Estado e Direito - ?· levaram ao surgimento do chamado “Estado democrático de direito” e as razões…

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<ul><li><p>Estado e Direito:Contribuies ao estudo dos fundamentos </p><p>da segurana pblica no Brasil. </p><p>REALIZAO</p><p>Faculdade de Direito</p><p>Esta</p><p>do e</p><p> Dir</p><p>eito</p><p>Este mdulo, dividido em 2 unidades, aborda os conceitos e os fundamentos da segurana pblica. A primeira unidade tem por objetivo oferecer uma com-preenso sobre as teorias que discutem como o Estado e o Direito foram criados e as razes para isto acontecer; a segunda discute como a Idade Moderna mudou totalmente a concepo antiga da vida pblica; aborda os motivos que levaram ao surgimento do chamado Estado democrtico de direito e as razes que levaram as naes, desde ento, a se comprometerem em respeitar a pessoa humana, buscarem a igualdade e a promoverem a justia.</p><p>Estado e DireitoAntonio S da Silva Mestre</p><p>DIRB83</p></li><li><p>DIRB83ESTADO E DIREITO</p><p>Contribuies ao estudo dos fundamentos da segurana pblica no Brasil</p></li><li><p>UNIVERSIDADE FEDERAL DA BAHIA</p><p>FACULDADE DE DIREITO</p><p>TECNOLOGIA EM SEGURANA PBLICA</p><p>ESTADO E DIREITOContribuies ao estudo dos fundamentos da </p><p>segurana pblica no BrasilAntonio S da Silva</p><p>Salvador, 2016</p></li><li><p>5</p><p>Antonio S da Silva</p><p>SUMRIO</p><p>MINI CURRCULO DO AUTOR </p><p>CARTA DE APRESENTAO DA DISCIPLINA </p><p>UNIDADE 1 A ORIGEM DO ESTADO E DO DIREITO E AS SUAS RELAES COM O MUNDO MORAL</p><p>Aula 1.1 As teorias sobre a origem do Estado e do Direito 91.1.1 A guerra de teorias explicativas do Estado e do direito 10</p><p>1.1.2 Os juspositivismos e jusnaturalismos antigos e modernos 12</p><p>1.1.3 O neocontratualismo atual e o esgotamento do dualismo entre direito natu-ral e direito positivo 18</p><p>Aula 1.2 A vingana privada e a justia estatal 221.2.1 A histria e os sistemas legais paraestatais 22</p><p>1.2.2 As narrativas fundadoras da justia estatal e da ruptura com a autotutela jurdica 24</p><p>Aula 1.3 Os dilemas atuais de legitimao da ordem jurdica estatal 281.3.1 A depreciao das instituies pblicas 28</p><p>1.3.2 As organizaes paraestatais no mundo contemporneo 31</p><p>1.3.3 Os movimentos sociais e organizaes sociais contemporneos 32</p><p>Aula 1.4 A ideia de moralidade e as suas dimenses pblica e privada 341.4.1 A etimologia do termo ou a gramtica do ethos 34</p><p>1.4.2 O objetivo e o alcance da vida tica 37</p><p>Aula 1.5 A relao entre Estado, moral e Direito 391.5.1 O Estado, sua autonomia moral e seus limites jurdicos de atuao 39</p><p>1.5.2 O Direito, sua dimenso moral e seus desafios polticos 42</p><p>Sntese da unidade 45Exerccios de fixao da unidade 46</p></li><li><p>6</p><p>Tecnologia Em Segurana Pblica</p><p>UNIDADE 2 A CONSTRUO MODERNA, A RECONSTRUO ATUAL E OS DESAFIOS DO ESTADO DEMOCRTICO DE DIREITO</p><p>Aula 2.1 A origem e as transformaes do Estado democrtico de direito 492.1.1 O problema da liberdade poltica, a origem e os fundamentos da democracia 51</p><p>2.1.2 Os absolutismos jurdico-polticos eo problema da segurana jurdica 53</p><p>Aula 2.2 Os desafios da democracia no nosso tempo e as limitaes do direito 572.2.1 Qual democracia? Pode ela ainda nos salvar de todos os vcios do poder? 57</p><p>2.2.2 O Estado democrtico de direito em tempos de muitas leis e pouco direito 61</p><p>Aula 2.3 A ideia da justia e a sua diferena para com as outras concepes de Estado e de Direito 632.3.1 A ideia de justia na histria 63</p><p>2.3.2 A imprescindibilidade da justia para a legitimao do Estado e do direito 65</p><p>Aula 2.4 Os desafios atuais da justia: violncia, intolerncia, pobreza, crise ambiental e corrupo 672.4.1 Do Estado liberal para o Estado social 68</p><p>2.4.2 A idade do pluralismo, da emancipao e do reconhecimento 71</p><p>2.4.3 A justia poltica e a tutela dos direitos fundamentais da pessoa humana 73</p><p>Aula 2.5 Cosmopolitismo, nacionalismo e Direito 752.5.1 As teorias da comunidade universal e a clssica noo de soberania 75</p><p>2.5.2 O problema atual do pluralismo moral e poltico: uma discusso entre liberalistas e comunitaristas acerca do universalismo e do particularismo da justia 79</p><p>Sntese da unidade 83Exerccios de fixao da unidade 85Atividade final do mdulo 87Referncias 87</p></li><li><p>7</p><p>Antonio S da Silva</p><p>MINI CURRCULO DO AUTORMestre e Doutorando em Cincias Jurdico-Filosficas pela Faculdade de Direito da Uni-versidade de Coimbra/Portugal. Professor de Filosofia, tica, Hermenutica e Teoria do Direito da Faculdade de Direito da UFBA. Coordenador do Curso de Ps-Graduao em Atividade Judicante e de Ps-Graduao em Direito e Magistratura da UFBA/Escola de Magistrados da Bahia. Membro do Instituto dos Advogados da Bahia. Advogado.</p></li><li><p>Tecnologia Em Segurana Pblica</p><p>CARTA DE APRESENTAO Caro(a) amigo(a) e aluno(a)!</p><p>Iniciamos aqui nossos trabalhos sobre Estado e Direito, uma disciplina introdutria ao Curso de Tecnologia em Segurana Pblica que voc escolheu fazer na Universidade Federal da Bahia (UFBA). Estou muito feliz em ter fi cado responsvel por te acompanhar nestes estudos, sobretudo porque um tema que me fascina bastante; tenho certeza de que voc vai tirar o melhor proveito, de modo que no fi nal da disciplina dominar os conceitos bsicos sobre Estado e Direito, indispensveis para prosseguir no seu curso.</p><p>Gostaria que antes de comear voc assistisse ao fi lme brasileiro Abril Despedaado, produzido por Walter Salles e gravado em Rio de Contas, BA, pois recorrerei a ele por diversas vezes para exemplifi car o tema do Direito e do Estado com o problema da segurana pblica. Alm disto, voc ser convidado outras vezes a prestar ateno em msicas e outras histrias que te ajudem a relacionar a matria com os fatos da realidade onde vive.</p><p>Voc est recebendo agora um livro-texto, com os contedos bsicos da disciplina, indi-caes bibliogrfi cas para aprofundamento e exerccios de fi xao. A primeira unidade tem por objetivo te oferecer uma compreenso breve mas rica sobre as teorias que discu-tem como o Estado e o Direito foram criados e as razes para isto acontecer; a segunda se dedica a estes temas tambm, s que com o compromisso de te ajudar a entender como a Idade Moderna mudou totalmente a concepo antiga da vida pblica; voc conhecer os motivos que levaram ao surgimento do chamado Estado democrtico de direito e as razes que levaram as naes, desde ento, a se comprometerem em respeitar a pessoa humana, buscarem a igualdade e a promoverem a justia.</p><p>Espero interagir sempre com voc e corresponder s suas expectativas.</p><p>Um timo curso para ns!</p><p>Antonio S da Silva</p></li><li><p>Metodologia do Ensino a Distncia</p><p>UNIDADE 1 </p><p>A ORIGEM DO ESTADO E DO DIREITO E AS SUAS RELAES COM O MUNDO MORALAs instituies pblicas que temos no esto a por acaso, como se brotassem da terra, mas so fruto de discusses que s vezes demoram sculos at produzirem frutos; o Estado, por exemplo, para ns ocidentais, comea com a polis grega e atinge a maioridade com os Estados nacionais no sc. XVIII (hoje, em tempos de Mercosul, Unio Europeia, etc., talvez j estejamos num estgio at mais avanado, isto , na idade dos Estados ps-nacionais), enquanto que com o direito ocorre mais ou menos igual. Conhecer a teoria e a histria das instituies pblicas, assim como a relao que tm com a vida tica, fundamental para compreendermos o porqu de serem hoje o que so, assim como para podermos mudar o que precisa ser mudado. Quando terminar esta unidade, dedi-cada a estes temas, voc saber o que toda pessoa interessada no assunto de segurana pblica dever saber de incio: os motivos que levaram o Ocidente a escolher um cami-nho diferente do que os orientais escolheram, embora ambos procurem, igualmente, a justia, a segurana e a paz social.</p><p>Aula 1.1 As teorias sobre a origem do Estado e do direitoExistem muitas teorias que explicam os motivos que levaram os humanos, diferente-mente do que ocorre com os animais no humanos, a se organizarem em sociedade, aperfeio-la todos os dias e darem a ela um carter permanente. No fi nal desta aula, voc conhecer as teses mais comuns sobre a origem do Estado e do direito; retire o melhor proveito e d logo um grande passo na compreenso de boa parte dos proble-mas humanos que parecem sem soluo hoje em dia, fruto de um certo esgotamento do modelo de vida que foi criado durante o perodo moderno. </p></li><li><p>10</p><p>Tecnologia Em Segurana Pblica</p><p>O que leva o cidado a sujeitar-se a determinado governo ou a obedecer a deciso de um juiz? O que ser que leva Tonho, personagem de Abril Despe-daado, a sentir-se obrigado a vingar a morte do irmo? Por que ser que os mortos, como pergunta a me de Tonho, governam os vivos de sua casa?</p><p>1.1.1 A guerra de teorias explicativas do Estado e do direito Antes de estudarmos as teorias classicamente adotadas para explicarem a causa comum da origem do Estado e direito, no posso deixar de dizer que isto vai muito alm da discusso entre defensores do direito natural e do direito positivo. possvel observar, por exemplo, que aqueles que defendem uma espcie de darwinismo social acreditam que a sociedade se inicia (e tambm se aperfeioa) por um processo seletivo natural onde os mais fortes e melhores sobrevivem aos demais; veja que esta tese, defendida pelo sofi sta Trasmaco no livro I da Repblica de Plato, parece tambm presente no escri-tor brasileiro Euclides da Cunha, no seu famoso Os Sertes e onde trata da Guerra de Canudos, no deixa de denunciar a brutalidade do Estado, mas insinua o tempo todo que aquela comunidade organizada pelo Conselheiro retratava o tipo inferior de homem que era o sertanejo.</p><p>Os autores marxistas do uma outra verso para a origem do Estado, e, consequente-mente, para o sentido do direito: nenhuma dessas instituies teria uma origem natural, mas seriam o resultado de uma luta entre os que trabalham e os que possuem os meios de produo; segundo essa escola, quem vence essa disputa constri um aparato de foras para dominar os que perderam (o Estado), com instrumentos bem afi ados para se man-terem no poder; entre tais instrumentos estariam a religio e o direito. O escritor ingls George Orwell, no seu famoso livro A Revoluo dos Bichos e que mais tarde se tornou um sucesso do cinema, satiriza essa teoria onde os animais de uma fazenda se organizam para lutarem contra os seus donos, entoando uma cano que reproduz a ideia de Marx e Engels, vista numa frase que encerra o Manifesto Comunista de 1848: Trabalhadores do todo o mundo, uni-vos.</p></li><li><p>11</p><p>Antonio S da Silva</p><p>Imagem 01Filme A Revoluo dos Bichos, baseado no livro de George Orwell e que adverte para a perversidade que o Estado socialista, tal como o Estado capitalista, est sujeito a praticar.</p><p>Fonte: Frame extrado do filme Animal Farm</p><p>Mas, dessas teorias que eu gostaria de apresentar inicialmente, a que me parece mais convincente a de um historiador francs do sc. XIX, Fustel de Coulanges, o qual publi-cou um livro intitulado A Cidade Antiga, resultado de uma pesquisa que fez sobre os gregos, romanos, hebreus, hindus e outros povos antigos; ali, revela importantes desco-bertas sobre suas religies, sendo a mais importante a seguinte: a de que a crena numa vida aps a morte foi a grande responsvel pela origem das principais instituies pbli-cas que existem at hoje.</p><p>Os antigos acreditavam, de acordo com a obra de Fustel de Coulanges1, que fariam na outra vida o que j faziam por aqui; deste modo, quando morria um nobre, por exemplo, o mesmo era sepultado juntamente com seus cavalos, escravos e todos os utenslios de seu uso pessoal; isto assegurava a continuidade de uma vida conforme a sua nobreza. A garantia de uma vida feliz depois da morte exigia, tambm, que os vivos levassem ao tmulo o leite, as frutas, o po e o mel, a fim de que o morto se alimentasse de acordo; disto teria nascido, de acordo com o autor francs, a instituio da famlia, primeira </p><p>1 FUSTEL DE COULANGES, 2003, p. 19 e segs.</p></li><li><p>12</p><p>Tecnologia Em Segurana Pblica</p><p>unidade social que se desenvolveu at o surgimento da cidade (polis), uma organizao mais complexa que por sua vez se aperfeioou at chegar ao Estado nos moldes atuais.</p><p>O que o autor francs diz do Estado tem reflexo no direito. De acordo com ele, quem morria e no deixava filhos estava fadado desgraa, pois jazeria mngua para sempre; foi a que tiveram uma ideia brilhante: quem no conseguisse ter filhos, poderia intro-duzir na sua casa os filhos de outrem, criando-os como se fossem seus filhos sangue (a adoo); assim, todo mundo teria quem lhe levasse o alimento e lhe prestasse o culto familiar. O passo seguinte, conforme aquele livro, teria sido a criao da propriedade privada: para garantir nosso compromisso e lembrana com os nossos antepassados, o tmulo foi declarado inviolvel pela religio, algo que se v, inclusive, na religio hebraica quando Abrao, aps a morte de sua esposa, manda cercar o terreno onde a mesma foi enterrada2. Deste modo, estaria explicada a origem do Estado e do direito: seria um pro-cesso histrico, onde crenas e tradies se perpetuam por meio das instituies que se revigoram e se aperfeioam todos os dias. </p><p>1.1.2 Os juspositivismos e jusnaturalismos antigos e modernosOs povos antigos, talvez pelo pouco conhecimento cientfico existente e pela pequena quantidade de pessoas que tinham acesso a ele, davam s coisas quase sempre um car-ter meio mgico; o Estado e o direito no fugiam a esta regra, de modo que os deuses e heris quase sempre eram apontados como seus benfeitores. Os diferentes registros oferecidos por poetas, historiadores e filsofos, permitem que sejam classificados como jusnaturalistas3. O que isto quer dizer? </p><p>Segundo os jusnaturalistas, tanto o Estado como o direito seriam instituies eternas, imutveis, universais e necessrias: ambos seriam entidades naturais porque sempre existiram, sua essncia nunca mudaria e valiam em qualquer tempo e lugar, alm de que seriam realidades indispensveis e inevitveis em nossas vidas. O filsofo grego Arist-teles, no livro V de sua tica a Nicmaco, compara a lei natural com o fogo que no tem uma forma em Atenas e outra em Esparta, ao passo que tanto na Grcia como no Egito ele queima com a mesma intensid...</p></li></ul>