Entrevista Bartolomeu Campos de Queiros

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<ul><li><p> Bartolomeu Campos de Queirs: Aencontra o dilogo </p><p> A palavra ao leitor </p><p>O grande patrimnio que temos a memria. A memria guarda o que vivemos e o que sonhamos. E a literatura esse espao onde o que literatura, esse mundo sonhado consegue falar. O texto literrio um texto que tambm d voz ao leitor. Quando escrevo, por exemplo: A casa bonita, coloco um pfinal. Quando voc l para uma criana A casa bontem pai e me. Para outra criana, casa bonita a que tem comida. Para outra, a que tem colcho. Eu no sei o que casa bonita, quem sabe o leitor. A importncia literatura para mim tambm acreditar que o cidd a palavra ao leitor. O texto literrio convida o leitor a se dizer diante dele. Isso o que h de mais importante para mim na literatura.</p><p> Formao de leitor </p><p>Nasci em uma cidade pequenininha cidade que tinha trs ruas. A rua de cima, a de baixo e a do meio. Hoje o poder pblico j chegou l, e a rua de cima agora se chama Visconde do Rio Branco. A do meio, Juscelino Kubitschek; e a outra, Benedito Valadareque o povo criou e pe o nome que ele inventa, pois precisa homenagear algum, independentemente da cultura daquela gente. Quando nasci cinco mil habitantes. Meu pai era caminhoneiro e minha mgrande leitora e dona de casa. Devo o meu gosto pela palavra tambm ao meu av. Talvez ele tenha me alfabetizado. Meu av morava em Pitangui, uma cidade perto de Papagaio, ganhou a sorte grande na loteria e nunca mais trabalhou. Elepreguia absoluta. Levantava pela manh, vestia terno, gravata e se debruava na janela. Todo mundo que passava falava: , seu Queirs!. Ele falava: Tem d de ns. S isso. O dia inteiro. Tudo o que acontecia na cidade, ele escrevia nas pQuem morreu, quem matou, quem visitou, quem viajou. Fui alfabetizado nas paredes do meu av. Eu perguntava que palavra essa, que palavra aquela. Eu escrevia no muro a palavra com carvo, repetia. Ele ia l para ver se estava certo. Na p</p><p>somente ele podia escrever. Eu s podia escrever no muro. Esse meu av tinha um gosto </p><p>Bartolomeu Campos de Queirs: A literatura esse espao onde o que sonhamos </p><p>O grande patrimnio que temos a memria. A memria guarda o que vivemos e o que sonhamos. E a literatura esse espao onde o que sonhamos encontra o dilogo. Com a literatura, esse mundo sonhado consegue falar. O texto literrio um texto que tambm d voz ao leitor. Quando escrevo, por exemplo: A casa bonita, coloco um pfinal. Quando voc l para uma criana A casa bonita, para ela pode significar a que tem pai e me. Para outra criana, casa bonita a que tem comida. Para outra, a que tem colcho. Eu no sei o que casa bonita, quem sabe o leitor. A importncia </p><p>para mim tambm acreditar que o cidado possui a palavra. O texto literrio d a palavra ao leitor. O texto literrio convida o leitor a se dizer diante dele. Isso o que h de mais importante para mim na literatura. </p><p>Nasci em uma cidade pequenininha [Formiga] no interior de Minas Gerais. Era uma cidade que tinha trs ruas. A rua de cima, a de baixo e a do meio. Hoje o poder pblico j chegou l, e a rua de cima agora se chama Visconde do Rio Branco. A do meio, Juscelino Kubitschek; e a outra, Benedito Valadares. O poder pblico entra e tira aquilo que o povo criou e pe o nome que ele inventa, pois precisa homenagear algum, independentemente da cultura daquela gente. Quando nasci [em 1944cinco mil habitantes. Meu pai era caminhoneiro e minha me era uma leitora, uma grande leitora e dona de casa. Devo o meu gosto pela palavra tambm ao meu av. Talvez ele tenha me alfabetizado. Meu av morava em Pitangui, uma cidade perto de Papagaio, ganhou a sorte grande na loteria e nunca mais trabalhou. Elepreguia absoluta. Levantava pela manh, vestia terno, gravata e se debruava na janela. Todo mundo que passava falava: , seu Queirs!. Ele falava: Tem d de ns. S isso. O dia inteiro. Tudo o que acontecia na cidade, ele escrevia nas pQuem morreu, quem matou, quem visitou, quem viajou. Fui alfabetizado nas paredes do meu av. Eu perguntava que palavra essa, que palavra aquela. Eu escrevia no muro a palavra com carvo, repetia. Ele ia l para ver se estava certo. Na parede da casa dele, somente ele podia escrever. Eu s podia escrever no muro. Esse meu av tinha um gosto </p><p>literatura esse espao onde o que sonhamos </p><p>O grande patrimnio que temos a memria. A memria guarda o que vivemos e o que sonhamos encontra o dilogo. Com a </p><p>literatura, esse mundo sonhado consegue falar. O texto literrio um texto que tambm d voz ao leitor. Quando escrevo, por exemplo: A casa bonita, coloco um ponto-</p><p>ita, para ela pode significar a que tem pai e me. Para outra criana, casa bonita a que tem comida. Para outra, a que tem colcho. Eu no sei o que casa bonita, quem sabe o leitor. A importncia da </p><p>ado possui a palavra. O texto literrio d a palavra ao leitor. O texto literrio convida o leitor a se dizer diante dele. Isso o </p><p>no interior de Minas Gerais. Era uma cidade que tinha trs ruas. A rua de cima, a de baixo e a do meio. Hoje o poder pblico j chegou l, e a rua de cima agora se chama Visconde do Rio Branco. A do meio, </p><p>s. O poder pblico entra e tira aquilo que o povo criou e pe o nome que ele inventa, pois precisa homenagear algum, </p><p>em 1944], devia ter uns e era uma leitora, uma </p><p>grande leitora e dona de casa. Devo o meu gosto pela palavra tambm ao meu av. Talvez ele tenha me alfabetizado. Meu av morava em Pitangui, uma cidade perto de Papagaio, ganhou a sorte grande na loteria e nunca mais trabalhou. Ele cultivou uma preguia absoluta. Levantava pela manh, vestia terno, gravata e se debruava na janela. Todo mundo que passava falava: , seu Queirs!. Ele falava: Tem d de ns. S isso. O dia inteiro. Tudo o que acontecia na cidade, ele escrevia nas paredes de casa. Quem morreu, quem matou, quem visitou, quem viajou. Fui alfabetizado nas paredes do meu av. Eu perguntava que palavra essa, que palavra aquela. Eu escrevia no muro a </p><p>arede da casa dele, somente ele podia escrever. Eu s podia escrever no muro. Esse meu av tinha um gosto </p></li><li><p> absoluto pela palavra e era muito irreverente. Eu era o grande amigo dele. Ele falava algumas coisas comigo, ele tinha umas coisas interessantes e que</p><p>casa dele moravam trs moas solteiras. Maria da F, Maria da Esperana e Maria da Caridade. Eu sabia quando elas passavam na rua porque o meu av falava trs vezes: Tem d de ns, tem d de ns, tem d de ns. A Esperana morreu e falou: Quem disse que a Esperana a ltima que morre?. Quando o cinema foi inaugurado, era um galpo muito grande, com um lenol no meio. Quem era alfabetizado via o filme de frente porque no podia botar o lenol no fundo do barraco, pois desfocava a imagem. O lenol ficava no meio. Os alfabetizados ficavam na frente e liam. Os analfabetos ficavam atrs do lenol e pagavam meio ingresso. Viam o filme ao contrrio, mas a legenda no era problema. Ningum lia. E o meu av falava: Na terra de cego quem abre cinema doido.</p><p> Criado com a metfora </p><p>Meu av tinha um encantamento com as palavras. Eu fui aprendendo com ele a cultivar esse encantamento. Lembro que na casa dele tinha uma copa muito grande. Ele ficava sentado na ponta da mesa fazencrucificado na parede. De vez em quando, ele levantava a cabea e falava para mim: Sofreu, n? Sofreu demais. Sofreu tanto. Mas morreu gordo, voc no acha?. Era toda uma trama que me deslocava. J fui cricom as metforas. Outra coisa que me ajuda na literatura ter nascido de sete meses. Fui sempre muito fraquinho. Era mido, fraco, tratado com cuidado. Quando adoecia, a me chamava o mdico por via de dvida. Me, por via de dvida, acendia uma vela; e por via de dvida, me dava um ch e eu, ento, melhorava por via de dvida. Depois, cheguei a uma concluso: Quem sabe as coisas faz livro didtico e quem no sabe faz literatura. Se voc tem uma coisa a afirmar, voc no tem que fazer literatura. Literatura uma conversa sobre as dvidas. uma conversa sobre as delicadezas, sobre as faltas. No uma conversa crua como desejam as cincias exatas. A literatura mais delicada. Ela trabalha com a dvida, com as incertezas, com as inseguranas, com as faltas, que so coisas que nos unem. Tive uma </p><p>infncia rica. Tive um av e uma experincia muito boa com ele. A minha me era uma leitora. No havia em casa literatura infantil. Eu lia os livros que a minha me lia: </p><p>toutinegra do moinho (Emlio Richebourg), </p><p>absoluto pela palavra e era muito irreverente. Eu era o grande amigo dele. Ele falava algumas coisas comigo, ele tinha umas coisas interessantes e que ficaram. Em frente </p><p>casa dele moravam trs moas solteiras. Maria da F, Maria da Esperana e Maria da Caridade. Eu sabia quando elas passavam na rua porque o meu av falava trs vezes: Tem d de ns, tem d de ns, tem d de ns. A Esperana morreu e falou: Quem disse que a Esperana a ltima que morre?. Quando o cinema foi inaugurado, era um galpo muito grande, com um lenol no meio. Quem era alfabetizado via o filme de frente porque no podia botar o lenol no fundo do barraco, </p><p>s desfocava a imagem. O lenol ficava no meio. Os alfabetizados ficavam na frente e liam. Os analfabetos ficavam atrs do lenol e pagavam meio ingresso. Viam o filme ao contrrio, mas a legenda no era problema. Ningum lia. E o meu av falava: Na terra de cego quem abre cinema doido. </p><p>Meu av tinha um encantamento com as palavras. Eu fui aprendendo com ele a cultivar esse encantamento. Lembro que na casa dele tinha uma copa muito grande. Ele ficava sentado na ponta da mesa fazendo cigarros para o dia seguinte. Havia um Cristo crucificado na parede. De vez em quando, ele levantava a cabea e falava para mim: </p><p>n? Sofreu demais. Sofreu tanto. Mas morreu gordo, voc no acha?. Era toda uma trama que me deslocava. J fui criado com a metfora. Tive uma infncia junto com as metforas. Outra coisa que me ajuda na literatura ter nascido de sete meses. Fui sempre muito fraquinho. Era mido, fraco, tratado com cuidado. Quando adoecia, a me chamava o mdico por via de dvida. Mas, por via de dvida, ela mandava benzer; </p><p>por via de dvida, acendia uma vela; e por via de dvida, me dava um ch e eu, ento, melhorava por via de dvida. Depois, cheguei a uma concluso: Quem sabe as coisas </p><p>livro didtico e quem no sabe faz literatura. Se voc tem uma coisa a afirmar, voc no tem que fazer literatura. Literatura uma conversa sobre as dvidas. uma conversa sobre as delicadezas, sobre as faltas. No uma conversa crua como desejam </p><p>ncias exatas. A literatura mais delicada. Ela trabalha com a dvida, com as incertezas, com as inseguranas, com as faltas, que so coisas que nos unem. Tive uma </p><p>infncia rica. Tive um av e uma experincia muito boa com ele. A minha me era uma . No havia em casa literatura infantil. Eu lia os livros que a minha me lia: </p><p>(Emlio Richebourg), As mulheres de bronze</p><p>absoluto pela palavra e era muito irreverente. Eu era o grande amigo dele. Ele falava ficaram. Em frente </p><p>casa dele moravam trs moas solteiras. Maria da F, Maria da Esperana e Maria da Caridade. Eu sabia quando elas passavam na rua porque o meu av falava trs vezes: Tem d de ns, tem d de ns, tem d de ns. A Esperana morreu e o meu av me falou: Quem disse que a Esperana a ltima que morre?. Quando o cinema foi inaugurado, era um galpo muito grande, com um lenol no meio. Quem era alfabetizado via o filme de frente porque no podia botar o lenol no fundo do barraco, </p><p>s desfocava a imagem. O lenol ficava no meio. Os alfabetizados ficavam na frente e liam. Os analfabetos ficavam atrs do lenol e pagavam meio ingresso. Viam o filme ao contrrio, mas a legenda no era problema. Ningum lia. E o meu av falava: Na terra </p><p>Meu av tinha um encantamento com as palavras. Eu fui aprendendo com ele a cultivar esse encantamento. Lembro que na casa dele tinha uma copa muito grande. Ele ficava </p><p>do cigarros para o dia seguinte. Havia um Cristo crucificado na parede. De vez em quando, ele levantava a cabea e falava para mim: </p><p>n? Sofreu demais. Sofreu tanto. Mas morreu gordo, voc no acha?. Era toda ado com a metfora. Tive uma infncia junto </p><p>com as metforas. Outra coisa que me ajuda na literatura ter nascido de sete meses. Fui sempre muito fraquinho. Era mido, fraco, tratado com cuidado. Quando adoecia, a </p><p>por via de dvida, ela mandava benzer; por via de dvida, acendia uma vela; e por via de dvida, me dava um ch e eu, ento, </p><p>melhorava por via de dvida. Depois, cheguei a uma concluso: Quem sabe as coisas livro didtico e quem no sabe faz literatura. Se voc tem uma coisa a afirmar, voc </p><p>no tem que fazer literatura. Literatura uma conversa sobre as dvidas. uma conversa sobre as delicadezas, sobre as faltas. No uma conversa crua como desejam </p><p>ncias exatas. A literatura mais delicada. Ela trabalha com a dvida, com as incertezas, com as inseguranas, com as faltas, que so coisas que nos unem. Tive uma </p><p>infncia rica. Tive um av e uma experincia muito boa com ele. A minha me era uma . No havia em casa literatura infantil. Eu lia os livros que a minha me lia: A </p><p>As mulheres de bronze (Xavier de </p></li><li><p> Montpin). Tambm ficou uma coisa que hoje conto sem problemas. Quando a minha me morreu, eu tinha seis para sete anos. Ela ficou doente por muitos anos. Eu sempre a conheci um pouco doente. Minha me cantava muito bonito, ela era soprano. Quando a dor era muito forte, quando a dor pesava muito, sabamos que a morfina no era suficiente, a minha me can</p><p>dela atravessava a casa e o quintal. Ento, a gente sabia que ela estava com muita dor. Outro dia, estava pensando que eu tambm, quando di muito, escrevo. a mesma coisa. Quando pesa muito, eu escreMas fico o tempo todo em frente ao na janela. </p><p>A literatura tem uma capacidade to grande de nos renovar que o texto que escreviontem no me serve para o hoj</p><p> Construir o mundo com letras</p><p>O meu av brincava muito comigo usando as palavras. Ele escrevia azul e me pedia para escrever outra palavra na frente. Eu escrevia preto. Ele falava: O azul hoje quase preto. Ele fazia uma fr</p><p>ele, com toda palavra, dava conta de fazer uma frase. Com duas palavras, construa uma orao. A metfora muito interessante para o escritor. A metfora onde o escritor se esconde e pe asas no lei</p><p>Montpin). Tambm ficou uma coisa que hoje conto sem problemas. Quando a minha seis para sete anos. Ela ficou doente por muitos anos. Eu sempre a </p><p>conheci um pouco doente. Minha me cantava muito bonito, ela era soprano. Quando a dor era muito forte, quando a dor pesava muito, sabamos que a morfina no era suficiente, a minha me cantava. Ela cantava umas cantigas de Carlos Gomes. A voz dela atravessava a casa e o quintal. Ento, a gente sabia que ela estava com muita dor. Outro dia, estava pensando que eu tambm, quando di muito, escrevo. a mesma coisa. Quando pesa muito, eu escrevo. Hoje, no fico na janela como meu av ficava. Mas fico o tempo todo em frente ao Windows. Trocamos os lugares, mas continuamos </p><p>A literatura tem uma capacidade to grande de nos renovar que o texto que escreviontem no me serve para o hoje. Foto: Matheus Dias </p><p> Construir o mundo com letras </p><p>O meu av brincava muito comigo usando as palavras. Ele escrevia azul e me pedia para escrever outra palavra na frente. Eu escrevia preto. Ele falava: O azul ho...</p></li></ul>