ESTUDOS EXPLORATRIOS SOBRE EDUCAO DO CAMPO: ABORDAGENS PARA O ENSINO DE GEOGRAFIA NA ESCOLA DO CAMPO E ESTAO DE CINCIAS MARGARETE CRUZ PEREIRA

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    UNIVERSIDADE FEDERAL DO ESPRITO SANTO - UFES

    CENTRO DE EDUCAO - CE

    DEPARTAMENTO DE EDUCAO, POLTICA E SOCIEDADE DEPS

    CURSO DE GEOGRAFIA

    ANDERSON EDER CALIL DOS SANTOS

    AQUILES ALCANTARA VIEIRA FIDELES

    DBORA HOLZ

    WALLACE LOYOLA MACHADO

    ESTUDOS EXPLORATRIOS SOBRE EDUCAO DO CAMPO:

    ABORDAGENS PARA O ENSINO DE GEOGRAFIA NA ESCOLA DO

    CAMPO E ESTAO DE CINCIAS MARGARETE CRUZ PEREIRA

    VITRIA

    2015

  • 1

    ANDERSON EDER CALIL DOS SANTOS

    AQUILES ALCANTARA VIEIRA FIDELES

    DBORA HOLZ

    WALLACE LOYOLA MACHADO

    ESTUDOS EXPLORATRIOS SOBRE EDUCAO DO CAMPO:

    ABORDAGENS PARA O ENSINO DE GEOGRAFIA NA ESCOLA DO

    CAMPO DE CARIACICA E ESTAO DE CINCIAS MARGARETE

    CRUZ PEREIRA

    Trabalho de concluso de curso apresentado ao

    Departamento de Educao, Poltica e Sociedade, Centro de

    Educao, da Universidade Federal do Esprito Santo, como

    requisito parcial para obteno do grau de licenciatura plena

    em Geografia.

    Orientadora: Prof Dr. Patrcia Gomes Rufino Andrade.

    VITRIA

    2015

  • 2

    ANDERSON EDER CALIL DOS SANTOS

    AQUILES ALCANTARA VIEIRA FIDELES

    DBORA HOLZ

    WALLACE LOYOLA MACHADO

    ESTUDOS EXPLORATRIOS SOBRE EDUCAO DO CAMPO:

    ABORDAGENS PARA O ENSINO DE GEOGRAFIA NA ESCOLA DO

    CAMPO E ESTAO CINCIAS MARGARETE CRUZ PEREIRA

    BANCA EXAMINADORA

    __________________________________________

    Prof Dr Patrcia Gomes Rufino de Andrade

    Universidade Federal do Esprito Santo

    Orientadora

    __________________________________________

    Prof Esp. Vasty Veruska Rodrigues Ferraz

    Mestranda do IFES

    ___________________________________________

    Prof Dr Dbora Monteiro do Amaral

    Professora da Licenciatura em Educao do campo/UFES

    Vitria, junho de 2015

  • 3

    AGRADECIMENTOS

    Eu, Anderson Eder Calil dos Santos, agradeo a Deus por me conceder este

    privilgio de poder estar juntamente com meus amigos Aquiles, Dbora e Wallace

    realizando este trabalho cientfico que tem enriquecido muito minhas ideologias no

    campo educacional. Tambm quero agradecer a minha me que me incentivou a

    frequentar a escola, mesmo com muitas dificuldades devido grande quantidade de

    filhos e uma remunerao baixa. Aproveitando o ensejo, tambm quero agradecer a

    minha esposa que sempre tem me ajudado, tendo compreenso nos momentos que

    precisei estar ausente realizando as atividades da Universidade. Agradeo aos

    professores que nos auxiliaram na elaborao do Trabalho de Concluso de Curso,

    como, o professor Doutor Vilmar Jos Borges, que me deu dicas e incentivo nas

    horas de desnimo, tambm ao professor Doutor Soler Gonzles que contribuiu com

    seu saber e nos apresentou uma bibliografia que havia explorado a regio e a escola

    no qual realizamos a pesquisa e principalmente a professora Doutora Patrcia

    Gomes Rufino de Andrade que foi nossa orientadora e nos auxiliou sempre que

    precisvamos de suas orientaes, nos dando dicas, nos atendendo em vrios

    momentos na universidade, online e pelo telefone e sempre que precisvamos

    durante essa longa jornada que trabalhamos juntos na realizao deste trabalho.

    Quero fazer meno ao professor Adilson Paula de Oliveira da escola Margarete

    Cruz Pereira que nos recepcionou sempre com boa vontade desde o incio que nos

    apresentamos na escola para realizarmos nossas pesquisas. Desejo tambm

    agradecer aos meus amigos Ricardo, Anderson Belmiro, Odair, Filipe, Jeorgiel,

    Arlete e principalmente o meu amigo Jobson juntamente com sua esposa que tem

    me incentivado muito no decorrer dessa jornada acadmica. Sou grato tambm a

    Prefeitura Municipal de Cariacica, em especial a Secretaria Municipal de Educao

    juntamente com a Professora Veruska que nos concedeu o acesso a pesquisa na

    Escola do Campo de Cariacica, tambm a todos os docentes do Curso de Geografia

    da Universidade Federal do Esprito Santo que contriburam no meu

    desenvolvimento intelectual, que com certeza serei eternamente grato a todos. E por

    ltimo a Estao de Cincia Margarete Cruz Pereira, os alunos, professores, a

    diretora e a pedagoga que nos recebeu bem.

  • 4

    Eu, Aquiles Alcantara Vieira Fideles, os meus sinceros agradecimentos a todos

    aqueles que de alguma forma doaram um pouco de si para que a concluso de um

    sonho se tornasse possvel. Agradeo a Deus pela excelncia e soberania que me

    permitiu a realizao deste sonho que a concluso desse curso de Licenciatura em

    Geografia. Gostaria de agradecer a todos os professores que contriburam para

    minha formao no decorrer do curso. Todos tiveram um papel muito importante

    para minha formao profissional em especial o professor Vilmar Borges que esteve

    sempre me apoiando e mostrando que eu era capaz de realizar minhas pesquisas e

    que elas seriam muito importantes para minha formao. Em especial a Professora

    Doutora Patrcia Rufino de Andrade, por toda orientao e conselhos, se mostrando

    sempre disposta a nos auxiliar a qualquer hora, sempre nos estimulando e

    orientando em meio as duvidas e dificuldades. Ao Professor Adilson de Paula

    Oliveira, por ter permitido e abrindo mo de suas aulas para que estivssemos

    executando nossa atividade com os alunos, alm de nos dar grandes

    esclarecimentos sobre a funcionalidade da escola. A Diretora, bem como toda a

    Equipe Pedaggica da Escola do Campo e Estao de Cincias Margarete Cruz

    Pereira por terem me permitido vivenciar e caracterizar a escola durante a realizao

    das atividades pedaggicas. Os alunos da Escola do Campo e Estao de Cincias

    Margarete Cruz Pereira por todo respeito e companheirismo durante as atividades.

    E claro aos meus familiares e amigos de poca e a todos os amigos que conquistei

    ao longo de minha trajetria na Universidade, que acompanharam no dia-a-dia, nos

    desafios e sempre estiveram do meu lado, me apoiaram e me incentivaram para que

    eu conseguisse alcanar este objetivo que a graduao em Geografia. No

    poderia deixar de citar meu saudoso pai e minha me que nunca desistiram de me

    dar uma boa educao para que eu pudesse alcanar meu objetivo maior.

    Eu, Dbora Holz, agradeo primeiramente a Deus que me deu a toda a capacidade

    e permitiu este momento em minha vida, de concluir minha graduao de

    Licenciatura em Geografia. Aos meus pais e a minha irm que ao longo de todo este

    percurso foram meus portos seguros e meus incentivadores nos momentos mais

    difceis. A meus tios que de certa forma foram colaboradores em tornar meu sonho

    de graduar na Universidade Federal do Esprito Santo uma realidade. A todos os

    professores que ao longo do curso deixaram suas marcas e ensinamentos.

    Ensinaram o valor de ser professor e a gratificao da profisso quando de fato nos

  • 5

    empenhamos por exerc-la. A orientadora e todos os colaboradores deste Trabalho

    de Concluso de Curso. Aos amigos que me acompanharam nessa jornada, pelos

    bons momentos que passamos juntos. Aos meus colegas Anderson, Aquiles e

    Wallace pela importncia de cada um para concluso deste trabalho. Tambm

    agradeo pelas dificuldades, os espinhos e as pedras encontradas no meio desse

    caminhar, responsveis por fazer de mim uma pessoa ainda mais forte.

    Eu Wallace Loyola Machado, ao concluir esse trabalho, me recordo de algumas

    pessoas que foram importantes na concretizao dessa conquista, seja com

    contribuio direta ou indireta. Agradeo a Deus pela minha vida, por ter me dado

    foras para chegar at aqui e por me sustentar a cada dia. A todos da minha famlia

    que me incentivaram de alguma forma, em especial aos mais prximos: Edivaldo

    (pai), por ter me dado estrutura para me tornar o que sou hoje; Elza (madrasta) por

    me encorajar a prosseguir nessa caminhada e por sempre orar por mim; as minhas

    irms Eliane e Grazielle, com as quais compartilhei momentos de alegria e tristeza;

    s sobrinhas Ana e Isabela pela alegria contagiante. No poderia deixar de

    mencionar minha me (Celina) in memorian, que dedicou a sua vida aos cuidados

    de seus filhos, a quem serei eternamente grato; minha tia (Terclia) in memorian

    que era como uma segunda me, que sempre me incentivava mesmo durante o

    tempo em que esteve enferma. A minha orientadora professora Doutora Patrcia

    Gomes Rufino de Andrade, pelo empenho dedicado elaborao desse trabalho,

    pela disponibilidade de tempo, pela compreenso e pacincia nos momentos difceis

    quando eu no sabia nem por onde comear, se mostrando uma excelente

    profissional. Ao Professor Doutor Soler Gonzles por ter indicado alguns referenciais

    tericos para a elaborao do trabalho. A Prefeitura Municipal de Cariacica, em

    especial Secretaria Municipal de Educao, que nos permitiu realizar o trabalho na

    Escola do Campo e Estao de Cincias Margarete Cruz Pereira. Ao Professor

    Adilson Paula de Oliveira, que nos recepcionou muito bem na Escola do Campo e

    Estao de Cincias Margarete Cruz Pereira, e demonstrou interesse em ajudar com

    informaes para enriquecer o trabalho. A todos os colegas de turma, especialmente

    ao Anderson, Aquiles e a Dbora por dividirem esses momentos nesse percurso

    onde houve tantas dificuldades. Aos docentes do curso de Geografia que no

    decorrer do curso contriburam diretamente na minha formao. A todos os de

    servidores da Universidade Federal do Esprito Santo. Universidade Federal do

  • 6

    Esprito Santo, pela oportunidade de realizar o curso de Geografia em uma

    instituio gratuita. No caberia nesse espao, caso fosse citar um a um os nomes

    de todos os que me ajudaram nesse percurso. Portanto os que so meus amigos

    sintam-se agradecidos.

  • 7

    RESUMO

    Trata-se de um estudo sobre a Educao do campo, sujeitos que necessitam de

    uma formao adequada a sua realidade, dessa forma, o objetivo foi contribuir no

    processo metodolgico das escolas do campo a partir da compreenso do espao

    educativo da Escola do Campo e Estao de Cincias Margarete Cruz Pereira,

    localizada no Municpio de Cariacica ES, e reconhecer as possibilidades

    pedaggicas em conformidade com as realidades e a cultura local. A metodologia

    utilizada foi visita de campo, revises bibliogrficas e realizao de atividades

    pedaggicas atravs de audiovisuais, questionrio e massinha de modelar com os

    alunos do 7 ano do ensino fundamental com o propsito de inserir o aluno como

    protagonista dos contedos geogrficos. O trabalho se estruturou em trs captulos

    que comentam sobre o campo da nossa pesquisa; um breve histrico sobre as

    escolas do campo e a atividade pedaggica utilizada. Dos resultados obtidos foram

    o interesse despertado nos alunos pelo contedo a partir da atividade pedaggica

    aplicada e o conhecimento construdo.

    Palavras-chave: Educao do Campo. Ensino de Geografia. Escola do Campo.

    Prticas Pedaggicas.

  • 8

    ABSTRACT

    needs raised to understand the methods used in geographic content in

    It is a study on education field, subject in need of proper training your reality,

    therefore, the objective was to contribute to the methodological process of the

    schools of the field from the understanding of the educational space of the School of

    Field and Station Margarete Sciences Cruz Pereira, in the municipality of Cariacica -

    ES, and recognize the pedagogical possibilities in accordance with the realities and

    the local culture. The methodology used was the field visit, reviews and conducting

    educational activities through audiovisual, questionnaire and clay modeling with the

    students of the 7th grade of elementary school in order to enter the student as the

    protagonist of geographic content. The work is structured in three chapters

    commenting on the field of our research; a brief history about the schools of the field

    and the educational activity used. The results were the interest aroused in students

    the content from the pedagogical activity applied and built knowledge

    Keywords: Rural Education. Geography Teaching. School Field. Pedagogical

    Practices.

    lity, proposing different methodologies adapted to the curriculum practiced at school.

    Remember that the location of the school in this municipality was essential, so we

    could have access to it and performing this study researching the reality of the school

    and from that built the possibilities to be left closer to our urban reality. Therefore, we

    prepared a brief history of the creation of the field educational institution, promoting a

    dialogue between theoretical frameworks and methodologies used in schools, and

    we made some reflections on them. We realized through this work education field,

    the realities and every day of the students and the knowledge brought by them are

    neglected by teachers during classes and also that the practice of valuing livings and

    their knowledge were not being maintained. We know the reality of the students

    through the school census and an activity where they worked with their dreams for

    the future, through the Geography education related to the field and the city. We had

    the opportunity to experience new experiences during the development of this work,

    sin the methodologies used in the same as well, the reflections with theoretical refe

  • 9

    LISTA DE FIGURAS E GRFICOS

    Figura 01 Localizao da Escola do Campo e Estao de Cincias Margarete

    Cruz Pereira..........................................................................................................

    19

    Figura 02 Percorrendo os caminhos para a Escola do Campo ......................... 37

    Figura 03 Vista prxima a Escola do Campo.................................................... 38

    Figura 04 Alunos enfileirados para que pudessem ser direcionados para a

    sala de aula ..........................................................................................................

    39

    Figura 05 Desenhos criados pelos alunos representando os sonhos de cada

    um .........................................................................................................................

    53

    Figura 06 Os alunos expondo seus desenhos representando seus sonhos

    ...............................................................................................................................

    54

    Grfico 01 Relao de cor dos alunos do 7 ano da Escola do Campo ............ 41

    Grfico 02 Desejo futuro de residncia dos alunos do 7 ano .......................... 49

    Grfico 03 Sonhos das futuras profisses dos alunos do 7 ano ...................... 50

    ..

  • 10

    SUMRIO

    RESUMO

    SOBRE A PROPOSTA DE ESTUDO ............................................................... 11

    ACERCA DOS PRIMEIROS PASSOS ............................................................. 14

    CAPTULO 1 ..................................................................................................... 17

    APROXIMAES COM O CAMPO DE PESQUISA ........................................ 17

    CAPTULO 2 ..................................................................................................... 21

    PERCORRENDO OS CAMINHOS DA EDUCAO DO CAMPO .................. 21

    2.1 MARCOS TERICOS: ESTUDOS GEOGRFICOS NO CAMPO.

    ANALOGIAS E CONSTRUES .....................................................................

    23

    CAPTULO 3 ..................................................................................................... 33

    TECENDO SABERES GEOGRAFICOS ATRAVS DE REALIDADES E

    COTIDIANOS ....................................................................................................

    33

    3.1 MTODOS UTILIZADO............................................................................... 34

    3.2 VIVENCIAS E APRENDENCIAS: ANDANAS A CAMINHO DA

    ESTAO CINCIAS .......................................................................................

    36

    3.3 A RECEPO............................................................................................. 39

    3.4 CENSO ESCOLAR, OS ALUNOS COMO OBJETO DE ESTUDO..............

    3.5 CRIANDO SEUS PRPRIOS SONHOS NO PAPEL ANTES DELES SE

    TORNAREM REALIDADES ..............................................................................

    46

    51

    CONSIDERAES FINAIS .............................................................................. 56

    REFERNCIAS BIBLIOGRFICAS ................................................................. 58

  • 11

    SOBRE A PROPOSTA DE ESTUDO

    Nos dias de hoje, busca-se em cada instante novos debates a respeito de questes

    voltadas para projetos polticos pedaggicos diferenciados e isso ocorre em todos os

    campos do sistema educacional do pas. Com o auxilio de (TANCREDI, 1998),

    identificamos que necessrio para o desenvolvimento do cidado, uma educao e

    um ensino de qualidade que corresponda com a realidade e as vivncias de cada

    aluno, portanto, estas questes deveriam ser levadas em considerao na

    elaborao dos projetos polticos pedaggicos.

    Na mentalidade atual da sociedade brasileira, grande maioria dos cursos de

    formao de docentes voltada para ensino de realidades urbanas, portanto, os

    profissionais da educao acabam tendo uma formao restrita que dificulta o

    trabalho com outras realidades, por exemplo, com a educao do campo, que busca

    vislumbrar as necessidades reais de educao da populao campesina.

    Essa forma de ensino do docente prejudica o professor por no incluir no processo

    de aprendizagem o cotidiano e as vivncias dos alunos, os saberes que estes

    trazem para a sala de aula, o que, de grosso modo indica, que este professor

    leciona nas realidades do campo, porm no est apto para atuar com diferentes

    grupos em um contexto totalmente diferente do que foi preparado.

    Esta formao, voltada para realidades urbanas, gera nos alunos que estudam no

    campo uma problemtica, pois a referncia o professor, e este no tendo a mesma

    vivncia muitas vezes no consegue contextualizar o ensino da disciplina como

    parte do cotidiano dos alunos. Segundo o Ministrio da Educao (2015), em seu

    currculo de criao do curso de Licenciatura em Educao do Campo, a proposta

    de reconhecimento e a valorizao das diversidades das populaes do campo

    necessitam de uma formao diferenciada de professores em que se apresentem

    possibilidades de diferentes formas de organizao da escola, desde a

    contextualizao dos contedos s peculiaridades locais, a utilizao de prticas

    pedaggicas contextualizadas, da gesto democrtica, considerando participao

    efetiva dos sujeitos nos diferentes modelos pedaggicos. A proposta dessa nova

    escola do campo visa promoo e acesso aos bens econmicos, sociais e culturais,

  • 12

    pois so demandas que requerem aes norteadoras e um desenvolvimento

    socialmente justo em que considerem as diversidades dos espaos campesinos

    ambientalmente sustentveis.

    Essas observaes iniciais so importantes porque visam contribuir nesse processo

    de estudo e pesquisa com a melhoria do ensino oferecido nas escolas do campo,

    em especfico com a proposta da Escola do Campo e Estao de Cincias

    Margarete Cruz Pereira em que nos debruamos para entender a proposta

    curricular do ensino de Geografia. Nesta proposta buscamos explorar os aspectos

    naturais, sociais e culturais que esto presentes no cotidiano do aluno, fazendo

    inicialmente um reconhecimento do entorno, como um grande campo de estudos

    que podem e devem ser trabalhados pelo professor de geografia no dia a dia,

    inserindo o aluno como sujeito no processo de ensino e aprendizagem possibilitando

    maior entendimento e interesse por parte dos alunos aos contedos de Geografia.

    Dessa forma, nosso objetivo foi compreender o Ensino de Geografia na Escola do

    Campo e Estao de Cincias Margarete Cruz Pereira, buscando identificar

    possibilidades pedaggicas que dialoguem com a proposta educacional do campo.

    Alm disso, buscamos tambm em um movimento colaborativo propor metodologias

    diferenciadas para que sejam contextualizadas com currculos praticados.

    A metodologia utilizada para realizao deste estudo foi levantamento bibliogrfico,

    visita de campo na escola, atividades pedaggicas que a deixassem mais prxima

    do cotidiano dos alunos. Portanto, a localizao da Escola do Campo no Bairro de

    Alto Roda Dgua, no Municpio de Cariacica, foi fundamental para que pudssemos

    ter acesso mesma, devido a sua proximidade com a Universidade e concretizar o

    nosso estudo.

    No decorrer deste trabalho estaremos construindo coletivamente com os alunos

    prticas que possibilite a qualificao do ensino de Geografia, relacionado s

    escolas do campo, nesse sentido, trataremos da compreenso da pedagogia da

    Escola do Campo e Estao de Cincias Margarete Cruz Pereira visando aprimorar

    tais prticas para maior compreenso dos contedos de Geografia.

    No captulo I, discorremos sobre um breve histrico do desenvolvimento da Escola

    do Campo e Estao de Cincias Margarete Cruz Pereira. No captulo II

  • 13

    trabalhamos um pouco mais nossas referncias tericas, o histrico e metodologias

    pedaggicas nas escolas do campo. No captulo III abordamos as atividades

    pedaggicas desenvolvidas nessa escola e faremos algumas reflexes sobre o

    tema. Desejamos que no currculo de todas as escolas do campo sejam introduzidos

    novos conhecimentos contextualizando as mltiplas leituras de mundo necessrias

    ao homem do campo e os diferentes contextos trabalhados em sala de aula. A

    proposta de aprender aqui neste trabalho de concluso de curso se d como uma

    via de mo dupla em que a partir das realidades que nos propusemos investigar,

    possamos nos formar ainda mais, mesmo que os percursos escolhidos sejam muito

    sacrificados, difceis at de entendermos, mas vimos nesse tema possibilidades de

    conhecermos um pouco mais da realidade deste fluxo, que se encontra em outro

    lugar, ou ainda, nas linhas de fronteira ou ainda numa especificidade urbano/campo.

    a partir da compreenso dessa realidade que vimos nos orientando a pensar

    juntos possibilidades para o ensino de Geografia.

  • 14

    ACERCA DOS PRIMEIROS PASSOS

    A pesquisa foi iniciada a partir de uma visita na escola, momento em que pudemos

    conhecer a estrutura fsica, observar a rotina, conhecer os sujeitos que participam do

    seu cotidiano e o projeto poltico pedaggico da escola. Tivemos a oportunidade de

    ter um dilogo inicial com o professor de Geografia, o momento possibilitou troca de

    experincias, a possibilidade de conhecer como so ministradas as aulas de

    Geografia na Escola do Campo e quais as prticas do campo so inseridas dentro

    do contexto escolar.

    Buscamos referenciais tericos que nos ajudassem na compreenso do estudo da

    educao do campo, pautadas nos ensinamentos de PAULO FREIRE (1968),

    MORAES (2007), ARAJO (2008) entre outros. Alm dos livros e artigos, utilizamos

    recursos como a internet e relatos de pessoas que conhecem ou tem algum

    envolvimento com a escola do campo.

    No desenvolvimento do estudo inclumos ao texto algumas falas, alguns sujeitos que

    compem a trajetria da nossa pesquisa, os alunos, os professores, a pedagoga, a

    diretora e a comunidade. Buscamos ouvir essas pessoas para compreender o

    processo educativo nessa escola, para o ensino da Geografia, as prticas

    pedaggicas, a importncia dessa escola na vida dessas pessoas, enfim, esses

    dilogos, foram sendo utilizados como base ao longo do texto e indicativas dos

    caminhos que tomamos.

    A metodologia utilizada envolvendo pesquisas tericas e saberes trazido dos que

    vivenciam a educao do campo foi importante para a elaborao da nossa proposta

    pedaggica, pois, atravs da compreenso do processo educativo da escola do

    campo e da didtica utilizada nas aulas de geografia pudemos contribuir com maior

    eficcia nas atividades pedaggicas.

    Considerando as diferentes formas de organizao espacial, distinguimos as de

    maior expressividade, o campo e a cidade. Cada uma delas tem uma forma e funo

    de organizao que apresentam particularidades. O modo de vida, os valores

    culturais, a relao com o meio so algumas das condies que as diferem.

    pensando nessas particularidades que ponderamos tambm na forma diferenciada

  • 15

    que se devem tratar as polticas educacionais a fim de favorecer as populaes que

    vivem no e do campo.

    No processo histrico por muito tempo a sociedade sobreviveu econmica, cultural e

    cotidianamente agrria, portanto, a escola surge nesse meio. A partir da

    consolidao das reas urbanas o foco da sociedade muda de rumo, as atividades

    urbanas passam a ter maior valor, consequentemente educao passa a ser

    voltada e priorizada para as pessoas que vivem nas reas urbanas.

    Nos primrdios da colonizao at a proclamao da repblica a economia brasileira foi predominante agrria assim a educao iniciou-se no meio rural em virtude das pessoas viverem no campo. Porm, a partir da formao das cidades, a educao passou a ser ministrada na escola. Com a nova organizao escolar, a educao rural foi perdendo espao e diminuindo de importncia. As propostas de educao e de formao de professores passaram a ser elaboradas tanto para os centros urbanos quanto para o campo. (NETO e BEZERRA, 2011, p.19)

    O autor aponta como se excluem as particularidades do processo de elaborao de

    polticas pedaggicas bem como a formao do docente. Ainda em relao ao

    processo da industrializao e intensificao urbana, (BEZERRA, 2011), comenta

    que na dcada de 1990, a conjuntura passava a exigir trabalhadores com outros

    tipos de conhecimentos, pois somente o manejo da enxada no respondia mais s

    exigncias da produo no campo.

    Isto , o prprio processo histrico da educao teve contribuies que

    desvalorizassem os saberes e as necessidades do ensino do campo. Ao longo das

    nossas experincias, percebemos que o processo de ensino e aprendizagem dos

    contedos escolares dificilmente contextualizado ao cotidiano dos alunos em

    especial ao ensino da Geografia, cincia que contribui para compreenso das

    relaes do ser com o meio. Considerando que o pas concentra uma populao do

    campo de 29.830.007 de habitantes (dados do IBGE, censo 2010), o campo tem

    grande expressividade para a formao do espao brasileiro. Portanto, percebemos

    a necessidade de contribuir com uma proposta metodolgica que oferecesse como

    subsdio para docentes que iro lecionar em escolas do campo como uma forma

    ainda mais proveitosa de explorar os contedos de Geografia nessas escolas de

    uma maneira a ser uma formao contextualizada entre escola e cotidiano dos

    alunos que vivem no campo. Entretanto, no podemos deixar que o contedo da

  • 16

    Geografia seja tratado de forma isolada, dicotmica como se estivssemos falando

    em dois mundos um urbano e um no campo, isso dificultaria a compreenso dos

    alunos da realidade em sua totalidade, portanto, devemos valorizar o ambiente, a

    cultura local a vivncia que o aluno possui e assim, buscar articulao com outras

    realidades envolvendo o saber prtico e o saber cientfico.

    Portanto, um dos argumentos que justificam a elaborao deste trabalho contribuir

    com o rompimento da forma tradicional, individual quem vem sendo trabalhado os

    contedos de Geografia por alguns professores, ao esquecer que os alunos tambm

    trazem bagagens de saberes e conhecimentos. Para incentivar a participao da

    comunidade, e desta forma, concordando com (BEZERRA, 2011), no sentido de

    entender que a comunidade deve ser trazida para a escola com o intuito de fornecer

    aos alunos a vivncia cotidiana e desta forma, possvel que todos participem do

    desenvolvimento da escola, na elaborao de materiais didticos, e no processo de

    ensino aprendizagem.

  • 17

    CAPITULO I

    APROXIMAES COM O CAMPO DE PESQUISA

    Nossa pesquisa est concentrada na Rede Educacional do Municpio de Cariacica,

    regio metropolitana da Grande Vitria, mais precisamente no Bairro Alto Roda

    Dgua, a Escola do Campo e Estao de Cincias Margarete Cruz Pereira.

    Segundo (RAMOS, 2013):

    a mdia e a opinio pblica associam Cariacica como terra Clandestina, com graves problemas de violncia social, construindo historicamente esses discursos como verdade, desconsiderando e apagando as potencialidades locais.

    Sabemos, entretanto, que muito difcil quebrar esses postulados construdos ao

    longo do tempo. E esse sentimento negativo atinge os moradores do municpio, que

    se esquecem da sua riqueza cultural, entre outras, fazendo com que os mesmos se

    desvalorizem e deixem de acreditar em possibilidades de melhorias, dessa forma

    refletindo tambm para a educao.

    Portanto, nos ltimos anos, o municpio tem apostado em aes educativas que

    buscam dialogar politicamente com o atual contexto histrico comprometido com

    outros olhares (RAMOS, 2013). Como por exemplo, pensar em metodologias

    pedaggicas que possam fazer com que os alunos reflitam e tenham novas

    percepes crticas sobre o lugar onde vivem.

    Uma das formas de aes educativas a incluso de artefatos culturais nas redes

    escolares, desta forma valorizando as manifestaes culturais e as participaes

    sociais. Buscamos ento o contexto sociocultural no qual a Escola do Campo e

    Estao de Cincias Margarete Cruz Pereira est inserida, na regio do campo onde

    a cultura local destaca a singularidade do carnaval de congo de mscaras que

    acontece anualmente na regio de Roda Dgua, alm das bandas de congo.

  • 18

    De acordo com o Projeto Poltico Pedaggico da escola (2011), o funcionamento da

    escola do campo nessa localidade importante para o municpio, pois, Cariacica

    embora inserida na regio metropolitana, ainda conserva traos marcantes de uma

    cidade desenvolvida a partir de um contexto do campo.

    De acordo com as informaes do Censo de 2010 cerca de 96,82% da populao de Cariacica reside na zona urbana do municpio e apenas 3,18% da populao reside no campo, e, em contrapartida, 54% do territrio do municpio formado pelo rural (PROJETO POLITICO PEDAGGICO 2011, p.5).

    De acordo com as informaes dispostas em seu Projeto Poltico Pedaggico (2011)

    a Escola do Campo e Estao de Cincias Margarete Cruz Pereira foi instituda para

    ofertar a educao bsica do ensino fundamental anos finais (6 a 9 anos),

    populao que habita em reas do campo neste municpio, alm de atualmente

    acolher os alunos das regies urbanas do seu entorno. Portanto, comeou a

    funcionar a partir de 2011, e se apoia na concepo da pedagogia crtico-social.

    Este sistema tem como didtica aplicar as teorias aprendidas atravs do ensino

    prtico no campo, alm disso, desenvolver uma troca de saberes entre os

    professores e alunos nas aulas prticas (PROJETO POLTICO PEDAGGICO,

    2011).

    A escola possui como componente curricular as disciplinas de Histria, Ensino

    Religioso, Matemtica, Ingls, Geografia, Cincias, Artes, Educao Fsica, Lngua

    Portuguesa, ou seja, possui uma grade curricular normal como as outras escolas,

    entretanto, so distribudas em um tempo integral de 08 h s 16 h. Pela manh os

    alunos tm aulas dentro da sala de aula e em uma parte da tarde os professores

    trabalham projetos, oficinas que em algumas vezes so multidisciplinares. Contm

    um corpo docente de nove profissionais, ou seja, um para cada disciplina de acordo

    com sua formao.

    Em relao ao ensino da Geografia a escola do campo trabalha as noes e

    conceitos relativos ao espao geogrfico em toda a sua abrangncia, concernentes

    aos diferentes anos do segundo segmento do Ensino Fundamental, relacionando-os

    s questes da vida no campo, aos movimentos sociais inerentes e a fatores como:

  • 19

    desenvolvimento sustentvel no campo, empreendedorismo e desenvolvimento

    profissional (PROJETO POLITICO PEDAGGICO, 2011).

    Da localizao da escola a unidade est lotada na comunidade de Alto Roda

    Dgua, em Cariacica ES (figura 01), numa propriedade pertencente Rede

    Municipal de Educao. A propriedade possui 503.430, 24 m de rea territorial e era

    conhecida como Stio Giriquitua. Esta rea situa-se entre a reserva Biolgica de

    Duas Bocas e o Monte Mochuara, a altitude aproximada de 500 m. O local possui

    um relevo acidentado e grande parte de seu espao territorial coberto por floresta,

    bioma da mata atlntica de altitude. A Escola do Campo est ligada ao centro

    urbano por dois trajetos de acesso tanto por Roda Dgua como pelo vale Mochuara

    e ambos possuem parte desse percurso de 9 km sem pavimentao asfltica ou

    calamento apresentado dificuldades de acesso, principalmente nos dias chuvosos.

    (PROJETO POLITICO PEDAGGICO, 2011).

    Figura 01: Localizao da Escola do Campo e Estao de Cincias Margarete Cruz

    Pereira

    Fonte: Base cartogrfica do GEOBASES e informaes do google earth, elaborado por SILVANO, M. L. L., (2015).

    Nas delimitaes territoriais da propriedade, existem espaos que so utilizados

    para cultivo de caf e frutferas como limo, banana, jaca, jambo, goiaba entre

  • 20

    outras, alm de reas de pastagem. Conta ainda com dois reservatrios de gua,

    uma nascente e um mirante. A Estao de Cincias que funciona no mesmo espao

    ocupado pela escola, possui um dos mais modernos observatrios do estado.

    Das dependncias fsicas a escola apresenta trs salas no pavimento superior e

    uma sala no pavimento inferior; secretaria; sala de professores, vestirio feminino e

    masculino; refeitrio; cozinha; quadra poliesportiva; ptio coberto; galinheiro; horta

    mandala; horta orgnica; piscina; guarita dos vigilantes; laboratrio de informtica;

    prdio de observatrio; e espao de leitura. (PROJETO POLITICO PEDAGGICO,

    2011).

  • 21

    CAPTULO II

    PERCORRENDO OS CAMINHOS DA EDUCAO DO CAMPO

    Neste captulo discutiremos o histrico da Educao do Campo, a fim de pensar o

    campo e seus sujeitos como responsveis pelo desejo de mudana e de uma maior

    insero destes no cotidiano escolar.

    De 1920 a 1935 os pedagogos passaram a discutir as bases educacionais

    brasileiras e essas discusses proporcionaram um otimismo pedaggico em relao

    ao sistema educacional (SANTOS, 2013, p.48). Para os professores no haveria

    nenhuma outra forma de combater as desigualdades sociais no Brasil se no fosse

    atravs da educao, por isso exigiam do Governo brasileiro maiores investimentos

    na educao.

    A educao rural no Brasil analisada desde o sculo 19, tendo como aspectos

    centrais a trajetria da escola pblica nesse meio, j a educao do campo a

    discusso recente, data a partir de 1998 (MOLINA, FREITAS, 2008, p. 169). Aps

    muitas lutas dos camponeses, eles receberam o direito jurdico de ter investimentos

    de pelo menos vinte por cento da renda cedida pela Unio para a educao do

    campo. (ALVES e MAGALHES, 2008, p.80).

    Artigo. 156. A Unio, os Estados e Municpios aplicaro nunca menos de dez por cento e o Distrito federal nunca menos de vinte por cento da renda resultante dos impostos na manuteno e no desenvolvimento dos sistemas educativos. Pargrafo nico. Para realizao do ensino nas zonas rurais, a Unio reservar no mnimo vinte por cento das cotas destinadas educao no respectivo oramento anual. (CONSTITUIO FEDERAL, 1988).

    A populao do campo foi conquistando lentamente a incluso no sistema

    educacional brasileiro, com muita luta, fruto de intensas movimentaes dos

    agricultores sem terra que somente a partir de 1933, viu iniciada a campanha de

    alfabetizao. (PAIVA, 1987, apud SANTOS, 2013).

    A Educao no Campo est vinculada a luta social que dialoga com os seus

    diferentes sujeitos. Nasce das diversas prticas educativas desenvolvidas no campo,

  • 22

    ou seja, nas escolas do campo se deve estudar para se viver no campo, se preparar

    coletivamente para enfrentar os problemas que existem no campo (MOLINA e

    FREITAS, 2008 p. 170).

    A conquista dos trabalhadores Sem Terras, indgenas e das comunidades

    quilombolas no sistema de alfabetizao foi lenta, porm importante, pois estes

    grupos vivem excludos da sociedade brasileira. Estes povos estavam sem direitos

    polticos mesmo sendo cidados brasileiros, eles no usufruam dos direitos que

    todos os brasileiros necessitam ter, inclusive o direito de alfabetizao.

    (HAESBAERT, 2011, pg. 251).

    De acordo (SANTOS, 2013, p.50), a partir de 1980 diversos grupos comearam a

    lutar pelos direitos sociais, sobretudo os povos do campo: os quilombolas,

    indgenas, os Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), que tinha como ideologia

    principal conquistar o direito de uso da terra, alm do acesso educao para a

    populao situada no campo.

    A partir dos anos de 1996, o cenrio da educao do campo comea a mudar, pois

    foi sancionada a LDB 9394, que inseriu desta vez a populao do campo ao sistema

    de educao vigente at o presente momento. As diretrizes que esto voltadas para

    a educao do campo so tratadas no Artigo 28 com os seguintes parmetros (LEI

    DE DIRETRIZES E BASES DA EDUCAO NACIONAL, 1996).

    Artigo 28. Na oferta da educao bsica para a populao rural, os sistemas de ensino promovero as adaptaes necessrias sua adequao, s peculiaridades da vida rural e de cada regio, especialmente

    Contedos curriculares e metodologias s reais necessidades e interesses dos alunos da zona rural;

    Organizao escolar prpria, incluindo a adequao do calendrio escolar as fases do ciclo agrcola e condies climticas;

    A adequao natureza do trabalho na zona rural;

    importante salientar que as diretrizes que esto no artigo 28 da LDB que tratam

    exclusivamente da educao do campo, passaram a ter um modelo de educao

    dentro das suas reais condies de vida, porm sem interferir nos contedos que

    todo aluno precisa para o desenvolvimento intelectual.

  • 23

    A educao do campo foi se desenvolvendo pouco a pouco, logo aps a grande

    conquista da LDB 9396, que aconteceu em 1998. Nessa I Conferncia Nacional Por

    uma educao do Campo CNEC foram tratados assuntos relacionados s

    melhorias no sistema educacional voltada aos camponeses. Durante aquela ocasio

    os integrantes da conferncia chegaram concluso que deveria ser feita uma

    proposta pedaggica que inclusse a educao (do campo) no sistema nacional de

    educao pblica, pois outrora os camponeses estavam excludos desse sistema de

    educao.

    No ano de 2004, aconteceu a II CNEC. Durante a conferncia os movimentos

    sociais exigiam do Governo Federal a universalizao da educao do campo e o

    acesso dos estudantes as universidades pblicas, alm de investimento para a

    formao de educadores especficos para atuarem nas escolas do campo (SANTOS

    2013). Por causa das reinvindicaes dos movimentos sociais, o governo brasileiro,

    aos poucos, atendeu algumas delas.

    O progresso da educao do campo foi acontecendo vagarosamente em 2010. A

    instaurao, por exemplo, da resoluo CNE/CEB n. 7/2010, instaura as diretrizes

    curriculares nacionais para o ensino fundamental e ratifica a educao do campo

    como modalidade de educao (BRASIL. CNE, 2010 apud SANTOS, 2013). A partir

    desse momento, ficou definido nas diretrizes curriculares, que os alunos do campo

    deveriam aprender contedos que pudessem auxilia-los no que realmente precisam

    para aplicar no campo (SANTOS, 2013, p.55).

    2.1 MARCOS TERICOS: ESTUDOS GEOGRFICOS NO CAMPO: ANALOGIAS E

    CONSTRUES

    A educao rural sempre existiu, entretanto, a maioria da populao camponesa era

    analfabeta, porm, durante o perodo da ditadura militar a manifestao dos

    camponeses em direito a terra e a educao passou a preocupar o governo. Nesse

    perodo o governo passou a utilizar a educao para frear as manifestaes dos

    camponeses. (ALVES e MAGALHAES, 2011).

  • 24

    Assim, para conter as manifestaes dos trabalhadores do campo, o governo

    apelava para o sistema educacional e devido esta presso governamental os

    professores foram limitados nas propostas que eram direcionadas pelo sistema de

    educao. Logo, os educadores eram quase que obrigados a formar na mente dos

    estudantes do campo uma ideologia pautada no nacionalismo. Esta imposio era

    to real, que o educador tinha uma funo ideolgica claramente definida, ou seja,

    criar uma ideologia patritica e nacionalista (STRANFORENE 2004, apud ALVES e

    MAGALHAES, 2011)

    A Geografia do campo limitou-se a chamada Geografia Tradicional que se apoiava

    nos fundamentos Positivistas (MORAES, 2007). Portanto, o mtodo de ensino da

    Geografia, pautava-se em mera observao e induo que caracterizava a

    Geografia como uma cincia emprica. Esta metodologia estava alicerada em uma

    mxima desgastada dessa corrente Positivista, que trabalhava com a observao do

    real, ou seja, dos lugares palpveis, visveis e medidos. Sendo assim, o aprendizado

    do aluno ficava restrito ao ato de simplesmente decorar lugares, mapas e

    informaes, o que fazia do ensino geogrfico um mero formalismo intelectual na

    formao dos alunos.

    A Geografia passa a tomar uma nova direo atravs do movimento de renovao

    do pensamento geogrfico, que ficou conhecido como Geografia Crtica. Esta

    corrente promoveu uma ruptura com a Geografia Tradicional. (MORAES, 2007,

    p.119), pois, a Geografia Crtica emergiu-se pela insatisfao que tinha com o

    mtodo da Geografia Positivista e por isso props uma nova concepo para que a

    geografia fosse trabalhada.

    Os autores da Geografia Crtica se posicionavam em favor de uma Geografia que

    lutasse pela transformao da realidade social, nesse caso seria atravs de uma

    Geografia que pudesse batalhar por uma sociedade mais igualitria. Os pensadores

    da Geografia Crtica tinham a disciplina como uma ferramenta que pudesse

    proporcionar libertao ao homem (MORAES, 2007).

    A partir desse momento o ensino da Geografia passa a explorar as concepes da

    Geografia Crtica. Em funo disso o papel do professor passa a ter destaque para

    os estudantes no campo, pois, nesse caso o educador no mais forma um aluno que

  • 25

    decora as matrias, mas passa formar cidados que pensam e interagem durante as

    aulas fazendo perguntas, criticando, propondo prticas metodolgicas do ensino e

    contribuindo para construir novos saberes.

    A Geografia de suma importncia para o desenvolvimento dos alunos do campo,

    porque atravs dela podem-se trabalhar assuntos que esto diretamente

    relacionados s causas do campo, como por exemplo: a luta do Movimento Sem

    Terra, dos quilombolas, do uso intensivo dos agrotxicos, da pecuria intensiva e

    extensiva, da questo rural e urbana, da globalizao, etc. Sendo assim, fica claro

    que a Geografia proporciona debates infindveis nas salas de aula entre os alunos

    tanto do campo como da cidade.

    De acordo com as Diretrizes Curriculares para Educao do Campo organizadas

    pela Secretaria de Educao do Estado do Esprito Santo (2010).

    Art. 16 A educao do campo que ocorre nos diferentes nveis e modalidades de educao tem por objetivos:

    I - a valorizao da cultura campesina em sua relao dialtica com o contexto nacional e/ou global;

    II - a afirmao da realidade e dos saberes campesinos;

    III - a compreenso da organicidade dos conhecimentos historicamente produzidos pela humanidade;

    IV - o fortalecimento de uma relao dialgica entre escola e comunidade;

    V - a oferta de uma educao voltada para a emancipao dos sujeitos e para a transformao social.

    Nas diretrizes curriculares constam que o ensino de Geografia fundamental na

    escola do campo, pois cabe a esta matria levar o aluno a pensar no mais como

    um ser alienado, mas construir o conhecimento crtico, ou seja, que no para, mas

    que vive sempre se modificando ao longo do tempo de acordo com as mudanas

    que ocorrem no espao.

    O sistema de educao do campo foi criado visando melhorias para uma populao

    oprimida e rejeitada, que durante muitas dcadas foi deixada de lado pelas

    autoridades do Brasil. Esta opresso que sofreram os mais desfavorecidos quase

  • 26

    sempre atribuda ao destino, s foras irremovveis, ou a uma viso de que a

    opresso uma vontade de Deus (FREIRE, 1987). O pior que a opresso que vive

    o campons se d atravs de interpretaes equivocadas e superficiais, porm a

    realidade que esta fatalidade uma consequncia de uma situao histrica e

    sociolgica (FREIRE, 1987), pois sabemos que a explorao do campons no Brasil

    comeou desde o perodo colonial e se estende at o presente momento. No

    entanto, a libertao s ocorre quando os oprimidos descobrem o opressor e lutam

    por sua libertao (FREIRE, 1987). Por isso que a incluso no sistema de educao

    do campo foi conquistada atravs de muitas lutas contra os opressores dos poderes

    polticos e econmicos.

    .O modelo pedaggico educativo para os estudantes do campo tem como

    metodologia A Pedagogia da Alternncia, ou seja, um modelo que propicia a

    alternncia dos tempos educativos, um perodo na escola, com as atividades

    desenvolvidas com tarefas vivenciadas na rotina do cultivo da produo agrcola, e

    outro perodo nas comunidades de origem dos estudantes, procurando dialogar o

    conhecimento construdo na escola na prtica diria atravs atividades no campo.

    Nesse processo, os alunos participam nas escolas em dias diferenciados e

    continuam os trabalhos em suas prprias propriedades. O objetivo pedaggico em

    utilizar a Pedagogia da Alternncia est no dilogo dos saberes tericos com os

    prticos. Por isso, de acordo com (GIARNODOLI, 1980, apud JESUS, 2011, pg. 69).

    [...] A alternncia permite que os contedos de ensino da Escola Famlia sejam verdadeiramente vinculados ao meio de vida dos alunos. [...] da a importncia dada ao dilogo entre alunos e monitores. No tanto para que estes proporcionem dados e respostas, mas para que crie um ambiente interrogador, inconformista.

    O modelo didtico estabelecido pela educao do campo pretende formar alunos

    que possam receber uma educao diferenciada, em que predomine uma

    concepo de conhecimento cientfico e emprico, ou seja, atravs da construo do

    conhecimento dos professores com os alunos.

    As escolas do campo tambm trabalham pela promoo do ensino, conforme a

    proposta da Pedagogia Crtica Social dos contedos que visa uma preparao

    educacional, propondo que os contedos trabalhados pelos educadores possam

  • 27

    desenvolver uma mentalidade crtica para a mudana da sociedade. (AZEVEDO,

    BELGANO e MAGALHES, 2013) Este modelo valoriza as potencialidades

    intelectuais que os alunos juntamente com o auxilio dos professores podem alcanar

    (AZEVEDO, BELGANO e MAGALHES, 2013). Portanto, o objetivo da escola com

    esse modelo pedaggico formar pessoas capazes de ajudar a transformar a

    sociedade por intermdio do conhecimento crtico e reflexivo.

    De acordo com o professor de geografia da Escola do Campo e Estao de Cincias

    Margarete Cruz Pereira, o modelo Pedaggico da Alternncia no vivenciado no

    dia a dia da rotina dos alunos, pois a princpio este modelo seria adotado como

    consta na proposta pedaggica da escola, porm a escola no utiliza mais.

    Nas aulas no campo as disciplinas podem se mesclarem, pois os professores de

    Biologia e Geografia podem explorar conceitos da matria que se encaixam nas

    mesmas disciplinas, como por exemplo: o ecossistema do local e a vida inserida

    naquele ecossistema. A Geografia uma matria privilegiada para desenvolver

    suas temticas no campo, porque j explora as aulas de campo em sua grade

    curricular. O professor da disciplina da escola citada acima, disse que j vem

    explorando esta oportunidade, trabalhando com seus alunos numa trilha at o

    mirante que est situado em um monte na escola e l aborda os temas das

    disciplinas da Geografia como: Geologia, Geografia Rural, Geopedologia e

    Climatologia. A Matemtica, a Fsica e a Qumica podem ser tambm ministradas no

    campo, ou seja, o professor pode criar um mtodo de trabalho com eltrica,

    mecnica, com medidas, com os componentes qumicos da terra, explorando o

    espao que a escola tem.

    O docente da escola disse que tem motivado os alunos a plantarem hortas e a

    criarem alguns animais na escola, com o trabalho na horta h o intuito de mostrar

    que o campo produz alimentos sadios, isto , sem o uso dos produtos qumicos que

    as indstrias utilizam para produzir alimentos para os consumidores da zona urbana.

    Durante as trs visitas realizadas na escola, pudemos observar que os alunos

    adoram estudar naquele ambiente, eles at dizem que adorariam se formar e voltar

    para o campo. Em um determinado momento achamos cmico, quando um deles

  • 28

    afirmou, que agora no seria mais necessrio sair do campo no futuro, pois,

    atualmente pode-se viver no campo tendo um meio de transporte automotivo.

    No perodo que estvamos realizando a pesquisa na escola, tivemos o privilgio de

    presenciar a realidade de vida dos alunos que estudam no campo, suas dificuldades,

    suas habilidades, seus sentimentos em relao vida no campo. Alm dos alunos,

    observamos como os docentes amam trabalhar na escola, tambm foi uma

    oportunidade de enxergar a educao fora do padro urbano que estamos

    acostumados a ver.

    De acordo com (MOLINA, 2011), a educao do campo teve inicio das lutas de

    classes dos camponeses e atravs disso tem por objetivo uma sociedade mais

    igualitria, ela funciona como uma resposta dos trabalhadores do campo em relao

    s desapropriaes ocorridas nas propriedades que a eles pertenciam.

    O campo deve ser visto mais do que um territrio, onde as famlias que ali residem

    possuem uma identidade com o lugar, e atravs disso tem a necessidade de uma

    viso mais ampla, por parte dos governantes, gerando investimentos para a

    construo de escolas, para que os jovens tenham como estudar a realidade local e

    se manterem no ambiente em que se identificam. Algumas pessoas das grandes

    cidades tem a viso do campo como meros produtores de alimentos, ou at mesmo

    um lugar sossegado para passar um final de semana, entretanto o campo local de

    produo de vida.

    (...) a Educao do Campo compreende os processos culturais, as estratgias de socializao e as relaes de trabalho vividas pelos sujeitos do campo em suas lutas cotidianas para manterem essa identidade como elementos essenciais de seu processo formativo. O acesso ao conhecimento e a garantia do direito escolarizao para os sujeitos do campo fazem parte dessas lutas. (MOLINA, 2011, p.19).

    Algumas escolas no campo possuem profissionais da rea da educao que no

    esto devidamente licenciados em educao do campo, pois se graduaram para

    atuarem em instituies de ensino urbanas.

    Paralelamente campo ,

    (...) lugar de vida, onde as pessoas podem morar, trabalhar, estudar com dignidade de quem tem o seu lugar, a sua identidade cultural. O campo no s o lugar da produo agropecuria e agroindustrial, do latifndio e da

  • 29

    grilagem de terra. O campo espao e territrio dos camponeses e dos quilombolas (...). (FERNANDES et al., 2004 apud SOUZA,p.6, 2008).

    Os discentes do campo necessitam de uma educao de qualidade voltada para sua

    realidade, abordando temas concernentes com o cotidiano deles, bem como os

    parmetros educacionais estabelecidos para os alunos do meio urbano acrescido,

    com as particularidades do campo. Por outro lado, os alunos estaro sendo

    preparados para o mercado de trabalho no campo, que necessita de mo de obra

    qualificada.

    No campo existe uma grande necessidade de escolas que atravs do que

    ensinado, possam trazer aos alunos a oportunidade de realizar experincias do que

    estudado em sala de aula, ou seja, os alunos podero ter a oportunidade de

    aprender a teoria e pratic-las no seu dia a dia.

    A emergncia da educao do campo caracteriza-se pela ausncia e experincia. a ausncia de escola, de professor com formao consistente para o trabalho nas escolas localizadas nos assentamentos; ausncia de tcnico-agrcola; ausncia de professores. Da ausncia, na ao do movimento social, emerge a experincia do Instituto Tcnico de Capacitao e Pesquisa da Reforma Agrria (ITERRA), da Pedagogia da Terra, da Educao de Jovens e Adultos, da Ciranda Infantil etc. Ausncia e experincia desencadeiam uma prtica afirmativa da educao do campo, reafirmada nos encontros estaduais, nacionais e conferncias sobre educao do campo. (SOUZA, p.7, 2008)

    A Instituio de ensino no campo possui grande relevncia para que os alunos

    possam se qualificar e obter uma renda atravs do seu prprio trabalho no campo,

    pois com o avano das tecnologias as oportunidades de trabalho se tornam

    menores, mas os alunos que estiverem qualificados tero maiores oportunidades de

    desenvolvimento financeiro, dessa forma, permanecendo no campo.

    De uma maneira geral, as definies elaboradas sobre o campo e a cidade podem ser relacionadas a duas grandes abordagens: a dicotmica e a de continuum. Na primeira, o campo pensado como meio social distinto que se ope a cidade. Ou seja, a nfase recai sobre as diferenas existentes entre os espaos. Na segunda, defende-se que o avano do processo de urbanizao responsvel por mudanas significativas na sociedade em geral, atingindo tambm o espao rural e aproximando-o da realidade urbana. (MARQUES, 2001, apud ARAUJO, p.3, 2008).

  • 30

    Com o advento das melhorias dos meios de transporte, a distncia entre o campo e

    a cidade se torna menor o que pode favorecer ainda mais para que ocorram

    migraes dos moradores do campo para os centros urbanos, locais que possuem

    melhores empregos e remuneraes, alm de possurem grandes centros comercias

    que atraem os jovens ao procurar por entretenimento [...] o auge da migrao

    campo-cidade ocorrida entre as dcadas de 1970 e 1980 (MONTEIRO, 2004, apud

    ARAJO, p.8, 2008).

    [...] a partir dos anos 1970, comea a ocorrer um novo funcionamento dos seus centros urbanos, em decorrncia das transformaes no campo, da industrializao planejada e das inovaes tecnolgicas impostas economia regional, o que levou a projeo de alguns centros econmicos (SOARES, 1997, apud ARAJO, p.9, 2008).

    Por outro lado, um dos fatores possveis para pensarmos essa nova condio do

    campo seria a necessidade de investimentos por parte do poder pblico para que os

    centros urbanos no subtraiam trabalhadores que realizam esse papel da produo

    de alimentos de grande importncia para toda populao. Entendemos que a escola

    fundamental para a formao dos alunos para que os mesmos contribuam para o

    desenvolvimento do campo.

    Alm disso, se faz necessrios investimentos em infraestrutura, estradas, rodovias

    para facilitar o acesso ao campo, bem como o escoamento de mercadorias

    produzidas no campo para a cidade, sendo assim de uma forma planejada

    estabelecendo conexes entre o campo e a cidade. A esse respeito encontramos a

    seguinte colocao:

    [...] no atual perodo tcnico, a compreenso do rural e do urbano no se restringe mais a uma cidade e seu campo imediato. As relaes possuem uma amplitude maior e devem ser pensadas no conjunto da rede urbana. Assim, o modo de vida urbano estende-se at os limites geogrficos alcanados pelos interesses, aes e contedos presentes nas cidades. (ENDLICH, apud ARAJO, p.11, 2008).

    Um dos fatores primordiais para o fortalecimento dessas escolas de formao para

    os alunos do campo, que se o campo se tornar irrelevante para os estudantes e se

    houver uma grande migrao para as cidades em um determinado momento poder

    ocorrer uma reduo no quantitativo da produo de alimentos e consequentemente

  • 31

    o desabastecimento das grandes cidades, concomitantemente com o aumento dos

    preos dos mesmos.

    So dessas concepes que carecem as crianas campesinas, pois, o aluno

    necessita conhecer melhor o espao em que vive, ou seja, o seu meio de trabalho, e

    assim compreender a diferenciao entre o urbano e o campo, descobrindo a

    verdadeira identidade das pessoas do campo atravs de estudos culturais para que

    estes possam valorizar suas origens e dar continuidade aos trabalhos que realizam.

    Esse movimento descontnuo prev tambm uma relao orgnica de sustentao,

    identificada como sustentabilidade, pois,

    Se h um movimento de unificao urbano-rural pela lgica capitalista, como acreditamos, com certo sentido de equalizao do espao, h, por outro lado, muitas manifestaes de resistncia a essa equalizao pretensamente homogeneizadora, que se traduzem por estratgias de sobrevivncia das famlias rurais, principalmente daqueles mais pobres e/ou empobrecidas no movimento de integrao acima referido, quando buscam manter ou (re) construir suas identidades territoriais. (RUA, 2006, apud

    ARAJO, p.16, 2008).

    Essa sustentabilidade visa o desenvolvimento do campo sem que ocorra a

    degradao do meio ambiente, sendo assim, o campo se desenvolve para que os

    trabalhadores consigam realizar seus trabalhos de forma a suprir as demandas

    necessrias sem agredir de forma brusca o meio ambiente, tais tcnicas so

    oriundas dos estudos sobre tcnicas alcanados pelos trabalhadores atravs das

    disciplinas ministradas nas escolas do campo que ensinam ao aluno a respeitar a

    natureza.

    O conceito de desenvolvimento sustentvel tem dimenses ambientais, econmicas, sociais, polticas e culturais, o que necessariamente traduz vrias preocupaes: com o presente e o futuro das pessoas; com a produo e o consumo de bens e servios; com as necessidades bsicas de subsistncia; com os recursos naturais e o equilbrio ecossistmico; com as prticas decisrias e a distribuio de poder e com os valores pessoais e a cultura. O conceito abrangente e integral e, necessariamente, distinto, quando aplicado s diversas formaes sociais e realidades histricas (...). A reduo da pobreza, a satisfao das necessidades bsicas e a melhoria da populao, o resgate da equidade e o estabelecimento de uma forma de governo que garanta a participao social nas decises so condies essenciais para que o processo de desenvolvimento seja julgado como sustentvel (JARA, 1998, apud SOARES, p.6, 2008).

  • 32

    Para que os discentes possam conhecer melhor a comunidade onde vivem,

    poderiam ser propostas atividades que conduzam a essa percepo. Uma proposta

    interessante que nos veio ao planejarmos o presente trabalho, foi propor aos alunos

    a realizao de um censo, em que os entrevistados responderam um questionrio

    contendo: a idade, a cor, o sexo, o local de moradia dos alunos conhecendo os

    sujeitos do campo. Salienta-se a prtica do censo:

    Um desse censo revelou a capacidade da escola e dos alunos conhecerem o lugar, a sua comunidade, a olhar para o territrio com outros olhos. Com uma viso de futuro, com um projeto municipal de desenvolvimento, os educandos vo se sentindo autores, co-responsveis pela produo do conhecimento.

    Diagnosticando a potencialidade da comunidade, constroem a sua identidade e a do seu territrio. Passam a assumir outra postura diante dos desafios descobertos. Passam a se sentirem com possibilidade de intervirem na comunidade, a partir de um conhecimento novo e inovador, que geraram com seus familiares e educadores. Passaram a entender a importncia do conhecimento, da leitura, da matemtica, da Geografia, da comunicao, da informtica, da arte, para melhor desdobrarem o seu conhecimento e intervir na comunidade (MOURA, 2003, apud SOARES, p.16, 2008).

    Aps a leitura de (SOARES, 2008), muito importante conhecermos as percepes

    dos alunos deixando-os produzirem grficos para exemplificarem de forma visual os

    resultados obtidos atravs das pesquisas, alm de fortalecer o conhecimento do

    mesmo, ensinando a entender e valorizar a identidade cultural dos habitantes

    daquela localidade e ainda abrir as portas da escola para que a comunidade possa

    tomar conhecimento dos resultados dos trabalhos obtidos pelos estudantes.

  • 33

    CAPTULO III

    METODOLOGIA DO TRABALHO: TECENDO SABERES GEOGRFICOS

    ATRAVS DE REALIDADES E COTIDIANOS

    No captulo anterior apresentamos um breve histrico de como a educao do

    campo se desenvolveu no Brasil, quais os modelos que normalmente as escolas do

    campo costumam aderir como proposta pedaggica de ensino. Tambm

    comentamos como o ensino de Geografia vem sendo construdo ao longo do tempo

    nas escolas do campo e quais as contribuies tem dado, principalmente atravs da

    Geografia Crtica que faz com que os alunos desenvolvam um pensamento crtico

    reflexivo.

    O presente captulo tem como objetivo mostrar como foram desenvolvidas algumas

    atividades com os alunos do stimo ano do ensino fundamental da Escola do Campo

    e Estao de Cincias Margarete Cruz Pereira no Municpio de Cariacica no Esprito

    Santo.

    Este trabalho foi inspirado pelo fato de alguns alunos do grupo ser do campo, onde

    vivenciaram muitos problemas durante toda a vida escolar. A escolha da realizao

    deste trabalho na Escola do campo se deu como a busca por uma alternativa para a

    melhoria do ensino/aprendizagem dos alunos que vivenciam e habitam estes

    espaos do campo. Inspirados em (LIMA, 2005), podemos afirmar que os

    trabalhadores do campo j so pouco valorizados perante a sociedade, e a melhoria

    da qualidade do ensino tende a contribuir para uma maior valorizao

    social/profissional. Ainda seguindo o mesmo autor, podemos afirmar que a

    qualificao a parte indissocivel das polticas de trabalho, emprego e renda,

    sejam elas urbanas ou rurais; pblicas ou privadas; resultem em relaes

    assalariadas, empreendedoras, individuais ou solidrias.

    Como alunos concluintes do curso de licenciatura em Geografia, optamos por

    pesquisar como a Geografia vem sendo aplicada, e como se trabalhar com a

    identidade local, a fim de se criar uma relao de pertencimento dos alunos com o

  • 34

    local onde vivem e estudam, pois sabemos que o professor de Geografia tem um

    papel muito importante no processo de formao dos indivduos.

    A Geografia assim como as outras cincias contribui para a educao do campo a

    partir de inter-relaes entre elas. Nesse sentido podemos afirmar que o bom

    professor de Geografia saber usufruir dessas relaes e aprimorar ainda mais suas

    aulas, pois o mesmo poder aproveitar diversos contedos j vistos em outras

    disciplinas e intercalar com o ensino de Geografia, assim como vrios autores e

    educadores como Paulo Freire, Maria Teresa Nidelcoff, Jos Carlos Libneo e

    outros j afirmaram.

    Ao se tratar de educao do campo, devemos pensar que o conhecimento que for

    construdo com o aluno pode servir de base para sua vida, ento conveniente o

    uso de um ensino contextualizado, onde ser possvel abordar diversos fatores que

    fazem parte do cotidiano desses alunos. No campo geogrfico as abordagens so

    inmeras, pois a Geografia se trabalha com os mais variados campos de pesquisa.

    Alguns aspectos que podem e devem ser trabalhado pelos professores so: relevo,

    clima, vegetao, cultura, relao campo x cidade, agricultura, agronegcio,

    geopedologia, globalizao, transportes, dentre vrios outros.

    A busca pela realizao deste trabalho foi justamente essa, pois vindo de escolas

    situadas no campo, por mais que com o ensino tradicional essas abordagens no

    eram aproveitadas em sala de aula, ento a proposta deste trabalho seria

    justamente identificar possveis fragilidades do ensino do campo para que

    posteriormente sejamos ns os profissionais do campo, e que possamos fazer

    diferente dos que j criticamos.

    3.1 MTODO UTILIZADO

    Para desenvolver nossas atividades a fim de obter xito optamos por escolher um

    mtodo que fizesse com que os alunos pudessem se interessar pelo contedo

    proposto, ento resolvemos trabalhar com recursos audiovisuais. Essa escolha se

  • 35

    deu ao simples fato do poder que as atividades contendo animaes possuem para

    prender a ateno dos adolescentes.

    Ento, visando um maior interesse e uma maior participao dos alunos, utilizamos

    um notebook e um data show para a apresentao de pequenos filmes e uma

    msica. Sabemos que o uso desses recursos exerce um papel muito importante na

    forma de nos comunicarmos, aprendermos e vivermos, com base nessa afirmao

    buscamos uma forma de inserir essa ferramenta em nosso trabalho, pois sabemos

    que estas ferramentas podem contribuir para um maior interesse da comunidade

    estudantil.

    Com base nisso escolhemos trabalhar esses materiais afim de no realizarmos uma

    aula tradicional e para que assim consigamos obter uma maior participao e

    colaborao dos alunos, pois a educao com uso destes recursos audiovisuais

    permite que se tenha discernimento ao realizar um trabalho educativo, por exemplo,

    a partir da experimentao do cinema de animao, este que possui, alm de

    produes permeadas por ideologias, uma gama de filmes ricos em temas

    geradores, em cultura, em fantasia, em criatividade e em diversos contedos

    escolares.

    Sob esse prisma, no se pode descaracterizar o cinema de animao como uma

    instncia pedaggica, que tambm agrega valores educacionais significativos, no

    sentido de contribuir para a construo do imaginrio e instituio de

    comportamentos e hbitos, servindo para [...] possibilitar o sonho, para o exerccio

    criativo e para a experincia de emocionar-se por meio dos elementos visuais e

    sonoros (NEVES, 2007, p. 103). Tambm uma forma de instigar a curiosidade,

    que pode gerar inquietaes e a busca por percepes. Conforme salienta o

    educador Paulo Freire (1996, p. 85) a construo ou a produo do conhecimento

    do objeto implica o exerccio da curiosidade. O educador consciente, com o olhar

    educado em relao aos artefatos miditicos, pode fazer do cinema de animao

    uma tima ferramenta para despertar a sensibilidade e a busca pelo saber em seus

    educandos.

    Assim confirmando o que foi frisado por Paulo Freire os alunos de fato ficaram

    curiosos e a principio no sabiam qual a relao dos vdeos com nossa proposta de

    trabalho, porm, quando comeamos a trabalhar alguns aspectos relacionados ao

  • 36

    mesmo e fomos jogando essas caractersticas para o dia a dia deles, as coisas

    foram tomando outro rumo e muitos comentrios e comparaes foram surgindo, a

    partir de ento com a turma um pouco mais ciente da nossa proposta de atividade

    ficou mais fcil executar nosso trabalho.

    As nossas atividades se iniciam com a realizao do trajeto que os alunos dessa

    escola costumam fazer todos os dias para ir as aulas. O segundo momento se deu

    atravs das realizaes das atividades em sala de aula, sendo que a primeira

    atividade foi transmisso de dois audiovisuais do Chico Bento, na segunda etapa

    fizemos a distribuio de um questionrio intitulado censo escolar (EM ANEXO)

    apropriado para os prprios alunos responderem, por ltimo realizamos com eles um

    trabalho com massinhas na qual os alunos pintaram seus prprios sonhos e

    respondendo se desejariam permanecer no campo ou irem para cidade.

    As atividades foram pensadas de acordo com os contedos de Geografia que

    estavam sendo abordados com as turmas. Para que pudssemos realizar as

    atividades pedaggicas entramos em contato com o professor de Geografia da

    escola e ele nos informou os contedos que estava sendo trabalhados com cada

    serie. A escolha do 7 ano foi em virtude dos temas censo demogrfico e a questo

    urbana e rural que melhor se adequou nossa discusso.

    .

    3.2 VIVNCIAS E APRENDNCIAS: ANDANAS A CAMINHO DA ESTAO

    CINCIAS

    Samos da Secretaria Municipal de Educao SEME localizada na Rua da laje

    N13 Itaquari Cariacica, em direo a Escola do Campo e Estao de Cincias

    Margarete Cruz Pereira, Roda Dgua, seguimos pelo bairro Itacib, passando pelo

    bairro Santana prximo paramos em Cariacica Sede, passamos em Roas Velhas

    prximo ao presdio, e tambm pelo Bairro Boca do Mato, e pelo Moxuara.

    Ao entrarmos na parte mais interiorana do Municpio de Cariacica o asfalto comea

    a dar lugar a uma estrada de cho batido, bastante esburacada com alguns

    desnveis, e diversas curvas. Alm disso, a estrada muito estreita o que dificulta o

    livre trnsito de veculos quando os mesmos esto em sentidos opostos, existem

  • 37

    poucas habitaes e uma bela paisagem, rodeada de vegetao fechada e relevo

    acidentado (figura 02).

    No alto da estrada que leva at a Escola do Campo e Estao de Cincias

    Margarete Cruz Pereira se consegue ver ao fundo as cidades onde se tem a

    percepo do contraste entre o campo e a cidade (figura 03).

    Figura 02- Percorrendo os caminhos para a Escola do Campo

    Fonte: arquivo dos pesquisadores, 2015

    A omisso do Poder Pblico para com as pessoas daquela comunidade foi um

    destaque, pois no investe em infraestrutura como exemplo a pavimentao

    asfltica de toda a estrada no percurso da escola, para que os alunos da mesma

    possam ter um acesso facilitado quela regio.

  • 38

    Figura 03- Vista prxima a Escola do Campo

    Fonte: arquivo dos pesquisadores, 2015.

    Percebemos que os alunos tm uma boa interao entre eles, brincam durante todo

    o percurso realizado pelo nibus, no existindo nenhum preconceito entre os alunos

    que residem na cidade em relao aos que moram no campo.

    Os professores tambm utilizam o transporte escolar para se locomoverem at a

    escola, pois uma regio de difcil acesso. Eles demonstravam ter interao com os

    alunos, que foi alcanada atravs do convvio dirio.

    Uma das situaes que mais nos chamou a ateno foi o fato do motorista ter

    aguardado os alunos que ainda no haviam chegado ao ponto de nibus. Como h

    uma grande distncia entre a casa dos alunos e a escola, ocorre uma cordialidade

    para que os mesmos no faltem s aulas.

    E importante frisar o fato ocorrido na visita anterior escola, em que a sala de aula

    ficou com menos alunos, em virtude do nibus que levava os alunos quebrar no

    meio do caminho, devido falta de manuteno permanente e a estrada em ms

    condies, o que acarreta em um desgaste maior das peas.

    Os alunos tiveram de esperar uma grande quantidade de tempo at que a Secretaria

    de Educao do Municpio de Cariacica enviasse outro nibus para que eles

  • 39

    prosseguissem com a viagem, o que acarretou na desistncia de diversos alunos em

    assistir as aulas naquele dia.

    O poder pblico deveria realizar maiores investimentos na aquisio de novos

    nibus bem como a manuteno permanente dos nibus j existentes, pois so

    vidas que esto sendo transportadas nos mesmos.

    3.3 A RECEPO

    Ao chegarmos escola, fomos muito bem atendidos por todos os funcionrios que j

    se faziam presentes, porm at o que o outro nibus que trazia os demais alunos

    chegasse, fomos fotografando as dependncias da escola para que pudssemos ter

    tambm o registro fotogrfico do espao que estaramos aplicando a atividade e

    consequentemente compreender como so geridas algumas delas. Aps a chegada

    do nibus os alunos se dirigiram ao refeitrio da escola onde seria feito o desjejum,

    uma espcie de caf da manh com muitas frutas e coisas tpicas do campo (suco

    de acerola, broa de milho, e banana). Em seguida os alunos fora encaminhados a

    quadra da escola, onde fizeram uma fila, onde cada professor ficaria na fila com os

    alunos de sua turma, e posteriormente encaminhavam turma por turma para sua

    respectiva sala.

    Quando os alunos j haviam iniciado o dia letivo, nos direcionamos at a sala dos

    professores e nos reunimos para que pudssemos conversar com os docentes

    sobre a metodologia que iramos utilizar e qual seria nossa proposta de atividade

    pedaggica. Visto que todos j estavam cientes que estaramos realizando tal

    atividade, no encontramos nenhum empecilho para que pudssemos estar

    realizando a mesma, neste momento a professora de Educao Artstica Pietra

    disse que nos acompanharia no decorrer das atividades e que ele estaria fazendo

    um relatrio do que estaria sendo desenvolvido na sala que estaramos, no caso a

    turma do 7 ano. Em seguida aguardamos o sinal tocar para que comeasse a

    segunda aula para que pudssemos fazer a atividade pedaggica. Neste momento

    nos chamou muita ateno foi a forma como o aviso sonoro que indica a troca

    dos professores, pois ao invs do tradicional sino, sirene ou campainha, a escola

  • 40

    adota o uso de msicas para que ocorram esses momentos. Quando ouvimos

    ficamos abismados com a novidade e em seguida a pedagoga Penha nos explicou

    que eles adotam o uso de msicas, pois os elementos sonoros convencionais so os

    mesmos adotados em presdios e eles queriam que os alunos no vissem a escola

    como uma cadeia, ou um lugar onde eles estivessem aprisionados, e sim como um

    ambiente propcio a prticas educativas e ao aprendizado.

    Figura 04 Alunos enfileirados para que pudessem ser direcionados para as salas

    de aula.

    Fonte: arquivo dos pesquisadores, 2015.

    Aps este relato da pedagoga, fomos para a sala de aula e a professora nos deu

    total liberdade para que conduzssemos as atividades conforme havamos planejado

    e que ela estaria ali apenas para nos dar o suporte para o que fosse necessrio.

    Com essa liberdade a ns concebida comeamos nos apresentando, onde falamos

    quem ramos e de onde vnhamos e qual era a importncia deste momento para

    ns, posteriormente explicamos a turma a nossa proposta de trabalho, onde

    surgiram algumas perguntas: Porque vocs escolheram a nossa escola? vocs

    moram na roa tambm? aps estas indagaes respondemos as dvidas e demos

    incio s atividades.

  • 41

    No primeiro momento falamos sobre as atividades que seriam realizadas, que

    naquele momento comearamos com a apresentao de dois vdeos de curta

    durao, que retrataria a vida no campo e a vida na cidade, e foi pedido para que os

    alunos prestassem bastante ateno no s na fala, mas em todos os aspectos

    representados nos vdeos (paisagem, cotidiano, cultura, economia, sociedade). Os

    alunos ficaram muito empolgados quando viram que os vdeos se tratavam de

    histrias do personagem Chico Bento, criado em 1961 pelo cartunista Mauricio de

    Souza, onde Chico um personagem conhecido pelas suas histrias em quadrinhos

    como uma representao visual, que gera formas de vermos a infncia no campo.

    Quando estvamos passando os vdeos todos os alunos ficaram muito atentos,

    mostrando total interesse no que assistiam e riam de algumas situaes que

    aconteciam na animao, alguns alunos j conheciam o episdio, e em alguns

    momentos narravam alguns fatos que estavam para acontecer.

    Ao trmino da apresentao dos vdeos tentamos deixar claro que nossa proposta

    pedaggica de trazer o personagem no tinha como finalidade menosprez-los ou

    algo semelhante. Apenas apresent-los como uma leitura do campo que pode ser

    realizado no sentido de observar o quanto nossa forma de olhar para este universo

    pode ser importante a partir deste tipo de animao.

    Quando estvamos comentando os vdeos tentamos explicar que atravs dele seria

    possvel que os alunos pensassem algumas caractersticas que representava o

    campo, e que algumas dessas caractersticas ou fatos ocorridos na animao

    poderia ser semelhantes ao cotidiano e a vida deles. Em seguida falamos um pouco

    sobre as principais diferenas entre o campo e a cidade, onde no espao campesino

    a vida se apresenta de forma muito pacata, onde parece no haver violncia, trfego

    de carros, correria das pessoas para cumprirem seus horrios e inmeros afazeres.

    Todos vivem em plena harmonia. A vida no campo apresentada como se o campo

    fosse apenas um lugar de sossego, tranquilo, sem todo o agito da vida na cidade,

    um lugar exemplar, com famlias unidas e felizes.

    As principais diferenas entre os espaos do campo e o urbano esto bem

    delineadas nas histrias vivenciadas por um personagem extremamente marcante:

    Zeca, mais conhecido como o Primo de Chico, que vive na cidade. Zeca

    apresentado por Mauricio de Souza como sendo um garoto esperto e que apresenta

  • 42

    uma linguagem de acordo com as normas gramaticais, que faz uso da tecnologia

    com apropriao. Uma fala de Zeca que chamou a ateno dos alunos foi ao entrar

    na casa de Chico ele fala assustado aihhh, vocs foram roubados?! E levaram tudo,

    micro-ondas, geladeira, liquidificador e s deixaram essas coisas velhas.

    Quando questionamos os alunos se a realidade deles era semelhante ao que foi

    apresentado no vdeo Chico Bento Na roa diferente a maioria dos alunos

    disseram que algumas coisas sim, porm na casa deles j haviam geladeira, fogo a

    gs e televiso, e alguns ainda citaram a presena de computadores e celulares.

    Em seguida pedimos aos alunos para que pudessem descrever quais eram as

    principais caractersticas do campo e da cidade, conforme foi relatado nos vdeos, e

    eles citaram que a vida no campo era mais tranquila, e que o ar era mais leve, os

    alimentos eram melhores. Uma fala que nos chamou a ateno foi a do aluno Lorran

    que ao questionarmos sobre as principais diferenas entre o campo e a cidade ele

    pontuou igual um p de mexerica que tem na minha casa que d umas mexericas

    desse tamanho (fazendo um gesto indicando o tamanho inferior ao das mexericas

    compradas nos supermercados) porque ns no usamos agrotxico nela s que ela

    tem muito mais sabor que as compradas, e tm umas que azeda virada o co,

    pequenininha e s tem a mesma cor, mas o gosto muito diferente em seguida a

    aluna Jhulie tambm argumentou um caso que todos concordaram igual o ovo

    aqui da roa e os da cidade, os daqui so mais amarelos e muito mais gostoso,

    aqueles de granja nem tem gosto de ovo, quando a gente frita, ele fica muito

    branco.

    Quando tentamos redirecionar os alunos a questes sobre os vdeos, eles se

    sentiram meio acuados para responder e quando perguntamos se eles no haviam

    entendido eles responderam no isso no! que estamos com vergonha

    mesmo. Aps essa fala tentamos direcionar as perguntas a alguns alunos que

    estavam participando mais das aulas, afim de que posteriormente os demais alunos

    comeassem a falar tambm. Ento perguntamos novamente a Jhulie e ela disse

    que morar na roa bom, mas que ela preferia morar na cidade, visto que o pai dela

    morador da cidade da Serra-ES, ento pedimos para que ela justificasse o porqu

    dessa opinio, e ela disse que morar na cidade melhor porque tem asfalto, lojas,

    carros, tem praias, tem mais pessoas e que a vida no campo muito mais parada

  • 43

    que a da cidade. Enquanto ela falava uns trs alunos a interromperam e comearam

    a citar as caractersticas da vida no campo e algumas caractersticas da cidade na

    cidade tem muito barulho, e na roa voc planta de tudo, tudo que voc quer comer

    e na cidade no, l voc tem que comprar tudo, ento aqui melhor neste contexto

    Joo Victor ainda acrescentou: aqui como a gente planta a comida a gente

    economiza mais que l, e nossa comida mais saudvel porque no tem veneno

    outra aluna completou na cidade pior porque o ar l pesado pois tem muita

    fumaa e leo, aqui no porque aqui quase no tem carro, e tem muita mata que

    deixa o ar mais leve que l.

    Visto que a maioria da turma j estava participando das observaes referentes aos

    vdeos apresentados, fizemos uma pergunta direcionada a todos os alunos, onde

    questionamos quais deles pretendiam morar no campo e quais pretendiam morar na

    cidade, e para nossa surpresa apenas dois alunos responderam que queriam morar

    na cidade e outro aluno disse que queria morar no campo, mas que teria que se

    mudar pra cidade para morar com a av. Ficamos surpresos, pois achvamos que

    grande parte dos alunos responderia que a vida na cidade mais atrativa, mas o

    que vimos foi uma histria totalmente diferente da que imaginvamos. Aps ouvir as

    respostas dos alunos falamos sobre a relao campo x cidade, pois por mais que

    paream ser dois mundos muito distantes, eles esto fortemente ligados um ao outro

    alm de possuir lies de sobrevivncias.

    Alm das questes ideolgicas, tambm possvel observar aspectos educacionais

    na personagem Chico Bento. Chico demonstra extrema adorao pela natureza e

    sempre se mostra cuidando desta, por exemplo, nas cenas dos desenhos animados

    j mencionados, quando se relaciona com os animais de seu stio, ele os trata com

    carinho, respeitando suas caractersticas e seus hbitos. Nos desenhos animados

    em que atua o campesino sempre se apresenta preocupado com a preservao do

    meio ambiente, tema constantemente tratado nas escolas.

    O homem do campo retratado em muitos casos como sendo um ser desprovido de

    conhecimento e que facilmente enganado, sendo ele um indivduo que vive em um

    local de estagnao perante o desenvolvimento econmico do Pas diante disso o

    caipira sempre foi retratado como o atraso do progresso, mas alguns autores

    defendem a ideia de que Mauricio de Souza descrevia seu personagem com

  • 44

    simplicidade, pois essa era a realidade do campons. Sobre Chico Bento Oliveira

    comenta que

    O simptico menino do interior paulista foi elevado categoria de objeto de estudo, pelo fato de despontar como uma unanimidade dentre os tericos dos quadrinhos nacionais [...] o Chico Bento permanece impvido, citao indefectvel quando o assunto brasilidade. Estranho poder, o desse menino.

    Alm da animao e dos filmes, a msica tambm uma produo cultural que

    participa diretamente em nossas vidas e em nosso dia a dia e claro que as msicas

    tambm acabam difundindo a ideia do campo como algo pacato alm de exaltar as

    qualidades e a importncia do homem do campo, como pode ser observado nas

    msicas: casinha branca Eu queria ter na vida simplesmente um lugar de mato

    verde, Pra plantar e pra colher, Ter uma casinha branca de varanda, Um quintal e

    uma janela Para ver o sol nascer, Eu queria ter na vida simplesmente, Um lugar de

    mato verde, Pra plantar e pra colher, Ter uma casinha branca de varanda, Um

    quintal e uma janela, Para ver o sol nascer. Outra msica que retrata bem isso

    Obrigado ao homem do campo de Dom e Ravel.

    Obrigado ao homem do campo

    Pelo leite o caf e o po

    Deus abenoe os braos que fazem

    O suado cultivo do cho.

    Obrigado ao homem do campo

    Pela carne, o arroz e feijo

    Os legumes, verduras e frutas

    E as ervas do nosso serto.

    Obrigado ao homem do campo

    Pela madeira da construo

    Pelo couro e os fios das roupas

    Que agasalham a nossa nao

    Pelo couro e os fios das roupas

    Que agasalham a nossa nao

  • 45

    Obrigado ao homem do campo

    O boiadeiro e o lavrador

    O patro que dirige a fazenda

    O irmo que dirige o trator.

    Obrigado ao homem do campo

    O estudante e o professor

    A quem fecunda o solo cansado

    Recuperando o antigo valor.

    Obrigado ao homem do campo

    Do oeste, do norte e do sul

    Sertanejo da pele queimada

    Do sol que brilha no cu azul

    Sertanejo da pele queimada

    Do sol que brilha no cu azul.

    E obrigado ao homem do campo

    Que deu a vida pelo Brasil

    Seus atletas, heris e soldados

    Que a santa terra j cobriu.

    Obrigado ao homem do campo

    Que ainda guarda com zelo a raiz

    Da cultura, da f, dos costumes

    E valores do nosso pas.

    Obrigado ao homem do campo

    Pela semeadura do cho

    E pela conservao do folclore

    Empunhando a viola na mo

    E pela conservao do folclore

    Empunhando a viola na mo.

    L r l, l r l, l r l...

  • 46

    3.4 CENSO ESCOLAR, OS ALUNOS COMO OBJETO DE ESTUDO

    Aps a concluso do primeiro momento demos incio segunda parte do nosso

    trabalho, onde, realizamos uma serie de perguntas para os alunos atravs de um

    questionrio onde os mesmos deveriam respond-lo e devolver para que nos

    pudssemos fazer uma anlise dos resultados.

    Na sala dos alunos que responderam aos questionrios so sete do sexo masculino

    e sete do sexo feminino, outro quesito que constava no referido censo a questo

    da cor que os mesmos se intitulavam, e dentre eles quatro alunos se declararam

    brancos, trs da cor preta, e sete da cor parda, nenhum deles se consideraram da

    etnia amarela ou indgena.

    No quesito moradia treze pessoas se declararam residentes no campo enquanto

    apenas um se declarou morador da cidade, e nenhum deles se declarou como

    portador de necessidades especiais.

    Solicitamos para que os mesmos acrescentassem no questionrio sobre o local de

    moradia que os mesmos desejariam para o futuro e algo que realmente nos

    impressionou foi quantidade de alunos que desejam continuar no campo do total

    nove pretendem continuar residindo no campo no futuro e apenas cinco tem como

    objetivo de morar na cidade.

    O campo tem atrado os alunos, dentre os fatores apresentados por eles

    permanecerem nele, devido, a tranquilidade que o mesmo demonstra, ou seja, no

    campo no tem trnsito pesado de veculos, o ndice de violncia e bem menor, do

    que na cidade, as pessoas mesmo em meio as crises tm como sobreviver e gerar

    seu prprio sustento atravs da terra o que nas cidades e bem mais difcil de

    conseguir, outro fator interessante e que atravs das tecnologias os moradores do

    campo possuem quase os mesmos padres das pessoas da cidade no que tange a

    eletrodomsticos, internet, eletrnicos, o que acaba facilitando a vida do morador do

    campo.

  • 47

    O ar que eles respiram no campo menos poludo o que pode ser de grande

    influencia para as pessoas que se preocupam com a sade, bem como tambm o

    consumo de produtos sem agrotxicos.

    Em contrapartida, um dos fatores que influencia para a deciso dos que optaram

    pela cidade e a falta de infraestrutura que existe no campo, como exemplo a falta de

    locais para o lazer nos tempos disponveis, a ausncia de shoppings centers que

    muitos gostam de frequentar, a falta de uma universidade gratuita para que os

    mesmos possam se qualificar, para o mercado de trabalho, escassez de trabalho no

    campo, o que dificultaria dos mesmos trabalharem na cidade e morarem no campo

    devido distncia.

    Na questo da ocupao exercida pelos responsveis ocorreram respostas das mais

    diversas, como exemplo: aposentado, do lar, trabalhadores do campo, marceneiro,

    recepcionista, vigilante, carreteiro, vendedor, professor, manicure e comercirio.

    Nesse questionrio havia uma ultima questo que solicitava para que o aluno

    pudesse escrever o sonho para o futuro profissional e os sonhos que os mesmos

    relataram que almejavam alcanar em um futuro prximo so os mais diversos.

    O que em sua grande maioria superou as demais profisses foi a de medico, entre

    eles alguns sonhavam em ser jogador de futebol, atriz, engenheiro civil, engenheiro

    mecnico, advogado, policial civil, carreteiro, juiz, empresrio.

    As realizaes dos questionrios nos trouxeram alguns resultados. Pudemos

    perceber que ao criar atividades que falavam deles mesmos dentro dos contedos

    geogrficos, para que facilitasse a compreenso e alm de trabalhar questes

    pertinentes ao campo, os alunos demonstravam terem compreendido a ideia que se

    passava, tambm demonstravam a capacidade de fazer associaes dos contedos

    com o cotidiano.

    Trabalhamos com as questes culturais, raciais dos alunos, do stimo ano e como

    uma forma de trabalhar os contextos da Geografia dentro da proposta de (RAMOS,

    2013), na valorizao do contexto no qual os alunos esto inseridos. Portanto os

    alunos se declararam segundo os critrios do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia

    e Estatstica) de cor ou raa como preta, parda e branca. O grfico a seguir nos

    mostra esses resultados:

  • 48

    Grfico 01 - Relao de cor dos alunos do 7 ano da Escola do Campo

    Fonte: Elaborao prpria a partir de questionrios aplicados

    Conforme mencionado, a regio se encontra em hibridismo cultural. Buscamos

    conhecer outras realidades dos alunos e atravs do censo tambm buscamos

    conhecer quantos tinham a vivencia de residir na cidade e quantos residiam no

    campo, pois a escola do campo que tem a proposta de servir os alunos do campo,

    tambm oferece oportunidades para alunos da cidade vivenciarem as experincias

    do campo, portanto, os resultados neste quesito, dos alunos presentes foram: 13

    (treze) residiam no campo e apenas 1 (um) na cidade. Trabalhamos tambm com a

    questo dos desejos e sonhos dos alunos, de se identificarem com o local que

    residem. Alguns expressaram o desejo de deixar o campo e morar na cidade. Os

    resultados podem ser visualizados atravs do grfico 02:

    29%

    21%

    50%

    COR

    Branca

    Preta

    Parda

  • 49

    Grfico 02- Desejo futuro de residncia dos alunos do 7 ano

    Fonte: Elaborao prpria a partir de questionrios aplicados

    Portanto muitos querem viver na cidade, idealizam a cidade como se fosse algo

    melhor. No debate conseguimos perceber que eles tm a percepo de alguns

    problemas da cidade, porm acreditam que suas realidades seriam melhores na

    cidade, devido s maiores possibilidades de obterem qualificao profissional,

    realizao financeira, lazer e outros benefcios. Entretanto, aps preenchimento de

    suas expectativas, os alunos demonstram que gostariam de retornar ao campo

    devido tranquilidade e a qualidade de vida.

    Trabalhar com a metodologia do censo foi uma possibilidade de ns conhecermos

    um pouco sobre os alunos e tambm uma forma de trabalhar conceitos a partir da

    realidade dos alunos. E colocamos no censo a respeito dos sonhos, trabalhamos os

    desejos, os pensamentos dos alunos, no pensando em desmotivar, mas a partir

    deles trabalhar realidades que tero que enfrentar para concretizao, seja no

    campo ou na cidade. Dos resultados obtidos deste quesito do censo esto

    expressos no grfico a seguir:

    0

    1

    2

    3

    4

    5

    6

    7

    8

    9

    Cidade CampoMORAR 5 9

    Mo

    rad

    ia n

    o fu

    turo

    Moradia no futuro

  • 50

    Grfico 03- Sonhos das futuras profisses dos alunos do 7 ano

    Fonte: Elaborao prpria a partir de questionrios aplicados

    A maioria dos sonhos so atividades relacionadas fora da realidade e contexto social

    que vivem. Alguns disseram na possibilidade de atuar na regio onde residem,

    pensando na sua qualificao para melhorias da prpria regio. J outros no

    tiveram e sentiram esse desejo. No veem perspectivas de vida no campo, pois

    como sabemos aqueles alunos que moram no campo vivem em terras de

    latifundirios, os pais trabalham nessas terras. Portanto, eles no tm o sentimento

    de pertencimento da terra, como cidados do campo.

    Os projetos e atividades trabalhados na escola do campo como as hortas, os

    cultivos de caf e as frutferas no podem ser executados em casa por muitos dos

    alunos, pois, alm de no ver essas atividades como possibilidades de renda no se

    verem pertencentes a terra, entretanto, conhecem a importncia dos trabalhos no

    campo e os valorizam.

    Percebemos que a metodologia utilizada na sala de aula obteve xito, pois

    trabalhando os sentimentos dos alunos e inserindo os mesmos como protagonistas

    do contedo geogrfico, trabalhado as realidades vividas dentro do campo e cidade,

    conseguimos despertar o interesse dos alunos para o contedo da geografia bem

    como desenvolver o pensamento crtico, de que as cidades no so

    0

    0,5

    1

    1,5

    2

    2,5

    3

    3,5

    4

    Futuras profisses

    SONHOS

  • 51

    necessariamente melhores que o campo, as dificuldades de sobrevivncia de vida

    nas cidades podero at serem maiores. A participao e opinies construdas nos

    alunos no decorrer da aula foram de estrema importncia para percebermos o

    quanto foi construtiva as nossas atividades pedaggicas.

    3.5 CRIANDO SEUS PRPRIOS SONHOS NO PAPEL ANTES DELES SE

    TORNAREM REALIDADES

    A terceira etapa do trabalho na verdade uma continuao das outras duas etapas

    anteriores. Porm nesta etapa ns buscamos realizar juntamente com os alunos

    uma metodologia diferenciada, enquanto as duas primeiras etapas da atividade ns

    trabalhamos com vdeos, debates e com o censo escolar. A terceira etapa assumiu

    um carter pedaggico um pouco diferente das duas primeiras, mas sem perder o

    principal foco da atividade pedaggica, era de levantar os dados sobre as metas dos

    alunos em relao ao seu futuro profissional e sua estadia no campo em um futuro

    mais prximo.

    Nossa atividade em asla de aula era fazer os alunos desenhar seus sonhos no

    papel. Para isso antes mesmo que desenhassem comeamos a pedi-los que

    pudessem pensar como seria o futuro daqui a alguns anos, a princpio pedimos que

    pensassem sobre este assunto e aos poucos fomos tambm questionando se os

    mesmo desejariam continuar no campo ou queriam ir para cidade. Naquele

    momento, apareceu muitas respostas de forma um pouco desordenada que iremos

    posteriormente relatar.

    Ao perguntarmos aos alunos sobre o que desejariam ser no futuro nos causou muita

    surpresa, pois os mesmos j tinham um pensamento do que queriam ser, ento no

    foi to difcil para que pudessem colocar no papel. Outro fator que contribuiu para o

    bom desenvolvimento das atividades dessa terceira parte foi presena de uma

    professora de artes na sala de aula. Como a nossa ideia partia de uma atividade que

    pudesse nos dar dados para levantarmos questes sobre a urbanizao adentrando

    na vida da populao do campo, tivemos a ideia de trabalhar com ferramentas que

    sassem um pouco da realidade diria dos alunos da escola. Para isso, fizemos uma

  • 52

    proposta de atividade que em um dado momento mesclou as disciplinas de arte e

    geografia, logo, observamos no olhar da professora uma satisfao imensa, pois a

    principio ela no sabia que trabalharamos com uma didtica que promovesse uma

    hibridizao de conhecimentos interdisciplinares.

    Conforme j mencionamos sobre a interdisciplinaridade das atividades aplicadas na

    Escola do Campo e Estao de Cincias Margarete Cruz Pereira, que no ficou

    somente esttica disciplina da geografia, mas que se fundiu a artes. Tal atividade

    desenvolvida chamou ateno da pedagoga da escola, que preferiu no ser

    identificada. Ela gostou tanto do trabalho, que rapidamente pediu para que pudesse

    utilizar na prpria escola a produo de cada aluno. Em funo desse pedido no

    trouxemos nenhuma das atividades confeccionadas, no entanto conseguimos uma

    excelente quantidade de fotos que exibiremos no decorrer do texto.

    A atividade que iremos mencionar foi baseada nas aulas que o professor de

    geografia da escola vem desenvolvendo com a turma do stimo ano neste semestre.

    Ao conversarmos com o educador, ele nos informou que estava trabalhando com o

    censo demogrfico e a questo rural e urbana, em funo disso fizemos todo

    planejamento das atividades dentro desses temas, porm, procurando trazer um

    toque da arte juntamente com o conhecimento geogrfico. Tal ao, que gerou esta

    fuso foi metodologia que aplicamos na sala de aula. Estaremos narrando o que

    de fato foi realizado com estes alunos que chamou tanta ateno da professora de

    artes, que relatou em um caderno uma parte das atividades aplicadas por ns.

    Inicialmente, comentamos com os alunos que iramos trabalhar com massinhas de

    modelar e papel de folha A4, o que os deixou muito satisfeitos e logo os instigou a

    nos perguntar de forma eufrica: Professores o que iremos fazer? Respondemos

    que na terceira etapa iramos realizar uma a atividade na qual todos os alunos do

    stimo ano participariam e que a nossa proposta naquele momento, era para cada

    um deles desenhar o seu sonho em uma folha de papel e depois falar onde gostaria

    de morar aps terem seus sonhos concretizados.

    Aps a explicao, passamos distribuindo as folhas e as massinhas para os alunos

    comearem as atividades. Em seguida, os deixamos desenvolverem a vontade, para

    que sem presses pudessem criar os seus sonhos. Durante o momento que

    confeccionavam seus sonhos, mencionamos que o trabalho que eles estavam tendo

  • 53

    naquele momento em desenhar os seus sonhos, simbolizava tambm as

    dificuldades que encontrariam para avanar na vida profissional e que cada sonho

    tem seus trabalhos e requer um preo a ser pago. Observamos, que medida que

    avanavam no desenho dos sonhos eles expressavam uma alegria fantstica em

    suas faces, enfim, ao terminarem as atividades propusemos que eles pudessem

    mostrar a todos que estavam na sala de aula seus desenhos, depois comentarem os

    seus sonhos, em seguida falarem em qual local gostariam de estar se era no campo

    ou na cidade.

    Figura 05 Desenhos criados pelos alunos representando os sonhos de cada um.

    Fonte: Arquivo dos pesquisadores, 2015.

    A partir desse momento, comearemos a contar um pouco dos sonhos de algumas

    crianas, mas para isso iremos utilizar nomes fictcios. O primeiro sonho foi do

    Mrio, que segundo ele quer ser um cirurgio no futuro e ter sua prpria clnica. A

    partir daquelas informaes fizemos algumas perguntas, uma delas foi se ele tinha

    interesse de morar no campo aps se formar. Ele respondeu que sim, porque gosta

    muito do campo, por causa das frutas, da tranquilidade e do clima fresco, mas que

    infelizmente ter que sair do campo por um tempo por questes profissionais.

    Entrevistamos tambm, o Pedro que estava ao lado, ele disse que desenhou a

    clnica do Mrio por que deseja ser engenheiro e que a sua empresa seria

  • 54

    responsvel pela construo da clinica do amigo, ele disse tambm, que pretende

    morar no campo e trabalhar na cidade. Na entrevista da Julia ela disse que quer ser

    advogada, mas sente-se indecisa sobre se ir continuar no campo no futuro,

    entretanto disse que adora o lugar onde vive, porm, talvez no morasse mais ali

    por causa das dificuldades para conciliar campo e cidade. J Joo, deseja ser

    carreteiro como o pai e nem sequer pensa em sair do campo. O Mateus quer ser

    jogador de futebol e no quer continuar no campo. Enfim, alguns desejavam serem

    engenheiros, outros mdicos, comerciantes, empresrios, etc. Na pesquisa;

    observamos que foram excees que desejam sair do campo, no geral a maioria

    pretende se realizar e voltar novamente para o campo.

    Figura 06 Os alunos expondo seus desenhos representados seus sonhos .

    Fonte: Arquivo dos pesquisadores, 2015.

    Assim, acabamos as atividades com uma msica chamada obrigado ao homem do

    campo, e tambm tiramos fotos de todos os alunos na sala de aula com seus

    respectivos trabalhos, em seguida, agradecemos aos professores presentes na

    escola e aos alunos que contriburam de forma grandiosa com a nossa pesquisa. No

  • 55

    final, chegamos ao entendimento que a maioria dos alunos pretendem continuar no

    campo, mas a falta de estrutura faz com eles acabem optando em ir para a cidade,

    embora muitos pretendem depois retornar.

  • 56

    CONSIDERAES FINAIS

    Tivemos a oportunidade de vivenciar e participar da educao do campo em nossas

    vidas, entretanto, vivia-se as realidades e os cotidianos urbanos dentro da escola.

    Tnhamos um campo imenso ao redor da nossa escola a ser explorado em todas as

    disciplinas, entretanto, no era feito. Mesmo que a proposta pedaggica da escola

    no fosse mesma que a escola do campo, no se buscavam inserir os contedos

    a partir das nossas vivncias no campo. Portanto, a necessidade de sair do campo

    de certa forma tambm influenciada pela escola.

    A pesquisa sobre a escola do campo vem com esse anseio de saber como so as

    prticas do ensino de geografia dentro da escola no campo e como surgem essas

    escolas, portanto, o processo de construo deste trabalho nos possibilitou o contato

    com tericos que discutem a cerca do processo histrico, as lutas do campons ao

    direito a educao bem como acerca das propostas metodolgicas a partir das

    realidades que o aluno est inserido, conforme as palavras de (CALLAI, 2005) ao

    ler o espao, a criana estar lendo a sua prpria histria, representada

    concretamente pelo que resulta das foras sociais e, particularmente, pela vivencia

    de seus antepassados e dos grupos com os quais convive atualmente.

    Sabemos das necessidades de inserir as realidades do local, os saberes trazidos

    pelos alunos e que por muitas vezes negligenciado pelos professores nas prticas

    escolares. Presenciamos, ao analisar o cotidiano da escola foco desta pesquisa, que

    a prtica de valorizao das vivncias e saberes dos alunos por algumas vezes no

    vinha sendo mantida.

    A alternativa que propusemos nesta pesquisa foi justamente conhecer a realidade

    dos alunos atravs do censo escolar e atravs de uma atividade ldica de trabalhar

    com os sonhos, efetivamos o estudo da Geografia nos contedos relacionados ao

    campo e cidade.

    No decorrer do todo o desenvolvimento deste Trabalho de Concluso de Curso

    tratou-se de uma novidade para ns, desde o lugar onde esta inserida a escola do

    campo, o percurso at a chegada a escola, as realidades dos alunos, bem como os

    resultados que obteramos a partir das atividades pedaggicas, at mesmo a

  • 57

    atividade que iramos propor, pois era desconhecida para ns a metodologia desta

    escola do campo. Entretanto, mesmo no tendo referncias anteriores sobre a

    escola e conhecendo as dificuldades de acesso tnhamos a necessidade fazer

    algumas reflexes sobre o ensino do campo e as possveis metodologias dos

    contedos geogrficos para o campo.

    Percebemos que existem varias formas de ensinar-aprender saberes geogrficos e

    a que propomos apena uma possibilidade de inmeras. Os profissionais que

    atuam por muito tempo, muitas vezes cansados no propem novas metodologias,

    ficam na mesmice, infelizmente isto uma realidade, professores que no se

    importam com o aprendizado dos alunos. Conclumos tambm que os alunos

    muitas vezes so desinteressados porque so carentes de estmulos, quando estes

    so estimulados a aprender eles se tornam interessados e criativos.

    No decorrer deste trabalho vivenciamos diversas experincias que puderam

    despertar em ns o desejo de contribuir para uma educao melhor, portanto

    nesse sentido que propusemos esta atividade pedaggica geogrfica. H muito que

    se aprender ainda, h muito trabalho pela frente, s queremos e no deixar que esta

    chama se apague ao longo dos anos de nossa profisso.

  • 58

    REFERNCIAS BIBLIOGRFICAS

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    SEDU- Regimento comum das escolas da rede estadual de ensino do estado do esprito santo.

    Disponvel em: http://www.educacao.es.gov.br/download/regimento_sedu1.pdf Acesso: 29de abril de 2015.

    SOARES, Swamy EDUCAO, DESENVOLVIMENTO SUSTENTVEL E ESCOLA DO CAMPO. Pernambuco-2008

    Disponvel em: https://www.ufpe.br/cead/estudosepesquisa/textos/swamypaula2.pdf Acesso em: 25 de abril 2015.

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    Carlos: UFSCar, 1998. (Relatrios de projeto de educao continuada)

  • 62

    ANEXO

    CENSO ESCOLAR

    NOME:

    ___________________________________________________________________

    DATA DE NASCIMENTO: ___/___/_______

    SEXO:

    FEMININO MASCULINO

    COR (A QUE VOC SE CONSIDERA):

    BRANCA PRETA PARDA AMARELA

    INDGENA

    LOCAL DE MORADIA: ________________________________________________

    CAMPO CIDADE

    POSSUI ALGUMA NECESSIDADE ESPECIAL:

    SIM NO

    ATIVIDADE (TRABALHO) PRINCIPAL DOS RESPONSVEIS:

    PERSPECTIVA DE PROFISSO PARA O FUTURO:

    ___________________________________________________________________

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