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ETIOLOGIA E ESTRATGIAS DE CONTROLE DE VIROSESDO MAMOEIRO NO BRASIL*

ROBERTO C. A. LIMA1**, J. ALBERSIO A. LIMA2**, MANOEL T. SOUZA JR.3, GILVAN PIO-RIBEIRO4 & GENIRA P. ANDRADE4

1SEAGRI - Projeto de Segurana Fitossanitria, e-mail: robertolima@seagri.ce.gov.br, Fortaleza, CE, 60839-900; 2Laboratrio deVirologia Vegetal, Universidade Federal do Cear, Fortaleza, CE, e-mail:albersio@ufc.br; 3EMBRAPA - Recursos Genticos e

Biotecnologia, Parque Estao Biolgica, Cx. Postal 02372, 70770-900, Braslia, DF;4Departamento de Agronomia, Universidade Federal Rural de Pernambuco, CEP 52.171-900, Recife, PE,

fax (0xx81) 3302-1205, e-mail: pio@elogica.com.br

(Aceito para publicao em 14/10/2001)

Autor para correspondncia: Roberto C. A. Lima

LIMA, R.C.A., LIMA, J.A.A., SOUZA Jr., M.T., PIO-RIBEIRO, G. & ANDRADE, G.P. Etiologia e estratgias de controle de viroses domamoeiro no Brasil. Fitopatologia Brasileira 26:689-702. 2001.

RESUMOAs viroses constituem o principal grupo de doenas do

mamoeiro (Carica papaya), ocasionando grandes perdas naproduo, podendo chegar destruio total das plantaesafetadas. Embora mais de dez vrus tenham sido constatadosinfetando naturalmente o mamoeiro, em todo o mundo, noBrasil, at o presente, foram assinaladas apenas as ocorrnciasdo vrus da mancha anelar do mamoeiro (Papaya ringspot virus,PRSV), do vrus do amarelo letal do mamoeiro (Papaya lethalyellowing virus, PLYV) e do vrus da meleira que se encontraem fase de caracterizao. A mancha anelar causada pelo PRSV, inquestionavelmente, o mais importante problema sanitriodo mamoeiro. O controle do PRSV mostra-se imprescindvel,

apesar de bastante difcil, em razo da sua forma dedisseminao rpida e eficiente por diversas espcies de afdeose ausncia de resistncia gentica em C. papaya. Na tentativade controlar o PRSV, vrias medidas j foram testadas, noexistindo, at o momento, nenhuma estratgia eficiente eduradoura para seu controle no Brasil. O desenvolvimento deplantas transgnicas de mamoeiro expressando o gene da capaprotica (cp) do PRSV, imunes ao mesmo, abriu novapossibilidade para soluo do problema.

Palavras-chave adicionais: mancha anelar, amareloletal, meleira, Papaya lethal yellowing virus, Papaya ringspotvirus, plantas transgnicas.

ABSTRACTEtiology and control strategies of papaya virus diseases in Brazil

The major disease problems affecting papaya (Caricapapaya) throughout the world are caused by viruses. Thesediseases cause serious reductions in fruit production, eventotally destroying affected orchards. Although more thanten different viruses have been registered in papaya world-wide, only three have been identified to date that naturallyinfect papaya in Brazil: Papaya ringspot virus (PRSV),Papaya lethal yellowing virus (PLYV) and the meleirasteak disease virus that is being characterized. Ringspotcaused by PRSV is unquestionably the most important

disease affecting papaya in the world. Control of PRSV inBrazil is necessary but not easy, because it is efficientlytransmitted by different aphid species and the absence ofresistance in C. papaya. Several measures to control PRSVhave been tested in Brazil without great sucess. There is noefficient and durable strategic control available. Thedevelopment of transgenic papaya plants expressing thePRSV coat protein gene (cp), immune to the virus, has openedup a new efficient and probably, more durable controlmeasure.

689Fitopatol. bras. 26(4), dezembro 2001

REVISO / REVIEW

* Suporte financeiro: FUNCAP e Sec. de Agri. Irrigada do Est. do Cear - SEAGRI**CNPq fellowship

INTRODUO

A fruticultura brasileira apresentou um grande avanonos ltimos anos, devido principalmente a disponibilizao

de novas tecnologias de produo, a qual favorece a ampliaoda rea de cultivo, o incremento do parque industrial e aelevao de sua capacidade produtiva e de exportao,aumentando o mercado interno e conquistando novosmercados internacionais. , portanto, considerada uma dasatividades com grande perspectiva, uma vez que, alm das

690 Fitopatol. bras. 26(4), dezembro 2001

R.C.A. Lima et al.

condies edafo-climticas favorveis no Brasil, h tambma grande disponibilidade de rea agricultvel, o que permitea atrao e instalao de agroindstrias.

O Nordeste brasileiro, por exemplo, apresenta grandepotencial para produo de fruteiras tropicais, entre as quaisse destaca o mamoeiro (Carica papaya L.). A fruticulturairrigada vem despontando como uma excelente opo paraajudar a superar o grave problema scio-econmico causadopela estiagem no Nordeste, gerando mais renda e maisempregos para a populao, a exemplo das regies do Valedo Mdio So Francisco, em Pernambuco; Vale do Au, noRio Grande do Norte e na Chapada do Apodi, no Cear.

O mamoeiro uma dicotilednea pertencente famliaCaricaceae, de ciclo semiperene, com pico de produo entretrs a cinco anos, considerado uma cultura de grandeexpresso agrcola (Marin & Silva, 1996). Seu centro deorigem na Bacia Amaznica Superior, aonde a diversidadegentica mxima, caracteriza o mamoeiro como plantatipicamente tropical (Farias et al., 1998). Segundo Murayama(1986), o mamoeiro uma das poucas plantas frutferascapazes de produzir durante todo o ano, representando umadas atividades de elevada expresso econmica, ressaltandoinclusive sua funo social geradora de empregos e absorventede mo-de-obra de forma continuada.

O mamo consumido principalmente in natura,porm apresenta diversos usos como produto processado. Aindustrializao do fruto maduro compreende principalmentea conservao da polpa, matria-prima para a produo denctar. O pur de mamo um produto novo bastantepromissor (Luna, 1988). Outros produtos, que podem serelaborados do mamo maduro so pur de mamo em calda(compota), mamo cristalizado, salada de frutas tropicais,gelia, confeitos, gelatina, coquetis, aperitivos, vinhos echampanhes (Manica, 1982).

No Brasil, as principais cultivares de mamoeiroatualmente exploradas so classificadas nos dois grupos: Soloe Formosa. As cultivares do grupo Solo so materiaisgeneticamente uniformes, amplamente utilizadas no mundo,havendo no Brasil um predomnio das cultivares: SunriseSolo e Improved Sunrise Solo cv. 72/12. As cultivares dogrupo Formosa abrangem hbridos F1, como o Tainung n

o 1e Tainung no 2 (Oliveira et al., 1994; Farias et al., 1998).

Segundo o ranking de produtores (FAO, 2000), aproduo mundial de mamo atingiu, em 2000, um total de5.363.167 t, tendo o Brasil produzido 1.700.000 t, a Nigria748.000 t, o Mxico 636.119 t, a ndia 450.000 t, a Indonsia379.823 t, o Peru 165.000 t, a Tailndia 119.000 t, s paracitar os principais produtores mundiais. O Brasil , portanto,o maior produtor mundial de mamo, responsvel poraproximadamente 38% da produo mundial, e a regioNordeste a maior produtora nacional, seguida pela regioSudeste. Em 1998, o estado da Bahia foi responsvel por47,90% da produo nacional, seguido do Esprito Santo com24,09%, Par com 8,03%, Cear com 2,6%, Rio Grande doNorte com 1,07%, Pernambuco com 1,03% e a Paraba com1% (IBGE, 2001). Segundo Marin & Silva (1996), o estado

do Esprito Santo considerado o maior produtor de mamodo grupo Solo do pas.

Dentre os frutos tropicais produzidos no Brasil, omamo encontra-se listado na pauta de exportaes, com umatendncia de crescimento no mercado futuro. Juntamente coma Costa Rica, Costa do Marfim e Republica dos Camares, oBrasil encontra-se entre os principais pases exportadores demamo.

Os problemas de pragas e de doenas so os principaisfatores limitantes da cultura do mamoeiro no Brasil, dentreos quais se destacam os caros e os fitopatgenos que podemafetar sua produtividade: bactrias, fungos, fitoplasma,nematides e vrus (Hine et al., 1965; Purcifull & Hiebert,1971; Lima & Gomes, 1975; Ponte, 1996; Rezende &Fancelli, 1997; Souza Jr., 1999).

As viroses constituem o principal grupo de doenasque se manifestam no mamoeiro, ocasionando grandes perdasna produo, podendo chegar destruio total das plantaesinfetadas, provocando a mudana constante de zonasprodutoras, e afastando-as cada vez mais dos mercadosconsumidores. No entanto, mesmo em reas novas, aeliminao de plantas infetadas, tanto em viveiros como emreas produtoras tem sido uma prtica constante na conduodesta cultura (Rezende & Fancelli, 1997).

Vrias doenas ocasionadas por vrus causam sriosprejuzos para o cultivo do mamo (Hine et al., 1965; Purcifull& Hiebert, 1971; Lima & Gomes, 1975; Barbosa & Paguio,1982; Rezende & Fancelli, 1997). Os principais vrus queinfetam naturalmente o mamoeiro, em diferentes partes domundo, pertencem s seguintes famlias e/ou gnero: famliaPotyviridae, gnero Potyvirus: vrus da mancha anelar domamoeiro (Papaya ringspot virus, PRSV) (Purcifull et al.,1984a); vrus do mosaico distorcido do mamoeiro (Papayaleaf distortion mosaic virus, PLDMV) (Conover, 1976;Kawano & Yonaha, 1992); possvel famlia Tombusviridae,gnero Carmovirus: vrus do amarelo letal do mamoeiro(Papaya lethal yellowing virus, PLYV) (Loreto et al., 1983),embora estudos moleculares recentes indiquem a possibilidadedo PLYV pertencer famlia Sobemoviridae, gneroSobemovirus (Silva et al., 2000); famlia Rhabdoviridae: vrusda necrose apical do mamoeiro (Papaya apical necrosis virus,PANV) (Lastra & Quintero, 1981); gnero Potexvirus: vrusdo mosaico do mamoeiro (Papaya mosaic virus, PMV) (Cook& Zettler, 1970); famlia Bunyaviridae, gnero Tospovirus:o vrus do vira cabea do tomateiro (Tomato spotted wilt virus,TSWV) (Gonsalves & Trujillo, 1986); gnero Tenuivirus:vrus do amarelecimento leve das folhas (Papaya mild yellowleaf virus, PMYLV) (Marys et al., 1995); e vrus da meleira,o qual se encontra em fase de caracterizao para obtenode sua classificao taxonmica (Zambolim et al., 2000).Dentre esses, somente o PRSV, o PLYV e o vrus da meleira,o