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    Revista Brasileira de Cincia Poltica, n 5. Braslia, janeiro-julho de 2011, pp. 217-243.

    James C. Scott

    Explorao normal, resistncia normal

    Quase invariavelmente destinadas derrota e a um possvel massacre, as grandes

    insurreies foram em geral demasiado desorganizadas para alcanar qualquer resul-

    tado duradouro. As pacientes e silenciosas lutas resolutamente levadas a cabo pelas

    comunidades rurais ao longo dos anos produziriam mais do que esses fogos de palha.

    Marc Bloch, French rural history

    Como escreveu certa vez o editor de Field and garden, para as pessoas comuns os gran-

    des homens so sempre impopulares. As massas no os entendem, pensam que todas

    aquelas coisas so desnecessrias, at mesmo o herosmo. O homem pequeno no d

    a mnima para uma grande era. Tudo o que ele quer vez por outra frequentar um

    bar e comergoulash no jantar. Naturalmente, um estadista se irrita com vagabundos

    como esses, quando sua tarefa levar seu povo a fazer parte dos livros de histria,

    pobre coitado. Para um grande homem as pessoas comuns so um fardo pesado.

    como oferecer a Baloun, com seu grande apetite, uma pequena salsicha hngara parao jantar, que bem isso pode fazer! Eu nem quero escutar quando os mandachuvas se

    reunirem e comearem a se queixar de ns.

    Schweyk, in Bertold Brecht, Schweyk in the second world war, cena 1

    A histria no escrita de resistncia

    A ideia para este estudo, bem como suas preocupaes e mtodos,originou-se de uma crescente insatisfao com grande parte dos trabalhos

    recentes tanto os meus como os de outros sobre o tema das rebelies

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    e revolues camponesas.1 notrio que a desordenada ateno em largaescala que foi dada insurreio camponesa, pelo menos na Amrica doNorte, foi estimulada pela guerra do Vietn e por algo como um envolvimen-

    to amoroso acadmico de esquerda com as guerras de liberao nacional.Neste caso, o interesse e a fonte material se reforavam mutuamente, poisos registros histricos e arquivsticos eram mais ricos precisamente naque-les momentos em que o campesinato representou uma ameaa ao Estadoe ordem internacional existente. Em outros momentos, o que signica amaior parte do tempo, os camponeses apareceram nos registros histricosno tanto como atores histricos, mas como contribuintes mais ou menosannimos s estatsticas sobre recrutamento militar, impostos, migrao de

    mo-de-obra, propriedade da terra, e produo agrcola.O fato que, apesar de toda a sua importncia quando efetivamente ocor-

    rem, as rebelies camponesas, para no falar de revolues camponesas, sopoucas e temporalmente muito espaadas. No apenas so comparativamenteraras as circunstncias que favorecem levantes camponeses de larga escala,como, quando estes efetivamente ocorrem, as revoltas que eles desenvolvemso quase sempre esmagadas sem a menor cerimnia. Na verdade, mesmouma revolta fracassada pode conquistar alguma coisa: algumas concessespor parte do Estado ou dos latifundirios, uma breve suspenso de novas epenosas relaes de produo2 e, no menos importante, uma lembrana deresistncia e coragem que pode car guardada para o futuro. Tais ganhos,entretanto, so incertos, ao passo que o massacre, a represso e a desmora-lizao da derrota so bastante certos e reais. Merece ser lembrado tambmque, mesmo naqueles momentos histricos extraordinrios em que umarevoluo apoiada por camponeses de fato alcana a tomada do poder, os

    resultados so algo que, na melhor das hipteses, envolve um misto de as-pectos favorveis e desfavorveis para o campesinato. Seja o que mais for quea revoluo possa conseguir, ela quase sempre cria um aparelho estatal maiscoercitivo e hegemnico que muitas vezes se benecia da explorao dapopulao rural como nenhum outro anteriormente. Muito frequentemente,

    1 DooriginalNormalexploitation,normalresistance,publicadocomoosegundocaptulodolivroWeapons of the weak:everydayormsopeasantresistance(NewHaven:YaleUniversityPress,1985).DireitosautoraisconcedidospelaYaleRepresentationLtd.TraduzidoporAndrVillalobos.

    Ver,porexemplo,MooreJr.(1966),Paige(1975),Wol(1969,1976),Popkin(1979).2 Paraum exemplodetaisganhos temporrios,veroexcelenteestudo deHobsbawme Rud(1968,p.281-299).

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    o campesinato se encontra na irnica posio de haver ajudado a fortalecerum grupo dirigente cujos planos relacionados industrializao, polticatributria e coletivizao esto em conito com os objetivos pelos quais

    os camponeses imaginavam estar lutando.3Por todas essas razes, ocorreu-me que a nfase sobre rebelio camponesa

    estava mal posta. Ao invs disso, pareceu-me muito mais importante aquiloque poderamos chamar de formas cotidianas de resistncia camponesa aprosaica, mas constante, luta entre o campesinato e aqueles que procuramextrair-lhe trabalho, alimentos, impostos, rendas e juros. A maioria dasformas assumidas por essa luta no chegam a ser exatamente a de umaconfrontao coletiva. Tenho em mente, neste caso, as armas ordinrias dos

    grupos relativamente desprovidos de poder: relutncia, dissimulao, falsasubmisso, pequenos furtos, simulao de ignorncia, difamao, provocaode incndios, sabotagem, e assim por diante. Essas formas Brechtianas deluta de classe tm certas caractersticas em comum. Elas exigem pouca ounenhuma coordenao; representam uma forma de autoajuda individual; etipicamente evitam qualquer confrontao simblica com a autoridade ou asnormas da elite. Entender essas formas corriqueiras de resistncia entendero que grande parte do campesinato faz entre revoltas para defender seusinteresses da melhor forma que conseguem faz-lo.

    Seria um grave equvoco, como o no caso das rebelies camponesas,romantizar abertamente as armas dos fracos. improvvel que elas faammais do que afetar marginalmente as vrias formas de explorao com queos camponeses se defrontam. Alm disso, o campesinato no possui o mono-plio sobre essas armas, como pode facilmente atestar qualquer pessoa quetenha observado autoridades e proprietrios de terras resistindo e impedindo

    a continuidade de polticas estatais que lhes sejam desvantajosas.Por outro lado, esses modos brechtianos de resistncia no so triviais.A desero e a fuga conscrio e corveia indubitavelmente limitaramas aspiraes imperiais de muitos monarcas no Sudeste da sia4 ou, a esserespeito, na Europa. Esse processo e seu potencial impacto no so mais bemcaptados em qualquer outro texto do que no relato de R. C. Cobb sobre aresistncia e a desero ao recrutamento militar na Frana ps-revolucionriae durante o comeo do Imprio:

    3 AlgumasdessasquestessoexaminadasemScott(1979).4 VerosexcelentesrelatoseanlisesdeAdas(1981).

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    Do ano V ao ano VII, h cada vez mais relatos provenientes de uma variedade de

    Departamentos (...) de todos os conscritos de um dado canto terem voltado para

    casa, estando a vivendo sem serem molestados. Melhor ainda, muitos deles no

    voltaram para casa, pois nem chegaram a deix-la (...). Tambm no ano VII, os de-dos decepados das mos direitas a forma mais comum de mutilao comeam a

    testemunhar estatisticamente a fora do que pode ser descrito como um vasto mo-

    vimento de cumplicidade coletiva, envolvendo a famlia, a parquia, as autoridades

    locais, cantes inteiros.

    Nem mesmo o Imprio, com uma polcia rural vastamente mais numerosa e con-

    vel, conseguiu, a no ser temporariamente, diminuir a velocidade da hemorragia

    que (...), a partir de 1812, novamente atingiu propores catastrcas. No poderia

    ter havido um referendum mais eloquente sobre a universal impopularidade de um

    regime opressivo; e no h um espetculo mais encorajador para um historiador do

    que um povo que decidiu no mais lutar e que volta a casa sem espalhafato. (...) As

    pessoas comuns, pelo menos neste aspecto, tiveram clara participao na derrubada

    do mais pavoroso regime da Frana. (COBB, 1970, p. 96-97)5

    O colapso do exrcito e da economia dos Confederados no curso daGuerra Civil nos Estados Unidos outro exemplo do papel decisivo das de-

    feces silenciosas e no declaradas. Estima-se que, ao todo, quase 250.000brancos em condies de servir ao exrcito desertaram ou escaparam conscrio.6 Como era de esperar, as razes parecem ter sido tanto moraiscomo materiais. Os brancos pobres, especialmente os das terras de pastoreiono possuidores de escravos, ressentiam-se de lutar por uma instituio cujosprincipais benecirios eram muitas vezes legalmente excludos do serviomilitar.7 Revezes militares e aquela que foi chamada a crise de subsistn-cia de 1862 induziram muitos a desertar e retornar para suas famlias emdiculdades. Nas prprias fazendas, a insucincia de feitores brancos e a

    5 Paraumpenetranterelatodaautomutilaoparaevitaraconscrio,verZola(1980).6 VeroexcelenteestudodeArmsteadL.Robinson,Bitter fuits of bondage(asair,caps.5e6).[Scottindicao

    livrocomotendopublicaoprximaporYaleUniversityPress.Noentanto,omanuscritosoreucontnuasrevisesesveioaserpublicado,postumamente,em2005,porUniversityoVirginiaPress.N.E.]

    7 Essaquestocentrava-senamuitoressentidalei,conhecidacomoaLeidosVinteNegros[Twenty-Nigger Law],queestipulavaqueumbrancoemidadedeserviroexrcitopodiaserliberadodoserviomilitarcasoossenecessrioparasupervisionarvinteoumaisescravos.Essalei,conjugadacomacontrataodesubstitutospelasamliasricas,estimulouadiundidaconvicodequeessa

    eraumaguerradehomensricos,masumalutadehomenspobres(ROBINSON,cap.5).

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    natural anidade dos es