ESTUDOS DE USUÁRIOS NA PERSPECTIVA FENOMENOLÓGICA

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<ul><li><p>13Inf. &amp; Soc.:Est., Joo Pessoa, v.22, n.3, p. 13-23, set./dez. 2012</p><p>1 INTRODUO </p><p>A Cincia da Informao - CI, como recente campo do conhecimento cientfico, vem se modificando ao longo do tempo em busca do estabelecimento de suas bases tericas. Muito se discute sobre o campo, desde qual o seu objeto de estudo e qual a abrangncia da rea. Atualmente, destaca-se o movimento de alargamento das fronteiras da CI, que prope uma nova forma de olhar os fenmenos informacionais, dotados de dimenses histricas, econmicas, polticas e socioculturais. Na subrea estudos de usurios da informao comeam a surgir pesquisas que contribuem para este movimento, aproximando-se do chamado paradigma social da CI.</p><p>Este artigo objetiva mostrar as possveis contribuies da fenomenologia, especialmente </p><p>a fenomenologia social de Alfred Schutz (1979), para os estudos de usurios da informao, reforando o movimento de alargamento das fronteiras da CI, enquanto abordagem compreensiva que busca o desvelamento dos fenmenos, inclusive os informacionais, na mente dos sujeitos. A seguir tm-se uma breve explanao sobre o movimento de alargamento das fronteiras da CI, a subrea usurios da informao e a fenomenologia para subsidiar a discusso proposta. </p><p>2 MOVIMENTO DE ALARGAMENTO DAS FRONTEIRAS DA CI</p><p>Em perodos distintos a CI recebe diferentes enfoques, sendo que alguns se sobressaem mais que outros em determinados </p><p>ESTUDOS DE USURIOS NA PERSPECTIVA FENOMENOLGICA: reviso de literatura e proposta de metodologia de </p><p>pesquisa</p><p>Tatiane Krempser Gandra*Adriana Bogliolo Sirihal Duarte**</p><p> RESUMO Apresenta possveis contribuies da fenomenologia para a </p><p>Cincia da Informao, especialmente os estudos de usurios da informao, reforando o movimento de alargamento das fronteiras do campo, enquanto abordagem compreensiva que busca o desvelamento dos fenmenos na mente dos indivduos. Aponta as contribuies que a fenomenologia pode oferecer aos estudos de comportamento informacional, com destaque para o modelo de distribuio social do conhecimento, de Alfred Schutz, que favorece a compreenso de interaes sociais complexas, como as ocorridas nos processos de busca e uso da informao. Apresenta a metodologia de um estudo de usurios em andamento para mostrar como a adoo da fenomenologia enquanto postura metodolgica pode contribuir para tais estudos. Conclui-se que h uma aproximao entre o chamado paradigma social da Cincia da Informao e a perspectiva fenomenolgica, pois ambas partilham a viso de que a realidade uma construo intersubjetiva. </p><p>Palavras-chave: Usurios da informao. Fenomenologia. Comportamento informacional. </p><p>* Mestre em Cincia da Informao pela Universidade Federal de Minas Gerais, Brasil. Doutoranda no Programa de Ps-Graduao em Cincia da Informao da Universidade Federal de Minas Gerais, Brasil. Bolsista Capes. E-mail: tatikrempser@gmail.com</p><p>** Doutora em Cincia da Informao pela Universidade Federal de Minas Gerais, Brasil. Professor Adjunto da Universidade Federal de Minas Gerais, Brasil. E-mail: bogliolo@eci.ufmg.br</p><p>arti</p><p>go d</p><p>e re</p><p>vis</p><p>o</p></li><li><p>14 Inf. &amp; Soc.:Est., Joo Pessoa, v.22, n.3, p. 13-23, set./dez. 2012</p><p>Tatiane Krempser Gandra; Adriana Bogliolo Sirihal Duarte</p><p>momentos. No incio, a CI constituiu-se a partir do modelo das cincias modernas, utilizando-se da mxima objetividade e buscando formular leis universais de comportamento da informao. Percebe-se, assim, que na CI sempre predominou um olhar funcionalista, claramente presente nos estudos desenvolvidos, inclusive na subrea usurios da informao que, ao longo de seu desenvolvimento, consolidou um modelo que privilegiava pesquisas com determinados sujeitos, como os usurios de bibliotecas, cientistas, empresrios e engenheiros, dentre outros. E pesquisas com grupos que no se enquadravam nesse modelo consolidado sofreram crticas quanto sua legitimidade e relevncia para a rea. Ainda predomina o pensamento de que os estudos de usurios precisam de uma utilidade imediata, no sentido de melhorar um sistema de informao, por exemplo (ARAJO, 2008). </p><p>Em contrapartida, ganha fora atualmente na rea uma corrente de pensamento que discute a questo do alargamento das fronteiras da CI. Comeam a surgir mais trabalhos que fogem desta viso funcionalista e se preocupam com o aspecto social relativo ao campo. Abre-se uma nova agenda de pesquisas na subrea: ao invs de se buscar taxas de uso de determinadas fontes de informao, busca-se entender por que se usa tal fonte e o significado dela para o sujeito. Ou seja, modifica-se a forma de olhar para o objeto de estudo: esta nova agenda busca enxergar as aes dos usurios dotadas de significados para eles mesmos. Da a compreenso da informao no como um dado ou como uma coisa com significado fixo (BUCKLAND, 1991), mas como um processo, algo que ser percebido de acordo com os sujeitos, de variadas formas (ARAJO, 2003; ARAJO, 2007). Esta caracterstica est fortemente ligada perspectiva fenomenolgica, como vermos nas sees 4, 5 e 6 deste artigo.</p><p>Nesta nova agenda de pesquisa estudar o usurio no consiste apenas em uma questo tcnica, tambm uma questo poltica. Democratizao, incluso, informao como condio de cidadania, se tornam temticas recorrentes nos estudos. (ARAJO, 2007, p. 93). Passa-se a problematizar no mais a satisfao dos usurios com determinado servio de informao, mas as contradies no acesso informao.</p><p>3 EVOLUO DA SUBREA USURIOS DA INFORMAO</p><p>A subrea originou-se aproximadamente em 1930 com estudos que se preocupavam com os hbitos de leitura dos usurios de bibliotecas. Com o passar do tempo outras questes tornaram-se foco dos estudos. Formaram-se, inicialmente, dois tipos de estudos: os de uso (de fontes, servios, sistemas e centros de informao), voltados para os sistemas; os estudos orientados ao usurio, que investigavam como um determinado grupo obtm a informao necessria para realizar seu trabalho. Posteriormente, percebeu-se a possibilidade de avaliar as colees das bibliotecas a partir dos estudos de usurios (FIGUEIREDO, 1994).</p><p>Os estudos desenvolvidos at este momento podem ser designados como os estudos da abordagem tradicional. Em geral, so estudos quantitativos que buscam estatsticas para medir o comportamento dos usurios, seja no sentido de verificar qual a fonte mais utilizada em um sistema de informao ou saber qual o grau de satisfao com determinado servio. Preocupam-se em traar um comportamento desejvel para os usurios e eliminar o comportamento no desejvel, com o objetivo de ajustar o usurio ao sistema de informao (LIMA, 1994, p. 53), adotando uma postura positivista. </p><p>Conforme Martucci (1997), a partir do final da dcada de 1970 e incio da dcada de 1980 comea a se desenvolver uma nova abordagem dos estudos de usurios: a abordagem alternativa. Ao contrrio da abordagem tradicional, esta abordagem qualitativa se volta para os processos cognitivos dos usurios, buscando compreender a necessidade de informao do sujeito a partir de suas perspectivas individuais, contextualizando a situao real que desencadeou tal necessidade e vendo a informao sendo construda na mente do usurio. Dentre os modelos tericos mais utilizados desta abordagem esto: o Sense Making de Brenda Dervin (1998), que foca as necessidades cognitivas na busca e no uso da informao; o modelo das reaes emocionais na busca e no uso da informao, desenvolvido por Kuhlthau (1991); e o modelo de Taylor (1986), que considera as dimenses situacionais na busca e no uso da informao (CHOO, 2003; BAPTISTA; CUNHA, 2007). </p></li><li><p>15Inf. &amp; Soc.:Est., Joo Pessoa, v.22, n.3, p. 13-23, set./dez. 2012</p><p>Estudos de usurios na perspectiva fenomenolgica</p><p>A partir da dcada de 1990 comeam a surgir estudos de usurios que adotam uma nova postura, um novo olhar sobre os sujeitos, buscando compreend-los, bem como suas aes, indissociveis de seu contexto histrico e sociocultural. Estes estudos ajudam a reforar o movimento de ampliao na agenda de pesquisas da CI (ARAJO, 2007; REIS, 2007). Faz-se necessrio ressaltar o valor e a importncia dos estudos desenvolvidos conforme cada uma destas abordagens, que se complementam. Cada uma se prope a analisar os fenmenos informacionais enfocando diferentes aspectos e, muitas vezes, se voltam para distintos problemas do campo. Assim, cada pesquisa e sua respectiva abordagem contribuem ao seu modo para o enriquecimento da subrea e da CI em geral.</p><p>Fazendo um paralelo entre a evoluo da subrea com a discusso delineada por Capurro (2003) sobre o desenvolvimento da prpria CI, </p><p>em que ele apresenta os trs paradigmas da rea o fsico, o cognitivo e o social so facilmente identificadas as fases dos estudos de usurios da informao. Os estudos da chamada abordagem tradicional, predominantemente quantitativos e realizados a partir de uma viso funcionalista, correspondem ao paradigma fsico, que privilegia a dimenso material da informao. A chamada abordagem alternativa, que passa a considerar os aspectos cognitivos dos usurios nos estudos, corresponde ao paradigma cognitivo, que enxerga a informao construda na mente dos sujeitos, sem interferncia exterior. A ampliao na agenda de pesquisa dos estudos de usurios, com pesquisas que contemplam o contexto sociocultural dos usurios de informao, se aproxima do paradigma social, compreendendo a informao enquanto construo intersubjetiva. O quadro abaixo aponta as principais caractersticas de cada abordagem.</p><p>Quadro 1 - Abordagens da Cincia da Informao</p><p>Paradigma Foco Processos envolvidos Olhar [perspectiva]</p><p>Fsico Sistema TecnolgicosTratamento da informao como algo fsico, privilegiando sua dimenso material.</p><p>Cognitivo SujeitoC o g n i t i v o s , psicolgicos</p><p>Informao como construo subjetiva na mente dos sujeitos.</p><p>Social Coletividade Sociais, culturais Informao como uma construo intersubjetiva.</p><p>Fonte: Desenvolvido pelas autoras, baseado em Capurro (2003) e Nascimento (2006).</p><p>Historicamente os estudos de usurios sempre privilegiaram determinados grupos sociais, como engenheiros e cientistas, mas a ampliao da agenda de pesquisas da CI possibilita que outros grupos, antes deixados de lado, faam parte das investigaes. A partir da ampliao, alm de inclurem novos objetos de pesquisa, os estudos lanam um novo olhar sobre seu objeto. Admite-se que diferentes sujeitos e comunidades, em parte determinados pelo processo scio-histrico, digam o que tem e o que no tem sentido para eles a respeito da informao, em seus diferentes contextos (ARAJO, 2003). </p><p> neste sentido que a fenomenologia tem muito a contribuir para com os estudos de usurios, pois visa compreender a essncia dos fenmenos estudados a partir dos significados que as experincias vividas tm para os </p><p>sujeitos. Ou seja, entende que eles possuem sua individualidade sem, contudo, estarem isolados na sociedade, pois esto inseridos em determinados contextos e partilham relaes sociais com outros sujeitos, o que exerce influncia sobre suas as aes e escolhas.</p><p>4 FENOMENOLOGIA</p><p>A fenomenologia surge como um importante movimento filosfico do sculo XX, como uma forma de ruptura com o positivismo e iniciando uma relao de grande intimidade com a psicologia. O objetivo bsico deste tipo de investigao a descrio de fenmenos como estes so vivenciados na conscincia dos sujeitos. Edmund Husserl, tido em consenso como fundador da fenomenologia, a divulgava como uma cincia das estruturas essenciais da </p></li><li><p>16 Inf. &amp; Soc.:Est., Joo Pessoa, v.22, n.3, p. 13-23, set./dez. 2012</p><p>Tatiane Krempser Gandra; Adriana Bogliolo Sirihal Duarte</p><p>conscincia pura. A meta final para Husserl seria a fundao de uma filosofia sem pressuposies, uma cincia rigorosa a partir das experincias do ser humano consciente que vive e age num mundo que ele percebe, interpreta e que faz sentido para ele (WAGNER, 1979; MOREIRA, 2004). </p><p>A tarefa da fenomenologia estudar a significao das vivncias na conscincia. Husserl prope a volta s coisas mesmas, interessando-se pelo puro fenmeno, da forma como ele se apresenta conscincia, dando destaque experincia vivida no mundo da vida. A preocupao est em descrever o fenmeno e compreend-lo, sem buscar explicaes causais. A investigao fenomenolgica se caracteriza especialmente pela reduo fenomenolgica e a reduo eidtica. Na reduo fenomenolgica, tambm chamada de epoqu (palavra que significa suspenso do julgamento, na filosofia grega), o pesquisador no duvida da existncia do mundo, mas essa existncia deve ser colocada entre parnteses, em suspenso, pois o mundo existente no o tema central de interesse da fenomenologia. Nesta reduo todas as nossas crenas e juzos ficam suspensos para se examinar os contedos da conscincia, fornecidos pela percepo, intuio, recordao e imaginao do sujeito da pesquisa. Esta primeira etapa de apreender a conscincia no suficiente para a investigao fenomenolgica, pois preciso chegar s essncias do fenmeno. Para tal, recorre-se reduo eidtica, que se volta para o domnio das essncias puras. As essncias so unidades de sentido vistas por diferentes sujeitos nos mesmos atos, so unidades bsicas de entendimento comum de um fenmeno (MOREIRA, 2004). Isto , a ideia de essncia aquilo que tido com certo pelas pessoas.</p><p>A partir da fenomenologia de Husserl surgiram outras variantes do movimento fenomenolgico, que tambm contriburam para seu desenvolvimento. Dentre elas est a fenomenologia social, discutida a seguir. </p><p>Alfred Schutz (1979) um importante representante da fenomenologia sociolgica, ou fenomenologia social, considerada a sociologia da vida cotidiana. Recebendo grande influncia de Husserl e Max Weber, Schutz (1979) estabeleceu as bases que fundamentam a fenomenologia social, assumindo como ponto de partida a experincia no mundo da </p><p>vida cotidiana. Prope o uso da abordagem compreensiva, que busca aproximar-se da natureza do mundo social pela experincia subjetiva do sujeito, para compreender os fenmenos sociais a partir de conceitos como o de significado e intencionalidade. Conforme Wagner (1979). Schutz discorre sobre a conduta humana estabelecendo uma relao entre a sociologia e a fenomenologia. </p><p>A conduta humana s considerada ao quando e na medida em que a pessoa que age atribui ao um significado e lhe d uma direo que, por sua vez, pode ser compreendida como significante. Essa conduta intencionada e intencional torna-se social quando dirigida conduta de outros. Isso, em resumo, a concepo de Weber do significado subjetivo como critrio de importncia fundamental para a compreenso da ao humana (WAGNER, 1979, p. 9). </p><p>As pessoas organizam suas experincias relativas ao mundo social na vida cotidiana e o que o autor prope que se utilize o mtodo da compreenso, dentro da abordagem sociolgica subjetiva, para entender os significados e motivaes que os fenmenos tm para os atores sociais. Alguns aspectos devem ser esclarecidos para facilitar a assimilao desta fenomenologia social. </p><p>Para chegar ao seu objetivo de compreender os significados e motivaes que os fenmenos tm para os atores sociais, Schutz (1979) estuda as relaes sociais que se desenvolvem na vida cotidiana e influenciam nos fatores que determinam a conduta dos sujeitos. Ao longo da vida as pessoas vivenciam inmeras experinci...</p></li></ul>