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Estuques decorativos em palcios da regio de Lisboa: encomendadores, artistas e fontes de inspirao

Isabel Mayer Godinho MendonaEscola Superior de Artes Decorativas da FRESS; Instituto de Histria

da Arte da FCSH da Universidade Nova de Lisboa; Fundao para a Cincia e a Tecnologia

A vinda de estucadores talo suos para Portugal durante o reinado de D. Joo V veio revolucionar a decorao dos interiores palacianos, impondo a moda dos tectos estucados, em substituio ou em complemento da decorao pintada at ento dominante. Testemunhos da presena desses mestres em ter-ras lusitanas so as elaboradas composies em estuque de relevo que ainda subsistem em muitos interiores religiosos e civis setecentistas1.

O presente texto teve como ponto de partida duas comunicaes que apresentmos em Maio de 2012 e em Janeiro de 2013, inseridas no projecto em curso, A Casa Senhorial em Lisboa e no Rio de Janeiro (scs. XVII a XIX). Anatomia dos Interiores2, em que tratmos os estuques decorativos de trs palcios da regio de Lisboa, seleccionados como casos de estudo: o palcio de Fernando de Larre na calada do Combro, em Lisboa, o pal-cio Pombal na vila de Oeiras e o palcio do Correio Mor, no concelho de Loures.

Nestes palcios podemos ver ainda hoje um notvel conjunto de salas de-coradas no sculo XVIII com estuques de relevo, com cenas figurativas de ca-rcter alegrico e mitolgico e uma actualizada linguagem ornamental bebida em alguns dos principais centros artsticos da Europa, onde vrios desses estucadores trabalharam antes da sua vinda para Portugal.

O palcio de Fernando de Larre na calada do Combro, em Lisboa

Situado ao fundo da calada do Combro, em Lisboa, o palcio de Fernando de Larre, com a sua fachada singela de trs pisos compartimentada em cinco pa-nos por pilastras, mesmo ao lado da imponente mole arquitectnica do convento e igreja dos Paulistas (paroquial de Santa Catarina), passa relativamente desper-cebido a quem por ali passa.

O edifcio, que hoje sede da Junta de Freguesia de Santa Catarina, tem sido erradamente designado como palcio Cabral, no seguimento de uma inter-pretao incorrecta de Norberto de Arajo nas suas Peregrinaes. Provmos recentemente que o seu proprietrio, desde 1742, foi o provedor dos Armazns da Guin, Mina e ndia, Fernando de Larre (1689/1761), que o arrematou em hasta pblica a 12 de Junho desse ano, no mbito de um processo por dvidas movido contra o anterior proprietrio, Manuel Pedro de Melo3.

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A seguir ao terramoto de 1755, Fernando de Larre mudou se com a famlia para a quinta de que era proprietrio s portas da cidade, no largo de S. Sebastio da Pedreira, passando a arrendar o palcio da calada do Combro.

Cirilo Volkmar Machado, nas suas conhecidas Memrias, publicadas em 1823, referiu se a Fernando de Larre como um arquitecto francs ao servio de D. Joo V, informao que lhe teria sido transmitida pelo neto, o ltimo Provedor dos Armazns, Fernando de Larre Garcez Lobo Palha e Almeida:

Mr. Larre. Ouvimos dizer a Fernando de Larre, o ltimo Provedor dos Armazns, que era neto deste Architecto, e que elle fizera o Portico da Fundio, e o seu Pa-lacio a S. Sebastio da Pedreira4.

Sabemos hoje que Fernando de Larre, j nascido em Portugal, na cidade do Porto, pertencia de facto a uma famlia natural de Bayonne, no pas basco francs, que recebera vrias mercs em troca do apoio financeiro concedido ao exrcito portugus durante a Guerra da Sucesso de Espanha5. Das obras da autoria de Larre, referidas por Cirilo, resta apenas o Portico da Fundio, integrado na fachada poente do edifcio do Arsenal do Exrcito, o actual Museu Militar de Lisboa, junto estao ferroviria de Santa Apolnia6. O palcio de S. Sebastio da Pedreira j no existe, tendo dado lugar ao edifcio conhecido como palcio Vilalva, mandado erigir no mesmo local pelo capitalista Jos Maria Eugnio de Almeida, aps a sua compra em 1859.

O palcio da calada do Combro constitui por isso o testemunho mais sig-nificativo desta actividade de Fernando de Larre. Embora sem documentos que comprovem a sua interveno nas obras que a tiveram lugar aps a compra do palcio, natural que tenha tido um papel activo na reformulao do edifcio.

Do processo de inventrio realizado por morte de D. Filipa Leonor da Fon-seca Azeredo, a viva do Provedor dos Armazns, constam duas descries do palcio, uma datada de 1778, feita logo a seguir sua morte7, e a outra assina-da pelos avaliadores do Senado, o mestre pedreiro Joaquim Pereira Caroo e o mestre carpinteiro Joo Lopes Botelho, em 17838. As duas descries, comple-mentares, mostram nos um edifcio com uma estrutura espacial e funcional bem definida, no muito diferente daquela que hoje ainda observamos.

No piso trreo so referidos a cocheira, em comunicao com a rua atravs das duas portas largas rasgadas na fachada, a cavalaria, o palheiro, vrios quar-tos interiores para alojamento de serviais quatro cazas de acomodaoens de Criadoz, e outros despejoz e um Armazem Suterraneo entretanto desaparecido. No piso trreo so ainda mencionadas duas lojas que se arrendo, com porta para a referida rua, uma escada de servio de acesso ao quarto de baixo e uma escada nobre de dois lanos em comunicao com o quarto nobre.

O quarto de baixo, do lado poente, tambm referido como os mezeninos si-tuados abaixo dos madeiramentos, era composto de catorze divises, com quatro casas frente da rua, e no centro outras cazas mayores e menores.

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O piso nobre ou quarto de galaria, como mencionado na descrio de 1783, compreendia vinte divises e vrias acomodaes, duas delas de guas furtadas. Para a fachada principal, virada a sul, rasgada por onze janelas, abriam se cazas bem ornadas com tetos de estuque no ultimo primor da arte com solhos e portas de madeiras do Brazil. Do lado oposto, a norte, existia uma enigmtica caza hourada [com?] o seu plano de xadres.

A descrio de 1778, por seu lado, referia o quarto nobre com seis cazas azuleijadas, e os tetoz de Estuque de Relevadoz, a que se acrescentavam no cen-tro (...) dezasseis cazas em que entra a do Oratorio, e huma Cozinha, na qual h boas acomodaoens.

Do recheio do palcio foram apenas inventariadas as pinturas em tela, com destaque para os nove painis que se encontravam fixos na parede do oratorio e para o painel de S. Jernimo colocado sobre o altar, avaliados em 19$2009.

Figura 1a - Tecto em estuque do salo nobre do palcio de Fernando de Larre, em Lisboa (Fotografia de Tiago Antunes).

Figura 1b - Cartela com as iniciais de Fernando de Larre, tecto do salo nobre do seu palcio em Lisboa (Fotografia de Tiago Antunes).

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Os estuques do palcio de Fernando de LarreNo interior do edifcio os estuques decorativos tm um papel de destaque,

revestindo os tectos da escadaria nobre e das salas intercomunicantes do primeiro piso, estas abertas para a fachada principal, e ainda o tecto e as paredes do oratrio.

O tecto do salo nobre, a maior das divises do palcio, mostra uma con-figurao rara que s encontrmos no salo nobre do vizinho palcio dos Carva-lhos, na rua do Sculo, a casa da famlia do futuro marqus de Pombal: as quatro faces laterais da masseira so arredondadas e compartimentadas em dois registos por vrias molduras recortadas. Destacam se as figuras de vulto e em alto relevo de meninos gesticulantes, aos pares, segurando cestos de flores e fruta e os bustos de heris clssicos coroados de louros. A meio dos lados maiores do tecto, car-telas assimtricas enquadram as iniciais entrelaadas F e L, uma aluso ao nome do proprietrio.

Na sala contgua, do lado poente, o tecto decorado com estuques de mdio relevo centrado por uma pintura em deficiente estado de conservao, com uma alegoria Aurora, figura feminina alada inspirada na Iconologia de Cesare Ripa o pseudnimo de Giovanni Campani (circa 1555/1622) , obra fundamen-tal para a interpretao de muitas imagens realizadas durante o perodo barroco, que conheceu vrias edies ao longo dos tempos10. Nos quatro cantos do tecto, dentro de cartelas, outras representaes alegricas em estuque, baseadas na mes-ma obra, representam o Entardecer, a Vigilncia, o Sono e a Esperana.

A figura da Aurora segue uma das descries que dela faz Ripa na edio de Veneza de 1645:

Aurora. Giovanetta alata per la velocit del suo moto, che tosto sparisce, di color incarnato con manto giallo, nel braccio sinistro un cestello pieno di varij fiori, & nella stessa mano tiene una fiaccoletta accesa, & con la destra sparge fiori11.

O Entardecer figurado como um menino voando para Ocidente, com uma estrela brilhante na cabea (Hesperus), um morcego na mo esquerda, uma seta na direita; em seu redor, outras setas cadentes representam o vapor de gua atra-do pelo sol que acaba por cair ao final do dia, por no ter nada que o sustenha, segundo a explicao dada por Ripa. A representao segue de perto a gravura respectiva da edio da Iconologia impressa em Londres em 170912.

A lmpada acesa, o livro e a cegonha so os emblemas da Vigilncia. A cegonha vigia o sono das companheiras, segurando de p uma pedra numa das patas. Se por acaso adormece, a pedra cai e o rudo que provoca faz debandar as companheiras que assim fogem do perigo. A inspirao foi a gravura da mesma edio de Londres, com uma pequena alterao: a cegonha aparece direita e no esquerda da Vigilncia13.

A Esperana figurada na gravura da mesma edio como uma jovem coroada de flores, amamentando um menino alado, Cupido. Das flores espera se sempre o fruto e por isso simbolizam a Esperana, como referido no texto que

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acompanha a gravura; o pequeno Cupido mostra que o amor sem Esperana no sobrevive. A cena repete a gravura, com uma curiosa alterao: o pequeno Cupi-do perdeu as asas, que foram transferidas para a figura da Esperana14.

Figura 2a - O entardecer, pormenor em