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  • ESTUDOS LINGUSTICOS NO/DO MATO GROSSO O FALAR CUIABANO EM EVIDNCIA

    Maria Ins Pagliarini Cox1

    RESUMO: Neste texto, so reunidos estudos j realizados acerca do falar cuiabano. Eles so arranjados no cronologi-camente, mas por temas e perspectivas tericas. O primeiro tema rene estudos sobre a histria do falar cuiabano. O segundo tema retoma descries de indicadores dialetais em nvel fontico-fonolgico e morfossinttico. O terceiro tema concentra trabalhos sobre a variao e a mudana que vm afetando o falar cuiabano, desde que se iniciou a nova colonizao de Mato Grosso na segunda metade do sculo XX. E, finalmente, o quarto tema traz tona a resistncia inesperada de um trao estigmatizado o rotacismo ao processo de mudana em curso.PALAVRAS-CHAVE: Falar Cuiabano, Vis Histrico, Vis Terico

    LINGUISTIC STUDIES IN/OF MATO GROSSO THE CUIABANO DIALECT IN EVIDENCE

    ABSTRACT: In this text, studies done about the cuiabano dialect are gathered. They are not arranged chronologically but according to thematic and theoretical perspectives. The first theme brings together studies about the history of the cuiabano dialect. The second theme works with descrip-tions of dialectal indicators in a phonetic-phonological and morphosyntactic levels. The third theme gathers studies on the variation and the change that have been affecting the cuiabano dialect since the beginning of the new coloniza-tion of Mato Grosso in the second half of the 20th century. And, finally, the fourth theme brings to life the unexpected resistance of a stigmatized feature the rhotacism to the process of change underway.KEYWORDS: Cuiabano Dialect, Historical Bias, Theoretical Bias

    1 Professora do Program de Mestrado em Estudos de Linguagem da UFMT

    POLIFONIA CUIAB EDUFMT N 17 P. 75-90 2009 IssN 0104-687x

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    Introduo Falar dos estudos lingusticos no/do Mato Grosso no

    uma tarefa simples, dada a gama de caminhos que se abrem para a abordagem do tema. Assim, opta-se por abord-lo pela via do objeto que singulariza a regio o falar cuiabano. Evocam-se estudos acerca do falar cuiabano que vm sen-do feitos desde 1978, como o trabalho inaugural de Maria Francelina Drummond, um trabalho descritivo de carter dialetolgico, nos moldes de O dialeto caipira de Amadeu Amaral. Os estudos no sero retomados segundo uma ordem cronolgica, mas sim arranjados tematicamente em algumas subsees tendo como parmetro os aspectos fo-calizados, assim como as perspectivas tericas adotadas.

    1. O falar cuiabano um pouco de histriaA formao do falar cuiabano como uma variedade

    singular entre as variedades atestadas para o portugus brasileiro um tema frequente nos estudos de Santiago Almeida (2000, 2005a e 2005b). O autor levanta aspectos da histria social e cultural da Baixada Cuiabana, impres-cindveis compreenso de certos traos lingusticos que caracterizam o portugus falado nessa regio. Investiga a formao da etnia cuiabana, com destaque para a base humana e lingustica. Seus estudos conjeturam a hiptese de que a paulistanidade caipira, trazida pelos Bandeiran-tes no incio do sculo XVIII, foi uma influncia decisiva na formao do perfil sociocultural do povo da Baixada Cuiabana. Afinal, as guas do Cuyab eram utilizadas pelos bandeirantes e monoeiros paulistas como caminho de acesso, primeiro, s minas de escravos indgenas e, depois, s minas de ouro. Destarte, o falar cuiabano seria o resultado do contato, bastante estreito, entre o dialeto caipira, recheado, ele prprio, de elementos tpicos do por-tugus arcaico, e as lnguas indgenas faladas na regio. Para sustentar a tese de que traos do falar cuiabano so arcasmos de portugus que chegaram regio com a fala caipira dos bandeirantes, Santiago-Almeida (2005b) realiza uma comparao entre pronncias de vogais e consoantes ouvidas na Baixada Cuiabana e pronncias registradas

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    pela literatura de histria da lngua portuguesa em sculos passados. Para ficar num nico exemplo, pode-se citar o caso das consoantes africadas [] e [], que alguns pensam ser um trao exclusivo do falar cuiabano. Elas foram ates-tadas tambm em fases anteriores do portugus europeu. As consoantes [] e [] esto presentes em mais de uma fase da histria da lngua portuguesa e permanecem vivas at hoje na expresso oral de muitos cuiabanos, provavel-mente porque encontrou por l um terreno frtil, adubado com lnguas indgenas, em particular o bororo, que possuem tais fonemas (SANTIAGO-ALMEIDA, 2005b, p. 87).

    J Souza (1999) v na hiptese da origem crioula ou semi-crioula do portugus brasileiro uma explicao possvel para a compreenso de traos peculiares do falar cuiabano. Para sustentar sua tese, busca, primeiro, retratar as condies scio-histricas que favoreceram o processo de crioulizao lingustico-cultural do cenrio brasileiro. Acredita que nos locais de aglomerao e aglutinao humana, especialmente na efervescncia das minas, caldearam-se povos e lnguas em todos os sentidos, resultando numa formao lingustica hbrida, com tendncias marcadamente crioulizantes. A descoberta e a consequente febre do ouro em Mato Grosso, no incio do Sculo XVIII, trouxeram regio grupos mi-gratrios os mais diversos, engendrando uma situao de trocas lingusticas multilngues. Entre bandeirantes e ndios domesticados certamente predominava a lngua geral. Con-tudo, migrantes negros e mestios, vindos de Minas Gerais, Bahia e Maranho, teriam trazido variedades lingusticas crioulizadas. Em Mato Grosso, como em outras zonas au-rferas, a populao era formada predominantemente por escravos africanos e seus descendentes. Confirmando essa tendncia, Leverger observou que, no final do sculo XVIII, trs quartos da populao mato-grossense era formada por negros, mulatos e outros mestios. Assim, muito provavel-mente o portugus crioulizado falado por essa parcela da populao, em contato com outras formaes lingusticas, tenha dado origem ao falar cuiabano.

    Em resumo, o falar cuiabano seria fruto ou de uma situao de isolamento que teria favorecido a conservao de traos de portugus antigo que chegaram regio via

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    dialeto caipira, ou de um processo de crioulizao em que as gramticas do portugus, das lnguas indgenas faladas pelas naes que habitavam a regio e das lnguas africanas trazidas pelos escravos teriam se misturado (SOUZA, 1999), ou de influncia do castelhano em vista da vizinhana com a Amrica Hispnica e mesmo da presena dos espanhis na regio, antes da entrada das bandeiras paulistas, conforme Mendona (1970). bastante provvel que os fatores foca-lizados individualmente por essas hipteses tenham agido em conjunto na formao da identidade do falar cuiabano, como conjetura Dettoni (2003, p. 197):

    Conviveram, nesta regio, em diferentes momentos e em diversos graus de intensidade, as lnguas indgenas nativas, a variedade castelhana da fronteira, a lngua dos bandeirantes colonizadores, diversas variedades do portugus ali introduzidas pelos sertanistas migrantes, alm da variedade falada pelos escravos para l trans-feridos. Foi nesse contexto multilngue e multidialetal que floresceu e se fixou a variedade de portugus falada, ainda hoje, na baixada cuiabana.

    2. O falar cuiabano os principais indicadores No curso de quase trezentos anos de espordicos con-

    tatos com outras regies do pas, foi se engendrando na Baixada Cuiabana2 uma variedade de portugus diferente de outras faladas no Brasil. Os imigrantes que aqui chegaram nas dcadas de 1950, 1960 e 1970, impelidos pela marcha para o oeste, incentivada pelo presidente Getlio Vargas desde os anos quarenta, mobilizados pelo sonho e empresa espetacular de construo de Braslia durante o governo de JK, seduzidos pelas polticas pblicas de incentivo ao povoamento do Brasil Central e da Amaznia e encorajados pela pavimentao das rodovias BR-163 e BR-364, ambas ligando Cuiab aos grandes centros do pas, depararam-se

    2 Denomina-se Baixada Cuiabana a regio formada pelos municpios e comunidades que devem sua origem aorioCuiabeseusafluentes.SegundoSantiago-Almeida(2005:21),asguasdessesriosforamutilizadaspelos monoeiros e bandeirantes paulistas, no sculo XVIII, como principal caminho de acesso, primeira-mente, s aldeias indgenas (minas de escravos) e, depois, s minas aurferas da dita regio. Tais atividades econmicas deram origem ao povoamento dessa regio, provendo-a de uma base cultural e lingustica homognea determinante na formao do falar cuiabano.

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    com brasileiros falantes de um portugus singular, pouco conhecido fora do estado de Mato Grosso.

    Dentre os aspectos fonolgicos envolvendo as consoantes, a realizao das fricativas palatais [] e [] como as africadas [] e [], respectivamente, tem sido considerada a marca registrada do falar cuiabano e, no raro, usado como uma metonmia caricatural para designar a estranheza provocada pela variedade lingustica aqui falada, a exemplo dos enun-ciados: (1) [ ] cuiabano de tchapa e cruz.; (2) [ ] Larga de moadje!.

    No falar cuiabano, no se realizam como africadas as consoantes oclusivas dentais [t] e [d] antes da vogal anterior alta [i], diversamente do que ocorre em muitos outros diale-tos do portugus brasileiro. Ocorre tambm a palatalizao da consoante fricativa alveolar [] na posio de travamento de slaba, lembrando a pronncia carioca, nordestina e at mesmo a lusitana. Diz-se [] e no []. Articu-lada com esse fenmeno da palatalizao, compartilhado por inmeras variedades de portugus, a eliminao da semivogal anterior [], antecedendo a consoante palatal [] em slaba final, um indicador de cuiabania lingustica: o que muitos brasileiros pronunciam como [] ou [], o cuiabano pronuncia como [], eliminando a semivogal [j], quando ela existe, e no inserindo quando ela no existe, a exemplo de [] e [], como frequentemente ouvido em vrios dialetos de portugus.

    Um ltimo fenmeno consonantal o rotacismo cabe ser aqui apresentado como um trao caracterstico do falar cuiabano pela sua intensidade, mesmo no sendo exclusivo dessa variedade lingustica. Nos encontros consonantais tautossilbicos, ouve-se [] em vez de [], [], [] e [] em vez de [], [] e []. Em outras regies brasileiras, pela sua associao com ruralidade, oralidade e analfabetismo, um trao estigmatizado e timbrado com a pecha de caipirismo, um marcador3 social, por assim dizer. Entretanto, na regio da Baixada Cuiabana, um indicador4 lingustico, pois rene, indistintamente, falantes das zonas

    3 Marcadores so traos de linguagem que distinguem subgrupos classes sociais diversas dentro de uma mesma regio e indicam maior ou menor formalidade (Possenti, 2002, p. 322).

    4 Indicadores so traos de linguagem que distinguem um grupo de outro digamos, uma regio de outra , mas no distinguem um subgrupo de outro na mesma regio (Possenti, 2002, p. 321).

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    rural e urbana, pouco ou muito escolarizados e letrados, e ocorre em contextos de interao mais ou menos formais.

    Em relao s vogais, dois processos, ambos envolvendo as nasais, soam no familiares a quem vem de outras regi-es do pas. Em primeiro lugar, nota-se o timbre da vogal baixa central [] em contexto de nasalizao. Uma palavra como Ana, que um paranaense, por exemplo, pronunciaria como [], nasalizando e, concomitantemente, elevando a vogal, um cuiabano diria [], com uma nasalizao mais tnue e sem elevao, maneira do espanhol. Em segundo lugar, notvel tambm a singularidade na pronncia do ditongo nasal . Uma palavra como irmos, o falante cuiabano pronuncia no [], mas [], estando, pois, sujeita a um processo de homorganizao entre vogal e semivogal (a vogal [a] se torna posterior, mdia e arredon-dada, assimilando propriedades articulatrias de [w]) que culmina com a monotongao do ditongo5.

    Dentre os aspectos morfossintticos, o trao que mais se sobressai a no aplicao categrica da regra de con-cordncia de gnero na locuo nominal (Uai, Nen! Cad A COZINHEIRA NOSSO?)6, na relao sujeito-predicativo (No stio eles falam que A CRIANA T TORTO) e na anfora pronominal (GUA DE MANDIOCA, ELE mata carregador, o formigueiro que corta a pranta). Para uma anlise mais consistente desse fenmeno, recomenda-se a leitura da tese A concordncia de gnero na anfora pronominal: variao e mudana lingustica no dialeto da baixada cuiabana Mato Grosso, defendida por Rachel do Valle Dettoni em 2003, na Universidade Federal de Minas Gerais.

    Alm dessa singularidade, outro aspecto morfossinttico bastante proeminente no falar cuiabano ausncia de ar-tigo definido em sintagmas nominais, como neste exemplo registrado por Dettoni (2003, p. 12): Me de meu vov, que pai de papai, foi ndia. No menos perceptvel o uso de no (preposio em + artigo o) para designar na casa de: Fui no comadre corresponde a Fui na casa da comadre.

    5 Para um estudo mais detalhado dos aspectos fonolgicos do falar cuiabano, recomendo a leitura de Santiago-Almeida (2000 e 2005).

    6 Os exemplos citados neste pargrafo e nos seguintes foram extrados de Dettoni (2003). Foi preservada a transcrio proposta pela autora.

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    Cuiabanos costumam explicar tal uso de no como reminis-cncia da expresso no solar de, historicamente apagada/reduzida. Assim, removendo-se as camadas arqueolgicas, encontrar-se-ia, subjacente a Fui no comadre, o enunciado Fui no solar da comadre. Investigando mais detidamente essa hiptese, Dettoni (2003, p. 10-12) assinala que ela no recobre todos os usos de no, assim como carece de evidncia emprica por exemplo, registro escrito de fases anteriores da lngua que a confirme.

    Tambm singular o uso do marcador conversacional diz que nas mais diversas construes: (3) Ele come co uma obrao, diz que o verme comeu todo o intestino dele; (4) A ele foi diz que deit l, saiu foi deit l no corredor, a fiquei que::to olhano pra ele assim. Segundo Dettoni (2003, p. 13), nem sempre a expresso diz que carreia o sentido de indeterminao. Se no exemplo (3) esse sentido est presente, no (4) no. Um dos informantes entrevistados por Assis-Peterson (2005, p. 191) afirma que o diz que a melhor inveno dos cuiabanos, pois permite-lhes dizer o que pensam sem se comprometerem.

    Dentre os aspectos lexicais, estranha-se o uso de algu-mas palavras, ou porque no fazem parte do vocabulrio de outras variedades de portugus, ou porque, se fazem, so empregadas com um sentido outro. Interagindo com cuiabanos, aprende-se que (5) digoreste algo ou algum bacana, nota dez, legal; (6) tocera pessoa vaidosa, con-vencida; (7) bambol sandlia de borracha, tipo havaia-na; (8) baleia nibus urbano, lotao; (9) bolicho vendinha; (10) invisvel grampo de cabelo; (11) chiriri um pouquinho; (12) rebuar cobrir-se; (13) xixir fazer coc; (14) cepo qualifica pessoa formada, forte, grande; (15) ajojar [] juntar-se, arranchar; (16) rir pra catia rir muito; (17) agora qua:::ndo?! indica dvida, espanto; (18) tcha por Deus! indica admirao, espanto; (19) era e pacuera significa algo muito antigo.

    Certamente muitas caractersticas do falar cuiabano ficaram de fora desse retrato esboado em traos mnimos, sobretudo aquelas que dizem respeito entonao, ao ritmo descansado da fala cuiabana, aos acentos enfticos usados para realar certos sentidos, como por exemplo, para dizer

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    que mora l longe, o cuiabano diria mora l::::: lo:::ndge, espichando e encompridando as vogais tnicas, de modo a imprimir o sentido de lonjura no significante mesmo. De acordo com o mestre salesiano Mario Bordignon, essa toada herana do bororo, nao indgena intimamente ligada formao do povo cuiabano.

    O imigrante que chegar hoje a Cuiab certamente no ouvir muitos desses indicadores, circulando pelas ruas da cidade e interagindo com as pessoas nas diversas esferas de atividades prprias dos espaos urbanos. Ter de se des-locar para as regies ribeirinhas e conversar com pessoas mais velhas para reencontrar o presumido falar cuiabano autntico.

    3. O falar cuiabano variao e mudanaAproximar-se do cenrio mato-grossense no sculo XXI

    aproximar-se de uma trama lingustica que enreda mui-tas vozes. A histria de sua formao, nos idos dos sculos XVIII, XIX e XX, e a sua histria recente, nas ltimas quatro dcadas, entrelaam-se e imprimem nesse tecido uma cor matizada. De um cenrio lingustico aparentemente homo-gneo, Mato Grosso se converteu, nesses tempos de intenso fluxo migratrio, num cenrio visivelmente heterogneo. Escutam-se aqui no mais apenas as notas do falar cuiabano, mas tambm as do gacho, do paranaense, do catarinen-se, do goiano, do mineiro, do paulista, do nordestino entre outros brasileiros. As relaes entre a variedade lingustica local e as dos imigrantes esto longe de ser pacficas. Alis, tenso e conflito esto sempre presentes nos contextos onde diferenas lingusticas se entrecruzam, uma vez que as di-ferenas, via de regra, so hierarquizadas segundo o status scio-econmico de seus falantes. Quer dizer, invariavel-mente dividem-se em variedades de prestgio e variedades estigmatizadas, no pelo que elas so em si mesmas, mas pelo poder maior ou menor de seus falantes.

    Os imigrantes que aqui chegaram, chegaram grvidos da profecia emissria do ocidente, para cultivar no s a natu-reza selvagem, mas tambm a presumida barbrie que era a cultura mato-grossense. Com esse esprito missionrio,

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    interpretam a lngua local como uma lngua estropiada e, bem-intencionados, desejam corrigi-la. Enfim, a convivncia entre os mato-grossenses de chapa e cruz e os paus-rodados marcada por embates culturais de toda ordem. Uma vez mais na histria da humanidade, o processo de colonizao de um novo mundo se reedita como processo de ocidentalizao. Os colonizadores que aqui aportaram nas ltimas quatro dcadas oriundos principalmente das regies sul e sudeste, que se representam e apresentam diante dos outros brasileiros como a parte esclarecida e desenvolvida da nao tenderam a interpretar o mato-grossense nativo e suas diferenas culturais e lingusticas como m diferena, como defasagem, como falta, como atraso, como um momento j superado de sua prpria histria. Essa leitura justificava, assim, a boa inteno de promover o outro maioridade cultural. O ocidente sempre bem intencionado! Quer dizer, envergando as bandeiras do progresso e da civilizao, os colonizadores transformam diferenas qualitativas em diferenas quantitativas. No conseguem no hierarquizar, mais exatamente, inferiorizar a diferena. No conseguem no desejar intervir na diferen-a. Se a diferena a m diferena, ento intervir na vida do outro um imperativo moral categrico. Em nome da boa diferena, justifica-se matar a m diferena, justifica-se o etnocdio. Como diz Clastres (1982), em frase lapidar, A tica do etnocdio a espiritualidade do humanismo.

    De tanto ouvir que sua fala horrvel, esquisita, es-tranha, caipira, carregada, arrastada, de tanto sentir-se sub-avaliado, subestimado, minorizado, estigmatizado, ridicularizado, de tanto ver-se pelo olhar do colonizador, hoje maioria no Estado, o mato-grossense foi passando, ele mesmo, a ver-se/pensar-se/dizer-se pela voz do outro pelo amor de Deus, esse nosso tcha-tcha-tcha horr-vel!. Sua voz uma resposta em eco da voz do colonizador. Assim, o mato-grossense foi desenvolvendo uma atitude de vergonha em relao sua lngua materna, um desejo de cal-la, principalmente nos espaos onde a interao com os estrangeiros era inevitvel. Nesses espaos, expressar linguisticamente a identidade de cuiabano era tornar-se alvo de deboche. Assis-Peterson (2005, p. 195), ouvindo

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    cuiabanos acerca de sua lngua materna, observou que Sob o impacto de foras discriminatrias e de diferentes presses sociais a estigmatizar a pronncia carregada dos cuiabanos, fortemente marcada pelos sons [] e [], mui-tos cuiabanos viram-se obrigados a apagar traos de seu linguajar. Nessa conjuntura desfavorvel cultura local, o falar cuiabano foi fenecendo.

    Desde a dcada de 1980, estudos vm apontando pro-fundas mudanas no falar cuiabano. Registrara Palma (1983 e 1984) que, entre os cuiabanos jovens, as africadas [] e [] estavam deixando de ser variantes das fricativas [] e [] para serem variantes das oclusivas dentais [t] e [d] seguidas contiguamente pela vogal [i]. Eles abandonavam formas como [ ] e [ ], mas incorporavam formas como [] e []. Se do ponto de vista fontico, quer dizer, estritamente lingustico, so semelhantes, do ponto de vista sociolingustico valem diferentemente. Como variantes de [] e [], [] e [], respectivamente, revestem-se de uma aura negativa decorrente do processo de folclorizao da essncia, por assim dizer, do falar cuiabano no novo cenrio scio-econmico-cultural. Porm, como variantes de [t] e [d], [] e [] so avaliados positivamente, desejados e incorporados fala dos mais jovens.

    Tambm Dettoni (2003 e 2005) constata, tratando da variao na concordncia de gnero na retomada anafrica de itens lexicais femininos por ele(s)/ela(s), estar diante de um caso de mudana em progresso, com tendncia ntida para o desaparecimento da variante cuiabana ele(s). Diz a sociolinguista: Embora a variao na concordncia de gnero no constitua um dos traos mais marcantes do falar cuiabano, inclui-se perfeitamente no conjunto das formas estigmatizadas (DETTONI, p. 2003, 166). A respeito desse trao, ainda em 1980, um dos informantes de Palma dizia: ns, de fora, devemos ajudar os cuiabanos a mudar todo esse jeito de falar, porque, por exemplo, eles usam ELE quando se referem a mulher... como se mulher fosse homem. Esse depoimento mostra de forma contundente a presso lingustica exercida pelos imigrantes sobre o uso da forma ele(s), pelos falantes cuiabanos, na retomada de termos femininos. Os trabalhos de Dettoni demonstram (1)

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    que os falantes cuiabanos aprenderam a variante alterna-tiva ela(s) para retomar itens lexicais femininos; (2) que as retomadas por meio de ele(s)/ela(s) coexistem em alguns falantes; (3) que alguns falantes cuiabanos, entre os mais jovens e mais escolarizados, fazem uso categrico da va-riante ela(s). Segundo a autora (2003, p. 166), a mudana na concordncia de gnero enquadra-se em um movimento mais geral de mudanas que envolvem a neutralizao das mais diversas caractersticas dialetais e sugerem, para o falar cuiabano, um processo de morte.

    Traos de prestgio so mais resistentes mudana. Por exemplo, ainda bastante vigorosa a pronncia da fricati-va em posio de travamento de slaba no como alveolar [], mas como palatal []. Ouvem-se com frequncia formas como [], [] etc. Esse um trao presente tambm no falar carioca que, pelo seu prestgio nacional, funciona como modelo a ser seguido. Contudo, na contramo de to-das as expectativas, h um trao altamente estigmatizado que vem resistindo ao processo de mudana que afeta o falar cuiabano como um todo o rotacismo nos encontros consonantais tautossilbicos.

    4. O falar Cuiabano a inusitada sobrevivncia de um trao estigmatizado

    As relaes de fora que agiram/agem no mercado lingustico mato-grossense praticamente calaram as prin-cipais divisas que separavam o falar cuiabano das demais variedades regionais do portugus brasileiro. Foi tanto o escrnio em torno do [] e do [], que o trao-smbolo da cuiabanidade lingustica hoje s ouvido, no espao ur-bano, como estilizao do homem cuiabano tradicional em representaes teatrais e miditicas. Contemporaneamente, o falar cuiabano vem sendo identificado menos pelas suas consoantes africadas e mais pelo fenmeno do rotacismo.

    Se antes o falar cuiabano era identificado por um trao que funcionava predominantemente como indicador agora o por um trao que funciona como marcador. Quer dizer, passa-se de um particularismo incomensurvel para um trao que funciona como marcador social e que, portanto,

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    pode-se medir pelo metro que vai das variedades estigmati-zadas s variedades de prestgio. Se o [] e o [] ofereciam dificuldade de leitura quando contrapostos s leis do mercado lingustico, sendo avaliados como horrvel, feio, estranho, esquisito, carregado, o rotacismo fcil e ligeiramente lido, por esse esquadro, como erro. O cuiabano no mais aquele que fala esquisito, mas aquele que fala errado.

    Alguns estudos revelam a produtividade do rotacismo nos encontros consonantais. Assad e Cox (1999) apontaram a inscrio sistemtica do rotacismo na grafia de crianas cuiabanas em processo de alfabetizao, conjeturando tra-tar-se de um hbito fontico-fonolgico da lngua materna que se insinua na modalidade escrita. Santiago-Almeida (2000, p. 173), em pesquisa realizada entre falantes com mais de 50 anos, com baixo grau de escolaridade, e com uma histria de vida genealgica, cultural e linguistica-mente ligada Baixada Cuiabana, constatou que a va-riante rotacizada ocorre em 100% dos casos de encontros consonantais localizados no corpus de registro oral. Quer dizer, na gramtica internalizada de falantes com esse per-fil parece no haver encontros consonantais com a lateral //, apesar de toda a mudana que se operou no cenrio lingustico da regio nos ltimos 30 anos. Franciscone & Teixeira (2003), numa pesquisa realizada na Baixada Cuia-bana, com informantes do sexo feminino e nvel mdio de escolaridade, chegaram a um resultado semelhante ao de Santiago-Almeida: na narrativa espontnea houve 100% de ocorrncia de formas rotacizadas e, no teste de leitura, 96,25%. Zambotto de Lima (2008), em pesquisa realizada na Comunidade de Mata-Cavalo, localizada em Nossa Senhora do Livramento, Municpio que integra a regio da Baixada Cuiabana, tambm constatou a ocorrncia do rotacismo em 100% dos contextos favorveis ao uso registrados no corpus, independentemente do grau de escolaridade dos falantes e de outros fatores como idade, por exemplo. curioso que um trao como a africao de [] e [] seja encontrado ape-nas na fala dos velhos dessa comunidade e o rotacismo, na fala de todas as geraes. Os trabalhos de Cox (2001, 2003, 2004, 2005, 2006a, 2006b, 2007, 2008a, 2008b), voltados para o exame de eventos de escrita em diversas esferas de

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    comunicao do espao urbano de Cuiab, revelam que at mesmo em situaes de bastante formalidade, como o de uma carta de apresentao, por exemplo, o rotacismo se indicia com uma certa frequncia.

    Em conjunto, os resultados dessas pesquisas evidenciam que a escolaridade e o letramento no tm garantido a au-tocorreo da variante [] nem mesmo nas situaes que exigem um estilo tendendo para o extremo mais monitora-do. difcil, mas no impossvel, que as prximas geraes da comunidade cuiabana se deparem com um sistema de escrita em que os encontros consonantais com a letra < l > representem uma forma arcaica. Por uma confluncia de fatores, o falar cuiabano est se encarregando de levar adiante uma deriva fonolgica que se insinuara no latim vulgar, florescera no perodo de formao do portugus na Pennsula Ibrica e navegara por mares e rios nunca dantes navegados, margem do processo de gramatizao e normatizao jurdica da lngua que tentara repres-la. Como bem lembra Bagno (2003, p. 127), citando Horcio, no adianta expulsar a natureza com um forcado, pois ela sempre ressurgir (Naturam expellas furca, tamem usque recurret Epstola X, 24). Revigorado por um mameluquismo lingustico, o rotacismo nos encontros consonantais via nas terras da Baixada Cuiabana, resistindo conjuno de foras centrpetas que agem sobre ele para transform-lo em /l/. Nos confins da Amrica, o portugus segue cum-prindo tendncias que se insinuaram na aurora da lngua. Que seja bem lembrado, o rotacismo do falar cuiabano no sinal de ocaso do portugus! As lnguas vivas no tm ocaso. Se variam e mudam na boca de aloglotas porque esto vivas, muito vivas...

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