ernest schnabel - no rasto de anne frank

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No Rasto de Anne Frank [Ernest Schnabel]

SEGUI o rasto de Anne Frank. Levou-me da Alemanha de novo para a Alemanha, pois no havia outra sada. Um rasto subtil: caminhos de escola e caminhos de sonho, o caminho da fuga, o limiar do esconderijo-o caminho para a morte, apagada pelo tempo e pelo esquecimento. E eu procura das setenta e seis pessoas que sabia terem conhecido Anne, e terem-na acompanhado durante algum tempo ou trilhado caminhos semelhantes aos dela ou cujos caminhos apenas tinham cruzado com os dela, consciente ou inconscientemente. Cinquenta destas pessoas evoca Anne no seu dirio. Perguntei por todo o lado pelos nomes das Outras ou o acaso mos forneceu, mas s consegui encontrar quarenta e duas das setenta e seis pessoas. Dezoito morreram e s sete de morte natural. Outras dez desapareceram ou deixaram a Europa, conforme fui informado. E ainda seis no as encontrei nas suas casas. Mas quarenta e duas pessoas disseram-me ou escreveram-me o que de Anne ainda sabem. Algumas possuem pequenas lembranas dela: fotografias, cumprimentos rabiscados a lpis margem de cartas dos pais, duas medalhas obtidas em concursos de natao, uma cama de criana, um pedao de pelicula de pequeno formato, inscries no registo de nascimento e de escola, um penteador. Rastos, rastos, histriazinhas, rastos, recordaes que so como feridas. Este livro contm os depoimentos das quarenta e duas testemunhas, documentos do tempo da ocupao alem dos Pases-Baixos e alguns apontamentos de Anne Frank que ainda no foram publicados na Alemanha. Mas estas testemunhas todas no fornecem uma biografia, pois a criana, cuja vida aqui se devia descrever, s nos deixou um rasto subtil e silencioso. Mas isso j eu o disse. um rasto gracioso, caprichoso, por vezes cheio de imprevistos. Revela delicadeza e sentido crtico, um dote especial para viver as coisas e sentir terror, mas revela tambm uma coragem extraordinria. Revela inteligncia, mas tambm acanhamento, amadurecimento precoce ao lado de surpreendente ingenuidade, uma conscincia intacta e invulnervel e isso ainda na mais dura desgraa. o rasto dum ser humano "bom e belo", como diziam os Gregos quando queriam definir uma pessoa de boa formao. O rasto revela muita coisa, mas no isto: onde residia nesta criana a fora que hoje irradia do seu nome? Residia no dentro mas acima dela? A misso duma biografia seria explicar a pessoa e o seu segredo. Ns, que estamos perante esta fora, evocamos, ao pronunciar o nome de Anne Frank, mais alguma coisa do que a sombra da sua pessoa. Evocamos, ao mesmo tempo, a lenda. Da pessoa Anne Frank as minhas testemunhas sabiam contar muita coisa, mas perante a lenda ficaram silenciosas, quase contidas. No a contrariaram com uma s palavra, mas era como se se sentissem obrigados a proteger-se a si prprias. Todas tinham lido o Dirio de Anne, mas no o mencionavam. Algumas at tiveram a coragem de ir ver a pea de teatro, mas pouco disseram quando lhes falei nisso. Dir-se-ia que ficaram surpreendidas, no surpreendidas com a pea mas antes com a estranha agitao duma histria que pertence sua prpria histria. Nem sequer ainda conseguiram decifrar todo o mistrio dessa sua prpria histria. A conversar com elas, tive por vezes a impresso de estar a interrogar os pssaros a que falava S. Francisco de Assis. Respondiam: ele falou connosco. que mais quer? Por isso Anne Frank desempenhar, neste livro, um papel subtil e vago, comparada Anne Frank do Dirio ou quela Anne Frank que, noite aps noite, aparece em cena em qualquer parte do mundo, perturbada pela vida, movendo-se entre os pobres bastidores do seu esconderijo, de rosto diferente em cada teatro, mas com a mesma fora fatal. Neste livro falar-se- duma criana como h muitas. De resto, no podia ser de outra maneira, pois na realidade ela era uma criana. Sim, Anne era uma criana e no encontrei ningum que afirmasse ela ter sido um prodgio fora do comum ou ter ultrapassado todas as medidas comuns. Escrevia um dirio. Desejava sobreviver sua morte. E isso o clamor duma esperana vaga, como o cu os ouve todos os dias. Se ela tivesse pressentido a lenda, se tivesse adivinhado que, de facto, iria sobreviver e sobreviver com mais realidade do que a da sua prpria vida, o corao ter-lhe-ia estremecido.

No seu dirio Anne faz-nos assistir a quase stima parte da sua vida. Escrevia a "Kitty", personagem imaginria. As sete pessoas que com ela partilhavam o esconderijo sabiam que costumava escrever e mesmo os visitantes clandestinos estavam a par disso. Sabiam tambm, mais ou menos, o que era que escrevia, porque Anne, por vezes, lhes lia uma cena do Dirio ou uma das suas histrias. Mais do que isso que no revelava. So luzes isoladas-necess rio seria apresentar um todo. Anne escrevia a Kati: E se eu publicasse um romance sobre o "anexo"? No te parece interessante? Mas, com este ttulo, toda a gente era capaz de imaginar que se tratava de um romance policiaL Basta de brincadeiras, deixa-me falar a srio. No parecer inconcebvel ao Mundo, depois da guerra. Dez anos depois o que ns, os Judeus, contarmos sobre a nossa vida aqui, as nossas conversas e as nossas reflces? Os dez anos h muito que passaram. Teve Anne razo? inconcebvel o que nos transmitiu? Ou no ser mais inconcebvel ter sido preciso esta criana ensinar-nos como os homens vivem, falam, comem, o que um homem, como se desenvolve? E no inconcebvel terem matado essa criana e seis das pessoas que com ela estiveram escondidas, e ainda mais outros seis milhes, enquanto ns vivamos, falvamos? E no inconcebvel ns sabermos mas termo-nos calado ou sabermos mas no termos acreditado no que sabamos, e agora continuarmos a viver, a comer e a falar? Por aquela anotao de 29 de Maro de 1944 sabemos que Anne chegou a pensar vagamente em publicar o Dirio depois da guerra. Um apelo do governo exilado holands, que ela tinha escutado na noite anterior, sugeriu-lhe a ideia ou, pelo menos, consolidou nela o seu desejo secreto. Entre os papis de Anne encontrou-se um papelinho com uma srie de nomes supostos que ela tencionava dar aos amigos e adversrios mencionados no dirio, caso este fosse publicado. O dirio de Anne foi publicado com esses nomes e para evitar confuses conservo-os no meu livro. E hei-de dar tambm nomes supostos ou apenas iniciais s outras testemunhas que participaram directamente, mas que Anne no conheceu ou no mencionou. H direitos e sentimentos particulares que se devem respeitar. Mas para garantir tambm, formalmente, o carcter de documento autntico e de fcil verificao, ficou depositada no notrio da editorial Fischer-Bucherei, em Frankfort, uma lista com os nomes e endereos completos de todas as minhas testemunhas. quarenta e duas testemunhas falam neste livro. E as quarenta e duas testemunhas vivem quarenta e duas vidas prprias., Os destinos de algumas delas sero relatados mesmo se certos trechos no parecem ter relao directa com a pessoa Anne Frank. No sero contados por acaso, e no me desviarei do rasto de Anne. Mas o rasto , por vezes, to frgil e melindroso que poderia empalidecer ou mesmo desfazer-se se no estivesse protegido dentro duma pea maior. Plantas delicadas sempre se desenterram com um torro de relva. E tenho ainda outra razo para falar destas pessoas: O destino conduziu-as, de todos os pontos cardiais, ao encontro de Anne. Os seus caminhos cruzaram-se num nico ponto. Em seguida cada um continua na direco do seu prprio destino. O ponto de interseco o encontro com Anne Frank. E dali partem os raios que iluminam o mundo que Anne via quando olhava sua volta. quarenta e duas testemunhas, portanto. Pelo caminho ainda me indicaram mais duas, cujas direces poderia ter averiguado. Mas fui avisado de que se tratava de testemunhas de m qualidade e no as procurei. Um dos dois homens talvez tenha denunciado Anne Frank; o outro foi, como est provado, um cmplice da execuo. Mas Anne foi uma vtima entre muitas vitimas e o denunciante e o cmplice da execuo no eram seno dois entre os muitos denunciantes e cmplices. Alguns estiveram diante do tribunal. Todos disseram a mesma coisa. O que mais poderiam, por isso, ter acrescentado aqueles dois? Impossvel preencher a lacuna no meu relato. Ou, ficando ela

aberta, preenche-se por si.

O PRINCIPIO DO RASTO E A SOMBRA ANTES de iniciar a procura do rasto de Anne Frank, fui falar com o pai dela. um homem esbelto, alto, muito inteligente, duma slida formao e educao, muito modesto, muito bondoso. Sobreviveu s perseguies, mas custa-lhe e di-lhe falar disso, porque perdeu mais do que se ganha com a mera vida e com o sobreviver. Os Frank eram uma velha famlia judaico-alem. O pai de Otto Frank, um comerciante, provinha de Landau. A famlia de sua me remonta, nos registos de Frankfort, ao sculo XVII. Otto Frank nasceu e criou-se em Frankfort. Frequentou o "LessingGymnasium" que, depois de ter feito o exame final, deixou em 1908, para se dedicar ao comrcio, como tinha feito o pai. Rebentou a guerra mundial e o sr. Frank foi mobilizado para o regimento de artlharia da Rennia. Enviaram-no juntamente com um grupo de gemetras e matemticos para a "Artilharia-Lichtmess-Trupp" na frente ocidental, na regio de Cambrai. A histria sangrenta e cheia de vicissitudes deste sector conhecida. Otto Frank participou na grande batalha de tanques de Cambrai, em Novembro de 1917. O seu destacamento foi a primeira unidade do Exrcito alemo que viu os tanques britnicos e a primeira a iniciar o fogo de defesa. Embora a aco desses novos e monstruosos fantasmas no trouxesse logo a deciso da guerra, pode dizer-se, no entanto, que com eles se entrou na sua ltima fase. O chefe da unidade especial a que pertencia Otto Frank, chamava-se B. Vive hoje em Schwenningen. Frank fala desse oficial de Wurtenburgo como dum homem inteligente e civilizado que sabia manter, dum modo sensato, a ordem entre os homens do seu agrupamento. Em 1917 props ele que Otto Frank recebesse a graduao de oficial. Sem que tivesse frequentado a escola militar ou assistido a qualquer curso de oficiais, Otto Fr