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  • VII Congreso Internacional del CLAD sobre la Reforma del Estado y de la Administracin Pblica, Lisboa, Portugal, 8-11 Oct. 2002

    Painel: Etica como instrumento de gesto

    Etica na gesto fiscalcidadania: experincia do Programa Nacional de

    Educao Fiscal, Brasil

    Joo Gomes Gonalves

    INTRODUO Toda abordagem da Reforma do Estado e da Administrao Pblica tem focado preferencialmente modelos, estrutura, quadros de misses e forma de atuao, dando pouca nfase ao componente humano e, ainda assim, apenas quando servidor pblico. Essa discusso pode constituir muito mais uma teorizao do que propriamente uma busca efetiva de soluo para os principais problemas e impasses da sociedade, uma vez que o componente humano no seria priorizado. Em realidade, podemos e devemos reformar prioritariamente a composio humana da mquina administrativa, como uma das faces do Estado, pois todos os aspectos citados acima e foco das discusses atuais, no se referem propriamente ao modelo, mas fundamentalmente aos resultados e rendimento da mquina administrativa. E, nesse ponto, novamente devemos enfatizar a no concentrao s na estrutura da Administrao Pblica, mas sim na sua composio humana, j que o homem quem prope, aprova e preenche os cargos do arcabouo administrativo e ele quem d a verdadeira feio do Estado, alm de constituir o lado mais importante do processo, como parte integrante da sociedade. claro e evidente que uma estrutura mais adequada e um posicionamento mais moderno, aliados a um quadro de gestores profissionalizados e atualizados com as recentes teorias organizacionais, so fatores convergentes que podem redirecionar a atuao do Estado e da Administrao Pblica. Mas essa reforma no estar completa e nem deve produzir todos os frutos potenciais porque a viso apenas parcial de todo o contexto a ser reformado. O Estado nunca foi nem nunca ser suficiente, apesar de insubstituvel. Hoje est provado que outras faces da sociedade tm de complementar a ao do Estado, principalmente o setor privado e, agora, mais recentemente o chamado Terceiro Setor, conforme veremos no desenvolvimento deste trabalho. A parte complementar do Estado a sociedade, composta dos seres humanos, que tambm precisa participar das reformas e transformaes, depois de capacitado, por via do acesso a informaes e conhecimento, por meio da educao. preciso ter em mente que os quadros da Administrao Pblica so provenientes da sociedade e que preciso preparar adequadamente todos os seus cidados para assumir funes no Estado ou de participar de aes coletivas de controle social sobre o mesmo, exigindo maior eficincia e melhores resultados. Essa participao, para ser admitida como smbolo real da cidadania, tambm exige dotar o cidado de condies reais de percepo e de reflexo sobre sua realidade social e sua capacidade de oportunizar aes de construo e realizao. Nessa proposio de mudarmos o homem devemos nos ater aos diversos segmentos sociais, os servidores pblicos, enquanto funcionrios do Estado, as crianas como futuros cidados e os adultos em geral, pois as mudanas dependem de uma srie de aes promovidas pela sociedade e todos tm o direito e o dever de delas participar. As mudanas no homem devem ser implementadas, principalmente por meio

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    da educao, pois a relao conflituosa entre Estado/cidado, um dos fatores inibidores do melhor desempenho do Poder Pblico, tem uma parte de sua origem na incapacidade de uma grande parcela dos seres humanos de compreenderem seu verdadeiro papel, direitos e deveres, quando membros da sociedade a que pertencem. A simples reforma do Estado e da Administrao Pblica no elimina obrigatoriamente a desarmonia que existe em sua relao com a sociedade e que retira uma grande parcela da capacidade dos mesmos cumprirem com eficincia suas misses. Assim, este trabalho tem como objetivo elevar nossa capacidade e disposio de refletir adequada e proativamente sobre a realidade da conflituosa relao entre o Estado e o Cidado, principalmente nos pases em desenvolvimento. Em sua estrutura abordada com certa nfase a cidadania e a tica como fortes pontos referenciais de qualquer projeto de reforma do Estado e da Administrao Pblica, pois a quase totalidade dos focos de conflito dessa relao, esto relacionados com ambas. Como complemento do trabalho, apresentado o Programa Nacional de Educao Fiscal - PNEF, uma prtica social coletiva na busca da transformao no s do Estado e da Administrao Pblica, como tambm da prpria sociedade, j com cinco anos de implementao e com resultados efetivos, no Brasil. Sem a pretenso de um diagnstico profundo das causas do conflito existente, procuramos estimular a reflexo sobre a insustentabilidade da defesa e permanncia da atual situao, para que o cidado amplie sua capacidade de compreenso do quadro de solues possveis. Esta abordagem consta dos itens I, II e III. No item seguinte so analisadas a tica e a cidadania como fontes principais da desarmonia entre o Estado e a sociedade, pois ambas centralizam todas as crticas e solues em relao ao impasse atual. Os itens V e VI tratam das mudanas possveis na relao Estado/Cidado, inclusive enfatizando que as aes coletivas so o melhor remdio para a obteno de uma ganho significativo na qualidade do relacionamento. Nos ltimos itens detalhamos a experincia exitosa que est sendo implementada no Brasil, o Programa Nacional de Educao Fiscal, j com cinco anos de aplicao nas escolas pblicas de primeiro e segundo graus, com resultados bastante auspiciosos, alm de algumas incurses nos segmentos dos funcionrios pblicos, das universidades e da sociedade em geral Neste trabalho so realados aspectos de elevada significncia social que acabam sendo evidenciados com a implantao do PNEF, fortalecendo as condies bsicas para o exerccio pleno da cidadania e de valores ticos, principalmente na administrao fiscal. Essas mudanas contribuem diretamente para maior harmonizao na relao da sociedade com o Estado e vice-versa, aproximando-os, aumentando o respeito mtuo e elevando a potencialidade de construo de uma sociedade melhor. Tambm outros resultados e efeitos benficos podem ser esperados dessas transformaes, sempre no sentido de que a construo da realidade seja otimizada e o bem-estar social realado. Um outro objetivo deste trabalho demonstrar que a participao social na Administrao Pblica no tem de ser obrigatoriamente conquistada por meio de revolues, movimentos bsicos ou solues mais drsticas; tambm pode ser oferecida por iniciativas do governo e dos governantes, como o caso do PNEF, no Brasil, cujos resultados iniciais confirmam o acerto dessa ao coletiva. Esses resultados ultrapassam a expectativa inicial da concepo do Programa, criando condies at mesmo para resgate de uma parcela da elevada dvida social com uma grande maioria da populao, excluda dos benefcios do desenvolvimento econmico-social do Pas. Temos certeza de que a ampliao da conscincia social, a participao popular, a elevao das condies de exercitar a cidadania para uma grande parcela da

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    populao, hoje excluda, a nfase na tica nas prticas sociais e o maior controle da sociedade sobre as aes pblicas devem ensejar o fortalecimento das reformas do Estado e da Administrao Pblica. 1 RELAO CONFLITUOSA ENTRE ESTADO E CIDADO A relao conflituosa entre Estado e Cidado parece constituir-se numa caracterstica prpria de pases subdesenvolvidos ou em desenvolvimento, conforme podemos concluir da realidade analisada e percebida de diversas regies, nas mais variadas partes do mundo. Mesmo excluindo-se aqueles pases onde as hostilidades entre Estado e sociedade chegam ao estgio absurdo da subverso e do conflito armado, ainda assim existem variadas formas de desarmonia, de manifestaes e de comportamentos conflitantes, conforme podemos tomar conhecimento nos jornais, revistas, rdio e televiso, diariamente. O mais grave desse relacionamento cheio de conflitos, de desconfianas e de contestaes a disperso de energias que deveriam estar sendo canalizadas para a ao conjunta do Estado e do cidado na busca da melhoria do bem-estar de todos. Esse comportamento nefasto retira do Estado parte de sua capacidade de buscar solues para os problemas sociais que afligem a sociedade, enquanto o homem dispersa sua energia num modelo mental negativo e negativista, contestando tudo e todos os atos do governo, quando deveria canalizar seu esforo para ajudar a encontrar o melhor caminho de resolver as questes pendentes. Segundo Peter M. Senge, em seu livro A Quinta Disciplina, publicado pela Editora Best Seller, em 1999,

    "modelos mentais so pressupostos profundamente arraigados

    generalizaes ou mesmo imagens que influenciam nossa forma de ver o mundo e de agir. Muitas vezes, no estamos conscientes de nossos modelos mentais ou de seus efeitos sobre o nosso comportamento....

    Acreditamos cada vez mais que as causas destes insucessos no so intenes medocres, propsitos excitantes ou mesmo o pensamento no-sistmico, mas sim os modelos mentais. Mais especificamente, os novos insigthts no chegam a ser colocados em prtica porque conflitam com imagens internas profundamente arraigadas sobre o funcionamento do mundo, imagens que nos limitam a formas bem conhecidas de pensar e agir."

    Um exemplo simples de nossa postura antagnica em relao ao Estado nos

    oferecido por Jos Olimpio Filho, em seu livro Senhor Cidado, Voc o Patro:

    "Temos tendncia a repudiar aquilo que nos incomoda e ento, nos limitamos a reclamar, sem nada fazer para que a situao mude. Mas, normal ao ser humano essa acomodao. Resta uma atitude a quem consegue enxergar tu