente mi... INS Na voda de seu av, Ou onde me viu ora ele? Lianor Vaz, este ele? LIANOR Lede a carta sem d, Que inda eu so contente dele. Prossegue Ins Pereira a carta: Nem cantar presente mi. Pois Deos sabe a rebentinha Que me fizestes ento. Ora, Ins, que hajais bno

  • De vosso pai e a minha, Que venha isto a concruso. E rogo-vos como amiga, Que samicas vs sereis, Que de parte me faleis Antes que outrem vo-lo diga. E, se no fiais de mi, Esteja vossa me a, E Lianor Vaz de presente. Veremos se sois contente Que casemos na boa hora. INS Des que nasci at agora No vi tal vilo com'este, Nem tanto fora de mo! LIANOR No queirais ser to senhora. Casa, filha, que te preste, No percas a ocasio. Queres casar a prazer No tempo d'agora, Ins? Antes casa, em que te ps, Que no tempo d'escolher. Sempre eu ouvi dizer: Ou seja sapo ou sapinho, Ou marido ou maridinho, Tenha o que houver mister. Este o certo caminho. ME Pardeus, amiga, essa ela! Mata o cavalo de sela E bom o asno que me leva. Filha, no Cho de Couce Quem no puder andar choute. E: mais quero eu quem m'adore Que quem faa com que chore. Cham-lo-ei, Ins? INS Si. Venha e veja-me a mi. Quero ver quando me vir Se perder o presumir Logo em chegando aqui, Pera me fartar de rir. ME Touca-te, se c vier Pois que pera casar anda. INS Essa boa demanda! Cerimnias h mister Homem que tal carta manda? Eu o estou c pintando: Sabeis, me, que eu adivinho? Deve ser um vilozinho Ei-lo, se vem penteando: Ser com algum ancinho? Aqui vem Pro Marques, vestido como filho de lavrador rico, com um gabo azul deitado ao

    ombro, com o capelo por diante, e vem dizendo: PRO Homem que vai aonde eu vou

  • No se deve de correr Ria embora quem quiser Que eu em meu siso estou.