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  • Entrevista com Enzo Faletto*

    Por Jos Marcio RegoTraduo de Ceclia Ramos

    Reviso tcnica de Nadya Araujo Guimares

    Transcrio de Gabriel Galipolo

    Bem, professor Faletto, comeo perguntando sobre a sua formao e porque o senhor escolheu as cincias sociais? Peo que faa um relato de suatrajetria.

    Meus estudos secundrios foram bastante informais, eu pertencia ca-tegoria de menino problema. Houve um perodo, quando eu tinha 14 ou15 anos, em que quis me alistar na Legio Estrangeira, mas no consegui eentrei para a Escola Naval, que ficava mais perto que Puerto de Valparaiso,mas longe o suficiente da minha casa. Mas tambm a no me adaptei e fuiexpulso, de maneira que s me restou comear a trabalhar. Meu pai tinhaum armazm em Santiago, ou seja, na minha casa havia comida e castigostambm [risos].

    Terminei os estudos secundrios como aluno livre, ou seja, me apre-sentava no fim do ano e prestava exames sem ter seguido o curso regular, ealguns amigos me ajudavam nas disciplinas mais difceis, como matemti-ca, fsica, qumica. Assim conclu a minha educao secundria, ao mesmotempo que trabalhava. Com isso, minha formao acabou adquirindo umpouco a caracterstica, que depois se manteve em certo sentido, do autodi-datismo, o que no significa que eu admire demais os autodidatas, porqueeles tm o mesmo problema que eu: so dispersos, ou seja, no tm o rigordo pensamento formal...

    * Realizada em Santia-go do Chile, em feve-reiro de 1998.

  • Tempo Social, revista de sociologia da USP, v. 19, n. 1190

    Entrevista com Enzo Faletto, pp. 189-213

    Mas h vantagens tambm.

    Sim, uma abertura maior a outros tipos de leituras possveis, a outrotipo de conhecimento, um produto das inquietudes que vo surgindo.Depois, na universidade, ingressei no curso de histria, que originalmenteera o curso de Licenciatura em histria e geografia, isso no ano de 1955...

    O senhor tinha quantos anos em 1955?

    Tinha 20 anos. Comecei a estudar Licenciatura em histria, mas a verda-de que no tinha o menor interesse em pedagogia, algo que surgiu s de-pois. Meu interesse maior era em histria.

    Em 1957 veio ao Chile uma misso francesa para formar, no Institutode Sociologia, um grupo de sociologia do trabalho, e vrios dos socilo-gos que dirigiam essa misso eram discpulos de Jean-Daniel Reynaud.Naquela poca, o Instituto de Sociologia havia sido praticamente recm-criado, e a misso queria iniciar atividades de pesquisa nas reas que seacreditava serem chaves naquele momento: sociologia agrria, sociologiado trabalho, sociologia industrial e temas similares, que envolvessem aopinio pblica...

    No havia graduao nessa poca?

    No, no existia, s havia o Instituto de Sociologia, que de fato recru-tava seus alunos em outras reas, como direito, histria, filosofia, e osincorporava ao processo de pesquisa. O Instituto comeou a funcionardesenvolvendo uma pesquisa sobre o tema da educao, e o sistema edu-cacional no Chile foi analisado nesse processo. Eram selecionados os alu-nos que se posicionavam mais, que tinham maior interesse, e eles eramenviados ao estrangeiro, aos Estados Unidos, Inglaterra ou Frana, paraobter uma titulao formal em sociologia. Esse convnio foi feito porFriedmann e inclua tambm a vinda ao Chile de trs jovens investigado-res. O primeiro deles foi Alain Touraine, que tinha 33 anos e havia feitorecentemente um trabalho de investigao emprica com Reynaud, emfbricas da Renaut: um dos primeiros trabalhos importantes na rea dasociologia, alm dos do prprio Friedmann.

    Como vocs perguntaram por minha histria, vou contar algo que geral-mente no conto. Eu era anarquista nessa poca, fazia parte do que se cha-

  • 191junho 2007

    Jos Marcio Rego

    mava de juventude libertria [risos]. Um de meus amigos, Boris Falaja, ou-tro desses jovens libertrios, estudava filosofia e estava trabalhando no Insti-tuto de Sociologia. Numa quinta-feira, no Centro Republicano Espanhol,ele me contou que estavam recrutando estudantes jovens para incorporar-seao novo grupo de sociologia do trabalho. Na verdade, isso no me interessoumuito, porque nessa poca estava muito envolvido com histria medieval,eu cursava o segundo ano de histria e queria ser um medievalista, e tinhatambm certo interesse em estudar histria da arte.

    Assim, eu no tinha a menor curiosidade por sociologia do trabalho e,como bom anarquista, odiava qualquer assunto relacionado com o mundoda indstria. Mas meu amigo me disse que provavelmente a participaono grupo seria remunerada, ou seja, um esprito mercenrio foi decisivopara a minha inclinao pela sociologia [risos]. Incorporei-me ao grupo du-rante um seminrio dado por Touraine, cujo objetivo era dar incio a umapesquisa comparativa entre Lota, onde se localizavam as minas de carvo, eHuachipato, onde estavam as instalaes de uma siderrgica aberta recen-temente, ou seja, uma indstria de ponta.

    Ficava muito longe de Santiago, ou no?

    Fica em Concepcin, na parte sul do Chile, e Lota tambm fica prxi-ma. A indstria siderrgica instalou-se ali pela proximidade do carvo. Noentanto, o carvo de Lota no servia para a siderurgia porque tinha baixopoder de injeo, mas, de qualquer maneira, havia uma espcie de plano dedesenvolvimento industrial para essa zona. Ento deveria ser feita uma pes-quisa que englobasse esses dois extremos. A minerao do carvo era a in-dstria menos avanada, mais tradicional, e j desde essa poca se sabia queo carvo estava condenado a desaparecer, por isso era necessrio estud-lo.Somente no ano passado fecharam definitivamente as mineradoras de car-vo em Lota.

    Bem, iniciamos ento esse tipo de atividades, seminrios etc., e comeceirealmente a me interessar pela sociologia. Criei uma grande relao comTouraine, tanto no plano de sua capacidade intelectual como no plano pes-soal, e isso foi algo que depois se prolongou no tempo. Ainda que pareaestranho, Touraine era relativamente tmido e, ainda que parea mais estra-nho, eu tambm sou [risos], mas no fundo ele era uma pessoa de muitaqualidade humana e sempre mostrou isso com suas idias, com as relaesque manteve com o Chile, com o Brasil.

  • Tempo Social, revista de sociologia da USP, v. 19, n. 1192

    Entrevista com Enzo Faletto, pp. 189-213

    Assim, a relao pessoal tambm influenciou bastante. Mas como meenvolvi com o tema da sociologia, o que tambm me fez redefinir a minharelao com a histria, abandonei a Licenciatura e continuei como alunoacadmico. Os alunos acadmicos so aqueles que no fazem o curso deLicenciatura; eles escolhem uma temtica dentro de histria e fazem os estu-dos orientados exclusivamente para essa temtica histrica, o mtodo hist-rico e outros cursos. Fui ento combinando essa formao em sociologia,que tnhamos por meio do processo de pesquisa essa pesquisa ocorreu noano de 1957, eu estava no terceiro ano , com a minha relao com a hist-ria, at me formar: nessa poca, meu ttulo era Graduado em Filosofia comconcentrao em Histria. Os ttulos acadmicos obtidos pelos alunoseram em filosofia, ainda que nunca houvssemos cursado filosofia [risos], econtinuei minha especializao em histria americana. Mantive a histria,mas me dediquei com muito mais intensidade sociologia e ingressei noInstituto de Sociologia como assistente.

    Trabalhamos nessa pesquisa sobre Lota e Huachipato com Touraine, enuma pesquisa sobre atitudes operrias diante do campo. Tivemos que es-colher entre nos dedicarmos a estudar Lota ou Huachipato; os anarquistasdecidiram-se por Lota, felizmente, e a pesquisa consistiu primeiramenteem conhecer o mundo das minas. O primeiro estudo foi sobre os grupos desupervisores, que no Chile eram chamados de mayordomos de mira, ou ca-patazes. A idia era acompanhar esse capataz em suas atividades e anot-las,mas no fundo se tratava de conhecer o mundo das minas, com o que meenvolvi por quase trs semanas, cerca de um ms. Nessa poca eu era magrocomo um cachorro [risos].

    Enfim, foi uma experincia importante da minha vida conhecer as mi-nas de carvo. Nessa poca havia inclusive superproduo de carvo, nohavia sada de mercado, e as pessoas trabalhavam apenas quatro dias porsemana, e s se pagava por esses quatro dias. Um salrio que nessa pocano era suficiente nem sequer para pagar a penso em que moravam...

    Era uma superexplorao, ento, no?

    Sem dvida. As condies nas minas eram economicamente deficit-rias e o trabalho era brutal. As minas de carvo de Lota esto de frentepara o mar e a uma profundidade de seiscentos metros. H uma diferenade nvel, e elas se estendiam cinco ou seis quilmetros sob o mar. As horaseram contadas a partir do momento em que se chegava ao local de traba-

  • 193junho 2007

    Jos Marcio Rego

    lho, ou seja, no momento em que se comeava a cortar o carvo, mas sedemorava mais ou menos uma hora e meia para chegar ao local, e umahora e meia para sair. Eram portanto onze horas de trabalho em pssimascondies, porque a extrao de carvo era escassamente mecanizada, emmuitos lugares ocorria inclusive a queda de pontes e exploses de gs; euno vi nenhuma, mas os acidentes no interior das minas eram relativa-mente freqentes.

    O senhor desceu esses seiscentos metros durante o ms inteiro?

    Sim, descia todos os dias, durante todo o ms, e tentei algumas vezesno s olhar, mas fazer algo com eles, o que tambm foi uma experinciainteressante. Tnhamos que acompanhar esses capatazes e criamos um c-digo para anotar o tipo de atividade que era desenvolvido e o tempo dedurao. Era quase um estudo do tempo. Mas houve uma ocasio, lembro-me desses desafios, em que a tarefa que tnhamos que organizar era o trans-porte de um cabo de eletricidade: a cada cinco metros um operrio colocavao cabo no ombro e todos saam correndo pelos tneis, que obviamente noeram horizontais, eles tm uma inclinao de trinta graus.

    Vi ento que era ridculo andar com um caderno fazendo anotaes edecidi pr o cabo no ombro, e obviamente eu corria com o cabo no ombro,tentava corr