ESCLARECIMENTO: A EDUCAÇÃO EM KANT E ADORNO & ?· esclarecimento apresentado por Immanuel Kant e Adorno…

Download ESCLARECIMENTO: A EDUCAÇÃO EM KANT E ADORNO & ?· esclarecimento apresentado por Immanuel Kant e Adorno…

Post on 09-Dec-2018

212 views

Category:

Documents

0 download

Embed Size (px)

TRANSCRIPT

1

ESCLARECIMENTO: A EDUCAO EM KANT E ADORNO &

KORKHEIMER

Tiago Soares dos Santos

Instituto Federal do Paran

tiago.soares@ifpr.edu.br

Luiz Carlos Eckstein

Instituto Federal do Paran

luiz.eckstein@ifpr.edu.br

O que se prope nesse trabalho fazer um dilogo entre o conceito de

esclarecimento apresentado por Immanuel Kant e Adorno e Horkheimer naquilo que

tange os aspectos educacionais e pedaggicos a respeito das duas teorias. Na primeira

parte dessa apresentao nos apoiaremos na obra Resposta pergunta: Que

Esclarecimento? de Kant. Num segundo momento apresentaremos o conceito de

esclarecimento na perspectiva da Teoria Crtica de Adorno e Horkheimer.

Kant claro e direto j no incio de sua obra: Esclarecimento a sada do

homem da sua menoridade, da qual ele prprio culpado (KANT, 2008, p. 63). Nessa

frase de abertura do texto kantiano, podemos nos deter e fazermos algumas reflexes. A

primeira delas a importncia social do conhecimento, sua conquista e conseqncias.

Quando se conquista o esclarecimento, ou seja, o saber e se tem clareza daquilo que se

faz bem como daquilo que acontece individual e socialmente, pode-se e at necessrio

agir com autonomia. A autonomia o resultado da sada do homem de sua menoridade,

da sua necessidade de ser guiado pelos outros e de assumir a liderana dos prprios

passos. De acordo com Kant, o ato de no agir esclarecidamente ou de preferir a

obedincia de outrem uma deciso tomada pelo prprio sujeito. De modo que o

homem o culpado de sua menoridade e a sua culpa consiste na falta de deciso e

coragem de servir-se de si mesmo sem a direo de outrem (KANT, 2008, p. 63).

Para o filsofo iluminista, a preguia e a covardia homologam a menoridade

humana, pois cmodo se deixar guiar pelas decises dos outros. Viver (n)a

menoridade delegar suas decises aos outros, apoiar-se nos demais e esperar deles

todo o necessrio constituio da vida humana. Essa permanncia na menoridade se

mailto:tiago.soares@ifpr.edu.brmailto:luiz.eckstein@ifpr.edu.br

2

mantm, pois o homem criou uma necessidade, uma espcie de segunda natureza, uma

natureza de servido voluntria por medo, preguia e covardia. Diante dessa situao,

para se livrar dessa condio de menoridade o homem precisa dar um salto, no muito

difcil, mas como a fenda a ser ultrapassada completamente desconhecida, so poucos

os que conseguem ultrapass-la, transformando o prprio esprito. Aos que

conseguirem transpor esse obstculo da menoridade maioridade intelectual, no

haver como no pensar, visto que sero completamente livres.

Afirma o prprio Kant; para este esclarecimento, porm, nada mais se exige

seno a liberdade (KANT, 2008, p. 65) no exerccio da liberdade que se adquire a

capacidade de fazer uso pblico da razo, de fazer-se ouvir, isto , de assumir e ter

autoria daquilo que se diz. Mas, de modo geral, prefere-se abrir mo da liberdade,

desistir da maioridade e do esclarecimento e agir de acordo com o seguinte discurso:

Ouo, agora, porm, exclamar de todos os lados:

no raciocineis! O Oficial diz: no raciocineis, mas

exercitai-vos! O financista exclama: no

raciocineis, mas pagai! O sacerdote proclama: no

raciocineis, mas crede! (Um nico senhor no

mundo diz: raciocinai quanto quiserdes, e sobre o

que quiserdes, mas obedecei!) Eis aqui por toda a

parte a limitao da liberdade. (KANT, 2008, p.

65).

Muito embora, seja cmodo viver nessa condio de obedincia, ela no impede

o uso pblico da razo, pois todas as aes acima, apesar de parecerem desprovidas de

liberdade, restringem-se ao campo do uso privado da razo. Kant conceitua o uso

privado da razo como aquele que o sbio pode fazer de sua razo em um certo cargo

pblico ou funo a ele confiado (KANT, 2008, p. 66) e o uso pblico da razo se

refere aquele que qualquer homem, enquanto sbio, faz dela diante do grande pblico

do mundo letrado (Kant, 2008, p. 66). O pensador alemo, de fato, afirma que todos

podem sair dessa condio de menoridade intelectual, mas tambm afirma que, apesar

da possibilidade, nem todos ascendem condio de maioridade e uso da razo. Nesse

sentido, a proposta pedaggica de Kant se apresenta de modo bastante instigador ao

grupo seleto da sociedade e, ao mesmo tempo, extremamente marginal excludente com

3

os demais grupos ou classes que no se constituem de esclarecidos ou em processo de

esclarecimento.

O uso pblico da razo se restringe aos esclarecidos, ou seja, queles que tm

voz, que ao dizerem ou transmitirem suas idias de modo livre so e sero ouvidos. A

utilizao pblica da razo privilgio de poucos, tendo em vista que so poucos os

esclarecidos. Esse pequeno nmero de esclarecidos se d em funo da preguia e

covardia de muitos no esclarecidos. Assim, de acordo com a pedagogia kantiana, a

falta de conhecimento, de esclarecimento e de participao na vida pblica resultado

das aes individuais dos sujeitos envolvidos. Temos de admitir, sem temores, que esse

pensamento pedaggico kantiano influenciou e influencia diretamente as construes

sociais no campo da educao liberal e neoliberal. Assim, a culpa da falta de insero,

de uso e exerccio pleno da cidadania na contemporaneidade ocorre em funo da

preguia e da covardia de alguns que tendo acesso e condies de permanncia no

buscam seu esclarecimento preferindo viver numa condio de no liberdade, pois

assim, no precisar pensar e dever sempre obedecer.

De acordo com o pensamento kantiano, todos os esclarecidos e os no

esclarecidos devem continuar obedecendo s regras morais da sociedade, pagando as

dvidas conforme combinado entre as partes, enfim, promovendo uma sociedade que se

encaminhe a um processo de paz. Esse processo de cumprimento das regras

estabelecidas entre as partes resultado da liberdade responsvel pelo esclarecimento

conduzir criao racional de normas e regras que precisaro ser cumpridas por todos.

O que vale ressaltar aqui que a criao e a instituio dessas regras e normas racionais

cumpridas por todos na sociedade conseqncia do uso pblico da razo, assunto

especfico dos esclarecidos. Aos no esclarecidos, bem como aos esclarecidos, cabe o

uso privado da razo que o cumprimento do uso privado de sua razo, isto , o

cumprimento das normas sociais estabelecidas pelos esclarecidos.

Pensamos que a pedagogia proposta por Kant enfatiza a obedincia e o

cumprimento das normas sociais a fim de manter o bom convvio e a paz social. Para

tanto, um grupo de esclarecidos que superem a condio da preguia e da covardia

comandaria queles que no superaram tal condio. A princpio parece uma pedagogia

justa, tendo em vista que se o critrio de superao da condio de menoridade o

combate e a vitria sobre a preguia, estamos favorecendo e fortalecendo uma

4

sociedade justa com aqueles que lutam e vencem seus maiores obstculos, indicados por

Kant como preguia e covardia.

Por outro lado, a pedagogia kantiana apresenta que determinados sujeitos

esclarecidos fazem uso pblico da razo de modo livre, criam as normas que todos

privada e indistintamente tem de obedecer, ditam o que todos, esclarecidos e no

esclarecidos devem fazer e aprender. Assim, um grupo se fortalece e se torna cada vez

mais esclarecido e o outro cada vez menos livre, esclarecidos e obedientes s palavras

dos grandes detentores do uso pblico da razo. So esses os pressupostos que pudemos

dar conta da pedagogia kantiana. Pedagogia esta que divide a sociedade em blocos

antagnicos de dominados e dominadores, que justifica e mantm a dominao de uns

sobre outros. Mesmo apresentando esse carter de constituio de blocos de uso pblico

e uso privado da razo, parece que Kant defensor declarado do processo de liberdade.

Todavia, a liberdade fundamental na constituio da coragem e na superao da

covardia s mantida e necessria em Kant quando se pensa na construo racional das

leis que devero ser obedecidas por todos. H uma redefinio das relaes pedaggicas

quando Kant une liberdade e educao, pois a educao deve estimular o aluno e pensar

por si mesmo, e nessa tarefa, deve, por si mesmo tambm, obedecer s normas

constitudas (Cf. ARANHA, 2006, p. 210).

Tal como Kant, outros pensadores de constituio Iluminista e liberal

fomentaram teorias pedaggicas que justificaram processos educacionais de dominao

e manipulao do pensamento das pessoas.

Ento, para contrapor essa concepo de esclarecimento to influente em nossos

tempos, apoiamo-nos no texto de Theodor Adorno e Max Horkheimer intitulado

Dialtica do Esclarecimento para apresentar a segunda parte desse trabalho e propor,

fundamentado na teoria crtica de Adorno e Horkheimer, uma nova perspectiva a

respeito do esclarecimento.

Os pensadores da Escola de Frankfurt iniciam a obra Dialtica do

Esclarecimento apresentando o conceito e a funo do esclarecimento no pensamento

ocidental no processo de transio das narrativas mticas at a consolidao do discurso

cientfico. Nas palavras de Adorno e Horkheimer o esclarecimento tem perseguido

sempre o objetiv