Espaço urbano

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<ul><li><p>1 </p><p>OO EESSPPAAOO UURRBBAANNOO Roberto Lobato Corra1 </p><p>I Introduo </p><p> No presente estudo, considera-se a cidade como espao urbano que pode ser analisado </p><p>como um conjunto de pontos, linhas e reas. Pode ser abordado a partir da percepo que seus </p><p>habitantes ou alguns de seus segmentos tm do espao urbano e de suas partes. Outro modo </p><p>possvel de anlise considera-o como forma espacial em suas conexes com estrutura social, </p><p>processos e funes urbanas. Por outro lado ainda, o espao urbano, como qualquer outro objeto </p><p>social, pode ser abordado segundo um paradigma de consenso ou de conflito. A maior parte deste </p><p>trabalho focaliza os processos e as formas espaciais: o espao das cidades brasileiras. </p><p>II O Que Espao Urbano? </p><p> Em termos gerais, o conjunto de diferentes usos da terra justapostos entre si. Tais usos </p><p>definem reas, como: o centro da cidade, local de concentrao de atividades comerciais, de servio </p><p>e de gesto; reas industriais e reas residenciais, distintas em termos de forma e contedo social; </p><p>reas de lazer; e, entre outras, aquelas de reserva para futura expanso. Este conjunto de usos da </p><p>terra a organizao espacial da cidade ou simplesmente o espao urbano fragmentado. </p><p> Eis o que espao urbano: fragmentado e articulado, reflexo e condicionante social, um </p><p>conjunto de smbolos e campo de lutas. assim a prpria sociedade em uma de suas dimenses, </p><p>aquela mais aparente, materializada nas formas espaciais. </p><p>III Quem Produz o Espao Urbano? </p><p> Quem so estes agentes sociais que fazem e refazem a cidade? </p><p>a) Os proprietrios dos meios de produo, sobretudo os grandes industriais; </p><p>b) Os proprietrios fundirios; </p><p>c) Os promotores imobilirios; </p><p>d) O Estado; </p><p>e) Os grupos sociais excludos. </p><p>Que estratgias e aes concretas desempenham no processo de fazer e refazer a cidade? </p><p>a) Os grandes proprietrios industriais e as grandes empresas comerciais so, em razo da </p><p>dimenso de suas atividades, grandes consumidores de espao. Necessitam de terrenos </p><p>amplos e baratos que satisfaam requisitos locacionais pertinentes s atividades de suas </p><p>empresas junto a portos, a vias frreas ou em locais de ampla acessibilidade populao. </p><p> 1 Resumo do livro O Espao Urbano, de Roberto Lobato Corra (Editora tica, Srie Princpios, 3a. edio, n. </p><p>174, 1995. p.1-16. </p></li><li><p>2 </p><p>Porm, as relaes entre os proprietrios dos meios de produo e a terra urbana so mais </p><p>complexas. A especulao fundiria tem duplo efeito. De um lado onera os custos de </p><p>expanso na medida em que esta pressupe terrenos amplos e baratos. Do outro, o aumento </p><p>do preo dos imveis, resultante do aumento do preo da terra, atinge os salrios da fora de </p><p>trabalho. importante tambm considerar, que os conflitos entre proprietrios industriais e </p><p>fundirios no mais constituem algo absoluto como no passado. Isso se deve: </p><p> ao desenvolvimento das contradies entre capital e trabalho, que torna perigosa a abolio </p><p>de qualquer forma de propriedade, entre elas a da terra, pois isto poderia levar a que se </p><p>demandasse a abolio da propriedade capitalista; </p><p> atravs da ideologia da casa prpria, que inclui a terra, pode-se minimizar as contradies </p><p>entre capital e trabalho; </p><p> prpria burguesia adquirir terras, de modo de que a propriedade fundiria passou a ter </p><p>significado no processo de acumulao; </p><p> propriedade da terra ser pr-requisito fundamental para a construo civil que, por sua vez, </p><p>desempenha papel extremamente importante no capitalismo, amortecendo reas de </p><p>atividade industrial; e </p><p> propriedade fundiria e seu controle pela classe dominante terem ainda funo de permitir </p><p>o controle do espao atravs da segregao residencial, cumprindo, portanto, significativo </p><p>papel na organizao do espao. </p><p>Nas grandes cidades, onde a atividade fabril expressiva, a ao espacial dos proprietrios </p><p>industriais leva criao de amplas reas fabris em setores distintos das reas residenciais </p><p>nobres, onde mora a elite, porm prximo s reas proletrias. Deste modo, a ao deles </p><p>modela a cidade, produzindo seu prprio espao e interferindo decisivamente na localizao </p><p>de outros usos da terra. </p><p>b) Os proprietrios de terras atuam no sentido de obterem a maior renda fundiria de suas </p><p>propriedades, interessando-se em que estas tenham o uso mais remunerador possvel, </p><p>especialmente uso comercial ou residencial de status. Esto interessados no valor de troca </p><p>da terra e no no seu valor de uso. Alguns dos proprietrios fundirios, os mais poderosos, </p><p>podero at mesmo ter suas terras valorizadas atravs do investimento pblico em </p><p>infraestrutura, especialmente viria. </p><p>A demanda de terras e habitaes depende do aparecimento de novas camadas sociais, que </p><p>tenham rendas capacitadas a participar do mercado de terras e habitaes. Depende ainda </p><p>da poltica que o Estado adota para permitir a reproduo do capital, como reforo do </p><p>aparelho estatal pelo aumento do nmero de funcionrios e atravs da ideologia da casa </p><p>prpria. Os diferenciais das formas que a ocupao urbana na periferia assume so, em </p><p>relao ao uso residencial, o seguinte: urbanizao de status e urbanizao popular variando </p><p>de acordo com a localidade da rea. </p><p>Aquelas bem localizadas so valorizadas por amenidades fsicas, como mar, lagoa, sol, verde, </p><p>etc.; e agem pressionando o Estado visando instalao de infraestrutura. Tais investimentos </p><p>valorizam a terra; e campanhas publicitrias exaltando as qualidades da rea so realizadas </p><p>ao mesmo tempo; e consequentemente seu preo sobe. </p></li><li><p>3 </p><p>Estas terras so destinadas populao de status. Como se trata de uma demanda solvvel, </p><p> possvel aos proprietrios tornar-se tambm promotores imobilirios; loteiam, vendem e </p><p>constroem casas de luxo. E com isso os bairros fisicamente perifricos no so mais </p><p>percebidos como estando localizados na periferia urbana, pois afinal de contas bairros de </p><p>status no so socialmente perifricos. Como exemplos, as cidades litorneas como Rio de </p><p>Janeiro, Salvador, Recife e Fortaleza, so frutos das valorizaes fundirias. </p><p>Naquelas mal localizadas e sem amenidades, sero realizados os loteamentos: as habitaes </p><p>sero construdas pelo sistema de autoconstruo ou pelo Estado, que a implanta enormes e </p><p>montonos conjuntos habitacionais, que ocasionam vrios distrbios sociais. </p><p>c) Por promotores imobilirios, entende-se um conjunto de agentes que realizam, </p><p>parcialmente ou totalmente, as seguintes operaes: incorporao; financiamento; estudo </p><p>tcnico; construo ou produo fsica do imvel; e comercializao ou transformao do </p><p>capital-mercadoria em capital-dinheiro, agora acrescido de lucro. </p><p>Quais so as estratgias dos promotores imobilirios? </p><p>Produzir habitaes com inovaes, com valor de uso superior s antigas, obtendo-se, </p><p>portanto, um preo de venda cada vez maior, o que amplia a excluso das camadas </p><p>populares. </p><p> possvel haver a produo de habitaes para os grupos de baixa renda? Quando esta </p><p>produo rentvel? </p><p> rentvel se so super-ocupadas por vrias famlias ou por vrias pessoas solteiras que </p><p>alugam um cmodo; </p><p> rentvel se a qualidade da construo for pssima, com seu custo reduzido ao mnimo; </p><p> rentvel quando se verifica enorme escassez de habitaes, elevando os preos a nveis </p><p>insuportveis; </p><p>A estratgia basicamente a seguinte: dirigir-se, em primeiro lugar, produo de </p><p>residncias para satisfazer a demanda solvvel; e, depois, obtm-se ajuda do Estado no </p><p>sentido de tornar solvvel a produo de residncias para satisfazer a demanda no solvvel. </p><p>Exemplos: BNH, COHABS, FGTS. </p><p>As estratgias dominantes, de construir habitaes para a populao que constitui a </p><p>demanda solvvel, tm um significativo rebatimento espacial. De fato, a ao dos </p><p>promotores se faz correlacionada a: preo elevado da terra de auto-status do bairro; </p><p>acessibilidade, eficincia e segurana dos meios de transporte; amenidades naturais ou </p><p>socialmente produzidas; e esgotamento dos terrenos para a construo e as condies fsicas </p><p>dos imveis anteriormente produzidos. </p><p>A atuao espacial dos promotores se faz de modo desigual criando e reforando a </p><p>segregao residencial que caracteriza a cidade capitalista. E, na medida em que os outros </p><p>setores do espao produzem conjuntos habitacionais populares, a segregao ratificada. </p><p>d) O Estado atua tambm na organizao espacial da cidade. Sua atuao tem sido complexa e </p><p>varivel tanto no tempo como no espao, refletindo a dinmica da sociedade da qual parte </p><p>constituinte. </p></li><li><p>4 </p><p>O Estado dispe de um conjunto de instrumentos que pode empregar em relao ao espao </p><p>urbano. So os seguintes: </p><p> direito de desapropriao e precedncia na compra de terras; </p><p> regulamentao do uso do solo; </p><p> controle de limitao dos preos das terras; </p><p> limitao da superfcie da terra de que cada um pode se apropriar; </p><p> impostos fundirios e imobilirios que podem variar segundo a dimenso do imvel, uso da </p><p>terra e localizao; </p><p> taxao de terrenos livres, levando a uma utilizao mais completa do espao urbano; </p><p> mobilizao de reservas fundirias pblicas, afetando o preo da terra e orientando </p><p>espacialmente a ocupao do espao; </p><p> investimento pblico na produo do espao, atravs de obras de drenagem, desmontes, </p><p>aterros, e implantao de infra-estrutura; </p><p> organizao de mecanismos de crditos habitao; e </p><p> pesquisas, operaes-testes como materiais e procedimento de construo, bem como o </p><p>controle de produo e do mercado deste material. </p><p>e) Os grupos sociais excludos so aqueles que no possuem renda para pagar o aluguel de </p><p>uma habitao digna e muito menos para comprar um imvel. Este um dos fatores, que ao </p><p>lado do desemprego, doenas, subnutrio, delineiam a situao social dos grupos excludos. </p><p>A estas pessoas restam como moradia: cortios, sistemas de autoconstruo, conjuntos </p><p>habitacionais fornecidos pelo agente estatal e as degradantes favelas. </p><p>As trs primeiras possibilidades habitacionais pressupem uma vinculao a um agente sem, </p><p>no entanto, ocasionar transformao da camada populacional excluda em agente modelador </p><p>do espao urbano. na produo da favela, em terrenos pblicos e privados que os grupos </p><p>sociais excludos tornam-se, efetivamente, agentes modeladores. A ocupao destes </p><p>terrenos que do ensejo criao das favelas uma forma de resistncia segregao social </p><p>e sobrevivncia ante a absoluta falta de outros meios habitacionais. Aparentemente </p><p>desprovida de qualquer elaborao espacial, as favelas acrescentam uma lgica que inclui a </p><p>proximidade a mercados de trabalho. </p><p>Outro fenmeno observado a progressiva urbanizao da favela, at se tornar um bairro </p><p>popular. Isto se explica pela ao dos moradores que pretendem a melhoria das condies </p><p>de vida, conjuntamente com o Estado que, por motivos diversos, destina recursos </p><p>urbanizao das favelas. </p><p>No processo de produo concreta de um bairro residencial ou de um distrito industrial, </p><p>vrios agentes esto presentes. Como exemplo, o bairro de Copacabana. Desde a dcada de </p><p>1870, so verificadas tentativas de valorizao fundiria da rea, entretanto de incio mal </p><p>sucedidas. A partir de 1892, iniciou-se a valorizao do local resultante de uma aliana de </p><p>interesses comuns, firmada entre proprietrios fundirios, promotores imobilirios, bancos e </p><p>empresas industriais e comerciais. O Estado fazia-se presente pelos interesses comuns no </p><p>poder. O capital fundirio-imobilirio, associado a outros capitais, estava, entretanto, </p><p>interessado apenas em produzir habitaes para a populao de status elevados, produzindo </p></li><li><p>5 </p><p>mesmo residncias de veraneio e novos espaos. Do exposto dessume-se de que a partir de </p><p>fins do sculo XIX, a cidade tornou-se objeto de lucro. Assim como em Copacabana, de modo </p><p>semelhante, repetiu-se o fenmeno na Barra da Tijuca. </p><p>IV Processos e Formas Espaciais </p><p>A grande cidade capitalista o lugar privilegiado de ocorrncia de uma srie de processos </p><p>sociais, entre os quais h acumulao de capital e a reproduo social tem importncia bsica. Estes </p><p>processos criam funes e formas espaciais, ou seja, criam atividades e suas materializaes, cuja </p><p>distribuio espacial constitui a prpria organizao espacial urbana. </p><p>Acreditamos ser til repensar e recuperar o conceito de processos espaciais devido a sua </p><p>utilidade na conexo ao humana-tempo-espao-mudana. Os processos espaciais e as respectivas </p><p>formas so os seguintes: </p><p> Centralizao e rea central; </p><p> Descentralizao e os ncleos secundrios; </p><p> Coeso e as reas especializadas; </p><p> Segregao e as reas sociais; </p><p> Dinmica social da segregao; </p><p> Inrcia e as reas cristalizadas. </p><p> conveniente deixar claro que estes processos e formas espaciais no so excludentes entre </p><p>si, podendo ocorrer simultaneamente na mesma cidade ou no mesmo bairro. Neste sentido, pode-se </p><p>afirmar que os processos espaciais so complementares entre si. Passa-se a seguir ao debate de cada </p><p>processo espacial acima mencionado. </p><p>Centralizao e rea central </p><p>A rea central constitui-se no foco principal no apenas da cidade, mas tambm de sua </p><p>hinterlndia. Nela concentram-se as principais atividades comerciais, de servio, da gesto pblica e </p><p>privada, e os terminais de transportes inter-regionais e intra-urbanos. Ela se destaca na paisagem da </p><p>cidade pela sua verticalizao. </p><p>A gnese da rea central. A cidade mantm uma srie de relaes com entes e pessoas </p><p>exteriores a ela. O surgimento da rea central foi percebido de forma ntida com a Revoluo </p><p>Industrial. O grande aumento de produtos industrializados gerou a necessidade de uma malha de </p><p>transportes que suprisse a crescente demanda, dando ensejo construo das grandes ferrovias. A </p><p>partir de ento se verifica um processo de aglutinao em torno das estaes ferrovirias, pelo </p><p>grande fluxo de pessoas que circulavam destas estaes. Os empresrios buscavam se estabelecer </p><p>prximos s massas de pretensos consumidores. Com isto, iniciou-se a aglutinao de investimentos </p><p>e estabelecimentos em torno destas estaes de transportes, delimitando a rea central da cidade. </p><p>Com a forte procura por localizaes prximas rea central da cidade, o preo do imvel </p><p>elevou-se sobremaneira. Com isso, atualmente, apenas os empreendimentos nos quais o lucro deriva </p><p>diretamente do fator localizao continuam a buscar um ponto nesta rea da cidade. As grandes </p></li><li><p>6 </p><p>indstrias de base que independem da clientela no local esto se instalando em terrenos mais </p><p>afastados, onde o custo menor, como inclusive, foi dito linhas atrs: terrenos grandes e baratos. </p><p>O ncleo central e a zona perifrica do centro. O processo de centralizao ao estabelecer a </p><p>rea central configurou-a de modo segmentado, com dois setores: de um lado o ncleo central e de </p><p>outro, a zona perifrica do centro. A figura abaixo indica a localizao destes dois setores em uma </p><p>cidade imaginria, correlacionando-os com os transportes inter-regionais e intra-urbanos. </p><p>O ncleo central caracteriza-se, na segunda metade do sculo XX, quando o processo de </p><p>centralizao j no mais desempenha o papel relevante que desempenhou no passado, pelos </p><p>seguintes aspectos: </p><p> Uso intensivo do solo: trata-se da rea da cidade de uso mais intensivo, com maior </p><p>concentrao de atividades econmicas, sobretudo do setor tercirio. ai que se encontram </p><p>os mais elevados preos da terra, justificando-se assim a intensidade do uso do solo. </p><p> Ampla escala vertical: a presena de edif...</p></li></ul>