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  • Examinando a relao L1-L2 napedagogia de ensino de ESL1

    Helosa Augusta Brito de MelloUniversidade Federal de Gois

    Neste artigo procuro refletir sobre como a relao L1-L2 tem sido tratada nasteorias de aquisio de lnguas, na poltica e na pedagogia de ensino de L2,em especial no ensino de ingls como segunda lngua (ESL). Ao longo doestudo, argumento que o ensino de L2 pode se beneficiar do uso da L1 na salade aula, principalmente quando se trata de crianas em processo de escolarizaopor meio da L2, ao invs de se concentrar no modelo ideal monolnge. Ocenrio que deu origem a essas reflexes uma sala de aula de ESL de umaescola de imerso em ingls situada na regio centro-oeste do Brasil.

    This article seeks to reflect on how L1-L2 relationship has been treated insecond language theories, policy and pedagogy, mainly in the teaching ofEnglish as a second language (ESL). It is argued that language teachingpedagogy would benefit by paying attention to the use of L1 in the L2classroom, especially in the case of whole schooling through L2, rather thanconcentrating primarily on the ideal monolingual model. The scenery thatmotivated these reflections is an ESL classroom of an English immersionschool located in the central part of Brazil.

    1 Este artigo uma adaptao do captulo introdutrio de minha tese de doutoradoem Lingstica Aplicada, defendida na Unicamp, em 2002, sob a orientao doProf. Dr. John Robert Schmitz, a quem agradeo e dedico este trabalho.

  • Rev. Brasileira de Lingstica Aplicada, v. 5, n. 1, 2005162

    Amanda : Olha, arrumei um significado para ESL: Escola Seja Legal!

    Mrs. T. : Escola Seja Legal? Que bom que voc acha! Im glad you like ESL classes!

    Victor : Escola NUNCA legal!

    Mrs. T. : Oh, my God! Why not?

    Victor : Porque s tem homework que a gente no entende...

    Amanda : E s um pouquinho de break, n?

    Mrs. T. : Como no entende? Mrs. J. is AN EXCELLENT teacher!

    Victor : , mas a gente no entende o que ela fala...

    Amanda : Tambm, ela no fala portugus!

    (Amanda e Victor, 1. srie)2

    Introduo

    As falas de Amanda e Victor, que servem de epgrafe para este artigo,tocam a superfcie de um tema que, apesar de amplamente discutidonas pedagogias de ensino-aprendizagem de L2, ainda est longe de seresgotado: a tenso entre o desejo ou a determinao do professor deque s a lngua-alvo seja usada na sala de aula e a necessidade de oaluno compreender o que est sendo falado ou ensinado e, ao mesmotempo, se fazer compreender.

    Na expectativa de poder compreender essa tenso, inicio este estudorefletindo sobre como a relao L1-L2 tem sido tratada na sala de aula deL2, em especial na sala de aula de ESL e, em seguida, busco identificar asrazes pelas quais o ensino de ESL tem se caracterizado por uma polticade English-Only, isto , uma poltica de uso exclusivo do ingls na salade aula de ESL ou de quaisquer outras variaes de ensino bilnge.

    2 O contexto que serve de pano de fundo para as reflexes que aqui apresento uma sala de aula de ingls como segunda lngua de uma escola de imerso queproporciona ensino bsico nos nveis fundamental e mdio para alunos de origemmultitnica, com acentuada predominncia de brasileiros. A sala de aula de ESLfunciona como uma espcie de apoio extra para os alunos que apresentam algumadificuldade em acompanhar as atividades acadmicas nas suas respectivas salas deaula regulares. Amanda, Victor e todos os outros nomes (ou abreviaes de nomes)que denominam os participantes da pesquisa so fictcios. Os participantes, nasua maioria, esto iniciando seu processo de escolarizao (1a. e 2a. sries) e aaquisio da L2 se coloca para essas crianas como condio sine qua non parao sucesso acadmico.

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    A expresso English-Only tem sido usada por Auerbach (1993),Lucas & Katz (1994), Wiley & Lukes (1996), Phillipson & Skutnabb-Kangas (1996), entre outros, para qualificar as situaes de ensino nasquais o ingls usado como nico meio de instruo. Essa expressofaz aluso ao nome do movimento norte-americano English-OnlyMovement, criado com o objetivo de lutar por uma poltica hegemnicade uso e reconhecimento, no nvel constitucional, do ingls como alngua oficial dos Estados Unidos a ser usada em todo o territrionacional (PIATT, 1990; CRAWFORD, 2000). Esse movimento surgiucomo uma resposta ao crescente nmero de pessoas que imigrarampara aquele pas nas ltimas dcadas, razo pela qual seus adeptosvem a lngua e a soberania nacional ameaadas pelas comunidadescada vez maiores de falantes de outras lnguas, em especial acomunidade hispnica. A poltica lingstica defendida por essemovimento tem implicaes negativas para a educao bilnge naquelepas, uma vez que ela caminha na contramo do multilingismo.

    English, please!: o mito da instruo monolnge

    O que se tem observado na sala de aula bilnge que h umapermanente tendncia em se tratar a relao L1-L2 do ponto de vistado monolingismo. O reflexo imediato dessa tendncia tem sido aexcluso, ou pelo menos a tentativa de excluso, da L1 da sala de aula deL2 sem nenhuma outra alternativa, aqui resumida na fala de Amanda tambm, ela no fala portugus!. Ora, se a escola ou a professora noleva em conta as experincias lingsticas anteriores da criana (nessecaso, a L1) para que ela possa apreender novas experincias lingsticase participar como indivduo das situaes de aprendizagem em L2, ficadifcil para a criana perceber os usos e as formas do novo cdigo,principalmente nos estgios iniciais de sua escolarizao, quando elaprecisa aprender no somente uma nova lngua, mas como usar essalngua para desempenhar seus papis como membro legtimo dessenovo domnio social. Ou seja, a no-sintonia da lngua da criana coma lngua da escola pode ser, entre outras, a razo que leva Victor a julgarque escola nunca legal!.

    Como campo de pesquisa, o paradigma monolingstico tem servidode referncia para muitas das teorias de ensino-aprendizagem de L2 quesubsidiam a prtica dos professores na sala de aula. Com freqncia,

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    a aquisio/aprendizagem de L2 tem sido explicada com base nasteorias de aquisio de L1; os conceitos de indivduo e competnciabilnge so geralmente determinados com referncia ao falante nativomonolnge; a exposio intensa L2 e a separao entre os repertrioslingsticos do bilnge/aprendiz so vistas como condio sine quanon para o desenvolvimento da competncia em L2, visto que a L1 considerada como a principal responsvel pelas interferncias lingsticase pelos processos de fossilizao; as pedagogias dominantes priorizama instruo monolnge, valorizam o professor nativo monolnge emenosprezam o uso da L1 como recurso pedaggico facilitador.

    O princpio do bilingismo por meio do monolingismo tambm usado, em muitos contextos, para justificar planejamentoslingsticos e educacionais de escolas que se propem a oferecer algumtipo de educao bilnge. Acredita-se que se duas lnguas so usadaspara transmitir um mesmo contedo, reduz-se a motivao dos alunospara compreender o que est sendo ensinado na L2, assim como seneutraliza o esforo do professor e dos alunos para usar a L2, j que elespodem recorrer L1 para atingir suas intenes comunicativas; argumenta-se, tambm, que um enfoque monolnge ou separatista assegura umamelhor distribuio do tempo de uso das lnguas, visto que se podecontrolar o tempo de exposio L1 e L2; alm disso, um enfoqueseparatista implica menos recursos lingsticos por parte dos professores,j que eles no precisam saber as lnguas de seus alunos (SWAIN, 1983).

    Apesar de Swain falar de um outro contexto, o canadense ondetanto o ingls quanto o francs so usados como lngua oficial,principalmente nas provncias em que se localizam os programas deensino bilnge , seus argumentos tm ressonncia em outrascomunidades educativas e, com freqncia, so usados para justificaro xito dos programas de educao bilnge em geral, muitas vezes,sem se levar em conta aspectos sociolingsticos, culturais e educativosdo contexto local. Esse o caso, por exemplo, do contexto aquifocalizado. A situao lingstica do Brasil diferente. O portugus a primeira lngua de 65% dos alunos matriculados no programa de imersoda escola que serve de contexto para este estudo. O aprendizado doingls, por ser uma lngua de reconhecido prestgio mundial, vistopelas famlias como um meio de assegurar aos seus filhos sucessoacadmico, profissional e econmico no futuro. Todavia, as crianastm pouca ou nenhuma oportunidade de usar o ingls fora do ambiente

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    escolar e, aos cinco ou seis anos de idade, quando iniciam seu processode escolarizao, nem sempre enxergam a motivao instrumental deseus pais.

    Muitas dessas crianas, a exemplo de Victor, encontram dificuldadesem sintonizar a lngua da escola porque o ingls no para elas apenasuma disciplina do currculo, mas o nico meio legtimo para acomunicao na sala de aula. a lngua estrangeira, estranha, por meioda qual dada toda a instruo. Portanto, no sem razo que paraVictor escola nunca legal porque s tem homework que a gente noentende. A tarefa , para Victor, to estrangeira quanto a lngua dohomework ou quanto o seu prprio conceito de homework algo quea gente no entende. nesse sentido que uma abordagem bilngese coloca como potencial opo para que se possa desestrangeirizara lngua da sala de aula, aliviando, assim, o choque lingstico e culturaldas crianas que chegam escola e se deparam com uma lngua e umacultura de ensinar diferentes daquela que lhes familiar.

    Para Almeida Filho (1998, p. 12), lngua estrangeira pode significaruma lngua estranha, lngua dos outros, mas pode tambm ser entendidacomo lngua que s a princpio de fato estrangeira mas que sedesestrangeiriza ao longo do tempo de que se dispe para aprend-la(grifo do autor). nesse percurso que acredito ser necessria a primeiral

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