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  • CARLOS GALDINO

    ENQUANTO OUO BELCHIOR

    E

    OUTROS POEMAS DE ALUCINAO

    Copyright 2017 de Carlos Galdino Edio Digital

    Todos os direitos reservados.

    proibido o armazenamento ou a reproduo de qualquer parte desta obra fsica ou eletrnica -, sem a autorizao prvia do autor.

    Biografia, Diagramao, Reviso e Capa: Pala Carmen

    Apresentao: Laudecir da Silva

    Literatura Brasileira / Poemas

    Edio: feira livre

  • Minha alucinao suportar o dia-a-dia, e o meu delrio a experincia com coisas reais.

    Belchior

  • Dedico essas poesias ao poeta, cantor, camarada, Belchior.

    Boa leitura!

    Carlos Galdino

  • Sumrio

    1. APRESENTAO BELCHIORANDO

    2. BIOGRAFIA Belchior

    3. Grvido

    4. Liquidez

    5. Brisa

    6. Clica

    7. Opo

    8. Versos s para Dani

    9. No dia que eu for prefeito

    10. Manuel de Barros e Manoel Bandeira

    11. Manuel contra Manoel

    12. Recado sincero

    13. s vezes

    14. Um grito

    15. Que poema escrever agora?

    16. Dentro de mim

    17. Um menino

    18. Cano em silncio

    19. Meio hoje

    20. Preta

    21. O meu poema novo

    22. Os documentos

    23. Chega a tarde

    24. rvore torta

    25. Inventando coisas.

    26. No gosto de quem cria pssaros em gaiola

    27. Meu caos

    28. Tudo em mim te procura

    29. Carteiro

    30. O treze do largo

    31. Voc arde em mim

    32. Confisso muito sria

  • 33. Definio defeituosa a meu respeito

    34. Desci a Teodoro e s

    35. Viaduto do ch

    36. CARLOS GALDINO

    37. Outros Livros do Autor

  • APRESENTAO BELCHIORANDO

    certo que a maioria do povo brasileiro de alguma forma tenha sido influenciada pelas msicas

    do compositor e cantor Belchior, seja na sua prpria voz e interpretao ou na de tantos outros

    cantores do cenrio da msica popular brasileira.

    De maneira muito especial, Belchior chegou ao meu corao com a msica Na hora do

    almoo, em que o poeta descreve, com o brilhantismo e a grandeza dos grandes escritores,

    uma cena cotidiana: uma sala, mesa, pratos, e nestes, comida e tristeza. A a gente se olha,

    se toca e se cala e se desentende no instante em que fala, arremata, sintetizando a realidade

    complexa e desafiante das experincias do convvio familiar. bem verdade que o tempo

    passou e, ainda que essa prtica no tenha sido uma regra generalizada e vlida para todas

    as famlias, nas condies de vida da sociedade contempornea, tem sido cada vez mais

    comum a ausncia do encontro familiar, ao redor da mesa, na hora do almoo. Talvez cada

    um guarde mais o seu segredo, sua mo fechada... e os encontros com as pessoas, os

    familiares, estejam sendo substitudos pela relao com aparelhos eletrnicos, novas formas

    de comunicao e interao. Mesmo quando h o encontro, os aparelhos parecem ser mais

    importantes que o olhar, o toque, a fala.

    A msica Na hora do almoo parece um tanto triste, melanclica. H quem diga que essas

    sejam caractersticas que permeiam boa parte das msicas de Belchior. Concordo, sem que

    isso seja um incmodo! Afinal, esses aspectos, em boa medida, solidificam a condio humana.

    A meu ver, Belchior como um escultor que parte da matria bruta e aos poucos vai lapidando-

    a at encontrar a forma desejvel: a arte, na grandeza objetiva e simblica que essa palavra

    carrega. No sem razo que suas obras atravessam geraes sendo continuamente vivas,

    pulsantes, e permanea falando de forma to significativa ao corao das pessoas.

    Eu vi isso acontecer bem mais de uma vez. Em 1997, meu amigo Paulo, do Vale do Ribeira, e

    todos que conosco conviviam, estudantes de Filosofia na poca, fomos contagiados pelas

    canes de Belchior. Estas embalavam muitos dos nossos encontros, confraternizaes,

    celebraes. Creio que Pequeno mapa do tempo tenha sido a isca atravs da qual aquele

    meu amigo em particular tenha sido fisgado, de corpo e alma.

    Outra lembrana agradabilssima impregnada em minha memria se d quando conheci outros

    amigos, os irmos Paulo e Saulo. Amavam Belchior! Ouvi-lo era parte de um ritual potico,

    profano e religioso. s tardes, em casa, normalmente, era comum encontr-los ouvindo

    Belchior enquanto tomavam algumas cervejas e beliscavam alguns petiscos. Isso que

  • msica Laudecir..., no so essas porcarias que a gente ouve por a, dizia Saulo com prazer

    e seguro na certeza de suas palavras, como se estivesse profetizando alguma revelao. Meu

    amigo Gilson e meus irmos Claudemir e Claudinei, tambm foram testemunhas dessas

    palavras e que, em nossas bocas, tornaram-se espcie de orao. Um mantra que repetimos

    sempre que ouvimos alguma msica com Belchior. Reatualizamos o ritual e a profecia de nosso

    amigo Saulo: Isso que msica...

    Nos saraus do Coletivo Cultural Pegando o Gancho, Belchior sempre teve espao reservado.

    Da o fato de que, aps a sua morte, fizemos um sarau para homenage-lo. Neste dia, minha

    amiga Marli Pereira, sempre a surpreender com sua sensibilidade, nos presenteou,

    emocionada, com essa prola potica, com a qual finalizo este texto: Que Deus seja brasileiro

    e que ande do seu lado; mas que voc no siga nenhum mandamento, pois o que transforma

    o velho no novo nunca fazer nada que o mestre mandar; sempre desobedecer, nunca

    reverenciar. Quanto a ns, que estamos reverenciando suas palavras navalhas, prometemos

    rejuvenescer e nos despir do passado que uma roupa que no nos veste mais. Amar e mudar

    as coisas nos interessa mais. Nosso delrio ser com experincias com coisas reais. Viver a

    Divina Comdia Humana onde nada eterno.

    Ano que vem, Belchior, voc poder afirmar: Ano passado eu morri, mas esse ano eu no

    morro! (Sempre dia de ironia, no meu corao).

    Laudecir da Silva - Julho/2017

    Professor e Mestre em Filosofia pela PUC SP.

  • BIOGRAFIA Belchior

    Antnio Carlos Belchior, mais conhecido simplesmente como Belchior (Sobral, 26 de

    outubro de 1946 Santa Cruz do Sul, 30 de abril de 2017), filho de Dolores Gomes Fontenelle

    Fernandes e Otvio Belchior Fernandes, foi um cantor e compositor brasileiro. Belchior foi um

    dos primeiros cantores de MPB do nordeste brasileiro a fazer sucesso nacional, em meados

    da dcada de 1970.

    Durante sua infncia, no Cear, foi cantador de feira e poeta repentista. Estudou msica coral

    e piano com Accio Halley. Seu pai tocava flauta e saxofone e sua me cantava no coral da

    igreja. Tinha tios poetas e bomios. Ainda criana, recebeu influncia dos cantores do

    rdio ngela Maria, Cauby Peixoto e Nora Ney. Foi programador de rdio em Sobral. Em 1962,

    mudou-se para Fortaleza, onde estudou Filosofia e Humanidades. Comeou a estudar

    Medicina, mas abandonou o curso no quarto ano, em 1971, para dedicar-se carreira artstica.

    Ligou-se a um grupo de jovens compositores e msicos, como Fagner, Ednardo, Rodger

    Rogrio, Teti, Cirino entre outros, conhecidos como o Pessoal do Cear.

    Belchior morreu em 30 de abril de 2017, aos 70 anos, na cidade de Santa Cruz do Sul e o

    governo do Cear emitiu uma nota de pesar. A causa da morte foi um aneurisma da aorta, a

    principal artria do corpo humano. O governador do Cear, Camilo Santana, decretou luto oficial

    de trs dias, providenciando o traslado do corpo, garantindo assim, o desejo do cantor de ser

    enterrado no Estado do Cear, sendo velado em Sobral, sua cidade natal, e sepultado em

    Fortaleza.

  • Grvido

    Ah meu amor

    Eu estava grvido de voc

    Mas voc no teve sensibilidade

    De perceber

    De ver

    Minha barriga

    Crescida

    O sorriso de minha barriga

    De sonho

    Eu estava grvido de voc

    E ultrassom algum poderia revelar

    O sexo da felicidade

    Pois ela era mltipla, varia

    Eu estava grvido

    E sentia dores

    Medos

    Homem sente do mesmo jeito

    S expressa diferente

    Muitos nem conseguem expressar

    Eu estava grvido de voc

  • E fazia planos

    E sonhava com o rostinho

    A primeira roupa

    Minha alma fazia pr-natal

    E eu preocupado

    Eu estava grvido de voc

    Eu estava grvido com voc

    Cada pessoa tem seu ritmo

    Tem seu tempo.

    Mas hoje

    Eu sangro

    A parte que j no existe

    Triste

    De no querer viver

    Pois morri

    E parti junto com o beb

  • Liquidez

    Bebo tudo que tenho em casa

    Agua

    Sopa

    Cerveja

    Gasolina

    Eu bebo

    Detergente

    Suco

    Ch

    Remdio to amargo

    To ruim

    De mim e no adoeo

  • Brisa

    Em Paraty eu no encontrei a "Brisa"

    No essa que sopra solta

    Pelas ruas do centro histrico

    Na beira da praia

    Em todos os cantos

    Em Paraty eu no encontrei a Brisa

    No essa brisa, mas outra

    Onde ser que ela pousa

    Com seus culos e encantos

  • Clica

    Estou com clica de mim mesmo

    Amanheci com a calcinha da alma

    Encharcada de sangue

    E no h poesia absorvente

    Que estanque.

  • Opo

    Queria almoar amor

    Carinho

    Beijos de perder o folego

    Abraos de parar o tempo

    Olhares de matar a sede

    Mas hoje s tem marmitex e saudade

  • Versos s para Dani

    Dani,

    No se dane comigo

    O amor no coisa to urgente assim

    No entre em pane

    No bata panelas

    No chore por mim

    Dani,