estudos homossexuais - 2012 - unfpa ?· a resenha analítica efectuada por epprecht ilustra...

Download Estudos Homossexuais - 2012 - UNFPA ?· A resenha analítica efectuada por Epprecht ilustra claramente…

Post on 08-Nov-2018

214 views

Category:

Documents

0 download

Embed Size (px)

TRANSCRIPT

  • 2

    Estudos Homossexuais - 2012

    Esta colectnea de monografi as foi possvel graas ao apoio do Fundo das Naes Unidas para a Populao UNFPA. As opinies aqui presentes so dos autores e no refl ectem necessariamente os pontos de vista do UNFPA.

    Autores

    Estevo Artur Manhice

    Antnio Martins Timbana

    Layout e fotografi a : Danilo da Silva

    LAMBDA 2012, Maputo, 1 Edico

    A informao aqui patente pode ser reproduzida deste que a fonte seja citada

  • 3

    ndicePrefcio 7

    De Maria-rapaz lsbicas: trajectrias identitrias de mulheres que fazem sexo com outras mulheres 19

    Introduo 20

    Metodologia 24

    A descoberta da diferena 26

    Descobrindo-se uma Maria-rapaz: entre brincadeiras e maneiras de vestir 26

    Encontrando outras Maria-rapaz: criao de redes sociais 29

    O campo de futebol 31

    Entre discotecas e festas 32

    Prticas sexuais entre mulheres? Desenvolvimento das relaes amorosas entre mulheres 33

    De Maria-rapaz lsbicas: afirmao de identidades sexuais de mulheres que fazem sexo com outras mulheres 36

    Consideraes finais 38

    Bibliografia 40

    Homossexualidade na Cidade de Maputo: Mecanismos de Afirmao e Legitimao social dos Gays 47

    Introduo 48

    Metodologia 53

    Sexualidade: Posicionamentos tericos 56

    Trajectrias sexuais 59

    Afirmao e legitimao de uma identidade sexual 61

    Identidade (s) sexuais e formas de identificao usadas pelos gays 65

    Espaos de convvio entre gays 70

    Consideraes finais 74

    Bibliografia 77

  • Nossos mais profundos agradeci-mentos aos autores por terem feito um trabalho excelente. O nosso es-pecial agradecimento vai para os membros da nossa comunidade que orgulhosamente emprestaram a sua imagem para ilustra esta primeira edio dos Estudos Homossexuais.

    Agradecimentos

  • 7

    Prefcio Em 2009, a escritora e romancista Nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, proferiu uma palestra no TED Global intitulada The dangers of a single story (Os perigos de uma nica histria). Nesta exposio ela aborda os problemas decorrentes da universalizao de uma viso fechada e nica sobre deter-minada realidade. Focando no exemplo do continente africano, ela mostra como existe a necessidade de nos abstrairmos da viso do continente que o mergulha em catstrofes, guerras, pobreza e misria abrindo as nossas mentes e falando de histrias positivas. Ela conclui que impossvel enten-der correctamente um lugar ou uma pessoa sem perceber todas as diferentes histrias desse lugar ou pessoa. A consequncia de nos atermos apenas uma nica histria roubar a dignidade das pessoas. A histria nica torna o reconhecimento da nossa igualdade humana difcil e, enfatiza o quo dife-rentes somos em vez do quo similares somos (Adichie 2009).

    A percepo sobre prticas sexuais entre pessoas do mesmo sexo em fri-ca, ou melhor a constante enfse na sua inexistncia no continente, um exemplo de uma histria que se quer valer nica e por isso, perigosa. bas-tante difundida no continente a ideia de que a tais prticas so exognas frica e teriam resultado de contactos com povos estrangeiros. Uma anlise histrico-antropolgica impe-se como uma ferramenta importante para en-tender tais percepes e o processo de contruco de um dicurso (histria) nico sobre as prticas sexuais entre indivduos do mesmo sexo nessa parte do Mundo.

    Antroplogos e missionrios tiveram um papel central na documentao da diversidade sexual nos vrios quadrantes do Universo. No continente Africa-no, o trabalho destes demonstrou que as sociedades tendiam a dar extremo e colossal valor aos casamentos heterossexuais e reproduo. No entanto, prticas sexuais entre pessoas do mesmo sexo foram tambm identificadas em escritos datados de pocas to remotas quanto o sculo XVI (Epprecht 2008). Sir Richard Burton, gegrafo e explorador Britnico que viajou pela sia e frica, bastante interessado nas questes da sexualidade e do ertico, tradutor para Ingls de O Livro das Mil e Uma Noites e O Kama sutra; numa de suas obras, onde faz revista da sexualidade pelo mundo referencia um documento portugus datado de 1558 onde nota que a danao antinatu-ral` (um eufemismo para sexo entre homens) era estimada entre os Kongo (Burton in Epprecht 2008: 37). Andrew Battell que viveu entre os Imbangala

  • 8

    Estudos Homossexuais - 2012

    (actual Angola) na dcada de 1590 afirmou que eles tem tendncias de bestas na sua vivncia pois tem homens vestidos de mulheres que mantem entre as suas esposas(Battell in Purchas in Epprecht 2008: 37).

    Estes constituem parte de vrios relatos sobre prticas entre pessoas do mes-mo sexo. Estas prticas estavam tambm associadas a significados simbli-cos e rituais, assim como a medicina, estando associadas a prticas de cura (Estermann 1976, Matory 2003, Niehaus 2002). Os relatos dos missionrios, exploradores e antroplogos dessa poca decreviam na sua maioria rela-es sexuais entre homens pois constituiam muitas vezes o eixo de afronta ao padro heteronormativo que caracterizava os Ocidentais que os descre-viam. Literatura mais recente demostra tambm a existncia de relaes se-xuais e erticas entre mulheres africanas no contexto de profecias sobrena-turais, possesso de espritos, jogos sexuais, experimentao e ralaxamento (Estermann 1976).

    No entanto, um silncio se fez sentir em relao aos relatos sobre sexo entre pessoas do mesmo sexo a partir da poca da revolues industrial e cien-tfica (finais do sculo XVIII e incio do sculo XIX). Segundo Foucault, estas revolues transformaram as ideias sobre sexualidade, apropriao de certos papis de gnero e identidades. Como consequncia, as relaes entre pessoas do mesmo sexo que j eram tab na Europa (que na poca pr-in-dustrial eram consideradas pecado) tornaram-se sinnimos de defeitos de personalidade. Esta perspectiva foi consubstanciada por argumentos cien-tficos que construram o indivduo homessexual como desprezvel, a evitar e reprimir. Esta viso homofbica reforou e consolidou o sistema sexo/gnero que enfatizava a virilidade masculina e a domesticidade feminina de forma intrsnseca anatomia fsica (Epprecht 2008, Foucault 1990, Fry and MacRae 1983).

    A resenha analtica efectuada por Epprecht ilustra claramente como esta viso Ocidental sobre a sexualidade deu forma s percepes actuais sobre homossexualidade em frica. Epprecheat afirma que a redefinio da sexu-alidade ocorrida no contexto das revolues passou a reconhecer a existn-cia de uma pequena poro de pessoas que nasceriam homossexuais. No entanto, a homossexualidade seria anmala natureza e consequentemente alimentada por influncia humana. Para que tal influncia ocorresse tal so-ciedade deveria ser civilizada e, para colmatar (peferencialmente eliminar) a homossexualidade deveriam existir mecanismos morais rigorosos, uma

  • 9

    educao severa por parte dos pais e, uma intervena por parte do Estado para combater tendncias no-naturais. A frica e os Africanos figuravam na viso dos Ocidentais dessa poca como primitivos. Esta viso precon-ceituosa remetia frica proximidade com a natureza e opunha a civi-lizao. Assim no se previa que africanos apresentassem traos socias ou comportamentos resultantes de um aperfeioamento e sofisticao cultural. Neste sentido, as expectativas em relao sexualidade dos Africanos era de que ela se construa volta da heterossexualidade (supostamente natu-ral) e estes no possuam diversidade sexual (ou mesmo emoes como o amor). A expanso Europeia pelo interior do continente solidificou a ideia de que os Africanos no possuam prticas sexuais entre pessoas do mes-mo sexo, principalmente atravs dos escritos dos missionrios Cristos e oficiais coloniais que enfatisavam a brbara falta de controle do instinto heterosexual em frica. Na verdade os missionrios possuiam um sem n-mero de imoralidades heterossexuais em frica com que se preocupar: poliginia, casamentos infantis, casamentos com recompensas em cabeas de gado, cortes genitais femininos, herana da viva, purificao da viva, entre outros (Epprecht 2008 38-41).

    Assim iniciou o processo de consolidao da nica histria sobre a prticas sexuais entre pessoas do mesmo sexo em frica. Com as independncias no continente a partir da dcada 1960, os novos Estados definiram-se em vrios aspectos em oposio as vises preconceituosas dos colonos Ociden-tais em relao aos Africanos. Surpreendentemente, em relao a viso da sexualidade Africana, de forma generalizada o continente prosseguiu com a construco colonial da naturalizao e exclusividade da heterossexualida-de em frica. Diferentes Estados optaram por diferentes nveis de expresso e regulamentao da homossexualidade. Nos casos do Zimbabwe e Nam-bia por exemplo, os seus lderes Robert Mugabe e Sam Njoma expressaram claramente vises anti-homossexualidade, definido-a como uma importa-o do Ocidente que polua e se transformava numa ameaa aos valores patriarcais percebidos como endgenos e definidores da cultura e valores dessas Naes. Assim nestes Estados a homossexualidade criminalizada. O caso do Uganda que em 2009, agudizou as penas para crimes de homos-sexualidade, atravs da Ugandan Homosexuality Bill, para penas que vo da priso perptua pena de morte constitui um dos exemplos mais gritantes no continente. A frica do Sul o nico pas Africano onde os casamentos entre pessoas do mesmo sexo so permitidos legalmente a partir do Civil

  • 10

    Estudos Homossexuais - 2012

    Union Act de 2006. Outros pases, como o caso de Moambique, no pos-suem impedimentos explcitos na sua legislao sobre a homosexualidade tendo uma Constituio que rege direitos iguais para todos os cidados mas, por exemplo no caso concreto de Moambique no aceite o registo legal da associao de gays, lsbicas, bisexuais e transexuais.

    A pandemia do HIV e SIDA em frica constiti outro exemplo de conso-lidao da histria nica de inexistncia de relaes

Recommended

View more >