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  • 9Os ltimos anos tm sido marcados por mudanassignificativas no discurso sobre a educao, oensino, e, particularmente, sobre o Ensino Mdio.Nas propostas educacionais, est sendo at mesmointroduzido um novo vocabulrio, que inclui palavrascomo contextualizao, interdisciplinaridade, competnciase habilidades, apenas para exemplificar algumas, cujossignificados vm pouco a pouco se tornando mais claros,no seu sentido amplo, mas continuam sendo difceis deserem traduzidos em sala de aula.

    E nem poderia ser diferente. fcil falar, mas difcilfazer. A escola real muito mais complexa do que os ins-trumentos disponveis para descrev-la ou analis-la. Maisdo que isso, propostas, como resultado de prticas ereflexes, apenas sinalizam possveis caminhos e nopodem (nem deveriam) dar conta de propor receitas demudanas. Em tempos de mudana, a situao parti-cularmente estressante, pois preciso encontrar opesnovas, modificar hbitos, romper com rotinas, quasesempre sem a certeza nem a segurana das vantagens edesvantagens dos esforos desenvolvidos.

    A implantao das novas diretrizes que esto sendopropostas, ou seja, sua traduo em prticas escolaresconcretas, no ocorrer por decreto nem de forma direta.Depende, ao contrrio, do trabalho de incontveisprofessores, em suas salas de aula, nas mais diversas rea-lidades. Depende, tambm, de um processo contnuo dediscusso, investigao e atuao, necessariamente per-meado do dilogo constante entre todos os envolvidos.Um processo lento, com idas e vindas, atravs do qualespera-se que possam ser identificadas as vrias dimen-ses dos problemas a serem enfrentados e ir introduzindoa correo de rumos necessria. Um processo de construocoletiva.

    Maria Regina Dubeux Kawamura eYassuko HosoumeInstituto de FsicaUniversidade de So Paulo

    Este artigo apresenta, de forma resumida, asOrientaes Educacionais Complementares aosParmetros Curriculares Nacionais (PCN+), quebuscam complementar as idias apresentadasna proposta original dos Parmetros CurricularesNacionais para o Ensino Mdio, publicados em1999. As autoras participaram da equipe queelaborou ambos os projetos (publicado origi-nalmente na Fsica na Escola v. 4, n. 2, p. 22-27 (2003)).

    A Contribuio da Fsica para um novo Ensivo Mdio

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    As mudanas em educaoesto sendo acompanhadaspor um novo vocabulrio,que inclui conceitos como

    contextualizao,interdisciplinaridade,

    competncias e habilidades

    Assim, o novo Ensino Mdio uma proposta ainda em aberto, que inclui a compreenso de todaa educao bsica como um percurso sem rupturas, onde os valores, atitudes e competncias possamser continuamente promovidos, respeitadas as especificidades de cada etapa, e consolidados emnveis progressivos de profundidade e autonomia.

    No final de 2002, foram publicados os PCNs+ (MEC/SEMTEC, 2002 disponvel em www.sbfisica.org.br), dirigidos aos professores, onde se busca aprofundar, atravs de exemplos e estratgias detrabalho, a proposta inicial que foi apresentada nos Parmetros Curriculares para o Ensino Mdio(PCNEM), (MEC/SEMTEC, 1998). Foi o resultado de um trabalho longo, envolvendo professores das

    diferentes disciplinas da rea de Cincias e Matemtica, buscandoinvestigar e explicitar os vnculos e semelhanas entre os pro-cessos de ensino e aprendizagem a serem desenvolvidos em todasas disciplinas da rea (Fsica, Qumica, Biologia e Matemtica).Esse texto trata da organizao do trabalho escolar, discutindo ascompetncias em Fsica e de como elas se articulam com osdiferentes contedos, de forma a estruturar o conhecimento e osobjetivos formativos. Aponta, ainda, algumas sugestes deestratgias para o trabalho cotidiano. Mas no pretende trazersolues, pois essas, como sinalizamos, devem necessariamente

    ser construdas dentro de cada realidade escolar.Retomamos, aqui, algumas das propostas apresentadas, exemplificando-as, para estimular o

    debate e para explicitar a necessidade de construir espaos de propostas e construo articulados,tornando mais coletivo o trabalho de ensinar. Essa uma condio indispensvel, ainda que nosuficiente, para um novo ensino e uma nova escola.

    Os novos rumosDo ponto de vista oficial, as idias educacionais que vinham sendo gestadas e discutidas nas

    dcadas anteriores foram explicitadas, pela primeira vez, em um documento legal, na Lei de Diretrizese Bases para o Ensino (MEC, LDB 1996).

    Dentre as sinalizaes mais expressivas, introduzidas nessa proposta, est a mudana quanto aocarter do Ensino Mdio. Durante muitos anos esse perodo da escolaridade vinha sendo consideradouma preparao para o ensino universitrio, tendo como objetivo ltimo o sucesso no vestibular.Essa proposta era coerente com uma educao mdia restrita a apenas uma pequena parcela dapopulao e com o ensino universitrio como um caminho natural para os concluintes do EnsinoMdio. No entanto, os tempos mudaram: a escolaridade mdia vem sendo bastante ampliada, assimcomo tambm o espao de atuao social dos egressos da escola mdia, que no necessariamentebuscam o ensino superior.

    O objetivo da escola mdia deve, assim, estar voltado para a formao de jovens, independentede sua escolaridade futura. Jovens que adquiram instrumentos para a vida, para raciocinar, paracompreender as causas e razes das coisas, para exercer seus direitos, para cuidar de sua sade,para participar das discusses em que esto envolvidos seus destinos, para atuar, para transformar,enfim, para realizar-se, para viver. Essa , portanto, nossa compreenso do que seja uma educaopara a cidadania e sobre do objetivo do ensino.

    E como isso se reflete no ensino de Fsica?Um primeiro aspecto importante pela prpria necessidade de explicitar e discutir objetivos.

    No que antes eles no estivessem presentes, mas, apenas, no eram to discutidos. Ensinar Fsicasignificava fazer compreender aos alunos uma srie de conhecimentos, ainda que de forma

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    O objetivo da escola mdiadeve, nos dias de hoje, estarvoltado para a formao dejovens, independente de sua

    escolaridade futura

    resumida, que seriam mais tarde retomados de forma mais completa na continuao de seusestudos. O conjunto desses conhecimentos estava pr-determinado nos livros didticos e no coletivodas pessoas, de uma forma to completa que parecia no haver espao para outras escolhas:cinemtica, dinmica, esttica, eletrosttica etc. Essa era a Fsica. No entanto, fixar objetivosimplica definir estratgias para alcan-los e selecionar contedos. Contedos propostos, comoveremos, no em funo da lgica da Fsica, mas em decorrncia da proposta de educao e da lgicado ensino. A educao vem, ainda que muito vagarosamente, voltando a ocupar seu espao, poiseducar mais do que ensinar conhecimentos: promover o desenvolvimento dos jovens, possibilitara construo de uma tica, expor os valores em que acredita-mos e discuti-los.

    Um segundo aspecto da mudana necessria, e fcil de serconstatado ao analisarmos os livros didticos tradicionais, dizrespeito ausncia neles de muitos dos conhecimentos necess-rios compreenso do mundo contemporneo. No estopresentes, por exemplo, conhecimentos de Fsica que permitamcompreender as telecomunicaes, internet, telefonia celular, ou acontribuio da Fsica aos desenvolvimentos atuais da rea de diagnstico mdico, ou, ainda a Fsicados fenmenos ambientais. E no se trata somente da ausncia de temas relacionados FsicaModerna, mas tambm de aspectos cotidianos relacionados ao funcionamento dos aparelhos, comogeladeiras, condicionadores de ar, motores etc. Mais do que isso, tambm no so abordados aspectosrelacionados Cosmologia, mesmo reconhecendo que a preocupao com a origem e a evoluo doUniverso seja uma indagao humana constante. Para uma formao mais completa de jovenspreparados para a cidadania, os temas atuais do mundo contemporneo devero necessariamenteestar presentes.

    Finalmente, outro marco importante das mudanas que esto em curso vem da percepo de quea educao um processo complexo, que requer muitas aes articuladas. Ou seja, de que no podeser fragmentada e distribuda para que cada professor tome conta apenas do seu espao disciplinar.Em uma escola, os alunos dos diversos professores so os mesmos, com as mesmas necessidades eanseios. Cabe escola no apenas ser o lugar onde cada professor atua, mas transformar-se emespao e agente de definio e articulao do que aprender e ensinar. Cada escola passa a ter auto-nomia para pensar no perfil de seus alunos e em suas necessidades mais significativas, organizan-do-se para atend-las, refletindo e definindo metas, estabelecendo um projeto que possa organizarsua ao pedaggica.

    Nesse sentido, para estabelecer as condies que possam propiciar uma ao mais integrada, foiproposta, tambm, uma organizao do conhecimento por grandes reas, reunindo em cada readiversas disciplinas afins. Ao contrrio do que muitas vezes parece, no se trata de acabar com asdisciplinas e substitu-las por um s professor de rea. Essa seria uma enorme deformao. Trata-se,sim, de estabelecer objetivos e estratgias de ao mais convergentes para um conjunto de disciplinasque tenham caractersticas comuns.

    Assim, foram definidas trs grandes reas de conhecimento [1] , para permitir uma maiorarticulao das competncias e contedos de diferentes disciplinas:

    Linguagens e Cdigos (Portugus, Lngua estrangeira, Artes, Educao Fsica, Informtica edemais formas de expresso).

    Cincias da Natureza e Matemtica (Biologia, Fsica, Qumica e Matemtica).Cincias Humanas (Histria, Geografia e demais reas das Cincias Humanas, como, por

    exemplo, Psicologia, Sociologia e Filosofia).

    A Contribuio da Fsica para um novo Ensivo Mdio

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    Alm disso, nessa busca por um conhecimento mais integrado, cada rea no pode serconsiderada como um domnio de conhecimento isolado das outras reas. Ainda que a Fsicapertena rea de Cincias da Natureza, seu ensino deve tambm contemplar