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    Estados liberal, social e democrtico de direito: noes, afinidades e fundamentos

    Leonardo Cacau Santos La Bradbury*

    1. Introduo

    O presente artigo busca analisar as principais caractersticas dos Estados Liberal, Social e Democrtico, seus fundamentos, pontos em comum, noes e estrutura poltico-econmica.

    Busca-se, atravs dessa interpretao histrica, melhor entender os alicerces que regem o Estado Democrtico de Direito e a nova ordem jurdica implementada pela Constituio Federal de 1988, a fim de que se possa realizar, atualmente, uma interpretao teleolgica, buscando alcanar a finalidade da norma jurdica.

    2. Surgimento do Estado Liberal

    O Estado de Direito Liberal institucionalizou-se aps a Revoluo Francesa de 1789, no fim do sculo XVIII, constituindo o primeiro regime jurdico-poltico da sociedade que materializava as novas relaes econmicas e sociais, colocando de um lado os capitalistas (burgueses em ascenso) e do outro a realeza (monarcas) e a nobreza (senhores feudais em decadncia).

    A Revoluo de 1789 foi uma revolta social da burguesia, inserida no Terceiro Estado francs, que se elevou do patamar de classe dominada e discriminada para dominante e discriminadora, destruindo os alicerces que sustentavam o absolutismo (antigo regime), pondo fim ao Estado Monrquico autoritrio.

    O lema dos revolucionrios era: "Liberdade, Igualdade e Fraternidade", que resumia os reais desejos da burguesia: liberdade individual para a expanso dos seus empreendimentos e a obteno do lucro; igualdade jurdica com a aristocracia visando abolio das discriminaes; e fraternidade dos camponeses e sans-cullotes1 com o intuito de que apoiassem a revoluo e lutassem por ela.

  • Podemos citar, consoante os ensinamentos de Jos de Albuquerque Rocha2 e Carlos Ari Sundfeld3, as seguintes caractersticas bsicas do Estado Liberal: no interveno do Estado na economia, vigncia do princpio da igualdade formal, adoo da Teoria da Diviso dos Poderes de Montesquieu, supremacia da Constituio como norma limitadora do poder governamental e garantia de direitos individuais fundamentais.

    Nesse contexto, a classe burguesa emergente detinha o poder econmico, enquanto que o poder poltico estava sob o domnio da realeza e da nobreza. Logo, percebe-se que o princpio da no interveno do Estado na economia, defendido pelo Estado Liberal, foi uma estratgia da burguesia para evitar a ingerncia dos antigos monarcas e senhores feudais nas estruturas econmicas da poca, garantindo a liberdade individual para a expanso dos seus empreendimentos e a obteno do lucro.

    Dessa forma, os capitalistas em ascenso tinham liberdade para ditar a economia a seu favor, atravs da prtica da auto-regulao do mercado, a qual est sendo bastante utilizada atualmente, por meio do surgimento do Estado Neoliberal. Pregava-se a mnima interveno do Estado na economia, criando a figura do "Estado Mnimo", defendendo a ordem natural da economia de mercado, com o escopo de expandir seus domnios econmicos.

    Outra caracterstica do Estado Liberal a defesa do princpio da igualdade, uma das maiores aspiraes da Revoluo Francesa. Porm, preciso observar quais os fatores que influenciaram a burguesia em ascenso a pregar a aplicao de tal princpio. Ressalte-se que a igualdade aplicada to-somente a formal, na qual se buscava a submisso de todos perante a lei, afastando-se o risco de qualquer discriminao. Logo, sob o manto de tal fundamento, todas as classes sociais seriam tratadas uniformemente, pois as leis teriam contedo geral e abstrato, no sendo especficas para determinado grupo social.

    Trata-se de outra ttica da burguesia, pois se sabe que o sistema feudal possua uma estrutura estamental ou de ordens, isto , era composto por vrias classes sociais, a que correspondiam diferentes ordenamentos jurdicos. Essa pluralidade de textos legais vigentes representava que a lei e a jurisdio eram distintas, variando conforme o grupo social do destinatrio da norma. Tal situao acabava fazendo com que a realeza e a nobreza tivessem uma srie de privilgios, enquanto a burguesia era discriminada.

    A fim de demonstrar tal situao de discriminao existente poca, importante transcrever um trecho da Carta de Reclamaes do Terceiro Estado da Parquia de Longey, presente na obra de Ktia M. de Queiroz Mattoso:

  • "[...] pedimos tambm que as talhas com as quais a nossa parquia esta sobrecarregada sejam abolidas; que este imposto que nos oprime, e que s pago pelos infelizes, seja convertido num s e nico imposto ao qual devem ser submetidos todos os eclesisticos e nobres sem distino, e que o produto deste imposto seja levado diretamente ao Tesouro.4" (grifo nosso).

    Percebe-se, pois, que esse grande nmero de ordenamentos jurdicos gerava temor classe burguesa, pois temia que a nobreza, ainda detentora do poder poltico, continuasse implementando leis que conferissem privilgios apenas sua casta. Ento, os capitalistas idealizaram a criao de um nico ordenamento jurdico, defendendo a igualdade formal, no qual todos eram iguais perante a lei, que possua contedo geral e abstrato, aplicando-se indiscriminadamente a todos os grupos sociais, no permitindo o estabelecimento de prerrogativas para determinada classe em detrimento das outras, surgindo o conceito de Estado de Direito e a figura da Constituio, que passava a limitar os poderes do governante, visando conter seus arbtrios, que preponderavam no Estado Monrquico, resumidos na conhecida frase de Luiz XIV, smbolo do poder pessoal: "ltat cst moi." 5

    No tocante Teoria da Separao dos Poderes de Montesquieu, adotada pelo Estado Liberal, Jos de Albuquerque Rocha observa que o objetivo de Montesquieu ao idealizar os poderes Executivo, Legislativo e Judicirio, era preservar os privilgios da sua prpria classe, a nobreza, ameaada tanto pelo rei, que almejava recuperar sua influncia nacional, quanto pela burguesia, que dominando o poder econmico, intentava o poder poltico6. Elaborou, ento, sua teoria que repartia o poder entre a burguesia, nobreza e realeza, afastando, deste modo, a possibilidade da burguesia em crescimento ser a sua nica detentora.

    Assim, o Estado de Direito, na precisa lio de Carlos Ari Sunfeld pode ser definido:

    "[...] como o criado e regulado por uma Constituio (isto , por norma jurdica superior s demais), onde o exerccio do poder poltico seja dividido entre rgos independentes e harmnicos, que controlem uns aos outros, de modo que a lei produzida por um deles tenha de ser necessariamente observada pelos demais e que os cidados, sendo titulares de direitos, possam op-los ao prprio Estado." 7

    Desta feita, o Estado de Direito criou a figura do direito subjetivo pblico, isto , a possibilidade do cidado, sendo o titular do direito, ter a faculdade de exigi-lo (facultas agendi) em desfavor do Estado, regulando a atividade poltica, situao que no era prevista no Absolutismo, no qual

  • apenas estabelecia direito subjetivo dos indivduos nas suas relaes recprocas, isto , o cidado podia exigir o cumprindo de uma obrigao pactuada com outro cidado, mas no em face do Estado.

    Desta forma, o Estado de Direito, ao passar a impedir o exerccio arbitrrio do poder pelo governante e garantir o direito pblico subjetivo dos cidados, reconhece, constitucionalmente, e de uma forma mnima, direitos individuais fundamentais, como a liberdade (apregoada na Declarao dos Direitos do Homem e do Cidado de 1789, a qual foi mantida como prembulo da Constituio Francesa de 1791), consoante os ensinamentos de Norberto Bobbio, assim delineados:

    "na doutrina liberal, Estado de direito significa no s subordinao dos poderes pblicos de qualquer grau s leis gerais do pas, limite que puramente formal, mas tambm subordinao das leis ao limite material do reconhecimento de alguns direitos fundamentais considerados constitucionalmente, e portanto em linha de princpio inviolveis. "8

    Assim, o Estado Liberal cria os chamados "direitos de primeira gerao", que decorrem da prpria condio de indivduo, de ser humano, situando-se, desta feita, no plano do ser, de contedo civil e poltico, que exigem do Estado uma postura negativa em face dos oprimidos, compreendendo, dentre outros, as liberdades clssicas, tais como, liberdade, propriedade, vida e segurana, denominados, tambm, de direitos subjetivos materiais ou substantivos.

    preciso ressaltar que tais direitos exigiam do Estado uma conduta negativa, isto , uma omisso estatal em no invadir a esfera individual do nacional, que deixou de ser considerado mero sdito, elevando-se condio de cidado, detentor de direitos tutelados pelo Estado, inclusive contra os prprios agentes estatais.

    Ao lado dos direitos subjetivos materiais, criaram-se as garantias fundamentais, tambm chamadas de direitos subjetivos processuais (ou adjetivos ou formais ou instrumentais), visando, efetivamente, assegurar os direitos substantivos, como, p.ex., o habeas corpus, que tem o escopo de assegurar o direito liberdade.

    3. Criao do Estado Social

    A igualdade to-somente formal aplicada e o absentesmo do Estado Liberal em face das questes sociais, apenas serviram para expandir o

  • capitalismo, agravando a situao da classe trabalhadora, que passava a viver sob condies miserveis.

    O descompromisso com o aspecto social, agravado pela ecloso da Revoluo Industrial, que submetia o trabalhador a condies desumanas e degradantes, a ponto de algumas empresas exigirem o trabalho dirio do obreiro por doze horas ininterruptas, culminou com a Revoluo Russa de 1917, conduzindo os trabalhadores a se organizarem com o objetivo de resistir explorao.

    Esse movimento configurava a possibilidade de uma ruptura violenta do Estado Liberal, devido a grande adeso de operrios do ocidente europeu. A burguesia, hesitando a expanso dos ideais pregados pela Revoluo Russa, adotou mecanismos que afastassem os trabalhadores da opo revolucionria, surgindo, ento, o Estado Social, com as seguintes caractersticas: interveno do Estado na economia, aplicao do princpio da igualdade material e realizao da justia social.

    A burguesia, agora detentora do poder poltico, passou a defender o intervencionismo estatal no campo econmico e social, buscando acabar com a postura absentesta do Estado, preocupando-se com os aspectos sociais das classes desfavorecidas, conferindo-lhes uma melhor qualidade de vida, com o nico intuito de conter o avano revolucionrio.

    Para alcanar tal intento, os capitalistas tiveram que substituir a igualdade formal, presente no Estado Liberal, que apenas contribuiu para o aumento das distores econmicas, pela igualdade material, que almejava atingir a justia social.

    O princpio da igualdade material ou substancial no somente considera todas as pessoas abstratamente iguais perante a lei, mas se preocupa com a realidade de fato, que reclama um tratamento desigual para as pessoas efetivamente desiguais, a fim de que possam desenvolver as oportunidades que lhes assegura, abstratamente, a igualdade formal. Surge, ento, a necessidade de tratar desigualmente as pessoas desiguais, na medida de sua desigualdade.

    Assim, Carlos Ari Sundfeld sintetiza afirmando que:

    "O Estado torna-se um Estado Social, positivamente atuante para ensejar o desenvolvimento (no o mero crescimento, mas a elevao do nvel cultural e a mudana social) e a realizao da justia social ( dizer, a extino das injustias na diviso do produto econmico)." 9

    H, assim, uma semelhana entre o Estado Social e o Estado de Direito, na medida em que foi este, como vimos no tpico anterior, que

  • originou o conceito de direito pblico subjetivo, cabendo quele a abrangncia de seu alcance, regulando, mais efetivamente, atividades polticas governamentais.

    Sobre as semelhanas e diferenas existentes entre estas duas formas de Estado, Gordillo assim enuncia:

    "A diferena bsica entre a concepo clssica do liberalismo e a do Estado de Bem-Estar que, enquanto naquela se trata to-somente de colocar barreiras ao Estado, esquecendo-se de fixar-lhe tambm obrigaes positivas, aqui, sem deixar de manter as barreiras, se lhes agregam finalidades e tarefas s quais antes no sentia obrigado. A identidade bsica entre o Estado de Direito e Estado de Bem-Estar, por sua vez, reside em que o segundo toma e mantm do primeiro o respeito aos direitos individuais e sobre esta base que constri seus prprios princpios." 10

    Verifica-se, assim, que o Estado Social (ou do Bem-Estar), apesar de possuir uma finalidade diversa da estabelecida no Estado de Direito, possuem afinidades, uma vez que utiliza deste o respeito aos direitos individuais, notadamente o da liberdade, para construir os pilares que fundamentam a criao dos direitos sociais.

    Surgem, desta forma, os "direitos de segunda gerao", que se situam no plano do ser, de contedo econmico e social, que almejam melhorar as condies de vida e trabalho da populao, exigindo do Estado uma atuao positiva em prol dos explorados, compreendendo, dentre outros, o direito ao trabalho, sade, ao lazer, educao e moradia [11]

    Como visto no captulo anterior, percebe-se que os direitos pblicos subjetivos criados, minimamente, pelo liberalismo, exigiam uma postura estatal negativa, enquanto que o Estado Social reclamava por uma conduta positiva, dirigente, ativista, onde se implementassem polticas governamentais que, efetivamente, garantissem o mnimo de bem-estar populao.

    Assim, ampliam-se os direitos subjetivos materiais, exigindo um compromisso dos governantes em relao aos governados, com vistas a lhes proporcionar, dentre outros, direito a educao, sade e trabalho, que se situam no plano do ter, diferentemente dos direitos assegurados pelo liberalismo, que se estabelecem no plano do ser.

    Assim, o Estado de Bem-Estar busca implementar a seguinte premissa lgica: " preciso ter para ser". Ou seja, necessrio ter, materialmente, um mnimo de direitos assegurados e realizados, para que o indivduo possa ser, realmente, um cidado.

  • Por esta razo, como nos ensina Carlos Ayres de Brito [12], os direitos sociais so todos indisponveis (no potestativos), pois so um meio para se alcanar a plenitude do ser humano, enquanto que os direitos individuais dividem-se em disponveis (potestativos) ou indisponveis (no potestativos).

    O ilustre ministro do STF, de forma brilhante, nos ensina a Teoria da Essencialidade dos Direitos Sociais, pois os considera como condies materiais objetivas de concretizao dos prprios direitos individuais, ao nos alertar para a seguinte constatao: de que serve o direito inviolabilidade do domiclio se a pessoa no tem casa? Ou, em outras palavras, de que se serve o direito ao sigilo da correspondncia se a pessoa no tem endereo?

    Sintetizando sua teoria, Carlos Ayres Brito cita um ensinamento de Santo Agostinho, que dizia: "sem o mnimo de bem estar material, no se pode nem louvar a Deus."

    Cumpre registrar que a primeira Constituio a consagrar os direitos sociais foi a do Mxico, de 1917, apesar da Constituio Alem de 1919 (de Weimar) ser a mais conhecida. No Brasil, a primeira Constituio a prever em seu texto os direitos sociais foi a de 1934, poca do governo de Getlio Vargas, que consagrou os direitos trabalhistas.

    4. Estado Democrtico de Direito

    O Estado Democrtico de Direito surge como uma tentativa de corrigir algumas falhas presentes no Estado Social.

    O publicista Jose Afonso da Silva nos ensina que a igualdade pregada pelo Estado Liberal, fundada num elemento puramente formal e abstrato, qual seja a generalidade das leis, como analisado anteriormente, no tem base material que se realize na vida concreta.

    A tentativa de corrigir isso, na doutrina do constitucionalista, foi a construo do Estado Social, que, no entanto, no conseguiu garantir a justia social nem a efetiva participao democrtica do povo no processo poltico. [13]

    O Estado Social, consoante os ensinamentos de Paulo Bonavides, no atendia efetivamente aos anseios democrticos, pois a Alemanha nazista, a Itlia fascista, a Espanha franquista, a Inglaterra de Churchill, bem como o Brasil de Vargas tiveram esta estrutura poltica, concluindo o ilustre constitucionalista que "o Estado Social se compadece com regimes polticos

  • antagnicos, como sejam a democracia, o fascismo e o nacional-socialismo". [14]

    Surge, ento, o Estado Democrtico de Direito que, na doutrina de Ivo Dantas, concilia "duas das principais mximas do Estado Contemporneo, quais sejam a origem popular do poder e a prevalncia da legalidade." [15]

    Funde-se, assim, as diretrizes do Estado Democrtico com as do Estado de Direito, tendo em vista que formam uma forte relao de interdependncia, brilhantemente observada por Bobbio, nos seguintes termos:

    "Estado Liberal e estado democrtico so interdependentes em dois modos: na direo que vai do liberalismo democracia, no sentido de que so necessrias certas liberdades para o exerccio correto do poder democrtico, e na direo oposta que vai da democracia ao liberalismo, no sentido de que necessrio o poder democrtico para garantir a existncia e a persistncia das liberdades fundamentais. Em outras palavras: pouco provvel que um estado no liberal possa assegurar um correto funcionamento da democracia, e de outra parte pouco provvel que um estado no democrtico seja capaz de garantiras liberdades fundamentais." [16]

    Assim, forma-se um vetor de mo dupla: o direito fundamental da liberdade, garantido pelo Estado de Direito, necessrio para o regular exerccio da democracia, a qual condio singular para a existncia, manuteno e ampliao desses direitos e garantias individuais, razo pela qual surge o Estado Democrtico de Direito.

    O Estado Democrtico de Direito cria os "direitos de terceira gerao", que se situam no plano do respeito, de contedo fraternal, compreendendo os direitos essencial ou naturalmente coletivos, isto , os direitos difusos e os coletivos strictu sensu, passando o Estado a tutelar, alm dos interesses individuais e sociais, os transindividuais (ou metaindividuais), que compreendem, dentre outros, o respeito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, a paz , a autodeterminao dos povos e a moralidade administrativa.

    Ressalta-se que Paulo Bonavides [17], em precisa lio, nos alerta sobre a existncia dos "direitos de quarta gerao", ao nos ensinar que a "globalizao poltica na esfera da normatividade jurdica introduz os direitos de quarta gerao, que alis, correspondem derradeira fase de institucionalizao do Estado social", compreendendo, dentre outros, o direito democracia, informao e ao pluralismo poltico, tnico e cultural.

  • Ademais, convm frisar, nesse contexto de mundo globalizado, o pensamento oportuno de Peter Hberle [18], ao afirmar que vivemos em um Estado Constitucional Cooperativo, no qual a figura estatal no se apresenta voltada para si mesmo, mas sim como referncia para os outros Estados Constitucionais membros de uma comunidade, no qual ganha importncia o papel dos direitos humanos fundamentais, gerando a idia da criao de um direito comunitrio internacional.

    4.1 Fundamentos

    O Estado Democrtico de Direito, assentado nos pilares da democracia e dos direitos fundamentais, surge como uma forma de barrar a propagao de regimes totalitrios que, adotando a forma de Estado Social, feriam as garantias individuais, maculando a efetiva participao popular nas decises polticas.

    No Estado Democrtico de Direito coexistem harmonicamente o Princpio da Soberania Popular, aplicado atravs do regime democrtico e o da Legalidade, herana do Estado Liberal.

    Cumpre expormos alguns conceitos de "democracia", a fim de melhor entendermos o seu alcance e significado.

    Pinto Ferreira a define como:

    "[...] governo constitucional das maiorias que, sobre as bases de uma relativa liberdade e igualdade, pelo menos a igualdade civil (a igualdade diante da lei), proporciona ao povo o poder de representao e fiscalizao dos negcios pblicos." [19]

    Paulo Bonavides complementa, afirmando que democracia :

    "[...] aquela forma de exerccio da funo governativa em que a vontade soberana do povo decide, direta ou indiretamente, todas as questes de governo, de tal sorte que o povo seja sempre o titular e o objeto a saber, o sujeito ativo e o sujeito passivo de todo o poder legtimo." [20]

    No podemos deixar de mencionar a clebre definio de democracia conferida por Lincoln, o libertador dos escravos, afirmando ser o "governo do povo, para o povo e pelo povo". [21]

    Jos Afonso da Silva, citando os ensinamentos de Emilio Crosa, delimita o alcance da democracia:

  • "[...] a democracia impe a participao efetiva e operante do povo na coisa pblica, participao que no se exaure na simples formao das instituies representativas, que constituem um estgio da evoluo do Estado Democrtico, mas no o seu completo desenvolvimento." [22]

    Logo, na busca de instaurar a plena incorporao do povo nos mecanismos de controle das decises polticas, surge o Estado Democrtico de Direito, atravs da fuso dos conceitos de Estados de Direito e Democrtico, aplicando, sob o crivo da legalidade, os ditames democrticos e garantindo, em sua plenitude, os direitos humanos fundamentais.

    4.2 Promulgao pela Constituio Republicana de 1988

    O Estado Democrtico de Direito foi proclamado pela Constituio da Repblica Federativa do Brasil de 1988 em seu artigo primeiro que, consoante as lies de Jos Afonso da Silva, no se trata de "mera promessa de organizar tal Estado, pois a Constituio a j est proclamando e fundando." [23]

    A Carta de Outubro, por meio do regime democrtico, busca garantir a participao popular no processo poltico, estabelecer uma sociedade livre, justa e solidria, em que todo o poder emana do povo, diretamente ou por representantes eleitos, respeitando a pluralidade de idias, culturas e etnias, considerando o princpio da Soberania Popular como garantia geral dos direitos fundamentais da pessoa humana. [24]

    O legislador constituinte conferiu tamanha importncia aos direitos e garantias individuais, que os enquadrou logo no ttulo segundo da Constituio, no qual incluiu o artigo quinto, que possui setenta e oito incisos, o mais extenso artigo da Carta Fundamental.

    Importante perceber que o Estado Democrtico de Direito, institudo no Brasil pela Carta Republicana de 1988, no se resume na participao dos cidados no processo poltico, formando as instituies representativas. Na perspectiva da doutrina de Ivo Dantas "deve-se evitar que se confunda, por qualquer motivo, a defesa do Estado Democrtico de Direito com a defesa de um sistema poltico que nem sempre representa o verdadeiro conceito de democracia." [25]

    Logo, assentado nos pilares da democracia e dos direitos fundamentais, o regime democrtico brasileiro garante no somente a participao de todos os cidados no sistema poltico nacional, mas tambm busca, por todos os meios assegurados constitucional e legalmente, preservar a integridade dos direitos essenciais da pessoa humana.

  • Carlos Ari Sundfeld [26] defende que "o Estado brasileiro de hoje constri a noo de Estado Social e Democrtico de Direito", na medida em que a figura estatal, alm de garantir a efetiva democracia e o respeito aos direitos e garantias fundamentais, deve atingir determinados direitos sociais, atribuindo ao cidado a possibilidade de exigi-los.

    Verifica-se tal situao quando a Constituio Federal de 1988 enuncia, em seu art. 6, alguns direitos sociais oponveis ao Estado, como a educao, sade, trabalho, moradia, lazer, segurana, previdncia social, proteo maternidade e a infncia e assistncia aos desamparados.

    Assim, podemos concluir que a atual organizao da Repblica Federativa do Brasil em um Estado Social e Democrtico de Direito rene alguns fundamentos presentes nos trs regimes de governo ora analisados: o Liberal, quando adota a supremacia da Constituio, limitando e regulando o Poder Estatal, e assegura o respeito aos direitos individuais dos cidados; o Social, na medida em que garante princpios e direitos sociais oponveis ao Estado, exigindo-lhe uma postura positiva e dirigente; e o Democrtico, tendo em vista que busca garantir, efetivamente, a participao popular nas decises polticas, repudiando qualquer forma de governo autoritrio.

    5. Concluso

    Ao analisarmos as diversas estruturas de Estado existentes, e partindo da premissa de que nossa sociedade evoluiu, pois vivenciou uma repblica escravocrata, duas ditaduras (Estado Novo e Ditadura Militar) e, consequentemente, dois processos de redemocratizao poltica (Constituies de 1946 e 1988), podemos tirar concluses que nos ajudaro a compreender o novo ordenamento jurdico estabelecido pela Carta de Outubro.

    No tocante aos direitos criados por cada estrutura poltica estatal, Paulo Bonavides [27] assim nos ensina:

    "fora dirimir, a esta altura, um eventual equvoco de linguagem: o vocbulo dimenso substitui, com vantagem lgica e qualitativa, o termo gerao, caso este ltimo venha a induzir apenas sucesso cronolgica e, portanto, suposta caducidade dos direitos das geraes antecedentes, o que no verdade. Ao contrrio, os direitos da primeira gerao, direitos individuais, os da segunda, direitos sociais, e os da terceira, direitos ao desenvolvimento, ao meio ambiente, paz e fraternidade, permanecem eficazes, so infra-estruturais, formam a pirmide cujo pice o direito democracia; coroamento daquela globalizao

  • poltica para a qual, como no provrbio chins da grande muralha, a humanidade parece caminhar a todo vapor, depois de haver dado o seu primeiro e largo passo. Os direitos da quarta gerao no somente culminam a objetividade dos direitos das duas geraes antecedentes como absorvem sem, todavia, remove-la a subjetividade dos direitos individuais, a saber, os direitos de primeira gerao. [...] Tais direitos sobrevivem, e no apenas sobrevivem, seno que ficam opulentados em sua dimenso principal, objetiva e axiolgica, podendo, doravante, irradiar-se a todos os direitos da sociedade e do ordenamento jurdico".

    Desta feita, da mesma forma que houve a evoluo normativa, gerada pelos diversos ordenamentos jurdicos proclamados por cada nova estrutura estatal, que criaram e graduaram as respectivas "geraes de direitos" (primeira, segunda, terceira e quarta), deve haver a progresso interpretativa por parte dos operadores do direito, os quais devem procurar analisar o texto da lei no somente em seu aspecto literal, mas sobretudo em seu sentido histrico, sistemtico e teleolgico, visando atingir os fins estabelecidos pelo legislador, a fim de que no partam de premissas que conduziro a concluses retrgradas e dessarazoadas.

    Sintetizando tal evoluo, vimos que o Estado Liberal assegurou o direito individual (plano do ser), que ensejava uma postura omissa do governo em no intervir na sua livre manifestao, limitando a atuao poltica estatal na esfera do indivduo, visando assegurar a liberdade; o Social ampliou o conceito de direito publico subjetivo e criou os direitos sociais (plano do ter), exigindo polticas governamentais positivas que garantissem o mnimo de bem-estar a populao, limitando o poder econmico, objetivando implementar a igualdade material.

    Por sua vez, o Estado Democrtico de Direito Brasileiro amplia o conceito de direito social, criando o chamado "direito fraternal", reclamando do Estado uma postura pro-ativa, que deve se antepor aos fatos, buscando controlar a sociedade, implementando formas de concretizar o modelo previsto na C.F/88, pautado nos ditames da justia, solidariedade, pluralismo e ausncia de preconceitos.

    Mas como assim "controlar a sociedade"? Os direitos fraternais, previstos no art.4, I e IV, bem como no Prembulo da CF/88, buscam formas de "controlar" a sociedade que promove discriminaes culturais, raciais, religiosas e sexuais, realizando, assim, injustias sociais, como, p.ex., contra ciganos, ndios, negros, homossexuais e ateus.

    O Estado, assim, deve agir pro-ativamente, se antevendo aos fatos, pois necessita executar polticas pblicas e formular leis que assegurem os

  • direitos de afirmao do ser humano, privilegiando os direitos das minorias tnicas, raciais, sexuais e religiosas.

    A ttulo de exemplo desses direitos, podemos citar as cotas afirmativas de negros e ndios em universidades pblicas, reservando-lhes um percentual de vagas.

    Os direitos fraternais, tambm chamados de afirmativos ou compensatrios, buscam compensar as desigualdades civis e morais sofridas pelas classes discriminadas ao longo da histria. Outros exemplos de tais direitos, que, por sinal, encontram-se previstos no texto constitucional, so o fato da mulher se aposentar 5 (cinco) anos a menos que os homens (art. 40, III) e a assistncia gratuita e integral ao necessitado (art.5, LXXIV).

    Podemos, em sntese, afirmar que enquanto o Estado Liberal vivenciou a fase Declaratria dos Direitos (individuais) e o Social, a fase Garantista dos Direitos (sociais), o Estado Democrtico de Direito, no qual vivemos, insere-se na fase Concretista dos Direitos (fraternais), por meio da qual se busca, efetivamente, formar uma sociedade plural, onde se respeitam as diferenas de credo, sexo, cor e religio.

    Nesse sentido, Lnio Streck afirma que enquanto o Estado Liberal produziu um Direito Ordenador; e o Social, um Direito Promovedor, o Estado Democrtico visa concretizar um Direito Transformador. [28]

    Assim, no basta apenas declarar direitos (liberalismo clssico) ou garanti-los (Estado Social), urge que consigamos, efetivamente, concretiz-los, razo pela qual vivemos em um Estado Democrtico de Direito, que, via de regra, na precisa lio de Lnio Streck, deve nos fornecer um Direito Transformador, a fim de que possamos implementar o modelo de sociedade pluralista e sem preconceitos previsto na Constituio Federal de 1988.

    A fim de concretizar esta transformao social, ao aplicarmos e interpretarmos a norma jurdica em conformidade com a Constituio de 1988, no podemos, em nenhum momento, esquecer os postulados do Princpio da Dignidade da Pessoa Humana, um dos fundamentos do Estado Democrtico de Direito Brasileiro (art. 1, III, CF/88) que, em apertada sntese, representa a seguinte equao: concretizao dos Direitos Individuais (art.5, CF/88 - plano do ser - Liberdade) + Direitos Sociais Genricos (art.6, CF/88 - plano do ter Igualdade Material) + Direitos Fraternais (art. 4, I e IV, CF/88 - plano do respeitar Fraternidade).

    Mas, para que o Princpio da Dignidade da Pessoa Humana seja plenamente concretizado em nosso ordenamento, no basta somente a vigncia das chamadas "leis dirigentes ou programticas", necessita-se que tais normas tenham eficcia social, obtida mediante a participao direta de toda a sociedade e dos operadores do Direito, atravs da realizao dos

  • ensinamentos da moral, do respeito ao prximo, da fraternidade e da honestidade, conceitos que no se aprendem lendo artigos e livros jurdicos ou se cumprindo, friamente, as disposies legais, mas sim atravs de uma boa formao humana, tica e educacional, a qual devemos, primeiramente, propiciar ao povo brasileiro, para que possamos, por via conseqncial, lutar pela efetivao dos ainda hoje to idealistas direitos fraternais garantidos pela Carta de Outubro desde 1988.

    6.BIBLIOGRAFIA

    BOBBIO, Norberto. Liberalismo e Democracia. Trad. brasileira de Marco Aurlio Nogueira. 2 ed. So Paulo:Brasiliense, 1988.

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    SUNDFELD, Carlos Ari. Fundamentos de Direito Pblico. 4 ed. 7 tiragem. Ed. Malheiros: So Paulo, 2006.

    Notas

    1sans-culottes (traduo: sem-calas): populao pobre de Paris, formada pela massa de artesos, aprendizes, lojistas, biscateiros e desempregados; teve importante participao nos acontecimentos revolucionrios de 1789 a 1794.

    2 ROCHA, Jos de Albuquerque. Estudos sobre o Poder Judicirio. So Paulo: Malheiros, 1995, p. 126.

    3 SUNDFELD, Carlos Ari. Fundamentos de Direito Pblico. 4 ed. 7 tiragem. Ed. Malheiros: So Paulo.

    4MATTOSO, Ktia M. de Queirz. Textos e Documentos para o estudo da Histria Contempornea, 1789- 1963, So Paulo, HUCITEC: Ed. da Universidade de So Paulo, 1977.

    5 CALMON, Pedro. Curso de Teoria Geral do Estado. 3.ed.: So Paulo, 1949, p.95.

    6 ROCHA, Jos de Albuquerque. Estudos sobre o Poder Judicirio. So Paulo: Malheiros, 1995, p. 128.

    7SUNDELD Carlos Ari. Fundamentos de Direito Pblico. 4 ed. 7 tiragem. Ed. Malheiros: So Paulo, p.38/39.

    8BOBBIO, Norberto. Liberalismo e Democracia. Trad. brasileira de Marco Aurlio Nogueira. 2 ed. So Paulo:Brasiliense, 1988, pg. 19.

    9 SUNDFELD, Carlos Ari. Fundamentos de Direito Pblico. 4 ed. 7 tiragem. Ed. Malheiros: So Paulo, pg. 55.

    10 GORDILLO, Agustn. Princpios Gerais de Direito Pblico. Trad. Brasileira de Marco Aurelio Greco. Ed. RT: So Paulo, 1977, pg. 74.

    11 Inserida no rol do art.6 da C.F./88 por meio da Emenda Constitucional n 26/2000.

  • 12 BRITO, Carlos Ayres de. Principio da Dignidade da Pessoa Humana. Aula Magna exibida em 12.10.06 na TV Justia (Canal 04 da NET).

    13 SILVA, Jos Afonso da. Curso de Direito Constitucional Positivo. 24. ed. So Paulo: Malheiros, 2005, p. 118.

    14 BONAVIDES, Paulo. Do Estado Liberal ao Estado Social. 4. ed. Rio de Janeiro: Forense, 1980, p. 205-206.

    15 DANTAS, Ivo. Da defesa do Estado e das Instituies Democrticas. Rio de Janeiro: Aide Editora, 1989, p.27.

    16 BOBBIO, Norberto. O Futuro da Democracia Uma Defesa das Regras do Jogo. Trad. Brasileira de Marco Aurlio Nogueira. 2ed., Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1986, pg.20.

    17 BONAVIDES, Paulo. Curso de direito constitucional. So Paulo: Malheiros, 1999, p. 524-526.

    18 HBERLE, Peter. El estado constitucional. Trad. de Hector Fix-Fierro. Mxico: Universidad Nacional Autnoma de Mxico, 2003. p. 75-77.

    19 FERREIRA, Pinto. Curso de Direito Constitucional. 7.ed. So Paulo: Saraiva, 1995, p.88.

    20 BONAVIDES, Paulo. Do Estado Liberal ao Estado Social. 4. ed. Rio de Janeiro: Forense, 1980, p. 17.

    21 Ibid., p. 18.

    22 SILVA, Jos Afonso da. Curso de Direito Constitucional Positivo. 24. ed. So Paulo: Malheiros, 2005, p. 117, apud Emili Crosa, Lo Stato democrtico, p.25.

    23 SILVA, Jos Afonso da. Curso de Direito Constitucional Positivo. 24. ed. So Paulo: Malheiros, 2005, p.119.

    24 BRASIL, Constituio (1988). Constituio da Repblica Federativa do Brasil. Braslia: Senado, 2005.

    25 DANTAS, Ivo. Da defesa do Estado e das Instituies Democrticas. Rio de Janeiro: Aide Editora, 1989, p.27.

  • 26 SUNDFELD, Carlos Ari. Fundamentos de Direito Pblico. 4 ed. 7 tiragem. Ed. Malheiros: So Paulo, pg. 56.

    27 BONAVIDES, Paulo. Curso de direito constitucional. So Paulo: Malheiros, 1999, p. 524-526.

    28 STRECK, Lnio. Jurisdio Constitucional e Hermenutica: as possibilidades transformadoras do Direito. Palestra referente a III Jornada de Estudos da Justia Federal, exibida em 22.09.06 na TV Justia (Canal 04 da NET).

    *Advogado em Fortaleza (CE). LA BRADBURY, Leonardo Cacau Santos. Estados liberal, social e democrtico de direito: noes, afinidades e fundamentos. Jus Navigandi, Teresina, ano 11, n. 1252, 5 dez. 2006. Disponvel em: . Acesso em: 27 fev. 2007.

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