estratégias coligacionistas dos partidos de esquerda no brasil .período democrático de 1945-1964

Download Estratégias coligacionistas dos partidos de esquerda no Brasil .período democrático de 1945-1964

Post on 27-Nov-2018

212 views

Category:

Documents

0 download

Embed Size (px)

TRANSCRIPT

  • Civitas Porto Alegre v. 12 n. 2 p. 262-297 maio-ago. 2012

    Os contedos deste peridico de acesso aberto esto licenciados sob os termos da LicenaCreative Commons Atribuio-UsoNoComercial-ObrasDerivadasProibidas 3.0 Unported.

    Estratgias coligacionistas dos partidos de esquerda no Brasil

    Uma anlise das eleies para governadores (1986-2010)*

    Coalition strategies of leftist parties in BrazilAn analysis of the elections for governor (1986-2010)

    Silvana Krause Pedro Paulo Alves Godoi**

    Resumo: As eleies para governadores oferecem um momento privilegiado para observar no somente as estratgias dos partidos frente ao desafio de compor foras eleitorais, como tambm permitem delinear o comportamento e as opes do eleitorado. O trabalho tem como objetivo, em um primeiro momento, traar um perfil das estratgias coligacionistas dos partidos de esquerda: PT, PDT, PSB, PC do B, PCB, PPS, PS, PV, PSTU, PSOL, PCO, PMN, PHS, PH1 que participaram nas eleies para governadores dos Estados (1986-2010). Em um segundo momento, pretende-se avaliar o impacto da varivel consistncia ideolgica das coligaes sobre a performance eleitoral. Palavras-chave: Partidos de esquerda; coligaes; estratgias eleitorais

    Abstract: Elections for governor offer a privileged moment to observe not only party strategies in the face of the challenge of putting together electoral forces, but also to facilitate a description of electorate behavior and their options. The main objective of *** A primeira verso deste artigo foi apresentada no 2 Congresso Latino-Americano da Wapor

    World Assocition for Public Opinion Research (Lima/Per, 2009).*** Professora do Programa de Ps-Graduao em Cincia Poltica da Universidade Federal

    do Rio Grande do Sul (Ufrgs). Doutora em Cincia Poltica pela Katholische Universitt Eichsttt-Ingolstadt/KUE-I (Alemanha). Lder do grupo de pesquisa: Partidos e coligaes eleitorais na nova democracia brasileira (CNPq). .

    *** Mestre em Sociologia pela Universidade Federal de Gois (UFG), Socilogo de Secretaria de Estado (Gois) e Professor da Associao de Educao e Cultura de Goinia (Faculdades Padro). .

    1 PT Partido dos Trabalhadores; PDT Partido Democrtico Trabalhista; PSB Partido Socialista Brasileiro; PCdoB Partido Comunista do Brasil; PCB Partido Comunista Brasileiro; PPS Partido Popular Socialista; PS Partido Socialista; PV Partido Verde; PSTU Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado; PSOL Partido Socialismo Liberdade; PCO Partido da Causa Operria; PMN Partido da Mobilizao Nacional; PHS Partido Humanista da Solidariedade; PH Partido Humanista.

  • S. Krause; P. P. A. Godoi Estratgias coligacionistas dos partidos... 263

    the present work is at first to outline a profile of the coalitionist strategies of the leftist parties: PT, PDT, PSB, PC do B, PCB, PPS, PS, PV, PSTU, PSOL, PCO, PMN, PHS, PH which participated in the elections for State governor (1986-2010). Secondly, this paper intends to evaluate the impact of the ideological consistency variable of the coalitions on electoral performance.Keywords: Leftist parties; coalitions; electoral strategies

    O espectro esquerda-direita: um recorte analticoPredominam nas pesquisas sobre coligaes eleitorais brasileiras

    perspectivas ocupadas em captar a lgica da estratgia das coligaes sob o ponto de vista de responder a questes referentes aos fatores que explicam a dinmica associativa. Estas pesquisas concentram-se primordialmente em delinear o comportamento estratgico dos partidos e de suas lideranas, mas no tm a inteno de observar especificamente de que forma estas estratgias impactam sobre o resultado eleitoral. Ou seja, so abordagens que se concentram em responder a trs perguntas bsicas: Por que os partidos se coligam, em que situaes eles se coligam e de que forma eles se coligam. Partindo destas indagaes possvel identificar nestes estudos duas vertentes explicativas: a ideolgica e a pragmtica. A primeira observa a dinmica das coligaes sob o pressuposto de que os partidos privilegiam associaes dentro de um universo da escala direita esquerda. As legendas unem-se procurando aumentar suas chances de vitria e maximizar seu espao representativo, baseando-se no princpio de aumentar suas foras contra o lado oposto do adversrio situado no outro campo do espectro ideolgico. A segunda vertente, a pragmtica, sustenta o pressuposto de que na lgica competitiva os partidos com chances efetivas na concorrncia poltica potencializam suas associaes, sendo o perfil ideolgico um critrio no fundamental. Neste sentido, os partidos associam-se para garantir o mximo de ganhos possveis e para adquirir vantagens contra seus adversrios. Adversrios aqui entendidos como no necessariamente identificados dentro da varivel de escala direita e esquerda, mas fundamentalmente variveis conjunturais, contextuais e histricas.

    O entendimento que temos o de que estas abordagens muitas vezes no so suficientes e seguidamente so complementares2 para explicar a variedade da dinmica coligacionista dos partidos brasileiros. necessrio reconhecer

    2 O trabalho de Miguel e Machado (2007) chama a ateno para esta questo. Veja tambm Miguel (2010).

  • 264 Civitas, Porto Alegre, v. 12, n. 2, p. 262-297, maio-ago. 2012

    que o fenmeno merece estudos ainda mais detalhados, capazes de nos indicar respostas que contemplem uma perspectiva que incorpore outras variveis, sejam elas de ordem socioeconmica, institucionais (legislao eleitoral e partidria, federalismo, sistema de governo, etc.), conjunturais e contextuais (governismo federal/estadual, disputas nacionais/regionais, avaliao de opinio pblica sobre perfil de candidaturas), alm das histricas (trajetrias dos partidos nacional/regionais).

    Evidentemente que, afora o flego necessrio para uma empreitada que incorpore estas variveis, h, por um lado, limites quanto s pesquisas de opinio pblica disponveis no pas que forneam dados desagregados e que incorporem todas as regies. Por outro lado, temos com o desenvolvimento da democracia brasileira uma enorme e rica fonte de dados eleitorais ofertados pelos TSE (Tribunal Superior Eleitoral) e TREs (Tribunais Regionais Eleitorais).

    Tendo em vista que este artigo se delimita no caminho trilhado nos estudos das coligaes no Brasil e que se detm em analisar as configuraes quanto s identidades ideolgicas, iremos aqui fazer um rpido apanhado das reflexes dos estudos feitos na rea. O pano de fundo destes trabalhos sobre as unies eleitorais est fundamentalmente associado ao problema da tradicional fragilidade identitria/ideolgica dos partidos brasileiros. J na anlise do perodo democrtico de 1945-1964 vrios autores se debruaram sobre as alianas eleitorais com a preocupao de destrinchar a natureza das unies quanto s proximidades de seus posicionamentos no eixo esquerda-direita. A pergunta clssica era elaborada na perspectiva da motivao dos partidos. Os critrios estabelecidos nas coligaes fundamentavam-se em clculos pragmticos de custos e benefcios ou entravam na estratgia as proximidades identitrias-ideolgicas?

    Anlises de Oliveira (1973), Soares (2001), Souza (1976) e Santos (1987) foram pioneiras nesta linha de detectar o grau de alinhamento ideolgico dos parceiros das coligaes e seus impactos no desempenho eleitoral. Mesmo com divergncias nas concluses dos autores, todos demonstraram em suas investigaes que a varivel ideolgica no central para explicar o comportamento associativo dos partidos. Oliveira detecta uma tendncia maior de associaes com proximidade ideolgica do que a identificada por Santos, mas as diferenas encontradas no contradizem as tendncias gerais observadas. Soares destaca um importante elemento ao constatar que legendas com enraizamento sustentado em bases urbanas e classsitas tm mais perdas eleitorais quando a proximidade ideolgica no observada na estratgia das alianas.

  • S. Krause; P. P. A. Godoi Estratgias coligacionistas dos partidos... 265

    As dificuldades destes trabalhos demonstram os desafios metodolgicos que investigaes com perspectivas comparativas enfrentam. Soares (2001, p. 172) destaca este aspecto quando avalia comparativamente os resultados de Santos e Oliveira: H difceis problemas metodolgicos no que concerne s afirmaes a respeito da relao entre as coligaes e as ideologias. Wanderley Guilherme dos Santos e Isabel Ribeiro de Oliveira pesquisaram empiricamente o problema, mas chegaram a resultados bem diferentes. H vastas diferenas entre as definies operacionais usadas por eles, o que anula a comparao.

    A questo da identidade ideolgica nas coligaes ressurge com a nova democracia brasileira. Os esforos dos trabalhos de Figueiredo (1994), Novaes (1994), Nicolau (1994), Schmitt (1999, 2005), A. Machado (2005), Sousa (2006), Dantas (2007), C. Machado (2007), Carreiro (2002), Miguel e C. Machado (2007, 2008) so importantes exemplos deste tipo de incurso que chegam a resultados nem sempre convergentes e indicam a necessidade de investigaes amplas que invistam numa metodologia comparativa que possibilite uma avaliao mais consistente. Duas dimenses devem ser observadas para que um dilogo comparativo possa ser iniciado. Uma diz respeito questo que estes trabalhos no tinham a pretenso de abarcar perodos mais extensos de eleies, o que teria permitido anlises mais abrangentes. Ressaltamos ainda que os bancos de dados do TSE, que informam sobre coligaes, s recentemente so acessveis de forma mais gil. A outra dimenso a enorme dificuldade de elaborao de uma classificao das coligaes que oferea uma padronizao e linguagem comum entre os diferentes estudos.

    Classificando as coligaesA elaborao de uma matriz comparativa para estudos sobre coligaes

    requer, em primeiro lugar, uma classificao dos partidos brasileiros no eixo esquerda-direita que seja comum entre os pesquisadores. Esta tarefa de dificil execuo, dada as distintas e, seguidamente,