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  • ESCRAVIDO, MESTIAGENS, AMBIENTES, PAISAGENS

    E ESPAOSEDUARDO FRANA PAIVA, MARCIA AMANTINO E

    ISNARA PEREIRA IVO ORGANIZADORES

  • ESCRAVIDO, MESTIAGENS, AMBIENTES, PAISAGENS E ESPAOS

    Coordenao de produo: Ivan AntunesDiagramao: rai_lopes

    Capa: Carlos ClmenImagem da Capa: George Grimm. Vista da cidade de Sabar. leo

    sobre tela, 57,0 x 98,5 cm, c. 1886.Reviso: Ricardo Kobayashi

    Finalizao: Lvia C. L. Pereira

    CONSELHO EDITORIALEduardo Peuela CaizalNorval Baitello Junior

    Maria Odila Leite da Silva DiasCelia Maria Marinho de Azevedo

    Gustavo Bernardo KrauseMaria de Lourdes Sekeff (in memoriam)

    Pedro Roberto JacobiLucrcia DAlessio Ferrara

    1 edio: julho de 2011

    Eduardo Frana Paiva | Marcia Amantino | Isnara Pereira Ivo

    ANNABLUME editora . comunicaoRua M.M.D.C., 217 . Butant

    05510-021 . So Paulo . SP . BrasilTel. e Fax. (011) 3812-6764 Televendas 3031-1754

    www.annablume.com.br

    Dados Internacionais de Catalogao na Publicao - CIP

    P166 Paiva, Eduardo Frana, Org.; Amantino, Marcia, Org.; Ivo, Isnara Pereira, Org.Escravido, mestiagens, ambientes, paisagens e espaos. / Organizao de Eduardo

    Frana Paiva, Marcia Amantino e Isnara Pereira Ivo. So Paulo: Annablume, 2011. (ColeoOlhares)

    284 p. ; 16 x 23 cm

    Simpsio Escravido e Mestiagem, Niteri (RJ), 2010.

    ISBN 978-85-391-0258-7

    1. Histria. 2. Histria do Brasil. 3. Histria da Escravido. 4. Histria da Mestiagem.5. Histria Social da Cultura. 6. Escravido. 7. Mestiagem. 8. Espao Urbano. 9. EspaoRural. 10. Brasil Colnia. 11. Brasil Oitocentista. I. Ttulo. II. Srie. III. Paiva, EduardoFrana, Organizador. IV. Amantino, Marcia, Organizadora, Ivo, Isnara Pereira, Organizadora.

    CDU 981CDD 981

    Catalogao elaborada por Wanda Lucia Schmidt CRB-8-1922

  • ARTE COLONIAL E MESTIAGENS NO BRASILSETECENTISTA: IRMANDADES, ARTFICES, ANONIMATO E

    MODELOS EUROPEUS NAS CAPITANIAS DE MINAS E DONORTE DO ESTADO DO BRASIL1

    CARLA MARY S. OLIVEIRA

    1. Este trabalho contm as primeiras sistematizaes resultantes do Estgio Ps-Doutoral realizadoentre agosto e dezembro de 2009 junto ao Programa de Ps-Graduao em Histria da UniversidadeFederal de Minas Gerais, sob superviso da Prof Dra. Adalgisa Arantes Campos, com a pesquisa OBarroco no Brasil: (des)conexes entre Minas Gerais e o litoral do Nordeste, que contou comfinanciamento de bolsa PROCAD-NF/Capes.

    No possvel falar de arte colonial na Amrica portuguesa sem atentar para ofato de que a extenso territorial sob a bandeira lusa espraiava-se por domniosdemasiadamente vastos, numa poca de transportes rudimentares e comunicaodemorada. Dessa realidade derivam algumas consequncias prticas, manifestas nos na vida cotidiana, mas tambm no campo artstico.

    Na verdade, entre fins do sculo XVI e comeos do sculo XIX pode-se dizerque se constroem no Brasil ao menos duas tradies irms, mas detentoras dediferenas bem sutis entre si: aquela que se convencionou chamar de BarrocoMineiro, e outra, litornea, mais circunscrita faixa da zona da mata localizada entreo Recncavo Baiano e a Paraba, que se pode chamar de Barroco Litorneo. Soduas tradies que beberam na mesma fonte ibrica, inicialmente, mas que construramdiscursos visuais de modo distinto, naquilo que se refere abordagem de temascomuns e reinterpretao de modelos europeus sob a tica de influncias locais.

    Primeiramente, no se pode esquecer que a grande contratadora dos serviosdos artfices coloniais, tanto no Novo Mundo portugus como no espanhol, era aIgreja Romana, quer fosse atravs das irmandades leigas, parquias ou dioceses,quer fosse por parte das congregaes missionrias. Assim, detalhe fulcral nesseprocesso a proibio expressa da Coroa portuguesa quanto instalao dascongregaes conventuais e missionrias na Capitania das Minas. Essa determinao,

    UNIVERSIDADE FEDERAL DA PARABA UFPB

  • ARTE COLONIAL E MESTIAGENS NO BRASIL SETECENTISTA: IRMANDADES, ARTFICES...9 6

    no meu entendimento, que vai marcar a motivao primeira da arte religiosa nasalterosas e no litoral do atual Nordeste: enquanto neste ltimo desenvolve-se umdiscurso visual voltado, desde os primeiros momentos da colonizao, para a catequese tanto do gentio, como dos africanos e mesmo dos colonos europeus, entre os quaisse queria extirpar de vez as prticas judaizantes dos cristos-novos , em Minas eleter um carter devocional, mais afeito s crenas e santos popularizados especialmenteatravs das irmandades leigas, enquanto que a presena de jesutas, franciscanos,beneditinos e carmelitas, com seus conventos e misses na regio litornea do atualNordeste, direcionou o apelo das imagens religiosas sua funo catequizadora.

    Num universo em que as coisas do esprito e da f se imbricavam profundamentes coisas da vida cotidiana e suas oscilaes polticas, no causa espcie constatarque tanto o poder religioso quanto o poder civil utilizavam mutuamente as cerimniaspblicas2 um do outro, e vice-versa bem como as manifestaes artsticas comoelementos simblicos de reafirmao tanto das relaes de fora que tensionavam asociedade colonial como tambm do status quo vigente.

    Como to bem destaca Serge Gruzinski ao referir-se Nova Espanha, o tempocolonial parece ordenar-se em torno de uma trama de acontecimentos cujo centroseria ocupado pela imagem religiosa.3 Tal raciocnio pode ser estendido Amricaportuguesa sem problema algum: justamente em torno do campo religioso e de suasefemrides e representaes que se constituem os marcos temporais e elementosimagticos que ordenam e organizam o mundo colonial, quer seja em Vila Rica, SoJos do Rio das Mortes4 ou Sabarabuu5, quer seja em Olinda, Recife ou Salvador.

    Contudo, em meio a tanta pompa e circunstncia de entradas, procisses,novenas, rezas e demais rituais cristos, havia que se definir e consolidarcomportamentos e entendimentos do estar no mundo conformes estrutura socialvigente, e em linhas gerais a Igreja Romana tridentina acreditava poder faz-lo pormeio do prprio espao sacro do templo cristo. Como isso se dava nos intervalosentre as festas? Como se reforavam condutas e se incutia a F tanto ao devotoardoroso como ao gentio selvagem, ao africano desterrado ou, mais ainda talvez, aohebreu falsamente convertido? No preciso tergiversar tanto para perceber que ouso de imagens decorativas no interior das igrejas catlicas passou, desde fins dosculo XVI, a ter um papel preponderante nesse processo que se desenrolava nasAmricas, tanto na portuguesa como na espanhola. E foi a que se instalou a brecha

    2. RIBEIRO, Ana Isabel. The use of religion in the ceremonies and rituals of political power (Portugal,16th to 18th Centuries). In: CARVALHO, Joaquim (ed.). Religion, ritual and mythology: aspects ofidentity formation in Europe. Pisa: Edizioni Plus; Pisa University Press, 2006, p. 265-274. Disponvelem: . Acesso em: 25 out. 2008, p. 266.

    3. GRUZINSKI, Serge. A guerra das imagens: de Cristovo Colombo a Blade Runner (1492-2019).Traduo de Rosa Freire dAguiar. So Paulo: Companhia das Letras, 2006, p. 184.

    4. Atualmente, Tiradentes.5. Atualmente, Sabar.

  • CARLA MARY S. OLIVEIRA 9 7

    por meio da qual se mostraram, aqui e acol, as estratgias de apropriao eressignificao que se cristalizaram na arte religiosa colonial dos sculos XVII e XVIIIno Brasil, estratgias essas que historiadores como Gruzinski chamam de hibridizaoou mestiagem.

    O que no difcil de constatar, para mim, que apesar das tentativas deregulao do uso das imagens religiosas atravs de decretos6 e tratados7, a IgrejaRomana tridentina no conseguiu exercer, de fato, total controle sobre as representaesartsticas produzidas no Novo Mundo. Poder-se-ia explicar tal fato pela escassezde artfices e artistas com formao profissional satisfatria, ou seja, que seguissemestritamente os cnones europeus, mas tal entendimento das coisas consideraria apenasum dentre vrios dos fatores que parecem ter condicionado a produo dessas imagensreligiosas nas Amricas.

    IRMANDADES, PINTURA E IMAGENS MESTIAS NA CAPITANIA DAS MINAS

    A meu ver, a condio especial da Capitania das Minas no que se refere ausncia das ordens religiosas conventuais e missionrias por determinao rgiacriou um espao propcio a leituras particulares dos cnones visuais da Contra Reforma.Antes de tudo, no era prioridade da administrao colonial converter o gentio ou osafricanos escravizados empregados na minerao. Havia que se garantir, primeiramente,o controle sobre a extrao, beneficiamento e circulao do ouro e dos diamantes. Oresto vinha depois, era adendo s premncias da vigilncia sobre a fonte de riquezaque mais enchia os olhos da Coroa lusa.

    Assim, abriu-se espao nas alterosas para o cultivo de devoes especficas deuma populao que no teria a mesma assistncia espiritual disponvel no litoral dasCapitanias do Norte do Estado do Brasil e que, por isso, acabaria por encontrar formasde se organizar no campo religioso a partir de uma instituio de origens medievais, adas irmandades leigas.

    Na verdade, a falta de um direcionamento unvoco gestado pelas ordensmissionrias abriu a possibilidade de que devoes muito especficas se tornassem,muitas vezes, o centro gravitacional da vida social de diversos lugarejos, povoados evilas mineiras. A profuso de irmandades leigas refletiu-se no somente na quantidadeelevada de igrejas e capelas eretas em locais como Vila Rica, So Jos do Rio das

    6. CONCLIO de Trento. Decreto sobre a invocao, a venerao e as Relquias dos Santos, e sobre asimagens sagradas (1563). In: LICHTENSTEIN, Jacqueline (dir.). A pintura: textos essenciais. Vol.2: a teologia da imagem e o estatuto da pintura. Coordenao da traduo de Magnlia Costa. SoPaulo: Editora 34, 2004, p. 65-69.

    7. PALEOTTI, Gabriele. Discorso intorno alle imagini sacre e profane. Firenze: Fondazione Memofonte,2008 [1581]. Disponvel em: . Acesso em: 12 out. 2008.

  • ARTE