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    ETNIA QUILOMBOLA E POLTICAS PBLICAS: LUTAS E CONQUISTAS NO

    PARAN

    Angela Maria Gelinski1

    Rosngela Bujokas de Siqueira2

    RESUMO: O presente estudo discute as principais caractersticas de formao das Comunidades

    Quilombolas no cenrio brasileiro, onde o sistema da escravido foi considerado predominante para o

    desenvolvimento poltico e econmico do pas, pautando-se basicamente na explorao dos negros

    africanos, os quais foram desumanamente escravizados. Assim, os quilombolas s passaram a ter seus

    direitos reafirmados pela Constituio Federal de 1988, a partir de longos processos de lutas e

    reivindicaes. Busca-se abordar alguns aspectos histricos acerca da Etnia Quilombola no Brasil na

    perspectiva de resistncia e luta, em seguida, destacar os principais direitos voltados a tal segmento,

    possibilitando uma discusso acerca do movimento social quilombola e por fim, visa-se refletir sobre

    as polticas pblicas no contexto da etnia quilombola do Paran, no mbito das lacunas e dos avanos

    na rea. Contudo, os resultados evidenciam que o acesso precrio ao territrio tem sido uma das

    principais demandas vivenciadas no contexto atual das Comunidades Quilombolas, sendo que as

    polticas pblicas da rea ainda no do conta de atender de maneira eficaz esta questo. Tal aspecto

    reforado principalmente pelas influncias de poder e de interesses que a classe dominante

    (latifundirios) exerce sobre o Estado brasileiro.

    PALAVRAS-CHAVE: Quilombolas; Demandas; Polticas Pblicas.

    INTRODUO: No Brasil, a dimenso ocupada pela escravido, entre os sculos XVII e

    XVIII, contribuiu para que o negro enfrentasse vrias formas de desigualdades e

    discriminao racial, onde seres humanos foram submetidos condio de escravos, para

    servir aos privilgios do sistema colonial e imperial, considerados inferiores em relao aos

    brancos. Desta forma, os interesses econmicos preponderaram sobre o direito vida e

    afastaram os negros do campo da cidadania.

    Em nosso pas, a estrutura colonial formou-se basicamente pelo latifndio monocultor,

    conhecido como engenho e ligado exclusivamente ao trabalho escravo, caracterizado pelo

    modelo agroexportador, priorizando as relaes econmicas com a Europa. Assim, no perodo

    colonial, o sistema econmico dependia essencialmente da monocultura, que representou um

    1 Assistente Social, email: angela_gelinski@yahoo.com

    2 Professora do Curso de Servio Social na Universidade Estadual do Centro Oeste (UNICENTRO), e-mail:

    janja.bujokas@uol.com.br

    mailto:angela_gelinski@yahoo.commailto:janja.bujokas@uol.com.br

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    grande subsdio na gerao de riqueza. Este modelo teve no trabalho do negro africano

    escravizado um fator determinante.

    Como trata Prado Jnior (1986, p. 122), [...] so trs os elementos constitutivos da

    organizao agrria do Brasil colonial: a grande propriedade, a monocultura e o trabalho

    escravo. Tais elementos fundamentaram a economia agrria brasileira.

    A escravido foi reflexo da extrema desigualdade social, racismo e preconceito que

    perpassou a formao histrica brasileira, visto que seres humanos tiveram seus direitos negados

    por ocasio da cor de sua pele, onde foram excludos e condenados pelo poder que liderava na

    poca. O trabalho escravo tambm expressava as opes econmico-sociais do Estado.

    Diante deste contexto, o negro passou a criar seus prprios mecanismos de luta e

    resistncia ao sistema posto pela escravatura, sendo esta a origem dos primeiros Quilombos,

    tidos como uma das principais formas de oposio a este to injusto sistema econmico-

    poltico. A histria dos quilombos revela a luta poltica e resistncia deste segmento pelo

    reconhecimento de direitos.

    Carneiro (1966) enfatiza que os primeiros quilombos derivam da fuga de escravos para

    locais de refgio, sendo caso emblemtico o Quilombo dos Palmares, que foi liderado por Zumbi

    e teve seu auge na segunda metade do sculo XVII, considerado uma referncia aos demais.

    Vrios termos so utilizados para definir os grupos sociais afrodescendentes trazidos

    para o Brasil no perodo escravocrata. Segundo Silva e Ferraz (2012, p. 76), os termos mais

    utilizados so: [...] quilombos, mocambos, terras de preto, comunidades remanescentes de

    quilombos, comunidades negras rurais, camponeses negros, remanescentes de comunidades

    de quilombos ou kilombos.

    A luta por igualdade social faz parte da histria de vida de muitos movimentos sociais,

    que buscam reconhecimento, como o caso dos quilombolas. [...] O significado de quilombo

    reafirmao da luta pela sobrevivncia, construindo uma realidade que garanta a igualdade,

    o convvio com a coletividade, a ancestralidade de uma histria de quase quinhentos anos de

    excluso (BRASIL, 2004, p. 04).

    Aps a Abolio formal da escravatura, oficializada pela Lei urea, decretada em 13

    de maio de 1888, houve a formao de outros quilombos. Isso ocorreu porque para muitos ex-

    escravos essa era a nica possibilidade de reconstruir a vida em liberdade.

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    Com a abolio os negros foram posteriormente impedidos de acessar as terras,

    conflito que evidenciou a total falta de apoio do Estado da poca, tentando fazer com que os

    ex-escravos no pudessem ter acesso a nenhum patrimnio. Essa relao gerou uma liberdade

    meramente formal, mas no concreta. Com isso, grande parte dos ex-escravos ainda

    permaneceu sobre as relaes de explorao e a aristocracia agrria perpetuou seu poder

    econmico tambm no mbito poltico.

    A proibio do acesso a terra por parte dos ex-escravos foi fundamentada pela Lei n

    601, de 1850, tambm conhecida como a Lei de Terras. Esta Lei surgiu durante o Brasil

    Imprio e reafirmava o poder do Estado sobre os territrios (que passavam a ter valores

    exorbitantes), sendo muito significativa para compreender a diviso feita dos latifndios na

    sociedade brasileira (SILVA; FERRAZ, 2012).

    Conforme explica Martins (1994), no Brasil, a relao direta entre os interesses

    privados da elite e o Estado gerou um fenmeno chamado patrimonialismo. Este fenmeno

    compreende a indistino entre as esferas pblica e privada no mbito poltico, onde o Estado

    legitima seu poder sobre a sociedade. A questo do patrimonialismo ainda persiste,

    reconstruindo as antigas relaes de poder que perpassam a formao da sociedade brasileira.

    Na entrada do perodo Imperial, o trabalho escravo j no era to interessante para o

    sistema vigente, pois o processo de industrializao conquistava espao na sociedade. A partir

    do sistema capitalista que comeava a emergir, passou-se a valorizar as atividades realizadas

    pelo imigrante europeu, impulsionando o trabalho livre e enfatizando o desenvolvimento

    atrelado aos novos interesses econmicos e polticos.

    Diante deste legado histrico, cabe destacar que o segmento quilombola tem sua

    origem no movimento de vertente rural, na crescente organizao dos trabalhadores do campo

    e na ascenso do movimento negro brasileiro, enquanto movimento organizado que luta pela

    afirmao da sua identidade tnica na categoria de afrodescendentes.

    Entretanto, Almeida (2008) argumenta que devido usurpao das terras por domnio

    de grandes proprietrios, o contexto do movimento quilombola deixa de estar focalizado

    unicamente no meio rural, passando a ocupar o cenrio urbano, onde muitos componentes da

    etnia vivem em periferias e favelas, em situao de extrema desigualdade social.

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    O segmento quilombola enfrenta na atualidade grandes impasses que envolvem a

    questo da territorialidade, diante da enraizada luta pelo reconhecimento e demarcao justa

    das terras, tambm vivenciam constantes ameaas, opresses e violaes, provocadas pelos

    grandes latifundirios. Tudo isso caracteriza a forma como o negro foi introduzido na

    sociedade brasileira, onde desde o incio do regime colonial, ocupou a condio de raa

    inferiorizada e discriminada pelos demais.

    A organizao poltica do movimento quilombola pauta-se na adoo de estratgias

    atravs das mobilizaes e reivindicaes, que lhe atribui um carter de resistncia s

    condies de explorao postas historicamente pelo sistema colonial. A partir disso, este

    segmento tem conquistado a politizao da realidade enfrentada, atravs da Coordenao

    Nacional de Articulao das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (CONAQ).

    Com a promulgao da Constituio Federal de 1988 introduzido o reconhecimento

    jurdico formal dos povos e comunidades tradicionais, aps longos processos de lutas e

    mobilizaes da categoria, que representam todo um legado histrico e cultural da sociedade

    brasileira.

    Diante disso, o segmento quilombola passou a contar com direitos especficos a sua

    identidade tnica, previstos em parte dos dispositivos constitucionais, o que possibilitou o

    fortalecimento de suas bandeiras de lutas, com reconhecimento formal.

    Alguns direitos voltados etnia quilombola foram regulamentados na Constituio

    Federal de 1988, tratando-se especialmente do Art. 68, este prev o reconhecimento e

    legalizao das terras tradicionalmente ocupadas pelas Comunidades Remanescentes de

    Quilombos, detalhado posteriormente pelo Decreto 4.887, de 2003. Tambm cabe destacar os

    artigos 215 e 216, que tratam especificamente do direito cultural (BRASIL, 2004).

    Outro mecanismo refere-se Fundao Cultural Palmares (FCP), instituda em agosto

    de 1988, pela Lei Federal