Estados liberal, social e democrático de direito

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<p>@default_meta_tags</p> <p>Jus Navigandi http://jus.uol.com.br</p> <p>Estados liberal, social e democrtico de direito:noes, afinidades e fundamentoshttp://jus.uol.com.br/revista/texto/9241/estados-liberal-social-e-democratico-de-direitoPublicado em 12/2006</p> <p>Leonardo Cacau Santos La Bradbury 1. Introduo O presente artigo busca analisar as principais caractersticas dos Estados Liberal, Social e Democrtico, seus fundamentos, pontos em comum, noes e estrutura poltico-econmica. Busca-se, atravs dessa interpretao histrica, melhor entender os alicerces que regem o Estado Democrtico de Direito e a nova ordem jurdica implementada pela Constituio Federal de 1988, a fim de que se possa realizar, atualmente, uma interpretao teleolgica, buscando alcanar a finalidade da norma jurdica. 2. Surgimento do Estado Liberal O Estado de Direito Liberal institucionalizou-se aps a Revoluo Francesa de 1789, no fim do sculo XVIII, constituindo o primeiro regime jurdico-poltico da sociedade que materializava as novas relaes econmicas e sociais, colocando de um lado os capitalistas (burgueses em ascenso) e do outro a realeza (monarcas) e a nobreza (senhores feudais em decadncia). A Revoluo de 1789 foi uma revolta social da burguesia, inserida no Terceiro Estado francs, que se elevou do patamar de classe dominada e discriminada para dominante e discriminadora, destruindo os alicerces que sustentavam o absolutismo (antigo regime), pondo fim ao Estado Monrquico autoritrio. O lema dos revolucionrios era: "Liberdade, Igualdade e Fraternidade", que resumia os reais desejos da burguesia: liberdade individual para a expanso dos seus empreendimentos e a obteno do lucro; igualdade jurdica com a aristocracia visando abolio das discriminaes; e fraternidade dos camponeses e sans-cullotes1 com o intuito de que apoiassem a revoluo e lutassem por ela. Podemos citar, consoante os ensinamentos de Jos de Albuquerque Rocha2 e Carlos Ari Sundfeld3 , as seguintes caractersticas bsicas do Estado Liberal: no interveno do Estado na economia, vigncia do princpio da igualdade formal, adoo da Teoria da Diviso dos Poderes de Montesquieu, supremacia da Constituio como norma limitadora do poder governamental e garantia de direitos individuais</p> <p>fundamentais. Nesse contexto, a classe burguesa emergente detinha o poder econmico, enquanto que o poder poltico estava sob o domnio da realeza e da nobreza. Logo, percebe-se que o princpio da no interveno do Estado na economia, defendido pelo Estado Liberal, foi uma estratgia da burguesia para evitar a ingerncia dos antigos monarcas e senhores feudais nas estruturas econmicas da poca, garantindo a liberdade individual para a expanso dos seus empreendimentos e a obteno do lucro. Dessa forma, os capitalistas em ascenso tinham liberdade para ditar a economia a seu favor, atravs da prtica da auto-regulao do mercado, a qual est sendo bastante utilizada atualmente, por meio do surgimento do Estado Neoliberal. Pregava-se a mnima interveno do Estado na economia, criando a figura do "Estado Mnimo", defendendo a ordem natural da economia de mercado, com o escopo de expandir seus domnios econmicos. Outra caracterstica do Estado Liberal a defesa do princpio da igualdade, uma das maiores aspiraes da Revoluo Francesa. Porm, preciso observar quais os fatores que influenciaram a burguesia em ascenso a pregar a aplicao de tal princpio. Ressalte-se que a igualdade aplicada to-somente a formal, na qual se buscava a submisso de todos perante a lei, afastando-se o risco de qualquer discriminao. Logo, sob o manto de tal fundamento, todas as classes sociais seriam tratadas uniformemente, pois as leis teriam contedo geral e abstrato, no sendo especficas para determinado grupo social. Trata-se de outra ttica da burguesia, pois se sabe que o sistema feudal possua uma estrutura estamental ou de ordens, isto , era composto por vrias classes sociais, a que correspondiam diferentes ordenamentos jurdicos. Essa pluralidade de textos legais vigentes representava que a lei e a jurisdio eram distintas, variando conforme o grupo social do destinatrio da norma. Tal situao acabava fazendo com que a realeza e a nobreza tivessem uma srie de privilgios, enquanto a burguesia era discriminada. A fim de demonstrar tal situao de discriminao existente poca, importante transcrever um trecho da Carta de Reclamaes do Terceiro Estado da Parquia de Longey, presente na obra de Ktia M. de Queiroz Mattoso: "[...] pedimos tambm que as talhas com as quais a nossa parquia esta sobrecarregada sejam abolidas; que este imposto que nos oprime, e que s pago pelos infelizes, seja convertido num s e nico imposto ao qual devem ser submetidos todos os eclesisticos e nobres sem distino, e que o produto deste imposto seja levado diretamente ao Tesouro.4 " (grifo nosso). Percebe-se, pois, que esse grande nmero de ordenamentos jurdicos gerava temor classe burguesa, pois temia que a nobreza, ainda detentora do poder poltico, continuasse implementando leis que conferissem privilgios apenas sua casta. Ento, os capitalistas idealizaram a criao de um nico ordenamento jurdico, defendendo a igualdade formal, no qual todos eram iguais perante a lei, que possua contedo geral e abstrato, aplicando-se indiscriminadamente a todos os grupos sociais, no permitindo o estabelecimento de prerrogativas para determinada classe em detrimento das outras, surgindo o conceito de Estado de Direito e a figura da Constituio, que passava a limitar os poderes do governante, visando conter</p> <p>seus arbtrios, que preponderavam no Estado Monrquico, resumidos na conhecida frase de Luiz XIV, smbolo do poder pessoal: "ltat cst moi." 5 No tocante Teoria da Separao dos Poderes de Montesquieu, adotada pelo Estado Liberal, Jos de Albuquerque Rocha observa que o objetivo de Montesquieu ao idealizar os poderes Executivo, Legislativo e Judicirio, era preservar os privilgios da sua prpria classe, a nobreza, ameaada tanto pelo rei, que almejava recuperar sua influncia nacional, quanto pela burguesia, que dominando o poder econmico, intentava o poder poltico6 . Elaborou, ento, sua teoria que repartia o poder entre a burguesia, nobreza e realeza, afastando, deste modo, a possibilidade da burguesia em crescimento ser a sua nica detentora. Assim, o Estado de Direito, na precisa lio de Carlos Ari Sunfeld pode ser definido: "[...] como o criado e regulado por uma Constituio (isto , por norma jurdica superior s demais), onde o exerccio do poder poltico seja dividido entre rgos independentes e harmnicos, que controlem uns aos outros, de modo que a lei produzida por um deles tenha de ser necessariamente observada pelos demais e que os cidados, sendo titulares de direitos, possam op-los ao prprio Estado." 7 Desta feita, o Estado de Direito criou a figura do direito subjetivo pblico, isto , a possibilidade do cidado, sendo o titular do direito, ter a faculdade de exigi-lo (facultas agendi) em desfavor do Estado, regulando a atividade poltica, situao que no era prevista no Absolutismo, no qual apenas estabelecia direito subjetivo dos indivduos nas suas relaes recprocas, isto , o cidado podia exigir o cumprindo de uma obrigao pactuada com outro cidado, mas no em face do Estado. Desta forma, o Estado de Direito, ao passar a impedir o exerccio arbitrrio do poder pelo governante e garantir o direito pblico subjetivo dos cidados, reconhece, constitucionalmente, e de uma forma mnima, direitos individuais fundamentais, como a liberdade (apregoada na Declarao dos Direitos do Homem e do Cidado de 1789, a qual foi mantida como prembulo da Constituio Francesa de 1791), consoante os ensinamentos de Norberto Bobbio, assim delineados: "na doutrina liberal, Estado de direito significa no s subordinao dos poderes pblicos de qualquer grau s leis gerais do pas, limite que puramente formal, mas tambm subordinao das leis ao limite material do reconhecimento de alguns direitos fundamentais considerados constitucionalmente, e portanto em linha de princpio inviolveis. "8 Assim, o Estado Liberal cria os chamados "direitos de primeira gerao", que decorrem da prpria condio de indivduo, de ser humano, situando-se, desta feita, no plano do ser, de contedo civil e poltico, que exigem do Estado uma postura negativa em face dos oprimidos, compreendendo, dentre outros, as liberdades clssicas, tais como, liberdade, propriedade, vida e segurana, denominados, tambm, de direitos subjetivos materiais ou substantivos. preciso ressaltar que tais direitos exigiam do Estado uma conduta negativa, isto , uma omisso estatal em no invadir a esfera individual do nacional, que deixou de ser considerado mero sdito, elevando-se </p> <p>condio de cidado, detentor de direitos tutelados pelo Estado, inclusive contra os prprios agentes estatais. Ao lado dos direitos subjetivos materiais, criaram-se as garantias fundamentais, tambm chamadas de direitos subjetivos processuais (ou adjetivos ou formais ou instrumentais), visando, efetivamente, assegurar os direitos substantivos, como, p.ex., o habeas corpus, que tem o escopo de assegurar o direito liberdade. 3. Criao do Estado Social A igualdade to-somente formal aplicada e o absentesmo do Estado Liberal em face das questes sociais, apenas serviram para expandir o capitalismo, agravando a situao da classe trabalhadora, que passava a viver sob condies miserveis. O descompromisso com o aspecto social, agravado pela ecloso da Revoluo Industrial, que submetia o trabalhador a condies desumanas e degradantes, a ponto de algumas empresas exigirem o trabalho dirio do obreiro por doze horas ininterruptas, culminou com a Revoluo Russa de 1917, conduzindo os trabalhadores a se organizarem com o objetivo de resistir explorao. Esse movimento configurava a possibilidade de uma ruptura violenta do Estado Liberal, devido a grande adeso de operrios do ocidente europeu. A burguesia, hesitando a expanso dos ideais pregados pela Revoluo Russa, adotou mecanismos que afastassem os trabalhadores da opo revolucionria, surgindo, ento, o Estado Social, com as seguintes caractersticas: interveno do Estado na economia, aplicao do princpio da igualdade material e realizao da justia social. A burguesia, agora detentora do poder poltico, passou a defender o intervencionismo estatal no campo econmico e social, buscando acabar com a postura absentesta do Estado, preocupando-se com os aspectos sociais das classes desfavorecidas, conferindo-lhes uma melhor qualidade de vida, com o nico intuito de conter o avano revolucionrio. Para alcanar tal intento, os capitalistas tiveram que substituir a igualdade formal, presente no Estado Liberal, que apenas contribuiu para o aumento das distores econmicas, pela igualdade material, que almejava atingir a justia social. O princpio da igualdade material ou substancial no somente considera todas as pessoas abstratamente iguais perante a lei, mas se preocupa com a realidade de fato, que reclama um tratamento desigual para as pessoas efetivamente desiguais, a fim de que possam desenvolver as oportunidades que lhes assegura, abstratamente, a igualdade formal. Surge, ento, a necessidade de tratar desigualmente as pessoas desiguais, na medida de sua desigualdade. Assim, Carlos Ari Sundfeld sintetiza afirmando que: "O Estado torna-se um Estado Social, positivamente atuante para ensejar o desenvolvimento (no o mero crescimento, mas a elevao do nvel cultural e a mudana social) e a realizao da justia social (</p> <p>dizer, a extino das injustias na diviso do produto econmico)." 9 H, assim, uma semelhana entre o Estado Social e o Estado de Direito, na medida em que foi este, como vimos no tpico anterior, que originou o conceito de direito pblico subjetivo, cabendo quele a abrangncia de seu alcance, regulando, mais efetivamente, atividades polticas governamentais. Sobre as semelhanas e diferenas existentes entre estas duas formas de Estado, Gordillo assim enuncia: "A diferena bsica entre a concepo clssica do liberalismo e a do Estado de Bem-Estar que, enquanto naquela se trata to-somente de colocar barreiras ao Estado, esquecendo-se de fixar-lhe tambm obrigaes positivas, aqui, sem deixar de manter as barreiras, se lhes agregam finalidades e tarefas s quais antes no sentia obrigado. A identidade bsica entre o Estado de Direito e Estado de Bem-Estar, por sua vez, reside em que o segundo toma e mantm do primeiro o respeito aos direitos individuais e sobre esta base que constri seus prprios princpios." 10 Verifica-se, assim, que o Estado Social (ou do Bem-Estar), apesar de possuir uma finalidade diversa da estabelecida no Estado de Direito, possuem afinidades, uma vez que utiliza deste o respeito aos direitos individuais, notadamente o da liberdade, para construir os pilares que fundamentam a criao dos direitos sociais. Surgem, desta forma, os "direitos de segunda gerao", que se situam no plano do ser, de contedo econmico e social, que almejam melhorar as condies de vida e trabalho da populao, exigindo do Estado uma atuao positiva em prol dos explorados, compreendendo, dentre outros, o direito ao trabalho, sade, ao lazer, educao e moradia [11] Como visto no captulo anterior, percebe-se que os direitos pblicos subjetivos criados, minimamente, pelo liberalismo, exigiam uma postura estatal negativa, enquanto que o Estado Social reclamava por uma conduta positiva, dirigente, ativista, onde se implementassem polticas governamentais que, efetivamente, garantissem o mnimo de bem-estar populao. Assim, ampliam-se os direitos subjetivos materiais, exigindo um compromisso dos governantes em relao aos governados, com vistas a lhes proporcionar, dentre outros, direito a educao, sade e trabalho, que se situam no plano do ter, diferentemente dos direitos assegurados pelo liberalismo, que se estabelecem no plano do ser. Assim, o Estado de Bem-Estar busca implementar a seguinte premissa lgica: " preciso ter para ser". Ou seja, necessrio ter, materialmente, um mnimo de direitos assegurados e realizados, para que o indivduo possa ser, realmente, um cidado. Por esta razo, como nos ensina Carlos Ayres de Brito [12], os direitos sociais so todos indisponveis (no potestativos), pois so um meio para se alcanar a plenitude do ser humano, enquanto que os direitos individuais dividem-se em disponveis (potestativos) ou indisponveis (no potestativos).</p> <p>O ilustre ministro do STF, de forma brilhante, nos ensina a Teoria da Essencialidade dos Direitos Sociais, pois os considera como condies materiais objetivas de concretizao dos prprios direitos individuais, ao nos alertar para a seguinte constatao: de que serve o direito inviolabilidade do domiclio se a pessoa no tem casa? Ou, em outras palavras, de que se serve o direito ao sigilo da correspondncia se a pessoa no tem endereo? Sintetizando sua teoria, Carlos Ayres Brito cita um ensinamento de Santo Agostinho, que dizia: "sem o mnimo de bem estar material, no se pode nem louvar a Deus." Cumpre registrar que a primeira Constituio a consagrar os direitos sociais foi a do Mxico, de 1917, apesar da Constituio Alem de 1919 (de Weimar) ser a mais co...</p>

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