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  • ESTUDOS DE CASO EM PESOUISA E AVALIAAO EDUCACIONAL*

    Roberi E. Stake* * O interesse pelo mtodo naturalista de pesquisa educacional recrudesceu nos ltimos anos

    tanto nos Estados Unidos como no Brasil. O exemplo mais comum desse tipo de pesquisa o estudo de caso sobre programa ou projeto curricular. Na medida em que os pesquisadores e ava- liadores vm explorando esses mtodos, seus aspectos positivos e negativos tm sido identificados e, assim, para benefcio nosso, as fmalidades da pesquisa e da avaliao em geral tm sido exami- nadas recentemente.

    Apresentarei um projeto de estudo de caso mltiplo sobre o status do ensino e da aprendi- zagem de cincias nos Estados Unidos nos ltimos anos da dcada & 70. Jack Easley e eu o dirigimos com o auxlio de mais de 75 pesquisadores. Onze desses pesquisadores, cujos nomes aparecem em itlico no Anexo I sobre os Olse Studies in Science Eduation (CSSE), foram colo- cados como observadores de campo em onze distritos escolares separados uns dos outros por centenas de milhas. A fun de apresentar os diferentes relatos e harmonizar os resultados desse projeto, foram empregados mtodos que podem ser chamados de etnogrficos, ou naturalistas, ou qualitativos ou fenomenolgicos. Ainda que essas palavras signifiquem coisas distintas, coleti- vamente, entretanto, enfatiiam a singularidade (uniqueness) e a contextualidade de cada situao educacional.

    Os &se Studies in Science Edumtion informaram muitas coisas sobre os atuais problemas do ensino de cincia, muitos dos qu i s nunca seriam conhecidos se tivssemos usado os mtodos de pesquisa e de avaliao de programas empregados na dcada de 60. Envolvemo-nos, no eotan-

    " Comunicao apresentada no Seminrio sobre AVALIAO em DEBATE promovido pelo epariamento de Educao da Pontifm Universidade Catlica do Rio de Janeiro (PUCIRI), em wiaborao com. a CAPESJMEC, I N E P W , CNPq, USICA, Fundao Fulbright, CIDA, n a dias 2 e 3 de agosto de 1982, no auditrio do Ri0 DATACENTRO, e organizado pelas Rofar. Dras. Ncia Maria Bessa e Thereza Penna Fume. TraduGo de Heraldo Mare lh Vianna, com permisso do Autor.

    ** Professar da Univerudade de IUinOis (Urbana, III)

  • to, com algumas questes epistemol6gicas fascinantes e desconcertantes. Aps o tbnnioo do estudo em 1978, continuamos a analisar o problema das questes epistemolgicas na pesquisa naturalista. A pergunta Podemos generalizar a partir de 11 casos? - e outras indagaes metodol6gicas sero discutidas posteriormente, Agora, como exemplo de um veiho mas emer- gente estilo de pesquisa e avaiiao educacional, apresentarei a histria dos nossos Case Studies in Scienee Edumtwn, encerrando-a com a identificao de trs aspectos metodologicamente impor- tantes para a organizao de pesquisas baseadas em estudo de caso.

    Antes de continuar, desejo mencionar uma de minhas tendncias: - acredito que a maioria das pesquisas educacionais deva estar a servio da educao e, claramente, proporcione melhor mmpreenm de seus problemas prticos. 6 admissivel que algumas pesquisas sejam abstratas, sobretudo com vistas i formao de pesquisadores; contudo, no hemisfrio norte, grande nfase est seudo dada a este tipo de pesquisa. No seria realista eu acreditar que a maioria das atuais pesquisas nos Estados Unidos possa contniuir de maneira significativa para a soluo dos pro- blemas prticos de educao, nos limites da minha existncia. Um argumento a favor de estudos de caso, segundo a abordagem naturalista, que muitos educadores os consideram significativos e, algumas vezes, teis. *

    Rob Walker, socilogo educacional e um dos observadores de campo do projeto CSSE, passou 12 semanas numa escola de Boston e, posteriormente, gastou seis meses para elaborar um relatrio de 50 pginas sobre um estudo de caso. A pgina 10 desse documento, descreveu uma aula de cincias ministrada por um jovem professor chamado David:

    David, a seguV. demonstrou o segundo experimento, que consistia em fazer flutuar uma rolha de cortia na &a. Presswnoua, a seguir, sob a gua com um copo comum invertido e ehew de ar. -Descreu onde esta a rolha, disse David. - Sob a gua. - Certo, disse David. A presm do ar empurroua pam baixo. O ar ocupa espao. O ar tem peso. Se inclinar o cop. o ar w i escapar e a rolha subim. Colomrei no quadro a resposta que desejo. Estudo natumlista do ensino e de aprendizagem. O que pretendemos com a palavra natu-

    ralista? Para uma discusso inicial, cito o Dichonary of Psychobm, de Drever. Natural signif- ca que o sujeito no foi orientado a dirigir sua ateno para um estimulo ou para uma resposta. Poderia cham-lo de no-intervencionista, pois nem o tratamento experimental nem o problema orientado por hipteses causa os fenmenos registrados pelo pesquisador.

    Entretanto, pretendemos um significado mais amplo do que no-intervencionista. Dese- jamos aiirmar que os sujeitos so observados em sua atividade habitual, em seu habitat usual e, ainda, que relataremos nossas observaes usando uma linguagem no-tnica, palavras e conceitos j familiares aos nossos leitores.

    O pesquisadorwhuusta -observa, minimizando a intervenp-o; - rehta, em linguagem habihul, - sobre LILIOS e - em suas ativiakies costumeims, - em seus ambientes nahuuis.

    Quando os pesquisadores antecipam a linguagem a ser usada em seus relat6rios fmais, ela influencia o que observam e o que pensam passa a ser importante. Orienta a pesquisa em direo s perspectivas e As experincias de suas audincias. Assim, naturalista refere-se tanto ao sujeito que est sendo estudado como i maneira pela qual o pesquisador se comporta.

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  • Todos se dedicam a esse tipo de estudo. Qual, ento, a razo de ser de toda essa confuso? Nos ltimos sete anos, p p o s de pesquisa nos Estados Unidos vm se agitando porque um nme- ro considervel de pessoas, sob a liderana de h u i s Smith, Egon Guba, i ee Cronbach, entre outras, a f m a que devam ser realizados m i s estudos naturalistas, no apenas na preparao exploratria de estudos mais amplos, mas sim como estudos cujo principal enfoque sqa ensino, aprendizagem, administrao, aconseihamento e pesquisa. Enfm, pesquisas sobre todas as funes no contexto da educao.

    Aos advogados dessa posio ope-se um gande gmpo de pesquisadores que a,fkmam ser o naturalismo adequado i explorao preliminar, mas as concluses nele baseadas so subjetivas e no se revestem de fidedignidade. Ellis Page, Fred Kerlinger, Peter Rossi e James Popham, por exemplo, temem que esse tipo de pesquisa possa custar aos avaliadores o respeito que hoje desfrutam as medidas e as tecnologias analticas. Ainda que nos Estados Unidos tenha ocorrido, presentemente, uma diminuio no fmanciamento governamental para pesquisas educacionais, existem argumentos que justificam a realizao de mais pesquisa naturalista.

    As pessoas, ao longo dos anos, tm observado a educao de maneira naturalista, o que justificaria a realizao desse tipo de pesquisa pelos avaliadores.

    Ns, avaliadores, nos ltimos vinte anos pouco contribumos para a compreenso da educao. No auxiliamos, realmente, os que militam na educao, nem as autoridades governa- mentais, salvo na legitimao de alguns de seus programas. No reagimos aos problemas educa- cionais com idias educacionais, mas sim com tecnicas, algwnas das quais causam, por sua vez, novos problemas. Por exemplo, contribumos para a falsa concepo de que a educao essencialmente o domnio de habilidades bsicas. Ou concepo, igualmente errnea, de que no se pode iniciar a educao de uma pessoa antes que tenha dominado algumas habilidades bsicas. Ironicamente, ainda que em suas origens o positivismo tenha syrgido como uma reao ao misticismo, pesquisadores paitivistas contriburam para a mistificao da e d u c e o , fazendo parecer a professores e a administradores que deveriam confiar mais em peritos de universidade e em setores governamentais tecnolgiws. A validade de muito da ncwsa assitncia tecnolgica i educao ainda no foi demonstrada.

    Os pesquisadores, frequentemente, sugerem a professores e a elementos do governo que abandonem suas concepes sobre educao, substituindo-as por novos modelos. Isso tem sido um erro. Deveramos ter adaptado nossa assessoria s suas experincias pessoais, contribuindo, na oportunidade, para que aumentassem suas compreenses, auxiliando-os a serem pesquisadores em ao do ensino e da aprendizagem, clnicos e profissionais menos dependentes de autoridades externas.

    Algumas reas de conhecimento, como a antropologia (especialmente a etnografm), a his- tria, o jornalismo, o direito e as artes, possibilitam percepws dos vrios significados da expe- rincia comum. Podemos auxiliar as pessoas a prolongarem suas experincias de maneira vicria - atravs da nfase em acontecimentos, em testemunhos -, apresentando com menor destaque a redugo dos fenmenos educacionais a variiveis das cincias sociais. As variveis mistificam, o relato honesto de casos pode ajudar a desmistifcar.

    Os pesquisadores naturalistas sugerem um sentido diferente de mia0 e um conjunto diferente de percepes. A esperana centra-se na confiana de que descries naturalistas sero teis, especialmente se a validade basear-se na triangulao e numa reviso dialtica. Eles esperam que um ponto de vista de realidades mltiplas - ponto de vista mais comum aS humanidades do que s cincias sociais - ser, eventualmente, mais aceito (ou tolerado) em crculos cientfiws e administrativos. Estas so algumas das promessas em pesquisa naturalista, assim como tam- bm algumas de suas armadilhas.

    Os oponentes da pesquisa naturalista dizem: - Mas demasiadamente subjetiva!, espe- rando que essa exclamao seja um obstculo defmitivo sua concretizao. A subjetividade precisa ser reconsiderada. Penso que a subjetividade do observador de campo pode ser controlada mas no eliminada. Controlada e usada, entretanto, de um modo vigoroso a fm de fazer com que as concluses da pesquisa sejam mais relevantes e teis.