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EXISTE VIOLNCIA SEM AGRESSO MORAL?*

Lus Roberto Cardoso de Oliveira

Inicio este texto com uma provocao a res-peito da noo de violncia: pode-se falar em vio-lncia quando no h agresso moral? Embora aviolncia fsica, ou aquilo que aparece sob este rtu-lo, tenha uma materialidade incontestvel e a dimen-so moral das agresses (ou dos atos de desconsi-derao pessoa) tenha um carter essencialmentesimblico e imaterial, creio que a objetividade do

RBCS Vol. 23 n.o 67 junho/2008

Trabalho apresentado em Estado, Violncia e Cida-dania na Amrica Latina: Jornadas Interdisciplinares,realizadas na Freie Universitt Berlin, Alemanha, en-tre 23 e 25 de junho de 2005. A verso original tinhacomo ttulo Direitos, insulto e cidadania: existe vio-lncia sem agresso moral?. Agradeo ao convite deRuth Stanley, assim como seus comentrios e dos de-mais colegas durante o evento. Agradeo tambm sleituras de Roberto Cardoso de Oliveira, Caetano Ara-jo, e Carlos Gomes de Oliveira.

*

segundo aspecto ou o tipo de violncia encontramelhores possibilidades de fundamentao do quea do primeiro. Alis, arriscaria dizer que na ausnciada violncia moral, a existncia da violncia fsi-ca seria uma mera abstrao. Sempre que se dis-cute a violncia como um problema social tem-secomo referncia a idia do uso ilegtimo da fora,ainda que freqentemente este aspecto seja tomadocomo dado, fazendo com que a dimenso moralda violncia seja pouco elaborada e mal compre-endida, mesmo quando constitui o cerne da agres-so do ponto de vista das vtimas. Pois exatamen-te a esta dimenso do problema que me detenhono contexto do debate sobre a relao entre direi-tos, insulto e cidadania.

Nos ltimos anos venho tentando compreen-der os atos ou eventos de desrespeito cidadaniaque no so captados adequadamente pelo Judici-rio ou pela linguagem dos direitos, no sentido estritodo termo. Assim, procuro apresentar o contedo

Artigo recebido em dezembro/2007Aprovado em maro/2008

A Roberto Cardoso de Oliveira, in memoriam,com admirao, carinho e saudade.

REVISTA BRASILEIRA DE CINCIAS SOCIAIS - VOL. 23 No. 67136

desses atos por meio da noo de insulto moral, comoum conceito que reala as duas caractersticas prin-cipais do fenmeno: (1) trata-se de uma agressoobjetiva a direitos que no pode ser adequadamen-te traduzida em evidncias materiais; e, (2) sempreimplica uma desvalorizao ou negao da identi-dade do outro.

Para formular a noo de insulto vali-me prin-cipalmente da idia-valor vigente no Brasil expres-sa a partir da dicotomia considerao/desconsi-derao. Tal categoria remete a um tipo de atitudeimportante na definio das interaes sociais e ar-ticula-se com pelo menos trs tradies de refle-xo sobre o tema, as quais tm marcado o desen-volvimento do meu trabalho: (a) discusso em tornoda noo hegeliana de Anerkennung (reconhecimento)e da sua ausncia expressa na idia de Miachtung(desrespeito, desateno), retomada contempora-neamente nos trabalhos de Taylor (1994) e Hon-neth (1996); (b) debate francs sobre considration (eseu oposto, dconsidration), que remonta a Rousseaue que alguns desdobramentos recentes diretamenterelacionados com meu foco de interesse foram reu-nidos numa publicao de Haroche e Vatin (1998),em que o tratamento relativo considerao de-finido como um direito humano; e, (c) discussesassociadas noo maussiana de ddiva ou reci-procidade, assim como tm sido articuladas pelogrupo da Revue du M.A.U.S.S., especialmente nostrabalhos de Caill (1998) e Godbout (1992, 1998).1

Desse modo, analiso a relao entre as idiasde respeito a direitos plenamente universalizveis,tendo como referncia o indivduo genrico, e deconsiderao ao cidado, portador de uma identi-dade singular. Tenho examinado essa relao emtrs contextos etnogrficos distintos no Brasil, noCanad (Quebec) e nos Estados Unidos por meioda anlise de conflitos e de eventos polticos queenvolvem afirmao de direitos ou demandas porreconhecimento. A articulao entre as dimenseslegal e moral dos direitos ou da cidadania encon-tra-se ento no primeiro plano da pesquisa nessestrs pases. Tanto nos processos de resoluo dedisputas no mbito dos Juizados de Pequenas Causasem Massachusetts, como no debate pblico sobrea soberania do Quebec, ou nas discusses sobredireitos quando da elaborao da Constituio de1988 e nas reformas que se seguiram no processode redemocratizao do Brasil, as idias de respei-to e considerao mostraram-se fecundas para a

compreenso dos fenmenos. O insulto moral reve-lou-se um aspecto importante dos conflitos nos trscontextos etnogrficos e, em vista de sua aparenteimaterialidade, tendia a ser invisibilizado comouma agresso que merecesse reparao.

Apesar de o insulto moral aparecer com ca-ractersticas prprias e implicaes diversas em cadacontexto etnogrfico, est freqentemente associado dimenso dos sentimentos, cuja expresso desem-penha um papel importante em sua visibilidade.Nesse sentido, o material etnogrfico estimulou in-dagaes sobre a expresso ou a evocao dos sen-timentos e a mobilizao das emoes dos atoresna apreenso do significado social dos direitos, cujoexerccio demanda uma articulao entre as identi-dades dos concernidos. Trata-se de direitos aciona-dos em interaes que no podem chegar a bomtermo por meio de procedimentos estritamenteformais e que requerem esforos de elaborao sim-blica da parte dos interlocutores para viabilizar oestabelecimento de uma conexo substantiva entreeles, permitindo o exerccio dos respectivos direi-tos (Cardoso de Oliveira, 2004a, pp. 81-93). A ati-tude de distanciamento ou a ausncia de defernciaostensiva situadas no plo oposto desta conexo,quando percebidas como constituindo um ato dedesconsiderao, provocam o ressentimento ou aindignao do interlocutor, caractersticos da per-cepo do insulto.

Neste empreendimento, a fenomenologia dofato moral assim como proposta por Strawson,acionando a experincia do ressentimento, parece-me particularmente apropriada para caracterizar olugar dos sentimentos na percepo do insulto, dan-do visibilidade a este tipo de agresso, e sugerindouma distino importante entre ato e atitude ou in-teno para a apreenso do fenmeno:

Se algum pisa na minha mo acidentalmente, enquan-to tenta me ajudar, a dor no deve ser menos aguda doque se pisasse num ato de desconsiderao ostensiva minha existncia, ou com um desejo malvolo de meagredir. Mas deverei normalmente sentir, no segundocaso, um tipo e um grau de ressentimento que nosentiria no primeiro [. . .] (Strawson, 1974, p. 5).

Ainda segundo Strawson, o ressentimento davtima nesse tipo de situao provocaria um sentimen-to de indignao moral em terceiros que tivessempresenciado o ato e capitado a inteno do agressor,dando assim substncia ao carter objetivo da agres-

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so. Evidentemente, quando falamos em sentimen-tos no plano moral, dirigimo-nos queles sentimentossocial ou intersubjetivamente compartilhados.

O insulto aparece ento como uma agresso dignidade da vtima, ou como a negao de umaobrigao moral que, ao menos em certos casos, sig-nifica um desrespeito a direitos que requerem res-paldo institucional. Tomada como o resultado datransformao da noo de honra na passagem doantigo regime para a sociedade moderna (Berger,1983; Taylor, 1994), a dignidade caracterizadacomo uma condio dependente de expresses dereconhecimento, ou de manifestaes de conside-rao, cuja negao pode ser vivida como um in-sulto pela vtima, percebido como tal por terceiros.Esta formulao tem sido aprimorada pelo dilogocom abordagens que enfocam a ddiva ou as rela-es de reciprocidade (ver La Revue du M.A.U.S.S.),o qual me permitiu caracterizar direitos que doprecedncia ao elo social e que colocam em segundoplano a dimenso dos interesses individuais ou aidia de direitos intrnsecos ao indivduo. Assim,sugiro que o reconhecimento poderia ser concebi-do como a outra face do hau do doador na elabo-rao de Marcel Mauss sobre as trocas recprocas;e argumento que a sua expresso constituiria umadas trs dimenses temticas presentes em quasetodos os conflitos que desembocam no Judicirio:

(1) a dimenso dos direitos vigentes na sociedade oucomunidade em questo, por meio da qual feita umaavaliao da correo normativa do comportamentodas partes no processo em tela; (2) a dimenso dosinteresses, por meio da qual o judicirio faz uma avali-ao dos danos materiais provocados pelo desrespeito adireitos e atribui um valor monetrio como indeniza-o parte prejudicada, ou estabelece uma pena comoforma de reparao; e, (3) a dimenso do reconheci-mento, por meio da qual os litigantes querem ver seusdireitos de serem tratados com respeito e consideraosancionados pelo Estado, garantindo assim o resgate daintegrao moral de suas identidades (Cardoso de Oli-veira, 2004b, p. 127).

A caracterizao do insulto como uma agres-so moral, de difcil traduo em evidncias ma-teriais, trouxe tona uma dimenso dos conflitosfreqentemente mal equacionada pelos atores emsociedades complexas, modernas (contemporneas),onde vigora o direito positivo. Seja devido gran-de dose de impermeabilidade do Judicirio a de-mandas de reparao por insulto, como demonstra

a anlise de pequenas causas nos Estados Unidos(Cardoso de Oliveira, 1989, 1996a, 1996b, 2002);seja devido dificuldade de formular um discursoadequado para fundamentar direitos no universa-lizveis, como sugere a resistncia do Canad an-glfono s demandas por reconhecimento doQuebec como uma sociedade distinta (Idem, 2002); ouainda seja devido aos constrangimentos para a uni-versalizao do respeito a direitos bsicos de cida-dania no Brasil, em vista da dificuldade experimen-tada pelos atores em internalizar o valor da igualdadecomo um princpio para a orientao da ao navida cotidiana (Idem, ibidem).

A propsito, essa dificuldade brasileira indu-ziu-me a propor uma distino entre esfera e espa-o pblicos, como duas dimenses da vida social,vigentes nas sociedades modernas d