encontros no abismo

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“Encontros no abismo” são quatro contos de Ludgero Almeida, escritos entre 2014 e 2015 em Portugal. Narram experiências e estados emocionais de personagens contorversas, inteiramente penetradas pelo absurdo da existência. Na vereda do abismo, onde o humano infantilmente se posiciona, é-nos convocada uma epifania do medo e do sublime. Uma sensação inequívoca de vertigem transborda os limites dos protagonistas, colocando-os ora submissos, ora num estado de iminência, numa revolta ou numa profunda aceitação. Em certos momentos parecem-nos vaguear numa paisagem onírica, transportadas numa viagem sem pretensões. Noutros parecem-nos melancolicamente confinadas a um espaço interior e uterino – algo como uma caverna platónica ou um quarto kafkiano. Nesta apreensão do mundo e do inconsciente podemos relembrar questões exitencialistas e do absurdo no seguimento literário e filosófico de Albert Camus.

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  • 1ENCONTROS NO ABISMO

    Ludgero Almeida

    ***

    ***

  • 2

  • 3ENCONTROS NO ABISMO

    Ludgero Almeida

    ***

    ***

    2015

  • 4

  • 5Cada um de ns se move em dois mundos: o interior de nossa conscincia

    e o exterior da participao na histria de nosso tempo e lugar.

    Joseph Campbell

  • 6O autor manteve a antiga ortografia vigente em Portugal

  • 7Acerca do

    ENCONTROS NO ABISMO

    Uma histria comovente exige do contador o fulguroso engenho de se embrenhar nela com intensidade.

    Como incorporou nele mesmo as personagens e as viveu alucinado! E no fosse ele um distante evocador do enlace,

    teria presumido que ele experienciara na mais autntica verdade cada detalhe hmido daquelas pedras, daquele sofrimento,

    daquele ensaio de quase-morte.O mOrdOmO

    Encontros no abismo um livro de fico, ou talvez no seja. Apre-senta-nos quatro histrias, distantes entre si na aparncia, mas onde se desencadeiam um conjunto de levantamentos onricos e existen-ciais.

    Encontrar algum no abismo precipitar-se com ele, na sua sensi-bilidade absurda, na sua confisso, no seu hbito, na sua existncia ordinria. H uma certa perversidade na vertigem, nos vos rasantes e libertinos, na intensidade da vida.

    Estas personagens esto inteiramente penetradas pelo conflito da contradio. Ante a bifurcao da sua inutilidade perante a vida e a sua esperana, entre a estagnao e a procura. necessrio consentir o seu jogo, a sua inquietao que transborda por vezes na loucura e no sublime. Incorporam-se do simblico. Vem no mundo uma

  • 8engrenagem esttica que se transfigura com a moralidade e o mito. Se por um lado percebem na natureza uma recreao de energias com pretenso do eterno, incorporadas ora no animal ou na planta, na noite ou na luz do dia, por outro lado nos espaos interiores as personagens auto-analisam-se, buscam no inconsciente um entendi-mento de si prprias. Na breve histria de O Quarto o espao dado descoberta asse-melha-se a uma gruta e prpria cabea de Lorenz Wortmann. de-paramo-nos com as suas aflies, as suas dvidas, o seu estado emo-cional. Ele, tal como o bicho kafkiano ou como os homnculos da caverna platnica, encontrado submisso, tanto ao seu corpo quanto luz e ao espao envolvente. Em Gatos Vadios h uma disputa constante entre o espao interior e o exterior, entre a luz que entra pela janela e a penumbra do inte-rior, entre o sensvel e o racional, entre o cio e o trabalho. No dilo-go teatral, percebe-se na personagem madalena uma corporificao das problemticas levantadas pela outra personagem. madalena ao mesmo tempo real e fictcia, uma duplicidade, um alter-ego.Em Consideraes acerca de um nascimento o narrador constri-nos uma possvel cena e cenografia para uma interao do homem com o seu reflexo. Propem-nos uma experincia interpretativa do eu e do nascimento. Uma reativao infantil do espanto do homem para com o mundo e consigo, numa maravilhosa disponibilidade de entrega. J em O mordomo, a personagem/narrador permite-se levar no en-canto e desencanto daquilo que o caminho lhe prope. Ele embarca numa aventura, numa caminhada, numa procura, num movimento sem motivos, onde as coisas se lhe apresentam segundo uma inten-sidade de experincia. E nesse caminho que o mundo surge como entidade inteira e ele limita-se a observ-la numa contemplao sem pretenses. A sua nica ao mover-se. Algo nesta histria nos convoca as ideias de Albert Camus e do mito de Ssifo ou a ci-nematografia de Werner Herzog, quando o absurdo dirige a nossa paixo derradeira pela vida.

  • 9Nenhum dos narradores que orientam o sentido destas histrias tm um nome. Falam do que vem, duplicam-se noutras personagens ou na gua que observam. O seu nome pode ser o nosso.

    Ludgero Almeida

  • 10

  • 11

    O mordomo13

    O quarto31

    Gatos Vadios39

    Consideraes para um nascimento51

  • 12

  • 13

    O MORDOMO

  • 14

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  • 16

  • 17

    I

    A minha vida nunca mais foi a mesma. Foi um achado, uma dbia designao dos cus a qual estranhei profundamente, pois quem merece tal sorte? Foi o culminar de uma sucesso de eventos que oportunamente desejei e sobretudo, que no deixei escapar.

    recordo-me, sentava-me mesma hora hora a que o sol se des-membrava pelos rasgos dos edifcios. Estava l e podia estar em qualquer outro stio, sem nada apropriado a fazer. Habituei-me quelas escadas, e como por vezes julgamos que a vida tem dema-siado tempo, desejamos perd-lo. Julgo que qualquer stio um bom stio para o perder. Uns perdem-no nas boates, com as cartas, com a bebida e o fumo. Uns perdem-no a dar milho aos pombos, a correr, a falar. Perdem-no com a televiso. Perdem-no a comprar objetos insignificantes. Juntam-se com outras pessoas que querem perder tempo, casam, tm filhos. Perdem tempo a fazer camisolas para os filhos. Perdem tempo a coleccionar caricas, carros em miniatura, coisas velhas. Para mim no h melhor stio que umas escadarias. E aquelas eram perfeitas para se ficar.

    No primeiro dia sentei-me e por casualidade comecei a contar as al-mas desviadas que via. Com desviadas quero dizer, aquelas pessoas cuja aparncia ou gestos evidenciam um desnorte tal, onde eu me via refletido, o que me dava um gozo tremendo. E quantas mais contava mais prazeroso era para mim. No estava sozinho. Havia mais gente como eu no mundo! Contava-as e agrupava-as. Comecei a jogar. Quantas pessoas absurdas via eu enquanto no pestanejava? E eram muitas! No que fosse exmio a manter os olhos abertos, mas porque para onde olhasse as via.

    As vidas sem sentido. Andam para aqui e para ali. Vo, voltam. repe-tem-se. Pessoas estranhas passam todos os dias por ns, homens que falam ss, putas lambuzadas, tresloucados, insanos por paixo, es-quizofrnicos, os paranicos, os depressivos.

  • 18

    Fui ficando realmente bom a manter os olhos abertos. Era capaz de ficar horas sem os fechar. Abria-os com o passar do padre que ia para a missa, e quando voltava eu ainda no tinha pestanejado. Cheguei ao ponto de atravessar meus olhos pelas oito horas laborais. As mu-lheres saiam de casa e quando voltavam eu ainda l estava, sem me-xer um centmetro. Sem uma lgrima, sem uma ardncia nos olhos. Uma vez li um livro sobre hipnotismo que dizia que era fundamental para o hipnotizador ter os olhos esbugalhados e compenetrados o maior tempo possvel. Se o meu discurso no fosse dislxico teria talvez tido oportunidade de exercer uma profisso. Nunca fui muito convincente, nunca tive uma voz montona e adormecida. Sempre gritei!

    II

    Aquele dia, l estava eu, hirto e compenetrado, j com pelo menos umas trezentas e tal almas desajeitadas na minha lista quando ele apareceu. No pude imaginar que um dia fosse conhecer uma pes-soa como o Artur, o texugo sem pernas. Que homem feio! Os rgos emparelhados uns sobre os outros. Uma misteriosa rvore torcida. Um torcimento singelo, mas forado. A cabea megaltica sobre o corpo uma pennsula! O nariz cado e a boca a comer o nariz. Uma locomotiva que fumegava pelos olhos. E andava, como andava lento, como se a cabea que, indo frente do resto do corpo, formasse o nico pndulo para o seu movimento.

    No h muitas mulheres que o amem, certamente. E os homens de-vem gozar com a sua aparncia. Um homem desentoado e rude.

    Pude v-lo aproximar-se, movido diretamente minha pessoa rompendo com o caminho num divrcio mprobo. Quanta gente o fizera antes? E que perguntas banais esperei eu? Que horas so? Onde ficam os correios? Onde posso comprar arame farpado para delimitar o meu quintal? Sabe o que tenho no meu quintal? A que horas partem os autocarros? Nem imagina para onde vou

  • 19

    mas no. Este ser mesquinho vinha e notava-se-lhe um intuito, uma chama, uma nostalgia. Que ricos olhos compenetrados! Ele no sabia. mas eu via tudo ntido. E percebia naquela figura, mais do que em todas as outras que contei na minha vida, caractersticas que o faziam muito semelhante a mim.Artur viria a saber o seu nome era daqueles homens capazes de entender as cativaes dos outros, capaz de desnudar os desejos, as tragdias, as necessidades. No se trata de bruxaria. pura ateno. Ver por dentro do corpo humano. As entranhas vertidas e os dese-jos cativos. A eletricidade a bombear todas as vontades. E naquele momento, ainda longe, pude sentir Artur invadir as minhas ideias. Artur, mais um condenado a absolver a humanidade. mais um ao qual procuram para ilibar-se dos seus males. mais um ouvinte para os pobres de esprito. mais uns olhos que nos tocam. Seja louvado o Homem que por sinal fosse benzido dessas prolas! mAS NO! A in-veja da humanidade mais forte! Iro mat-lo como mataram todos os outros os que se atreveram a olhar profundamente. E no entanto, no o pregaro na cruz, a sua cruz foi-lhe entregue nascena, e a rejeio. Tal como eu, cair no abismo. Embrulh-lo-o nas sedas mais pomposas, de um branco tnico, terrvel manifestao da fortu-na em cada anel, em cada palavra amiga que afinal, reparar, apenas o levam ao enterro. Ao seu prprio enterro. Perceber finalmente, as sedas foram as mortalhas, os anis uma preparao cannica para o morto.E agora, este defunto que imaginava, via soerguer-se vivo como uma tocha.E da maneira que chegava, cada vez mais realizado, e da forma como se determinou frente a mim, tapando-me o sol, s pude imaginar um Alexandre, imponente, subido sob o seu cavalo branco frente a um cnico grego. Vem comigo, disse, dar-te-ei po e gua. mereces estar nutrido. E depois, nesta confuso de pensamentos, nesta efer-vescncia que via soltar-se do interior do homem, acenei a cabea como se lhe desse razo. E no entanto, tinha percebido alguma coisa do que ele me tinha dito? Julgo que NAdA. E ele como se visse no

  • 20

    meu constrangimento um sinal de falta de entendimento,