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  • CelsoFurtado

    Esferas de influnciae desenvolvimento:o caso da Amrica Latina

    Dadas as actuais condies de equilbrioestratgico termo-nuclear, o exerccio de he-gemonias supra-nacionais no encontra justi-ficao seno em termos dos interesses espe-cficos das prprias potncias hegemnicas.Para as super-potncias, as esferas de in-fluncia j no tm significado sob o pontode vista da segurana militar: representamsistemas de dominao econmica que redu-zem a liberdade dos pases do Terceiro Mundopara adaptarem as suas estruturas aos reque-sitos do desenvolvimento. A hegemonia exer-cida pelos Estados Unidos na Amrica Latinaconstitui srio obstculo ao desenvolvimentonessa regio. O projecto norte-americanode desenvolvimento latino-americano no pa-rece ter qualquer viabilidade, salvo comotcnica de congelamento do statu quo social.

    DA GUERRA FRIA DELIMITAODE REAS DE INFLUNCIA

    Na comunidade de naes que constituem o Terceiro Mundo naes para as quais os problemas do desenvolvimento preve-lecem sobre todos os demais, os pases da Amrica Latinaocupam uma situao particular, em razo da peculiaridade desuas relaes com os Estados Unidos. Os pases subdesenvolvidosafricanos e asiticos, em sua quase totalidade alcanaram a inde-pendncia poltica no correr dos ltimos dois decnios e so lide-rados presentemente por uma gerao surgida de lutas revolucio-nrias. A lembrana das vitrias recentemente alcanadas marcade optimismo o comportamento desses povos, levando-os mesmo

  • a sobrestimar as suas foras e possibilidades nas lutas para su-perar o desenvolvimento. Na Amrica Latina, ao contrrio, existe aconscincia generalizada de que se vive uma poca de declnio.Por um lado, a fase do desenvolvimento fcil, sob o impulso deexportaes crescentes de produtos primrios ou da substituio deimportaes, vai-se exaurindo por toda a parte. Por outro, toma-seconhecimento de que a margem de autodeterminao, na busca demeios para enfrentar a tendncia para a estagnao econmica,tendeu a reduzir-se, na medida em que os imperativos da segu-rana dos Estados Unidos exigiram crescente alienao de sobe-rania por parte dos governos nacionais. Essa diferena de situaohistrica explica, em certa medida, a disparidade de atitudes psi-colgicas que se observa correntemente entre os povos latino--americanos e a maioria dos demais povos do Terceiro Mundo.Ao optimismo destes ltimos contrape-se o sentimento de revoltaque prevalece entre os latino-americanos, principalmente entre osjovens, sabidamente mais sensveis a respeito das incertezas do fu-turo. A conscincia de que o futuro da regio se torna cada diamais incerto, particularmente aguda entre aqueles que percebemque, de forma irregular mas generalizada, a sociedade latino--ainericana atravessa presentemente uma fase revolucionria de-corrente da penetrao da tecnologia moderna e do surgimento denovas aspiraes colectivas, dentro de um marco institucional ina-dequado para absorver essa nova tecnologia e interpretar e satis-fazer as novas aspiraes.

    Sendo facto notrio que os problemas de relevncia da polticainterna dos pases latino-americanos interessam de forma directas autoridades responsveis pela segurana dos Estados Unidos,as quais esto em condies de interferir decisivamente no encami-nhamento da soluo de tais problemas, perfeitamente naturalque os latino-americanos indaguem com crescente preocupao:a) o que se entende exactamente por segurana dos EstadosUnidos, e b) que grau de compatibilidade existe entre os interessesdessa segurana e a revoluo latino-americana? Os povos latino--americanos que, no passado, estiveram quase que exclusivamentevoltados para eles mesmos, comearam a compreender que o seufuturo ser mais e mais influenciado por factos que ocorrem foradas suas fronteiras e pelo grau de percepo que tenham eles dosignificado desses factos. natural, portanto, que constitua, hoje,preocupao averiguar as tendncias evolutivas dos centros depoder mundial, particularmente dos Estados Unidos.

    Os Estados Unidos diferenciam-se de outra qualquer naomoderna pelo facto de que a sua formao histrica se realizouem condies ideais de segurana exterior. At meio sculo atrs,diz-nos um dos mais lcidos analistas da poltica exterior dos Esta-dos Unidos, o povo norte-americano tinha um senso de seguranavis-a-vis ao mundo exterior, como nenhum outro povo havia expe-

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  • rimentado desde a poca dos romanos \ A excluso da Frana docontinente americano durante as guerras napolenicas, a preo-cupao dos ingleses em preservar a integridade do extenso evulnervel territrio canadense e, por outro lado, a preeminnciada Inglaterra no Continente euro-asitico exercida atravs dapoltica de equilbrio de poderes, criaram condies para que aexpanso territorial dos Estados Unidos e a consolidao dassuas instituies polticas se realizassem sem encontrar obstculosde maior significao. Os ingleses preservaram o Canad, mas aomesmo tempo transformaram a sua poderosa frota no principalinstrumento da segurana exterior dos Estados Unidos. Como ne-nhuma nao americana, ou grupo de naes americanas, consti-tua perigo real ou potencial para os Estados Unidos, desde que afrota inglesa pudesse ser utilizada para prevenir a interferncia dequalquer outra nao europeia no Hemisfrio os Estados Unidosgozavam de condies ideais de segurana, sempre que renun-ciassem a quaisquer pretenes sobre o Canad. Esse sistema desegurana foi definido na chamada doutrina de Monroe, para cujaformulao constribuiram decisivamente os ingleses. Essa doutrinatanto pode ser interpretada em termos de definio de uma rea desegurana por parte dos Estados Unidos, a qual somente tem sen-tido se se toma em considerao o papel que cabe ao poder navalingls, como em termos de poltica inglesa destinada a afastar dasAmricas as demais potncias europeias, com vista a formar umespao econmico sob a sua hegemonia. Com efeito, os dois objec-tivos foram perfeitamente conciliveis durante todo um sculo.

    Foi somente no presente sculo que os americanos se aperce-beram de que as condies ideais de que gozavam decorriam muitomenos da sabedoria da sua poltica de isolamento, do que daposio inglesa como rbitro dos conflitos de poder na Europa.O extraordinrio desenvolvimento industrial na Alemanha, ao co-locar esse pas em condies de reivindicar a hegemonia no conti-nente europeu, ps em cheque a posio da Inglaterra. Teve incioento o perodo de grandes guerras, para as quais os EstadosUnidos foram arrastados pela sua comunidade de interesses comos ingleses.

    Os conflitos mundiais do presente sculo puseram fim aosistema de poder que se formara a partir das guerras napolenicas,dentro do qual a preeminncia inglesa, decorrente da sua capaci-dade industrial e da flexibilidade da sua potncia naval, se exerciacomo um simples poder de arbtrio. Dentro desse sistema, umpequeno nmero de naes atribuiam-se poder imperial. Contudo,o exerccio desse poder estava limitado pelos requerimentos dasegurana das demais grandes Potncias. Nas brechas desse

    1 George F. KENNAN, American Diplomacy: 1900-1950, New York, 1951pg. 9.

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  • complexo sistema, criavam-se condies para a sobrevivncia deum certo nmero de pequenas e mdias naes. Essa situaomodificar-se-ia substancialmente como decorrncia das duas gran-des guerras, criando-se pela primeira vez na histria moderna,uma situao de bipolarizao do poder. E os Estados Unidosforam colocados, subitamente, no centro de um dos plos do podermundial.

    Tendo-se desenvolvido, historicamente, em condies privi-legiadas de segurana e havendo sempre alcanado os seus objec-tivos de poltica exterior mediante a mobilizao de escassos recur-sos militares ou diplomticos, os Estados Unidos encontraram-se,no trmino da Segunda Guerra Mundial, em posio de ter queexercer uma complexa poltica de poder sobre bases totalmentenovas. A nica doutrina de que puderam lanar mo para enfrentara nova situao estava enfeixada no pensamento de Wilson, o qualseguia as linhas da experincia pan-americana em busca da criaode uma sociedade democrtica de naes. As grandes potnciasseriam chamadas a renunciar aos seus poderes imperiais, conceder--se-ia auto-determinao aos povos coloniais e os assuntos inter-nacionais passariam a ser tratados dentro de uma disciplina detipo parlamentar. Evidentemente esse tipo de organizao reque-ria a existncia de um super-poder suficientemente forte paradesencorajar a aco de qualquer potncia, ou grupo de potncias,que pretendesse exercer poderes imperiais sobre as outras. Essesuper-poder somente poderia ser criado pela existncia de umasuper-potncia ou por um acordo entre as grandes potncias,frmula esta que prevaleceu formalmente ao ser estruturada acarta das Naes Unidas, a qual instituiu a tutela dos cincomembros permanentes do Conselho de Segurana. Essa carta,entretanto, limita-se a estabelecer um mtodo de aco diplomtica,o qual no assegura que as pretenes das grandes potncias sejamcompatveis entre si. A ideia de uma sociedade de naesdebatendo as suas divergncias e votando como em um par-lamento, para tornar-se vivel exigia, de alguma forma, o reco-nhecimento da existncia de um super-poder. Os americanos, maisque qualquer outro povo, tm conscincia desse facto, porquantoa prpria existncia da Unio Norte Americana requereu umesforo secular para lograr o efectivo reconhecimento de umsuper-poder capaz de contrapor-se fora centrfuga dos interessesde Estados cuja existncia precedera a da Unio.

    O esquema americano de organizao de uma sociedade denaes exigiria, para ter xito na implantao de uma disciplinainternacional, que as grandes potncias ao trmino da guerra,definissem objectivos bsicos de poltica exterior no antagnicos,ou aceitassem, de uma ou outra forma, a preeminncia dosEstados Unidos. Ocorre, entretanto, que a Segunda GuerraMundial havia provocado a emergncia de uma potncia em

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  • condies de pretender exercer hegemonia no continente euro--asitico, isto , engendrara aquilo contra o que a Inglaterra eos Estados Unidos ha

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