entrevista com eugênio trivinho (puc-sp)

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Entrevista com o professor Eugênio Trivinho, concedida ao jornalista Bruno de Pierro. (2012).

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  • 1. Entrevista do professor da PUC-SP Eugnio Trivinho concedida ao jornalistaBruno de Pierro para o portal Brasilianas.org e o Blog do Luis Nassif (ano: 2012)Estamos vendo surgir uma nova modalidade de capitalismo com as redes sociais,segundo a qual as regras da comunicao no so mais ditadas pelo jornalismo.Alm dos fatos que costuma abordar e perseguir, a prtica jornalstica est svoltas com o sobrefato, ou seja, a movimentao da sociedade dentro do espaociberntico, da qual a produo simblica do jornalismo dependente. A avaliao de Eugnio Trivinho, professor do Programa de Estudos Ps-Graduados emComunicao e Semitica da Pontifcia Universidade Catlica de So Paulo (PUC-SP) e assessor do CNPq, da CAPES e da FAPESP.Considerado um dos principais nomes do estudo sobre a cibercultura, Trivinhofalou ao Brasilianas.org por duas horas sobre as transformaes da comunicaonas redes sociais e a defasagem do jornalismo para lidar com a nova ordem quese impe. Para o professor, o que acontece um destronamento do jornalismocomo instrumento de mediao simblica da sociedade, ao mesmo tempo que oreal reportado sem a necessidade da edio, perdendo-se, assim, o monopliodo jornalismo especializado.Na conversa, Trivinho ainda explica o conceito de glocalizao, em oposio globalizao. Para ele, o termo glocal pode explicar melhor o cenrioestabelecido pela conexo da Internet, pois significa aquilo que une o global darede no local de acesso. Por fim, Trivinho fala sobre como o modo de produo dosaber na cibercultura tornou-se incompatvel com os cnones da Cincia. Confiraabaixo as principais partes da entrevista. A ntegra est disponvel,em PDF, abaixodo post, ou pode ser acessada por aqui.Brasilianas.org - Qual a concepo que o senhor tem pensado, nos ltimosanos, sobre as redes sociais na Internet?Eugnio Trivinho - Em primeiro lugar, a questo da categoria: redes sociais umtrusmo, uma expresso conceitual que acabou tendo bastante aceitao nocampo jornalstico, no senso comum e tambm no campo acadmico, por umdescuido do hbito. Na realidade, o conceito bastante pleonstico, porque noh rede que no seja social. O adjetivo entra a quase como um qualificador emrelao s redes, para redundar no bvio. Superada essa questo do pleonasmointerno - e no deveria ser assim -, deveria ser o conceito de rede scio-tecnolgica. Esse o conceito diferencial. Mas supondo que redes sociais soaquelas, e especificamente aquelas que se incubam no ciberespao, e,

2. articulando-se nele, emergem, trazem alguma coisa que nos faz pensar.Sobretudo porque essas redes sociais tem dimenses, que tem semprepreocupado tericos de diversos campos do saber. Elas tem uma dimensoclaramente alm do societrio, da sociabilidade; tem uma funo claramentepoltica; econmica; cultural, evidentemente; e moral. No campo poltico, as redessociais so uma espcie de epicentro articulatrio de indivduos que, a priori, soisolados, para fazer renascer alguma forma de movimentao na sociedade. E nasociedade pode ser dentro ou fora da rede. Essa forma de fazer poltica pode ser,muitas vezes, to forte e envolvente que capaz de se mobilizar e se fazerprojeo contra o prprio aparato repressivo (cavalos, gs lacrimogneo etc.).Essas redes sociais tem um clara funo econmica, de duas formas. Elas soarticuladoras de novas formas de empreendedorismo. As formas deempreendedorismo que nasceram no ciberespao, sinceramente, no estovinculadas a certos padres capitalistas; muitas vezes so projetos de pessoasque no vivem no mesmo local, cumprem determinadas funes, prestamservios, a partir de lugares remotos, e so projetos que no implicam acontratao de mo de obra assalariada. E o fato de no haver contratao demo de obra assalariada implica na recusa de certos pressupostos capitalistas,porque onde h emprego de mo de obra assalariada, h, evidentemente,produo de riqueza no repartida. Essa produo da mais-valia, que se reparte,na maior grandeza, para aquele que detm as condies de contratao, e amenor grandeza para aquele que apenas vende sua fora de trabalho, suacompetncia cognitiva, sua habilidade profissional, a recusa e a ausncia noconfigura, portanto, a existncia daquele fio condutor que sempre animou ocapitalismo, que foi a explorao de um ser humano por outro.Mas, na verdade, podemos dizer que a explorao continua, mas de formamais sutil. As pessoas se cadastram, fornecem seus dados e viram massapara as grandes empresas do ciberespao.Se se trata de um empreendimento vinculado rede, em que o empreendedorcontratou a mo de obra de estagirios, por exemplo, e paga salrio para cadaqual, com carteira assinada ou no, o lucro no dividido entre pares e ficaconcentrado para aplicao da reproduo do prprio negcio, para a contrataode mais funcionrios, para a ampliao de filiais. Se h esse esquema, h,evidentemente, modus operandi capitalista no sentido mais clssico. Quando noh, quando a prestao de servio feita por uma pessoa apenas, e ela noemprega mo de obra assalariada, ento no h, evidentemente, a configuraoda mais-valia. Porque tudo aquilo que capital entrante relacionado apenas posse de uma pessoa. Ento no h mais-valia; o que h o pr-labore. muito curioso que, em muitos modelos de empreendedorismo que nasceramcom o ciberespao no h configurao clssica do capitalismo. Ao contrrio, oque existe so muitas prticas de empreendedorismo produtivistas, mas sob um 3. outro vis, que no implica necessariamente a contratao de funcionrio que voganhar menos devido ao salrio, em prol de algum que vai ganhar mais, porque o contratador. Na realidade, so formas compartilhadas de trabalho, cada qualvivendo em bases remotas, nem sempre no mesmo pas, e que acabamperfazendo formas de prestao de servios que implica, no final, a repartioassemelhada dos lucros. Isso uma realidade muito interessante, que s foipossvel com a emergncia do ciberespao.A outra dimenso que as redes sociais trazem, essa sim mais sutl e bastantecuriosa, o fato de que diversas mega corporaes, que portanto trabalham suasmarcas ao nvel transnacional - e que muitas vezes so redes sociais, Facebook,por exemplo - e que se valem do trabalho articulado de milhes, bilhes depessoas ao redor do mundo, consideradas como capital humano, e que aderem aessa marca sem gastar um tosto. E justamente por isso valoram, semana asemana, ms a ms, ano a ano, a marca.Isso sim a explorao de que falei. a explorao que no passa como explorao. a explorao flexivel, sutil,imperceptvel, obliterada de uma marca, que se gerencia como marca, que acolheos consumidores - eles no precisam comprar nada no mercado.No entra o simblico do dinheiro, certo?No entra, no h essa troca econmica, portanto parece que a troca no existe,mas existe. Na realidade, esses que so acolhidos so justamente aqueles queconcordam em ter perfis, em ativar os nichos de rede para poder se relacionar compessoas etc. E o contexto dessas mega marcas, em termos da sua valorao nomercado - o Facebook entrou recentemente no mercado de capitais -, com marcassendo vendidas por bilhes, por mais que haja sociabilidade livre, desinteressadae distribuda, compartilhada, h negcio como qualquer outro, do ponto de vista daeconomia de capitais. Ento, a marca acolhedora e aquele conjunto de milhesde pessoas, que aderem a essa marca, e que agem sem pensar que esto noterreno de um negcio, quanto mais pessoas houver para dar fomento esustentao marca, mais investidores haver e mais a marca ser benquistapelo capital de publicidade e que quer se vincular a ela. E, nesse caso, usurios deredes, pela interatividade, so considerados como meros objetos sem que saibam.O Flickr promove eventos em vrios lugares para promover a sua marca e se vale,evidentemente, da espontaneidade, da voluntariedade autonoma - pois ningum coagido, todo mundo faz porque quer - das pessoas. O que se v so pessoas quefazem isso com prazer e com bastante conscincia, pois sabem o que estofazendo, ningum manipulado. As pessoas vo at o evento, sabem que estonum evento promocional e querem estar l. So, portanto, corpos-propaganda,corpos de indivduos (sem questo de gnero, de credo, nem de faixa etria ou,muitas vezes, salarial), que vo a esses eventos, tiram fotos, colocam nos seusperfis, dizendo que estiveram l. E no se incomodam por serem garotos e garotas 4. propaganda. Estamos vendo surgir uma nova modalidade de capitalismo com asredes sociais, e que no deixa de ser perversa.Estamos falando do mbito individual, que se torna social. Mas falando dojornalismo, vemos transformaes interessantes na forma de produo danotcia, colaborao etc. A cobertura jornalstica tradicional tem sofridomuito para acompanhar o que se difunde e divulga na rede. Dois casos maisnotrios dos ltimos meses foram Pinheirinho, em So Jos dos Campos,com vdeos, fotos e textos sendo gerado in loco por pessoas que nopraticam o jornalismo, e ainda assim foram fontes de notcia; e o outro, asdenncias relacionadas a Carlos Cachoeira, com muitas informaesrelevantes circulando apenas em blogs, e no na grande mdia.A operao das redes sociais foi uma enorme surpresa para os usurios eestudiosos do ciberespao, uma grande surpresa histrica em termos defenomenologia social. Nos ltimos dez anos, o fato mais significativo do ponto devista de agrupamentos sociais tendentes realizar alguma atividade conjunta, nodigo para a superao das condies vigentes do capitalismo, mas para expressarinsatisfao e para poder dizer que existem novas formas de subjetivao demundo, com pessoas vendo o mundo de uma outra maneira, articuladas por redes,ocupando ruas, praas, elaborando novas formas de empreendimento e de criaode riqueza e assim por diante. O que voc coloca a respeito da questo dojornalismo entra na dimenso cultural, e como dimenso cultural no devemosentender apenas a relao com a arte, mas quilo que se refere produosimblica. E o jornalismo uma produo simblica, especializada e comlinguagem especfica e que, portanto, envolve uma tcnica. E uma produosimblica para um consumo abstrato.O jornalismo se faz para a leitura, para a visualidade. E a leitura um con