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  • SALA DO CAPTULOMUSEU DE ANGRA DO HEROSMO

    16 junho~ 16 outubro

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  • As faces da moeda antiga tornaram-se o tema central de mais umprojecto expositivo que este Museu leva a cabo, procurando, nestecaso, fechar um ciclo que se iniciou com a aquisio duma colecode numismtica essencial para o patrimnio cultural da Regio,em 2010.

    O valor material e simblico adquirido e selectivamente expostopode ser expresso em nmeros 1106 espcies , mas, acima detudo, em elementos representativos e evocativos das dinmicas edas problemticas da vida material e econmica dos Aores, quevo desde o sc. XVI at ao sc. XIX, ou seja, desde o tempo em queD. Antnio por c andou a lutar por um direito sucessrio e pelaindependncia do reino de Portugal e Algarves, at D. Pedro voltara agitar a vida destas ilhas.

    , tambm, a ideia da moeda antiga como expresso material deuma das maiores invenes humanas o dinheiro que, sendocomo diz Paula Quadros, autora da reflexo em que igualmente sesustenta exposio, pura abstraco que se vai progressivamentedesmaterializando, que nos leva a promover a realizao de umprojecto que escolhe como tema central um dos objectosmuseolgicos mais difceis de mostrar.

    Este desafio museolgico acentuado pela importncia de um temaque nos remete para aquela matria de que se fazem as sociedades eas suas instituies, incluindo os prprios museus, que o contratosocial, a crena ou o poder simblico, se preferirmos. Trata-se, pois,do nvel fundador das sociedades e das culturas, que o filsofo doestruturalismo, Claude Lvi-Strauss, apoiado no magistral Ensaiosobre a Ddiva de Marcel Mauss (1950), aprofunda como sistemas

    da troca baseados em leis de reciprocidade, sistemas de troca depalavras, de mulheres e de coisas que constituem as estruturaselementares das sociedades ou das culturas isto , a linguagem, oparentesco e a economia. Ora o dinheiro no seno o motor dossistemas de trocas complexos em que vivemos hoje. Estes sistemaspodem ser cada vez mais unificados e mais globais e os seusmecanismos cada vez mais virtuais, mas no deixaro por isso deser menos simblicos, menos reais e menos poderosos. De outraforma, jamais conseguiriam mover gentes e naes inteiras, unircontinentes e perdurar sculos.

    Com efeito, o dinheiro, tal como o patrimnio, insere-se nodomnio do simblico, ou melhor, das materializaes e dasrepresentaes que tornam presentes realidades distantes notempo e no espao, cuja evocao essencial para a existncia dascomunidades, quer sejam elas econmicas, sociais ou culturais.Isto no significa, porm, que um e outro no obedeam aracionalidades prprias do conhecimento cientfico. Face a umacoleco desta grandeza, estaremos sempre perante um acervo deconhecimentos racionalmente constitudos, de valores simblicose compromissos social e culturalmente assumidos, quer se trate dabusca do eterno, da iluminao do conhecimento, do prazer dacontemplao ou do conforto da pertena familiar.

    , pois, com base na ideia de procura constante das aparentescontradies do mundo em que vivemos e do contributo para areflexo em torno destas, que este Museu se envolve naapresentao de um conjunto notvel da Coleco deNumismtica, porque excepcionalmente representativo dopatrimnio desta Regio.

    Helena OrmondeDirectora do Museu de Angra do Herosmo

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  • noutra gaveta encontrei cerca de trinta e seis libras esterlinas, algumas moedaseuropeias, algumas brasileiras, algumas peas de oito, algum ouro e alguma prata.

    Sorri ao ver todo aquele dinheiro.

    Oh, vil metal! disse, em voz alta. Qual a vossa utilidade? Para mim no tendes qual-quer valor, nem mereceis o trabalho de vos levar para terra; uma destas facas valemais do que todas essas moedas; no tenho qualquer uso para vs; ser melhor man-terdes-vos onde estais e irdes ao fundo, como uma criatura que no merece ser salva.

    No entanto, depois de pensar melhor, levei-o comigo,

    Daniel Defoe, As aventuras de Robinson Crusoe

    Na demanda das faces da moeda sigamos a palavra, essa mesmaque, ao contrrio do lugar comum usado para engano de incautos eproveito de demagogos, vale mais que mil imagens, porque as sabesuscitar, transformar, reviver, apagar. Moeda, do latim moneta,epteto atribudo a Juno, e porque de Juno Moneta, a Avisadora, sechamava o templo, no alto do monte Capitlio, onde os romanos acunhavam. Nome divino para utilitria criao humana destinada amediar e agilizar as trocas de bens concretos, mas cujas faces, cara ecoroa, com as suas refulgncias doiradas e prateadas, logo serevelaram ideais para representao e afirmao do poder poltico.

    Moeda, nome a que os cultores da Cincia Econmica muitossculos depois, com a sua vocao para construir modelos mentaisa partir de relaes sociais, deram outra face, tornando-a sinnimodaquilo que, no dia-a-dia, mais desembaraadamente, por dinheirodenominamos. E no rasto do tempo traaram a sua histria, ao lon-go de uma linha progressiva de desmaterializao e perda de valorintrnseco, que, comeando na moeda-mercadoria, como os caurisou o sal, e passando pela moeda metlica, as moedas em papel,fiduciria ou no, o papel-moeda, desemboca na moeda bancria ena sua actual verso electrnica. Mas necessitaram de tempo, muitotempo, para construir uma completa formulao terica queenquadrasse substncia to paradoxal e s no incio do sculo XX,com Irving Fisher, verdadeiramente o conseguiram.

    Paradoxal, porque, representando a moeda valor econmico, sendoutilizada como intermediria das trocas, para as quais um meiode pagamento de aceitao generalizada, servindo tambm como

    unidade de medida de valor e sendo um modo de reservar valorpara o futuro, no tem em si principalmente na sua actual formade infinitas linhas de numerao binria e de uma desmaterializa-o quase integral, que se afigura como ideal para a sua maiorestabilizao qualquer valor econmico, ou dito de outro modo,no vale nada. O valor econmico advm da utilidade que os benstm directa ou indirectamente, atravs da produo de outros bens,para a satisfao das necessidades das pessoas. Ora a moeda, comoo nosso engenhoso e esforado Robinson Crusoe bem sabia, aocontrrio de uma faca, no satisfaz directamente qualquer neces-sidade humana nem entra na produo de qualquer bem e, notendo qualquer valor econmico, apenas um smbolo, umsmbolo de valor, cuja aceitao generalizada assegurada peloEstado e pela confiana dos cidados.

    Mais, um smbolo prenhe de problemas j que, se por um ladoqualquer valor econmico tem uma colorao psicolgica e subjec-tiva, que apenas se transforma em quantidade pela interaco deduas vontades, que neste processo deixam por revelar laos esentimentos que no so passveis de serem quantificados, poroutro, e apesar da sua vocao redutoramente quantificadora, amoeda no tem a objectividade que tendemos a atribuir-lhe e nos muda de valor com o tempo, como, em cada momento, ele medido de vrios modos. Assim, o nvel geral de preos mostra arelao da moeda com as coisas e a sua evoluo no tempo traduz-seem inflao ou deflao, consoante a moeda perde ou ganha valorrelativamente aos bens; por seu turno, a taxa de cmbio mede umamoeda relativamente s outras com as quais pode ser trocada; porfim, a taxa de juro incorpora o tempo, com o risco que lhe estassociado, na moeda e permite medi-la no futuro relativamente aopresente ou no presente relativamente ao futuro.

    Mas se com o alargamento semntico introduzido pela Economia seofuscou um pouco a beleza e o cosmopolitismo desses discos comdupla face, outrora com valor intrnseco, que atrapalhava a sua fun-o econmica e correspondia ao metal de que eram feitos, e hojereduzidos a servirem de moeda de trocos, com a maior compreen-so do dinheiro como realidade virtual, puro produto da nossaimaginao e artigo de f, adensou-se o mistrio que sempre o

    Paula QuadrosEconomista

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    FACES DA MOEDA

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    rodeou e que frequentemente se exprime por visesduplas que, semelhana das faces opostas de umamoeda ou das caras de Jano, que teria presidido sua criao, sempre nos permitem olhar em duasdireces.

    Do dinheiro diz Savater, um jucundo pensador dosnossos dias, que partilha com o sexo e a intelignciada fortuna de ser simultaneamente das criaes cul-turais mais desejadas e mais vilipendiadas, j que oshomens no se cansam de o desejar nem os moralis-tas de o injuriar. Atraco que nascer do facto deserem trs reas necessariamente sociais, que notm sentido nem existem sem a presena do outro,onde se insinuam infinitos jogos de persuaso, sedu-o, poder, transgresso e onde se pressentem pos-sibilidades para ultrapassar os limites. Repulsa queadvir da conscincia do carcter excessivo e subver-sivo da intensidade do desejo que provocam e queofusca o temeroso puritano que medra nas guasremansosas das rotinas quotidianas. No que respeitaao dinheiro, esta animadverso atingiu o seu acmecom a censura da usura, essa forma de, acrescentan-do aco, tempo e espao moeda, a transformar desimples intermedirio das trocas em objecto de com-pra e venda que aumenta a produo, cria riqueza ese auto-alimenta, e fez que durante muito tempo aactividade financeira fosse remetida ao meteco, aoestranho, ao excludo da sociedade, ao armnio, aojudeu. Esta reprovao dos usos financei