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    Enfrentamento das mudanas climticas na Amrica Latina e Caribe

    K arIna Mar zano Fr anco

    Com uma populao de aproximadamente 635 milhes de habitantes, majori-tariamente urbana, a regio da Amrica Latina e do Caribe (ALC) vem buscan-do insero progressiva nos temas ambientais globais, sobretudo em relao aos desafios das mudanas climticas. A cidade do Rio de Janeiro foi palco de dois grandes eventos histricos relacionados aos temas ambientais internacionais (Rio 92 e Rio+20), e, em 2014, apresentou-se novamente uma oportunidade nica para o reposicionamento da regio na agenda internacional dos debates clim-ticos, quando Lima foi a anfitri da 20 Conferncia das Partes da Conveno de Mudanas Climticas da ONU. Os esforos peruanos no se restringiram realizao daquela COP, uma vez que, conjuntamente com os franceses, foram reconhecidos como sumamente importantes para a concluso bem-sucedida da COP 21, ao abrir com habilidade diplomtica o caminho para o Acordo de Paris.

    Composta por vinte pases e duas dependncias1, a Amrica Latina apresenta um territrio extenso e diverso, que cobre desde a Patagnia at o Mxico. Dessa dimenso territorial resulta a coexistncia de pases que apresentam distintos nveis de desenvolvimento econmico e, consequentemente, uma distribuio desigual da participao nos ndices de emisso dos gases de efeito estufa (GEE). Brasil e Mxico juntos, por exemplo, representam mais da metade das emisses totais da regio2.

    1 Pases: Argentina, Bolvia, Brasil, Chile, Colmbia, Costa Rica, Cuba, El Salvador, Equador, Guatemala, Haiti, Honduras, Mxico, Nicargua, Panam, Paraguai, Peru, Repblica Domi-nicana, Uruguai e Venezuela. Dependncias: Guiana Francesa e Porto Rico.

    2 CEPAL, 2010. Grficos Vitales del Cambio Climtico para Amrica Latina y el Caribe. GALIN-DO, L.M. Disponvel em http://www.cepal.org/publicaciones/xml/8/51998/LAC_Web_esp_ 2010-12-02.pdf

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    No presente artigo, tem-se o objetivo desafiador de apresentar uma viso geral sobre as mudanas climticas na ALC. Obviamente, impossvel cobrir aqui toda a regio e sua posio em um tema de tamanha complexidade. Por isso, este trabalho prioriza a anlise das tendncias gerais percebidas na regio, e destaca as circunstncias brasileiras e mexicanas enquanto maiores emissores la-tino-americanos de GEE. Alguns temas foram escolhidos como prioritrios para entender melhor o cenrio regional, destacando-se a vulnerabilidade da regio e a importncia de medidas de adaptao e financiamento. A percepo cidad sobre o tema e a resposta poltica apresentada tambm so foco de interesse neste tra-balho, assim como os atuais avanos nas negociaes climticas multilaterais e no processo de integrao energtica regional. Aps a anlise do panorama regional das mudanas climticas, fez-se um esforo de seleo de aspectos fundamentais da discusso e de elaborao de recomendaes polticas, para o avano do en-frentamento deste desafio global na regio.

    vulnErABilidAdE E COnsCiEntizAO

    Embora a regio seja responsvel por apenas 13% das emisses mundiais de GEE3, a ALC esto entre as regies do mundo mais vulnerveis s mudanas cli-mticas, conforme apontaram recentes estudos da CEPAL4 e do Banco Mundial5. Consequentemente, a adaptao s mudanas climticas seu maior desafio. Esta primeira seo dedicada a um panorama de vulnerabilidade latino-americana e aos desafios da adaptao s mudanas climticas.

    3 Destacam-se as emisses de gases de efeito estufa procedente da agricultura (cultivos e pecu-ria), que duplicaram nos ltimos 50 anos e vo seguir aumentando caso no haja um esforo maior para reduzir as emisses, segundo a Organizao das Naes Unidas para a Alimentao e a Agricultura (FAO). A ALC a segunda regio que gera mais emisses agrcolas em mbito global, respondendo por 17% do total, s superada pela sia (44%). Em terceiro lugar est a frica (15%), seguida da Europa (12%) e da Amrica do Norte (8%). FAO, Notcias: A Amrica Latina duplicou as emisses agrcolas de gases do efeito estufa nos ltimos 50 anos https://www.fao.org.br/aALdeageeu50a.asp

    4 NU. CEPAL, Cambio climtico y desarrollo en Amrica Latina y el Caribe: una resea Sama-niego, J; (Coord.), Disponvel em http://repositorio.cepal.org/bitstream/handle/11362/3640/S2009028_es.pdf?sequence=1

    5 Banco Mundial, Desarrollo con menos Carbono: Respuestas latinoamericanas al desafo del cambio climtico. Sntesis. DE LA TORRE, A.; Fajnzylber, P.; NASH, J. Disponvel em http://siteresources.worldbank.org/INTLACINSPANISH/Resources/17920_LowCarbonHigh-Growth_Spanish.pdf

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    GrFiCO 1. Participao nas emisses de gases de efeito estufa

    da Amrica latina e do Caribe, 2012 (mtCO2e)

    Fonte: EKLA-KAS com base no Climate analysis Indicators Tool (CAIT).

    GrFiCO 2. Participao nas emisses de gases de efeito estufa, 2012 (mtCO2e)

    Fonte: EKLA-KAS com base no Climate analysis Indicators Tool (CAIT).

    Dentre as principais razes para essa significante vulnerabilidade, destaca-se a forte dependncia do degelo andino para o fornecimento de gua aos setores urbanos e agrcolas. O Painel Intergovernamental sobre Mudanas Climticas (IPCC, na sigla em ingls) tem apontado para a importncia das geleiras de mon-tanhas como sensveis indicadores da ocorrncia de mudanas climticas. As ge-

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    leiras andinas esto ameaadas, sendo a Bolvia um dos pases que mais sofre com o derretimento de suas geleiras grandes cidades, como La Paz, enfrentaro problemas de escassez hdrica, visto que as geleiras respondem por at 15% do abastecimento de gua da cidade ao longo do ano; a geleira de Chacaltaya, tam-bm na Bolvia, j praticamente desapareceu. No Peru, a populao do vale do Rio Santa, considerado como aquele que poder ser o mais afetado, encontra-se igualmente ameaada, pois depende das guas glaciais para o uso na agricultura, para o consumo domstico e para a energia hdrica6.

    A vulnerabilidade refere-se, portanto, tambm importncia do setor agro-pecurio para os pases da regio, que na mdia representa 6% do PIB7, e carac-teriza-se como atividade altamente dependente de fatores climticos, como tem-peratura, pluviosidade, umidade do solo e radiao solar. Ameaado por secas e inundaes, esse quadro dificulta o alcance das metas de reduo da pobreza e de melhora do crescimento econmico na ALC.

    Outro fator relevante o grande nmero de cidades situadas em zonas costei-ras, onde habitam mais de 70% da populao latino-americana, o que intensifica essa vulnerabilidade s mudanas climticas. Segundo a CEPAL, os pases mais vulnerveis pela presena de infraestruturas lineares na costa so Mxico, Brasil, Cuba, Bahamas e Argentina8. Em termos de populao afetada, um aumento de 1 metro do nvel do mar poderia ter grande impacto sobre a costa do Brasil, com os principais impactos nas grandes aglomeraes urbanas. Outras costas seriam muito afetadas, especialmente as ilhas caribenhas orientais, bem como grandes partes do Mxico, especialmente a Costa Leste, e vrios pontos singulares do Peru e Equador, bem como principais aglomeraes humanas do Chile9. Em pesquisa realizada pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), a zona costei-ra do litoral paulista, por exemplo, por suas prprias caractersticas ecolgicas,

    6 BBC Brasil, Geleiras dos Andes derretem a ritmo mais rpido em 300 anos. Matria baseada em resultados de pesquisa realizada pelo Laboratrio de Glaciologia e Geofsica Ambiental de Grenoble, na Frana. Disponvel em http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2013/01/ 130123_geleira_andes_bg.shtml

    7 CEPAL, Evolucin y distribucin del ingreso agrcola en Amrica Latina: evidencia a partir de cuentas nacionales y encuestas de hogares, Valds, A.; Foster, W.; Prez, R.; Rivera, R. Disponvel em http://www.cepal.org/publicaciones/xml/7/41537/lcw.338_valdezetal.pdf

    8 ONU, CEPAL y Universidad de Cantabria, Instituto de Hidrulica Ambiental. Efectos del cambio climtico en la costa de Amrica Latina y el Caribe: vulnerabilidad y exposicin. Dispon-vel em http://repositorio.cepal.org/bitstream/handle/11362/3982/S2012024_es.pdf?sequence=1

    9 ONU, CEPAL y Universidad de Cantabria, Instituto de Hidrulica Ambiental. Efectos del cambio climtico en la costa de Amrica Latina y el Caribe: impactos. Disponvel em http://re-positorio.cepal.org/bitstream/handle/11362/4003/S2012065_es.pdf?sequence=1

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    apresenta-se muito sensvel a qualquer alterao climtica, como chuvas intensas. Com o aumento populacional dessa zona, devido, principalmente, oferta de emprego no setor petrolfero, a infraestrutura das cidades litorneas do Estado de So Paulo resta ameaada, podendo tornar-se ainda mais frgeis para enfrentar os acidentes e desastres naturais, como deslizamentos de encostas e inundaes10.

    A alterao do regime pluviomtrico causado pelas mudanas climticas gera escassez de gua potvel na ALC, sendo que as secas provocam sria ameaa segurana do abastecimento energtico, devido significativa gerao de ener-gia por usinas hidreltricas. Um exemplo proeminente o baixo nvel dos reser-vatrios de gua que recentemente assolaram, sobretudo, o Sistema Cantareira, o maior dos sistemas administrados pela Sabesp (Companhia de Saneamento Bsico do Estado de So Paulo), um dos maiores do mundo e destinado cap-tao e tratamento de gua para 8,8 milhes de consumidores da Grande So Paulo11. Em 2014, devido escassez hdrica que assolou a regio sudeste brasileira, passou-se a utilizar o chamado Volume Morto desse sistema, adicionando, ini-cialmente, 18,5% (182.5 bilhes de litros) ao nvel do Sistema Cantareira, que na poca estava em 8,2%, e, posteriormente, com a cont

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