escravos em angra, xvii

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Análise da escravidão em Angra (Açores) através dos registros paroquiais seiscentistas.

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  • 209

    ESCRAVOS EM ANGRA NO SCULO XVIIuma abordagem a partir dos registos paroquiais

    porMaria Hermnia Morais Mesquita*

    Resumo

    Na ausncia de estudos sobre os escravos em Angra e na impos-sibilidade de conhecermos com exactido o seu peso demogrfico, vamostentar algumas abordagens, a partir dos registos paroquiais, que permitamchegar a algum conhecimento sobre este segmento da populao da cida-de. Sabemos que os paroquiais so uma fonte manifestamente insuficien-te para responder a questes tais como: quantos eram? em que se ocupa-vam? como se relacionavam? o que lhes era permitido? que consideraomereciam? O nosso propsito , no entanto, explorar essa fonte e dar con-ta do que ela nos pode esclarecer relativamente ao conhecimento sobre osescravos em Angra para o perodo de 1583-1699. Perodo para o qual dis-pomos de bases de dados organizadas segundo a metodologia da recons-tituio de parquias.

    Introduo

    sabido que, desde cedo, a presena de escravos foi uma realida-de no seio da populao de Angra. Essa presena insere-se, de uma formageral, no contexto scio-econmico em que os arquiplagos atlnticossurgiram. A Madeira e os Aores, espaos inabitados aquando da sua des-

    * Ncleo de Estudos da Populao e Sociedade (NEPS), Universidade do Minho.

    ARQUIPLAGO HISTRIA, 2 srie, IX (2005) 209-230

  • coberta, precisaram de recorrer mo-de-obra escrava para suprir a faltade gentes necessrias ao seu aproveitamento econmico. A presena deescravos na ilha Terceira referida por autores como o Padre AntnioCordeiro, entre outros. Na sua Histria Insulana, ao mencionar as coisasque Ilha Terceira iam dar, vindas das mais diversas partes, este autor re-fere os escravos de Angola e de Cabo Verde1. Naturalmente que o maiorou menor fluxo de escravos dependia da facilidade ou dificuldade comque se chegava s fontes fornecedoras (fundamentalmente a costa africa-na) e da maior ou menor necessidade que se tinha desse tipo de mo-de--obra. Os registos paroquiais que trabalhamos, no mbito de um estudoque fizemos sobre as gentes de Angra no sculo XVII2, confirmam, comum nmero no desprezvel de registos, a existncia e a reproduo de es-cravos nesta cidade.

    De facto, ao reconstituir as cinco parquias que compunham a ci-dade de Angra no sculo XVII3, verificmos que em todos os registos pa-roquiais baptizados, casamentos e bitos h assentos referentes a escra-vos. O maior nmero desses assentos encontra-se nos livros de baptismo.Tido, vulgarmente como mercadoria que se podia comprar e vender, o es-cravo era, contudo, por parte dos seus donos, objecto de cuidados quevisavam garantir-lhe a sobrevivncia fsica e a salvao da alma. Efectiva-mente o baptismo dos escravos era obrigatrio para os seus senhores. Se-gundo as Ordenaes Manuelinas4, sob pena de os perderem para quem os

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    1 Pe. Antnio CORDEIRO, Histria Insulana, p. 306.2 As Gentes de Angra no sculo XVII, tese de doutoramento, policopiada, que defendemos

    na Universidade do Minho em Maio de 2004.3 No se sabendo precisar a data da fundao de cada uma das cinco parquias, sabe-se,

    no entanto, que todas estavam criadas antes de findar o sculo XVI. A da S (igreja ca-tedral desde 1535), era j paroquial de S. Salvador antes da criao da diocese; a de Nos-sa Senhora da Conceio (no se sabendo a data da sua fundao, Drumond d comocerta a sua existncia j no ano de 1521); a de S. Pedro, elevada a parquia por alvarde 20 de Maio de 1574; a de Santa Luzia, com alvar de criao datado de 2-2-1585,consta num alvar de 23-5-1595 como descarregada da parquia da S por ter maisde 1200 fogos, e 5000 e tantas almas de confisso, afora 2000 soldados do presdio, e ha-ver muita gente que vinha nas embarcaes por escala, que a maior parte corriam a de-sobrigar-se dos preceitos da Quaresma na S; S. Bento, parquia extra-muros, a suaigreja paroquial tem alvar de fundao datado de 9 de Maio de 1573. Veja-seDRUMMOND, Francisco, Apontamentos Topogrficos, Polticos Civis e Eclesisticospara a Histria das Nove Ilhas dos Aores servindo de suplemento aos Anais da IlhaTerceira, Angra do Herosmo, IHIT, 1990, pp. 209-220.

    4 Ordenaes Manuelinas, Liv. 5, Tt. 99, Lisboa, Fund. C. Gulbenkian, 1984, pp. 300-301.

  • acusasse, aqueles que adquirissem escravos deviam mand-los baptizar. Is-so devia ser feito dentro de prazos determinados: o prazo de um ms, quan-do o cativo era de idade igual ou inferior a dez anos, era alargado para seismeses quando o escravo fosse maior do que essa idade. E os nascidos emcasa dos donos deviam receber esse sacramento dentro do tempo determi-nado para os demais recm-nascidos5. O cumprimento desta obrigao me-receu da Igreja especial ateno, pois as Constituies Sinodais, acautelan-do eventuais incertezas quanto aos escravos que vinham de fora, estipula-vam que se baptizassem condicionalmente os adultos que vm de fora, co-mo so escravos, quando deles se duvidar se foram baptizados, ou se o fo-ram na forma da igreja. E o vigrio ou cura que o sobredito no cumprir,pagar por cada vez um cruzado, para a nossa S e Meirinho6.

    Com presena tambm nos assentos de casamento e bito, veja-mos o que nos revela cada uma das fontes relativamente aos escravos.

    Nos assentos de baptismo, quando se trata de crianas recm--nascidas, alm da data em que ocorre o baptismo, o proco menciona onome da criana, o nome da me e a sua condio de escrava e por ve-zes o nome do dono a quem esta pertence. Quando o pai conhecidotambm identificado pelo nome e refere se escravo e a quem perten-ce. No caso dos escravos adultos referido, frequentemente, a quem per-tencem e, por vezes, mencionam a sua provenincia geogrfica e a corda pele. Efectivamente, o baptismo, receberam-no tanto escravos recm--nascidos como adultos.

    Os assentos de casamento referem, nos poucos casos encontrados,a identificao dos cnjuges de forma algo varivel: indicam os nomesdos nubentes, raramente os apelidos, a sua condio de escravos e a quempertencem.

    Os assentos de bito so os mais escassos e os mais parcos de in-formao relativamente aos escravos.

    Entre os baptizados realizados no longo perodo de 1583 a 1699constam os de 1.258 crianas filhas ilegtimas de mulheres escravas cuja

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    5 Observando-se o estipulado nas Constituies Sinodais, o baptismo devia ser recebidoat aos primeiros 8 dias aps o nascimento. Na Constituio quinta do ttulo terceiro re-za o seguinte: Conformandonos com ho antigo costume deste nosso Bispado, aindageral de todo o Reyno: Mandamos que do dia que a criana nacer ao mais atee oytodias primeiros seguintes, seu pay ou may, o quem dela o cargo tiuer, a faa baptizar naygreja em cuja freiguezia viuer (), pp. 8-9

    6 Constituies Sinodais, pp. 6-7

  • identificao se ficava pelo nome prprio e, em no raros casos, acresci-da do nome do senhor ou da senhora a quem a dita me escrava pertencia.Para algumas destas crianas ilegtimas tambm se conhece o nome dopai, quase sempre um escravo. O interessante verificar que, quando in-dicado o nome de ambos os progenitores escravos, o pai e a me podiampertencer a senhores diferentes. Alguns casos, como o dos pais de Maria,baptizada em Fevereiro de 1611, ilustram bem tais situaes: o pai era es-cravo de Ferno Feio e a me pertencia ao padre Mateus Peres. Alm dosnascimentos ilegtimos contmos mais 107 crianas escravas, filhas depais que se haviam recebido em casamento (foram 98 os registos de ca-sais escravos, recebidos em matrimnio, que tiveram filhos em Angra).Encontrmos, ainda, 163 escravos adultos que foram apresentados pelosseus donos para serem baptizados.

    O casamento tambm lhes era permitido. Encontrmos um nme-ro, minoritrio, de casamentos em que um ou ambos os cnjuges so iden-tificados como escravos. Estes casamentos fizeram-se entre escravos domesmo senhor, entre escravos de senhores diferentes e entre escravos e in-divduos forros ou indivduos que parece terem sido sempre livres. Assim,entre 1583-1699, contmos 71 casamentos em que o cnjuge masculino referenciado como escravo, 42 em que essa referncia feita em relaoao cnjuge feminino e 34 casamentos em que ambos os cnjuges so re-feridos como escravos. Que significado atribuir ao facto de haver casosem que apenas um dos cnjuges era referido como escravo? O cnjugeno referido como escravo seria algum ou filho de algum que j o haviasido e que ganhara a liberdade? Ou haveria mesmo casos em que um doscnjuges nunca havia sido escravo? Que pensar de casos como o do casa-mento de Andr Melo com gueda Teixeira realizado em 16-11-1692 emque ele referido como sendo escravo do bispo D. Frei Clemente Vieirae ela como filha de Sebastio Dias Teixeira e de Maria Gonalves, j fa-lecidos, fregueses de S. Roque dos Altares?

    Quanto aos bitos de escravos, o seu nmero relativamente pe-queno: at 1699 apenas encontramos nos registos de bito 51 escravos e59 escravas. E o nmero dos que morrem com a indicao de forros ain-da menor (apenas um homem forro e 24 mulheres que so mencionadascomo mulher livre, preta ou negra forra e escrava livre). Este nmero re-duzido de sadas por bito poder dever-se a uma incompleta identifica-o por parte do proco.

    MARIA HERMNIA MORAIS MESQUITA

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  • Dados quantitativos

    impossvel calcular o nmero de escravos existente em Angra,como em qualquer outra rea geogrfica do nosso pas. Tidos como elemen-to marginal na composio da populao, os escravos no constam das con-tagens de fogos e moradores7. No caso de Angra, para o sculo XVII, tam-bm no podemos contar com os Ris de Confessados. Assim, todas as con-tagens que se apresentam baseiam-se apenas nos registos paroquiais.

    Comeamos, a partir dos registos de baptismo e bito das cincoparquias da cidade, por contabilizar a presena de escravos nesse pero-do de 1583-1699 como consta do quadro 1.

    Quadro 1Escravos em Angra: baptizados e defuntos

    (1583-1699)