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FACULDADE DE LETRAS DA UNIVERSIDADE DO PORTO

O LUGAR DA TICA NA CONTEMPORANEIDADE

A ANLISE CRTICA DE VICTORIA CAMPS-

ANO LECTIVO: 2000/2001 MESTRADO: FILOSOFIA MODERNA E CONTEMPORNEA ORIENTAO: PROFESSORA DOUTORA MARIA JOS CANTISTA MESTRANDO: MANUEL ALVES DE OLIVEIRA

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AGRADECIMENTO

Assumindo o gesto sincero da gratido, sinto o dever de expressar alguns agradecimentos: Aos professores do mestrado Adlio Melo, Maria Manuel Arajo Jorge e Maria Jos Cantista, que com o seu saber e pacincia muito contriburam, no s para a realizao deste trabalho, mas tambm para uma valorizao da minha formao e para o renovar do indispensvel entusiasmo na procura continuada de novas ideias e conhecimentos. E, sobretudo, pela insistncia na atitude sbia de quem relembra que o saber com sabor sempre um percurso inacabado. Muito especialmente, professora doutora Maria Jos Cantista pela permanente disponibilidade, pela ajuda, pelas sugestes e crticas, por ter generosamente aceite apoiar e orientar esta tese. Aos colegas do grupo de mestrado, pela troca de ideias, experincias ou mesmo dificuldades. professora Victoria Camps pela disponibilidade que revelou ao responder aos meus pedidos de ajuda, designadamente, enviando-me bibliografia que, de outra forma, no encontraria. minha mulher e ao meu filho, pela compreenso e pacincia face escassez do tempo em famlia, j demasiado escasso pelos habituais afazeres profissionais, e pelas palavras de incentivo sempre presentes em momentos de maior desnimo e dificuldades.

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SUMRIO INTRODUO 1. PARADOXOS E AMBIVALNCIAS DA "PRAXIS" ACTUAL 1.1. AMBIVALNCIAS DO INDIVIDUALISMO 1.2. A "DEBILIDADE DA POLTICA"(AS "VICISSITUDES"DA DEMOCRACIA) 1.3. O "SENTIDO DO TRABALHO" 1.4. A TICA E A CINCIA (NORMAS TICAS E SABER CIENTFICO). , 1.4.1. INTRODUO 1.4.2. DA "RAZO TEOLGICA" "RAZO TCNICA" 1.4.3. DA "TCNICA E DA CINCIA COMO IDEOLOGIA"(JURGEN HABERMAS) 1.4.4. DA "BIOLOGIA COMO IDEOLOGIA"(R.C.LEWONTIN) 1.5. TICA E COMUNICAO NUMA "SOCIEDADE DE INCOMUNICADOS". 1.5.1. PLATONISMO : O SIMULACRO COMO "FALSO PRETENDENTE" 1.5.2. SIMULAO E SIMULACROS(JEAN BAUDRILLARD) 1.5.3. COMUNICAO E TICA(V. CAMPS) 2.DA "TICA NEGATIVA" E DA "PRAGMTICA REAL" COMO NOVA PERSPECTIVA TICA (A "IMAGINAO TICA) -DA "PRAGMTICA TRANSCENDENTAL" ("SONHOS DA RAZO PURA) "PRAGMTICA REAL" 2.1 TICA E ARGUMENTAO RETRICA CONCLUSO/ APRECIAO CRTICA

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INTRODUO frequente, quase lugar comum, a ideia de que a sociedade actual atravessa uma generalizada crise. As anlises so mltiplas e diversificadas aos processos de transformao que ocorrem a diferentes nveis como o modo de produo, as tecnologias da comunicao, a democracia poltica, a racionalidade cientfico-tcnica, a crise dos valores morais. Avolumam-se (ou simulam-se) as preocupaes sobre a ausncia de referentes morais bsicos da vida social, no Estado, na educao, nos media, na poltica, na vida. A perplexidade do homem comum parece um dado cada vez mais irrefutvel, ou o seu consequente e progressivo alheamento. E ficamos sem saber se a crise que continua a vender bem, se estamos perante um modismo "naturalizado", ou se, ao contrrio, esta questo da "crise", incluindo a crise de valores, mesmo real e actual, no estritamente conjuntural, assumindo uma dimenso estrutural, essencial e iniludvel, porque integrante do agir e do ser humanos. No comeo deste novo milnio falamos muito de tica. Mas, ao mesmo tempo sentimos que, talvez mais do que em qualquer outra poca, vivemos agarrados aos termos, como se de imagens sem semelhana se tratasse, deixando que a representao agonize pela falta de equivalncia do signo e do real, ao mesmo tempo que valorizamos a fico til ou o simulacro, a morte de qualquer referente. Temos a "forma" e o termo mas no sabemos que contedo havemos de dar-lhe. E, no entanto, nenhum desconcerto, por mais generalizado que seja, dispensa a ausncia de referentes. H a incomodidade de quem busca certezas, apesar da transgresso, essa intrnseca "condenao" liberdade que no deixa de estar presente nesta sociedade "ps-tradicional", apesar do esforo de inverso de questes que, no essencial, permanecem idnticas: Ser que ao contrrio da questo filosfica "tradicional", " por que que h alguma coisa em vez de nada?", hoje a verdadeira questo "por que que h nada em vez de alguma coisa?"1 Talvez o ponto de partida para este trabalho (se se quiser, a motivao) seja mesmo este sentir, esta empatia com o lugar comum. No para prolongar catastrofismos, mas para "re-flectir". Com a conscincia de que "o mundo da crise e da crtica o reino do concreto e do spero, do duro e do opaco, do obstculo e

lcf. Baudrillard, Jean, O Crime Perfeito, Relgio d'gua, Trad de Silvina R. Lopes,Lisboa 1996, pg. 24.(Ttulo original: Le Crime Parfait, ditions Galile, 1995).

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do valor, do interesse e do empenhamento"2. Sem ousar qualquer pretenso de ditar o justo ou o injusto, assumindo a complexidade e a necessidade de "precauo" como essenciais a um trabalho que procede por "aproximaes", que reconhece a existncia da multiplicidade de vias e perspectivas, mas que nem por isso estar isento de alguma "arbitrariedade" na escolha do percurso e das referncias adoptadas. Evitar o catastrofismo ou a redutora "auctoritas" no significa a adopo de qualquer pura neutralidade ou falta de compromisso. Pode haver quem duvide da necessidade de reflexo sobre "as questes do tempo", preferindo uma "anomia" ou "apatia" reconfortantes (mesmo que o efectivo conforto esteja longe de ser universal). Mas, ao contrrio, pode sempre haver quem pense ou acredite que quando se est "fora ou acima do tempo" no se est em lugar nenhum, e que, apesar da desejvel universalidade e da sua indispensabilidade em muitas circunstncias (v.g. a da vida como universal valor) como legtimo desejo de resumo do tempo, este no pode deixar de ser entendido nas suas mltiplas contradies, e, por isso mesmo, questionado. Mesmo que as evidncias continuem a cegar, nenhuma perplexidade poder dispensar o esforo doloroso da lucidez, ainda que a dor se assemelhe de um Ssifo pouco ou nada esperanado. A pergunta pelo nosso futuro e pelo futuro da nossa razo continua a impor-se depois dos "Gulag", de Auschwitz, da "Morte de Deus" ou da suposta crise dos valores da Modernidade. E continuar a exigir o caminho da razo e da crtica para que a razo possa continuar a construir-se. Na nossa anlise e reflexo, e porque a consideramos de grande actualidade, procuraremos, "colocando-nos no lugar de outrem", destacar, nas diferentes questes em apreo, a obra e o pensamento de Victoria Camps.3 No o faremos numericamente nem como recurso exclusivo. Sempre que possvel, procuraremos o confronto ou relao com outras perspectivas de anlise, privilegiando a argumentao crtica. Mas ser sobretudo a partir da sua obra que, neste trabalho se procurar: 1) Reflectir sobre alguns dos paradoxos e ambivalncias da "praxis" actual. Entre outros aspectos, abordaremos o individualismo, algumas vicissitudes, "metforas" e "aporias" da 2 Pereira, Miguel Baptista, Modernidade e Tempo: Para uma leitura do Discurso Moderno, Minerva, Coimbra, 1990, pg.48 3 Victoria Camps catedrtica de tica na Universidade Autnoma de Barcelona. E ex-senadora. Possui uma vasta obra filosfica e de ensaio de que destacamos: "La imaginacin tica",Ariel, 1990; "tica,retrica e poltica",Alianza Univ., 1990; "Virtudes Pblicas" ,Espasa Calope (Prmio Espasa de Ensaio), 1990 ; "Paradojas dei Individualismo", Drakontos, 1993 ; "El Malestar de la Vida Pblica", Hojas Nuevas, 1996 ; "Los Valores de la Educacin", Anaya, 1994 ; "Que hay que ensenr a los Hijos", ed. de Bolsillo, Crculo Cuadrado, 2000.

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democracia, o sentido do trabalho numa sociedade que adopta o mercado como paradigma, problemas e paradoxos inerentes "sociedade da informao", algumas perplexidades, redundncias e fices da educao para os valores, o valor das crenas, a relao entre as normas ticas e o saber cientfico. No pretenderemos, neste ponto, uma abordagem aprofundada e minuciosa de cada um dos assuntos referidos. Cada um, isoladamente, daria matria para variadas teses. Apenas se pretende, a partir de uma anlise sucinta, demonstrar que a perplexidade, a aporia, o paradoxo, a ambivalncia, so categorias essenciais da "praxis" actual. E que as respostas encontradas, seja ao nvel mais elementar da sabedoria comum, seja no domnio da reflexo mais crtica, so reveladoras, pelo menos numa abordagem dialgica e relacional, dessa mesma perplexidade: Do estado de tenso e mal-estar ao silncio indiferente, do fundamentalismo mais primrio vacilao e ao ecletismo, da distncia entre as indispensveis perguntas e a multiplicidade de respostas marcadas pelo estigma da impossibilidade, da confuso (ou fuso identificativa) entre o real e o imaginrio, tudo parece pretender coexistir. Talvez se trate de uma simples constatao suportada por sumrias demonstraes ou de apenas destacar o que de h muito se sabe. Mas se, pela simples constatao, for possvel demonstrar a perplexidade e o paradoxo, esse ser um bom ponto de partida para a ulterior reflexo, assumindo-se no s a perplexidade como sinal do tempo presente, mas como imprescindvel ponto de partida, em qualquer tempo, para a reflexo filosfica. Talvez a filosofia tenha essa dupla e permanente funo de mergulhar na perplexidade ao mesmo tempo que procura libertar-se. 2) Face perplexidade e aos paradoxos da "praxis" (e da tica contempornea), h tentativas mltiplas de resposta. Procuraremos, numa apreciao ampla, reflectir sobre a "tica dos filsofos", em especial, a "pragmtica transcendental", enquanto perspectiva filosfica e tica. Referiremos o "emotivismo" como resposta ao "transcendental". 3) Apresentar-se- a "tica negativa" e a "pragmtica real" como nova perspectiva tica e como crtica, quer da "pragmtica transcendental", quer do "emotivismo". Como "inconclusiva concluso", far-se- uma apreciao crtica. Assim, a escolha da temtica a analisar r