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  • ISSN: 1983-8379

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    Darandina Revisteletrnica Programa de Ps-Graduao em Letras/ UFJF volume 4 nmero 2

    Entre Cenrios: Ceclia Meireles, Cludio Manuel, Bandeira e Claude Monet.

    Ivana Ferrante Rebello. 1

    RESUMO: Este trabalho apresenta uma leitura do poema Cenrio, de Ceclia Meireles, do livro Romanceiro

    da Inconfidncia, numa perspectiva comparatista. Prope-se o dilogo da potica ceciliana com a tradio

    literria brasileira, representada pelo rcade Cludio Manuel da Costa, e com a potica modernista de Manuel

    Bandeira. Para atestar o lugar incomum de Ceclia na literatura nacional, convoca-se a leitura de dois diferentes

    sistemas semiticos, aproximando a poesia de Ceclia das telas impressionistas de Monet.

    Palavras-chave: Ceclia Meireles; Manuel Bandeira, Literatura Comparada; Impressionismo.

    ABSTRACT: This study introduces a analyses of the poem Cenrio, of Ceclia Meireles, of the book

    Romanceiro da Inconfidncia, in a comparative perspective. The reading proposes the Ceclia Meireles

    dialogues with the brasilian literary tradition, with the Cludio Manuel da Costa, and with the modern poetic,

    represented, in this study, by Manuel Bandeira. It is proposed to read two different semiotic systems,

    approaching the poetry of Cecilia of impressionist paintings by Monet.

    Keywords: Ceclia Meireles, Manuel Bandeira, Impressionism, Comparative literature.

    1. O Cenrio de Ceclia Meireles.

    Ceclia Meireles ocupa um lugar solitrio e incomum no Modernismo brasileiro.

    Vinculada 2 fase do movimento, no se aponta com nitidez o seu lugar na poesia rfica

    ou na chamada poesia pura. Segundo parcela da crtica especializada, a poesia ceciliana

    apresenta conexes com o inconsciente ou a memria, sem deixar de vincular-se, de algum

    modo, com o ps-simbolismo internacional, ao qual se filiam poetas como Rilke, Yeats e

    Valry. Na contramo da sua poca, Ceclia dona de uma letra essencialmente clssica,

    lrica e plena de inquietaes existenciais, cujas marcas evidenciam-se na multido de

    espelhos que povoam seus versos.

    1- REBELLO, Ivana Ferrante doutora em Literaturas de Lngua Portuguesa e professora da UNIMONTES/ MG,

    Universidade Estadual de Montes Claros, em Minas Gerais.

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    Fazendo da fugacidade do tempo um de seus temas frequentes, Ceclia Meireles d

    preferncia busca dos temas universais, em que se l a tentativa de resguardar a sua escrita

    do efmero. No seguindo tendncias pr-estabelecidas, o seu lugar, contudo, ainda o da

    ruptura, pois o isolamento que a caracteriza frente aos seus pares d-lhe o estatuto de ter um

    discurso nico, alheio aos modismos e s imposies da poca. O exlio, no entendimento de

    Octvio Paz (PAZ, 1982, p.50) forma autntica de rebeldia.

    A poeta, que preferia ser assim tratada, no gnero masculino, encontra em Romanceiro

    da Inconfidncia a realizao tcnica que lhe permite escrever uma obra-prima.

    O Romanceiro da Inconfidncia, publicado em 1953, constitui-se uma verdadeira

    arquitetura textual, em que matrias poticas diversas so construdas em torno do tema

    gerador da Inconfidncia Mineira, ocorrida no sculo XVIII, na antiga Vila Rica, atual cidade

    de Ouro Preto. Segundo depoimento da autora, em 1955, em uma conferncia na Casa dos

    Contos, os poemas foram se compondo, durante quatro anos de quase completa solido. Os

    muitos romances que compem a obra so distribudos em sequncias narrativas,

    intercaladas por Falas e Cenrios, composies em itlico, nos quais o tom narrativo abre

    espao a um discurso lrico correspondente voz de uma persona potica elocutora.

    O poema escolhido para anlise o segundo Cenrio, entre os trs que a obra

    apresenta. O ttulo denuncia sua filiao ao carter dramtico: a prpria autora afirma serem

    os cenrios, intervenes para marcar os ambientes, tal como acontece numa indicao teatral.

    A leitura do poema, entretanto, coloca em cena relaes vrias que do ao texto um carter de

    mobilidade surpreendente, ameaando a aparente fixidez da paisagem.

    Como primeiro movimento de anlise, necessrio refletir a situao deste Cenrio

    dentro do Romanceiro da Inconfidncia. O poema antecede a sequncia narrada que diz da

    Inconfidncia Mineira e seguido pela fala antiga Vila Rica. Visto na perspectiva estrutural

    da obra, esse poema figura como palco do grande acontecimento, o que nos indica, de

    imediato, o porqu da enumerao detalhada de elementos da paisagem a que procede a

    autora. No entanto, por seu carter singular, o Romanceiro da Inconfidncia mantm

    independncia entre suas partes, o que possibilita uma leitura autnoma de cada texto de que

    composto.

    A ttulo de facilitao de leitura, opto pela transcrio do poema, a seguir:

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    CENRIO

    Eis a estrada, eis a ponte, eis a montanha

    Sobre a qual se recorta a igreja branca

    Eis o cavalo pela verde encosta.

    Eis a soleira, o ptio, e a mesma porta.

    E a direo do olhar. E o espao antigo

    Para a forma do gesto e do vestido.

    E o lugar da esperana. E a fonte. E a sombra.

    E a voz que j no fala, e se prolonga.

    E eis a nvoa que chega, envolve as ruas,

    Move a iluso de tempos e figuras.

    - A nvoa que se adensa e vai formando

    Nublados reinos de saudade e pranto.

    (MEIRELES, 1989, p.92. Em itlico, no original)

    As estrofes, agrupadas de dois em dois versos, todos decassilbicos, atestam o zelo pela

    forma, que acentua a maneira como os elementos aparecem dispostos ao leitor. Trata-se,

    efetivamente, de uma sugesto de montagem, como se cada bloco de dois versos, justapostos

    sobre os outros, desenhassem na folha o modelo de um cenrio em construo. Os primeiros

    versos identificam o agrupamento de elementos que, dispostos em certa ordem, levam o leitor

    a visualizar um cenrio que est sendo montado a partir da recolha de coisas diversas, tais

    como a estrada, a ponte, a montanha, a igreja branca e assim, sucessivamente.

    A dualidade de versos acentua a explorao do paralelismo lingustico, quer seja no

    aspecto sinttico como no semntico, acentuando o labor programtico de Ceclia Meireles na

    composio de seus textos. Num apelo nitidamente visual, a autora monta o seu cenrio a

    partir de uma linguagem quase que totalmente substantivada, abolindo construes verbais e

    adjetivaes. O poema feito de enumeraes de elementos geogrficos e topogficos que,

    aos poucos, desenham ao leitor a paisagem de Vila Rica, cuja espacialidade vai sendo

    recuperada com a re-visitao do sujeito lrico e a aproximao gradativa do leitor.

    Os substantivos, acompanhados dos artigos definidos, individualizam a paisagem,

    demonstrando ser esta uma paisagem j conhecida do eu lrico. O 4 verso aponta o

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    reencontro com o lugar conhecido: e a mesma porta. Alm disso, o artigo definido assinala

    que a paisagem se mantm a mesma, ela no mudou, embora o espao seja antigo.

    O presentativo eis que inaugura o discurso potico demonstra uma espcie de

    conduo da poeta pelos lugares por onde passa; ela se coloca como guia do leitor que, levado

    por sua mo, vai conhecendo a cidade. O eis, repetido nos primeiros versos, alm de

    acentuar ao visitante-leitor a geografia acidentada de Minas, cumpre ainda a sua funo de

    ditico, presentificando a enunciao. Assim, o paralelismo de que faz uso a poeta pode

    tambm ser analisado como elemento intensificador da significativa dualidade que h no

    poema.

    Alm da presentificao do passado elaborada por Ceclia na obra, e apontada por parte

    da crtica especializada, visvel na oposio entre passado/presente, h outras espcies de

    jogos contrastivos a que o paralelismo estrutural d maior visibilidade.

    O poema se constri por meio de uma espcie de progresso: o cenrio vai se

    apresentando a partir de uma viso panormica (versos1-3) at se fechar em lugares que o eu

    potico fixa como representativos (versos 4-7). Da mesma forma, colocam-se em disposio

    paralela outros elementos constitutivos do texto: o concreto e o abstrato (estrada, porta, ptio,

    igreja X esperana, iluso, saudade); da viso maior, panormica, para a viso fechada,

    centrada na emoo (estrada, ponte, montanha X saudade e pranto); da clareza da matria

    concreta nebulosidade ( cavalo, porta, igreja X nvoa que se adensa).

    Os efeitos provocados no poema identificam em Ceclia um inegvel domnio sobre a

    esttica e a forma. A isometria alcanada na manuteno do padro estrfico denuncia o

    esforo do eu lrico em equilibrar a fugacidade inelutvel e o desejo de permanncia. A

    repetio dos esquemas mtricos mostra a reiterao de um trao que tenta resguardar a