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Entrevista a Ana Reis, arquitecta actualmente a trabalhar para a Architecture for Humanity

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  • 32 Entrevista Trao

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  • 33EntrevistaTrao

    O medo de se acomodar a uma dita vida fcil foi um dos motoresque impulsionou a sada de Ana Reis de Portugal. Hoje, passados

    cinco anos, e depois de ter passado pelo gabinete Foster + Partners,Adjaye Associates e de actualmente integrar a Architecture for Huma-nity, sente que todas as experincias que tem tido a enriqueceram pes-soal e profissionalmente. Contudo, disse Trao, que um dia voltar

    para Portugal para colocar em prtica tudo o que aprendeu

    Texto: Ana Rita Sevilha | Fotos: D.R.

    Ana Reis

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  • Formaste-te no Porto, mas aca-baste por rumar a Londres.Recordas-te o que te levou a ir?Sim claro! O receio de ficar no mesmo

    sitio o resto da minha vida, e de olhar paratrs, passado uns anos e perceber que metinha acomodado a uma vida (na altura) ditafcil na funo publica, a vontade de experi-mentar sair do Pas, nem que fosse por umano uma vez que no tinha feito nenhumErasmus e o fascnio que sempre tive porLondres.

    Estive cinco anos na CMFF no Departa -mento de Estudos e Projectos, onde adquiriuma experincia de obra e projecto a quemuitos colegas meus no tinham acesso atrabalhar em escritrios, digamos conven-cionais. Tive a sorte de ter um presidente queconfiou em mim e de trabalhar com umaequipa muito jovem de arquitectos, enge-nheiros e topgrafos, que tinham uma von-tade imensa de fazer coisas. Perdi o mitode que na funo pblica no se fazia nada.Nos cinco anos que l estive trabalheiimenso, estive envolvida numa srie de pro-jectos bastante diversificados, desde recupe-raes, a arranjos exteriores ou projectos deraiz. Basicamente desenvolvi e acompanheicada projecto desde o primeiro esquio at sua completa construo.

    Comecei, no entanto, a sentir que preci-sava de algo mais, tanto em termos profis-sionais como pessoais e quando estava emvias de assinar um contrato para a vida, de-cidi tentar dar um rumo diferente minhavida e ver o que acontecia antes de me aco-modar a uma vida pacata na Figueira na Foze concorri para Londres. Surpreendente -mente chamaram-me para entrevistas dosdois nicos escritrios que eu tinha concor-rido.

    Acabaste por ficar por l e trabalharem gabinetes como Foster+Partners eAdjaye Associates.

    Como foram estas experincias e oque retiraste de cada uma delas?Um dos escritrios que mostrou interessena minha candidatura foi precisamente oF+P. Acabei por ficar a trabalhar por l,num escritrio com umas 800 pessoas vin-das de todo o mundo, com vista para o Tha-mes. Imagina a sensao para quem comoeu tinha passado os ltimos cinco anos naFigueira da Foz. A oferta que me fizeramera muito boa e teria sido disparatado daminha parte no a aproveitar . Claro queperdi a oportunidade de assinar o tal con-trato para a vida, mas ainda hoje acho queno foi de todo uma deciso errada.Fiquei 1 ano no F+P, onde trabalhei como

    nunca tinha trabalhado na vida. T odos osdias at s 10/11 da noite, jantar todos osdias no escritrio, fins-de-semana no escri-trio. Basicamanente estar em Londres ouna China teria sido exactamente a mesmacoisa. Os projectos que estava a desenvol-ver eram todos para pases nos Emirados,a equipa gigante e muito volvel (pessoas asair todas as sextas-feiras e outras novas achegar todas as segundas-feiras, literal-mente!). Mas participei em proje ctos inte-ressantssimos para os quais nunca teriacolaborado se tivesse ficado na Figueira daFoz, tais como o Projecto Masdar City.Passado um ano, depois de estar mais adap-tada e de perceber que me sentia bem ali eque a cidade ainda tinha muito para meoferecer, decidi concorrer ento para um es-critrio mais pequeno, que me desse maisperspectivas de futuro e acabei por traba-lhar para o gabinete do arquitecto DavidAdjaye, com o qual me identifico mais emtermos de linguagem arquitectnica. A ex-perincia a trabalhar para o David foimuito boa e aprendi sem dvida mais doque no escritrio anterior , talvez por termais autonomia, por a equipa ser significa-tivamente mais pequena e por ter tido aoportunidade de trabalhar com pessoas quetinham acima de tudo uma admiraoimensa pelo trabalho do David.O que retirei de cada uma destas experin-cias... acima de tudo,foi como se deve apre-sentar um projecto e defender uma ideia.Aprendi a ser mais competitiva e ambi-ciosa. Foram experincias muito diferentesmas que me permitiram conhecer imensagente que de certa forma moldaram o meupercurso ate hoje.

    Posteriormente fundaste o atelierLangdon Reis Architects.

    Os trabalhos do gabinete focam-semais em Portugal ou no estrangeiro?

    Quais as principais dificuldades comque se tm deparado para garantir a sus-tentabilidade do mesmo?

    O escritorio LRA surgiu por acaso. En-quanto trabalhei no David Adjaye, conheci oRoss e o Matthias, um australiano e o outroalemo, respectivamente. Surgiu a ideia defazermos um concurso para um quarteirocultural na Noruega nos tempos livres e aca-bamos por ganhar a 1 fase do concurso.

    Para sermos admitidos na 2 fase, um dosrequisitos era que fossemos uma empresa le-galmente registada e no apenas um grupode amigos que se juntou para se divertir nostempos livres no Inverno londrino e claroque no hesitmos e decidimos arriscar. Noespao de duas semanas samos do escrit-

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    rio em que estvamos, formmos uma em-presa, desenhamos um website e cartes devisita. O projecto estava a ser publicado emtodo o lado e como tnhamos a 2 fase pelafrente e no podamos trabalhar de casa, alu-gamos um pequeno escritrio em Bricklane,um espao partilhado com umas cabeleirei-ras japonesas. Entretanto fomos a Bod (avila onde o projecto iria ser desenvolvido) re-ceber o prmio da 1 fase, a Oslo procuraruma equipa norueguesa de arquitectos queestivessem interessados em colaborar con-nosco, uma vez que era um requisito e a Arupcontactou-nos a oferecer-se para colaborarconnosco. Estava tudo a postos para come-ar ento a 2 fase do projecto, mas, comohabitual em arquitectura, esta fase foi sendoadiada e para no ficarmos parados fizemosmais um concurso e acabmos por receberuma meno honrosa.

    Acabmos por no ganhar a 2 fase , masnem por isso desistimos. J tnhamos onome, o feedbak era bom e outras oportuni-dades foram surgindo, um concurso por con-vite na Noruega tambm, uma pequenaremodelao de uma casa no Norte de Lon-dres, outro concurso na Polnia e finalmenteo Europan11 em 2010, em Vard, no ArticoNoruegus, que ganhmos.

    Como sabes, o Europan tem sido uma pla-taforma de lanamento para inmeros ar -quitectos europeus e ns tentmos agarrar a

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  • desumano. Ao nvel de oportunidades, eu sou uma

    eterna optimista e penso que as oportunida -des so as pessoas que as criam e tanto fazestar em Portugal como no estrangeiro. Claroque depende do mercado e dos objectivos decada um. Neste momento e pelo que tenholido e ouvido, difcil em Portugal ter trabalhoem gabinetes de arquitectura como assistentee por isso e difcil para quem esta a comeare precisa de fazer um estgio profissional emencontrar quem os acolha. A funo pblica,que absorveu durante tantos anos tanta gente,tambm esta superlotada ou sem trabalhomas hoje em dia, no faz sentido nenhumficar cingido a um pas e cruzar os braos. Amobilidade de pessoas entre pases imensa,e s tens essa noo quando efectivamentesais do pas e de repente te apercebes quetodos os teus colegas antes de estarem ali, jviveram em pelo menos dois ou trs pases,seja a trabalhar ou a estudar.

    Sempre que vejo noticias nos canais por -tugueses, ou leio na Internet os jornais, o as-sunto acaba sempre no maior nmero dejovens licenciados que tem de sair do paspara encontrar emprego mas nunca falamnos que entretanto voltaram, depois de teremexperincias no estrangeiro e decidiram ar -riscar comear de novo em Portugal, mesmoem tempo de crise econmica, ou dos que fi-caram e esto efectivamente a ter novasideias e a trabalhar.

    O Porto um bom exemplo disso. Sempreque l vou fico com vontade de voltar , preci-samente porque sinto que h coisas a aconte-cer na cidade, muitas delas ideias importadasdo estrangeiro por pessoas que como eu tive-ram experincias profissionais em cidadescomo Barcelona, Berlim ou Londres. E essasideias vo desde escritrios de arquitecturaque oferecem servios mais abrangentes, amercados de rua, restaurantes, eventos arts-ticos, etc, etc.. Muitas destas pessoas so ar-quitectos, mas quando voltaram nem lhespassou pela cabea procurar trabalho comoassistentes em escritrios, mas sim, criar assuas prprias oportunidades, arriscar. Almdisso, a Internet permite-te voltar a casa, estarem Portugal, teres alguma qualidade de vidaque s vezes to difcil ter l fora e estar li-gada com o resto do mundo.

    Integraste a Architecture for Huma-nity e actualmente ests em Cabo Verde.

    Como surgiu esta oportunidade?Como o dia-a-dia num projecto como

    este?Em que trabalhos ests actualmente

    envolvida?Ainda no estou em Cabo V erde, mas

    35EntrevistaTrao

    oportunidade o melhor que soubemos. Denovo inmeras viagens Noruega, apresen-taes, reunies, etc, etc, mas o projecto aca-bou por no avanar.Chegou ento a altura de repensar se vale-ria a pena continuar a apostar no escrit-rio e procurar novos projectos, maspassado dois anos, depois de perder o 3elemento da equipa (o Matthias tinha en-tretanto resolvido voltar para a Alemanha)e principalmente devido s cada vez maio-res dificuldades econmicas, decidimosparar por uns tempos e lanarmo-nos emexperincias diferentes: O Ross teve umaoportunidade de trabalho no Uganda paradesenvolver projectos para uma empresade safaris e eu continuei em Londres a tra-balhar como freelancer e tirei um Mes-trado.O que era suposto ser um intervalo de umano, acabou por se estender at hoje. (ORoss ainda est em Africa e agora tambmeu me mudei

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