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Revista tica e Filosofia Poltica N 14 Volume 2 Outubro de 2011

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Esttica Jurdica em Kant

Juridical Aesthetics in Kant

Luis Satie1

RESUMO: A crtica da filosofia jurdica, aps o holocausto, no pode prescindir da crtica do

prprio ato de julgar. Este artigo mostra, com o auxlio da interpretao que Hannah Arendt

nos legou da terceira Crtica de Kant, a possibilidade de deslocar o dilogo entre as

faculdades do conhecimento para fora do domnio da esttica, mas a partir dela.

PALAVRAS-CHAVE: Arendt Kant Esttica Direito Julgamento.

ABSTRACT: The critique of legal philosophy after the Holocaust, cannot ignore the

criticism of the act of judging. This article shows, with the help of Hannah Arendt's

interpretation of Kant's third Critique, the possibility of moving the dialogue between the

faculties of knowledge out of aesthetics, but from it.

KEYWORDS: Arendt Kant Aesthetics Law Judgement.

SUMRIO: 1. Preliminares. 2. Categorias do juzo de gosto. 2.1. Quanto qualidade. 2.2.

Quanto quantidade. 2.3. Quanto relao. 2.4. Quanto modalidade. 3. Os juzos de gosto

enquanto modelo para os juzos normativos. 4. guisa de concluso.

1. Preliminares

Aps os ventos do nazismo que varreram a tradio iluminista da Europa, a tarefa de

reconstruo da razo se imps desesperadamente. No domnio do direito, o abandono do

positivismo, em favor das concepes do direito natural, foi o trao mais marcante. De

maneira marginal, porque deslocada da abordagem dos juristas, a esttica surgiu como

possibilidade de sauvetage da razo no mbito da reflexo filosfica. Quero destacar aqui a

contribuio de Hannah Arendt (1906-1979), que em suas Lies sobre a filosofia poltica de

Kant, faz uma interpretao curiosa da Analtica do belo de Kant, deduzindo do gosto no

uma tica, mas uma filosofia poltica. Longe de restringir-se poltica, entendo que esse texto

de Arendt apresenta os contornos de uma filosofia poltica em sentido amplo, isto , de uma

filosofia dos juzos de convivncia, a saber, os juzos normativos. Muito mais do que mero

1 Doutor em Filosofia e Cincias Sociais pela EHESS-Paris. Diretor de pesquisa do Instituto de Estudos

Avanados em Controle e Democracia (IEACD).

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exerccio da anlise filosfica, Arendt articula, nesse texto, a meu ver, as categorias de uma

esttica jurdica subjetiva.

Na primeira parte desse artigo - com apoio na traduo de Alain Renaut da 2 edio

da Kritik der Urteilskraft (1793), reeditada pela Academia de Berlim em 1908 -, reconstruo o

que o prprio Kant afirma sobre o juzo de gosto, a faculdade do julgamento do belo, com

destaque para o uso das categorias. Na segunda, exponho a interpretao de Arendt sobre a

Analtica do Belo, para, ao final, propor uma tbua de categorias para a configurao do que

denomino de esttica jurdica, aparelho da nova faculdade de julgar.

2. Categorias do juzo de gosto

2.1. Quanto qualidade

Quanto qualidade, o juzo de gosto no um juzo de conhecimento; no lgico,

mas esttico. Seu fundamento de determinao subjetivo: o sujeito sente a si mesmo

medida que afetado pela representao do objeto. Essa representao, inteiramente referida

ao sujeito, gera um sentimento vital, o sentimento de prazer ou desprazer, uma faculdade

particularssima de distino e julgamento (Kant, 1995, p. 181).

Caso chamemos de interesse a satisfao vinculada representao da existncia de

um objeto, a satisfao, que determina subjetivamente o juzo de gosto, ser desinteressada:

(...) ce qui importe pour dire que le l'objet est beau et pour prouver que j'ai du gout, c'est ce

que je fais de cette reprsentation en moi mme, et non ce par quoi je dpends de l'existence

de cet objet (Kant, 1995, p. 183, grifo do autor).

O juzo de gosto, para ser puro, deve ser completamente indiferente existncia da

coisa, (...) pour pouvoir em matire de got jouer le rle de juge (Kant, 1995, p. 183). o

que no ocorre quando julgamos um objeto, declarando-o agradvel. A satisfao aqui

interessada; visto que afetados pela existncia do objeto, passamos a desej-lo, tal a excitao

que ele nos provoca por meio das sensaes. Nesse caso, o juzo de gosto impuro, carregado

de interesse, de inclinao pelo objeto. De l vient que l'on dit de l'agrable, non seulement

qu'il plat, mais encore qu'il fait plaisir. (Kant, 1995, p. 185, grifo do autor).

Tambm interessada a satisfao que experimentamos com o bom, que apraz pelo

mero conceito de um fim da razo. Nesse sentido, Kant distingue o bom para algo (o til),

que apraz somente como meio, do bom em si, que apraz por si mesmo, satisfazendo o

supremo interesse moral.

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Comparando os trs modos de satisfao, dizemos de um objeto agradvel que ele

nos contenta: inclinamo-nos por ele; de um objeto bom, que o apreciamos: respeitamo-lo; e de

um objeto belo, que nos apraz: somos favorecidos por suas formas.

2.2. Quanto quantidade

Definida a qualidade do juzo de gosto, Kant analisa, em seguida, sua quantidade.

Por esse prisma, Le beau est ce qui est reprsent sans concept comme objet d'une

satisfaction universelle (Kant, 1995, p. 189, grifo do autor), mas trata-se aqui de uma

universalidade subjetiva, no posta em objetos.

Os juzos estticos podem ser privados ou pblicos. Os primeiros manifestam um

gosto de sentidos; seu objeto o agradvel e no aspiram universalidade: cada qual tem seu

prprio gosto. Quanto aos segundos, manifestam um gosto de reflexo, sendo seu objeto o

belo. Pretendem-se vlidos universalmente: cada qual julga no s para si, mas para todos,

como se a beleza fosse uma propriedade das coisas, devendo, por isso, ser objeto de uma

satisfao universal.

O juzo sobre o bom, por sua vez, no se pretende vlido para todos, pois ele

objetivamente vlido universalmente, independente do assentimento de quem quer que seja. O

bom representado por um conceito da razo, sendo incondicionalmente universal. No

percamos de vista, no entanto, que um juzo universalmente vlido objetivamente sempre

subjetivo, referindo-se a um sujeito que reflete esteticamente as coisas. Contudo, se podemos

inferir de uma universalidade lgica uma universalidade esttica, desta ltima no podemos

inferir a primeira, pois a esttica no repousa sobre conceitos e nem visa ao objeto. Portanto,

ao dizermos a rosa agradvel, expressamos um juzo esttico e singular no

universalizvel; ou a rosa bela, um juzo esttico e singular universalizvel, no por

deduo lgica, mas por compartilhamento de uma experincia sentida. Por isso, a quantidade

do juzo de gosto est diretamente associada sua sociabilidade:

(...) dans le jugement de got, rien n'est postul que cette universalit des

voix () par consquent, on postule uniquement la possibilit d'un jugement

esthtique qui puisse en mme temps tre consider comme valant pour

chacun. () il ne fait que prter chacun cette adhsion, comme un cas de

la rgle dont il attend la confirmation non de concepts, mais de l'adhsion

des autres. L'universalit des voix n'est qu'une ide (). (Kant, 1995, p. 194-

195, grifo do autor).

Teremos, ento, que a sociabilidade do gosto possibilidade, no necessidade;

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promessa, no determinao; espera de adeso, no adeso pr-definida, sociabilidade

construda do caso para a regra, do singular para o geral. claro que o prazer no precisa de

sua socializao para existir; ele j experimentado singularmente no livre jogo dos poderes

de conhecimento diante da forma sentida como bela. Mas, por ser um prazer do belo, pretende

a universalidade, aposta nela, almeja ser partilhado: Cet tat de libre jeu des pouvoirs de

connatre () doit pouvoir se communiquer universellement (...). (Kant, 1995, p. 196).

Essa proporo subjetiva a concordncia recproca entre a imaginao e o

entendimento. Esse acordo vivifica essas faculdades da mente, preparando-as e legitimando-

as para o exerccio da objetividade. O juzo de gosto promete essa vitalidade a todos.

Cabe perguntar: se embutida no juzo esttico est uma promessa de partilha, como

evitar que essa busca de adeso do outro no seja autoritria ou dogmtica?

2.3. Quanto relao

Para Kant, essa sociabilidade, longe de ser apodtica, construda a partir da

necessidade de partilhar a sensao de prazer experimentada pelo livre jogo das faculdades de

conhecimento. Ao partir do singular para o universal, o ato de julgar, que espera ser

legitimado socialmente, no poder impor-se conceitualmente, em detrimento da

comunicao entre sujeitos judicantes.

Isso porque a validade pretendida no lgica, mas livre do reino da causalidade ou

de premissas pr-julgadas. Ou seja, a faculdade de julgar deve querer ser construda em

processo, numa teia de argumentao entre sujeitos disponveis a partilhar o livre jogo de suas

faculdades, no constrangidas confirmao assertrica de valores lgicos. O reino dos fins

entre sujeitos