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Entrevista

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  • ENTREVISTA | Frei Alberto Beckhuser

    O Mestre incansvel na

    defesa e promoo do Exerccio do Sacerdcio de

    Cristo

    ww

    w.f

    ranciscanos.o

    rg.b

    r

  • Por Moacir Beggo

    S de livros publicados, organizados ou editados

    sobre Liturgia no Brasil, Frei Alberto Beckhuser

    tem mais de 30. O ltimo, no ano passado, recebeu

    o ttulo de Celebrar Bem. Como a maioria deles, o

    Mestre em Sagrada Liturgia vem em socorro do culto

    divino, que tenta resistir aos ataques incessantes

    de uma sociedade cada dia mais consumista,

    globalizada e mundana. Sua luta incansvel

    para que o rito no saia do caminho indicado pela

    Sacrosanctum Concilium, que define Liturgia como

    o exerccio do sacerdcio de Cristo. Por E-mail, no

    ms de janeiro, Frei Alberto aceitou o meu pedido de

    entrevista. Estava de frias at o dia 25 de janeiro.

    Minhas frias neste janeiro so no meu escritrio,

    elaborando e atualizando o Devocionrio da Famlia

    Franciscana. Dia 26 de janeiro recomeo minhas atividades. Primeiro participarei da Assemblia Anual

    da ASLI (Associao dos Liturgistas do Brasil) em Cachoeira do Campo (MG). Seguir-se- um curso de

    Liturgia em Divinpolis (MG). Em seguida, tirarei duas semanas de folga, para, em seguida, voltar s

    aulas, no fim de fevereiro no Seminrio de Caratinga (MG) e, voltando a Petrpolis, j estaremos no

    incio das aulas. No primeiro semestre de 2009 darei aulas no Seminrio Diocesano de Petrpolis, o que

    j venho fazendo h quase dez anos, explicou.

    Frei Alberto me recebeu no Instituto Teolgico Franciscano de Petrpolis, onde professor de

    Teologia da Liturgia, e reservou uma manh inteira para falar sobre um dos assuntos que o torna um

    dos maiores especialistas e conhecedores do mundo. Ele no s um professor, que didaticamente

    expe a matria, mas um grande animador litrgico no Brasil. Fala com paixo e sabedoria da

    dimenso simblica da linguagem litrgica, mas no deixa de ser um ferrenho crtico das distores

    e exteriorismos muitas vezes sentimentais das celebraes. Precisamos recuperar a dimenso

    simblica da vida, o que no fcil com a agitao e a atitude funcional de produo, diz. Ex-

    Coordenador de tradues de textos litrgicos da CNBB, Frei Alberto concorda com a escritora Adlia

    Prado e aponta os pecados nossos de cada dia. E provoca: Voc j comungou pela telinha?

    AcoMPAnhe A entrevistA!

    02 03

  • site Franciscanos Como o Sr. define a liturgia?

    Frei Alberto Beckhuser - Existem vrias

    maneiras de compreender o que liturgia. Em

    primeiro lugar, conforme j disse Pio XII, a liturgia

    no consiste simplesmente em ritos. muito

    mais. E tambm no so normas e rubricas que

    orientam e dirigem o culto cristo. A liturgia

    deve ser definida a partir de Cristo, a partir da

    Economia da Salvao. Ento, poderia dizer de

    duas maneiras o que a liturgia: uma a obra de

    Deus a servio dos homens, obra da Santssima

    Trindade, obra de salvao de Jesus Cristo e que

    atualizada e aplicada atravs da Igreja e da

    celebrao da memria desta obra. Portanto,

    rito, sim! E sem rito no h liturgia. Mas um rito

    memorial celebrativo da ao salvadora de Cristo

    no mundo, que Cristo confiou aos apstolos e a

    toda a Igreja, dizendo: Fazei isto em memria

    de mim. Outra maneira, conforme o Vaticano

    II, de definir o que a liturgia , como se diz na

    Sacrosanctum Concilium, a Constituio sobre a

    Reforma e a Renovao da Liturgia, no n. 7: a

    liturgia o exerccio do sacerdcio de Cristo.

    Portanto, Jesus exerceu o sacerdcio como

    mediador e salvador. E esse exerccio continua

    presente hoje na ao memorial desta ao

    sacerdotal de Jesus. Isso a liturgia, que no

    gosto de definir simplesmente de liturgia, mas

    chamar de Sagrada Liturgia, porque liturgia

    qualquer rito. Por exemplo: a assinatura de um

    contrato pelo presidente da Repblica. uma

    ao ordenada, prevista, e que deve ser cumprida.

    Mas se considerarmos a liturgia simplesmente

    neste seu aspecto externo, que chamo de

    expresso litrgica, ento cairamos no legalismo,

    no ritualismo. Isso no liturgia.

    site Franciscanos - A catequese importante

    para conscientizar as pessoas nesse caso?

    Frei Alberto - Uma catequese histrico-

    salvfica, que seja da histria da salvao, para

    compreender o que se celebra. A entra uma

    questo importante: a liturgia, conforme diz

    o Catecismo da Igreja Catlica, colocada na

    dimenso do conceito de celebrao. Aqui entra

    a questo: o que se celebra? Como se celebra e o

    que acontece na celebrao? Ento, para qualquer

    celebrao deve haver um fato valorizado e este

    fato valorizado, na liturgia, Jesus Cristo e sua

    ao de glorificao de Deus, o Pai, e da salvao,

    da mediao. Como tornar presente este fato?

    Celebrar significa justamente isso: celebrar

    tornar clebre, tornar presente, e para tornar

    presente tem que contar, tem que lembrar.

    Ento, celebrar lembrar um fato valorizado,

    importante, que no caso Jesus Cristo. E o que

    acontece que esse fato valorizado, essa ao

    salvfica e de glorificao, torna-se presente.

    Isso ns chamamos de terceiro elemento da

    celebrao: o mistrio. Ento, o fato valorizado

    a Pscoa, Cristo, e sua ao. E a expresso

    deste fato o rito, so os smbolos e aquilo que

    se vivencia, que a inter-comunho solidria

    divino-humana por Cristo. E este justamente o

    mistrio que chamamos a vivncia do mistrio. E

    claro, por exemplo, se no houver conhecimento

    deste fato, como que se pode celebrar? O que se

    celebra? Ento, renem-se as pessoas para fazer

    barulho. Essa questo muito sria, a questo da

    iniciao, da compreenso da f: quem Jesus

    Cristo na vida do mundo e de cada pessoa? No

    adianta voc decretar e exigir que o jovem v

    missa se ele no sabe quem Jesus Cristo. s

    conhecendo, amando e seguindo Jesus Cristo

    que se pode realmente celebrar e vibrar com

    esta realidade divino-humana que se realiza na

    liturgia.

    02 03

  • site Franciscanos - Depois de uma prtica de

    mais de 40 anos de renovao litrgica ps-

    conciliar, que avaliao o Sr. faz de nossas

    celebraes?

    Frei Alberto - Isso est muito bem expresso

    naquele documento da CNBB, o 43, sobre a

    Animao da vida litrgica no Brasil. Naquele

    tempo, era assessor da CNBB e colaborei com a

    elaborao do texto bsico. E ali ns constatamos

    que, aps o Conclio, houve realmente um grande

    entusiasmo por parte do clero, do

    povo. Houve uma acolhida positiva

    e alegre de toda a proposta de

    reforma e renovao. Mas muito

    mais da reforma, da questo de

    mudana de rito. E no se chegou

    suficientemente compreenso da

    renovao litrgica, que algo muito

    mais profundo, pois da vivncia

    da f e dos mistrios. Ou seja, foi

    um pouco a questo da novidade. Mas, a CNBB,

    sobretudo D. Clemente Isnard - que trabalhou

    de maneira muito intensa na aplicao da

    constituio litrgica no Brasil, a Sacrosanctum

    Concilium -, promoveu cursos, encontros,

    at escolas, assim por diante, nesse primeiro

    momento de entusiasmo. Mas, aos poucos, a

    coisa foi esfriando e a Igreja na Amrica Latina

    se preocupou mais com a libertao do homem,

    o aspecto social, em detrimento do sagrado, do

    culto. Esse aspecto celebrativo ficou um pouco

    de lado, assim como o aprofundamento do que

    seja realmente a liturgia. E, com isso, a prpria

    liturgia foi sendo, por vezes, instrumentalizada

    para fins quase que ideolgicos. Ento, celebrar

    a vida tinha s o aspecto horizontal. Claro, que

    nem todos seguiram este caminho, mas houve

    uma tendncia neste sentido. Alm disso, tudo

    o que vinha de Roma era um pouco rejeitado,

    como algo oficial, de cima para baixo etc. E

    faltou tambm um aprofundamento teolgico

    da liturgia. Houve at uma tese, que chamaria de

    heresia dos anos 80, onde o que importava era

    celebrar a vida. Mas qual essa vida? Eu diria,

    sim, celebrar a vida, na vida que Cristo. Ento,

    toda a ao do homem, mesmo a promoo

    humana, social, de direitos humanos, entra na

    celebrao, mas na linguagem celebrativa, e no

    na ideolgica. No se pode instrumentalizar a

    prpria homilia para uma finalidade que no

    aquela fundamental da liturgia: o culto divino, a

    ao de graas e a salvao. Infelizmente, houve

    um outro problema que foi a falta de professores,

    mestres, preparados para a formao litrgica do

    clero. Ns vemos que nos Seminrios, pelo Brasil

    afora, h pouqussimos professores preparados

    para a liturgia. E h uma tremenda improvisao.

    Ento, o jovem clero, - s vezes digo um pouco

    fortemente, que no sabe mais fazer uso dos

    No adianta voc decretar e exigir que o jovem v missa se ele no sabe quem Jesus Cristo. s conhecendo, amando e seguindo Jesus Cristo que se pode realmente celebrar e vibrar com esta realidade

    divino-humana que se realiza na liturgia.

    04 05

  • livros litrgicos se torna mero executor de

    folhetos. E at mal executados. No conhece

    as introdues, que so muito importantes, dos

    livros litrgicos, no s da missa, mas tambm

    dos sacramentos. No se interessam mais em

    se dedicar realmente ao aprofundamento e

    ao estudo da liturgia. Com isso