Empresa Colonial

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<ul><li><p>Empresa colonial, ontologia e violncia </p><p>Empresa colonial, ontologa y violencia </p><p>Colonial enterprise, ontology and violence </p><p>Hctor Mondragn </p><p>RESUMO </p><p>A histria, a economia, a lgica e a filosofia da empresa colonial continuam </p><p>presentes no capitalismo do sculo XXI, esmagando as comunidades rurais. O </p><p>poder de decidir est apenas nas mos do capital transnacional, que se </p><p>considera o portador do esprito do desenvolvimento global, em frente do qual </p><p>nada e nada pode ter vida. Impe a deciso radical de fazer seus mega-</p><p>projetos e organizar o territrio como seu. preciso substituir este destino </p><p>manifesto do ser excludente e hegemnico pelo reconhecimento do Outro como </p><p>diferente, e fazer justia aos at agora esmagados, com um regime que defenda </p><p>seus direitos e com alternativas econmicas que os incluam. </p><p>PALAVRAS CHAVE: capital, colonialismo, comunidades, megaprojetos, </p><p>monoculturas, territrio, ser. </p><p>RESUMEN </p><p>La historia, la economa, la lgica y la filosofa de la empresa colonial continan </p><p>presentes en el capitalismo del siglo XXI, aplastando a las comunidades rurales. </p><p>El poder de decidir est slo en las manos del capital transnacional, que se </p><p>considera portador del espritu del desarrollo mundial, en frente de cual nada es y </p><p>nada puede tener vida propia. El gran capital impone la decisin radical de </p><p>realizar sus megaproyectos y de ordenar el territorio como suyo. Es necesario </p></li><li><p>substituir este destino manifiesto del ser excluyente y hegemnico, por el </p><p>reconocimiento del Otro como distinto y hacer justicia a los hasta ahora </p><p>aplastados, con un rgimen que defienda sus derechos y con alternativas </p><p>econmicas que los incluyan. </p><p>PALABRAS CLAVES: capital, colonialismo, comunidades megaproyectos, </p><p>monocultivos, territorio, ser. </p><p>ABSTRACT </p><p>The history, economics, logic and philosophy of colonial enterprise are present in </p><p>XXI century capitalism, crushing rural communities. The decision power is only in </p><p>the hands of transnational capital, and it considers itself bearer of the spirit of </p><p>global development. Facing it nothing is, and nothing can have life. The big </p><p>capital imposes the radical decision to make their mega projects and organize the </p><p>territory as its territory. Its necessary to replace the manifest destiny of the Being </p><p>exclusionary and hegemonic, for the recognition of the Other as different, and </p><p>make justice to the hitherto crushed with a regime that defends their rights and </p><p>with economic alternatives that include them. </p><p>KEY WORDS: capital, colonialism, communities, megaprojects, monocultures, </p><p>territory, being. </p><p>As transnacionais concebem o mundo rural simplesmente como espao para </p><p>realizar os objetivos do investimento capitalista. O capital transnacional trata de articular </p><p>as reas rurais de nossos pases ao redor de ncleos de investimento dos quais se </p><p>focalizam os esforos de apoio estatal ao desenvolvimento e reorientam o </p><p>povoamento, reordenando o territrio e recompondo todas as atividades econmicas e </p><p>sociais. </p></li><li><p>Estes ncleos se entendem como processos socioeconmicos gerados ao redor </p><p>de uma atividade principal, na qual a populao se integra com o setor empresarial </p><p>dentro dos projetos produtivos que garantem a competitividade e o sucesso dos </p><p>investidores. Neste sentido, o capital estabelece as vantagens comparativas de cada </p><p>comarca desde o ponto de vista da reorganizao da diviso internacional de produo </p><p>e dos mercados, segundo convenham seus interesses e a maximizao de seu lucro. </p><p>Nestas condies, uma nova ruralidade pode ser simplesmente um espao </p><p>necessrio para realizar a acumulao capitalista internacional e tambm, ser o </p><p>territrio no qual se sustenta e eleva a qualidade de vida das comunidades. </p><p>O grande agronegcio e os megaprojetos que concentram investimentos </p><p>especialmente nas obras de infraestrutura, como represas hidreltricas, interconexo </p><p>eltrica internacional, rodovias ou canais, portos e aeroportos e grandes minas ou </p><p>exploraes petroleiras, so planejadas e executadas atualmente dentro da viso de </p><p>imposio de interesses e valores externos s comunidades locais, uma viso </p><p>essencialmente etnocentrista e colonizadora de espoliao. </p><p>Para as comunidades isso significa um alto grau de desterritorializao, </p><p>causando muito frequentemente um deslocamento forado, seja por vias econmicas, </p><p>jurdicas ou mediante a violncia aberta e ilegal. </p><p>Neste transcurso o capital transnacional encontra um aliado estratgico e um </p><p>peo de briga, o latifndio, que historicamente tem conseguido a concentrao </p><p>monoplica da grande propriedade de terra e desfruta de sua renda, pois o processo de </p><p>concentrao e privatizao de terras foi parte estrutural dos processos coloniais dos </p><p>ltimos 500 anos. Os latifundirios se amparam no processo de desterritorializao das </p><p>comunidades para aambarcar a propriedade da terra que sobem de preo pelo </p><p>processo de nova ruralidade (GRAIN, 2014), o que em alguns pases implica incluso o </p><p>aumento das importaes de alimentos e em outros a expanso dos agronegcios </p><p>transnacionais custa da agricultura familiar e as comunidades locais. </p><p> importante levar em conta que, quando no h uma reforma agrria, a renda </p><p>recebida pelos latifundirios pode se incrementar demais com a nova ruralidade </p></li><li><p>estabelecida pelos grandes investimentos em megaprojetos ou agronegcios. A base </p><p>do processo a conservao da concentrao monoplica da propriedade, que permite </p><p>obter uma renda absoluta. Os investimentos podem elevar a renda diferencial de </p><p>localizao e, alm disso, geram mais uma renda diferencial, pelo incremento da </p><p>produtividade atravs do capital investido. (MARX, 1974). </p><p>No caso da renda gerada pelas jazidas ou propriedade da nao, recebidas </p><p>pelos pases na forma de royalties, o poder poltico dos fazendeiros pode garantir de </p><p>diferentes jeitos a apropriao ilegal ou legal destes dinheiros, podendo converter-se </p><p>em um crculo vicioso entre o poder dos fazendeiros com sua fora poltica ruralista e </p><p>o grande investimento colonizador. </p><p>Esse crculo se completa na atualidade pela financeirizao da terra no mercado </p><p>mundial, no qual se valorizam os ttulos da propriedade, os direitos de superfcie e os </p><p>projetos, contratos e concesses territoriais envolvidos. No mundo, durante o perodo </p><p>janeiro de 2006 e abril de 2009, foram vendidas a investidores internacionais entre 15 e </p><p>20 milhes de hectares de terras de uso agropecurio. (VON BRAUN; MEIZEN-DICK, </p><p>2009) (LEAHY, 2009). Este atravessamento global de terras teve um crescimento </p><p>exponencial durante os ltimos 6 anos, que se mantm agravando. (GRAIN, 2014). </p><p>Para as comunidades rurais a viso outra: a terra no uma mercadoria; a </p><p>terra a vida. E a ruralidade concebida como direito terra e territorialidade. Trata-</p><p>se de reorganizar os territrios de acordo com as necessidades, a cultura ou decises </p><p>prprias da populao rural organizada com seus projetos de vida. Disso resulta a </p><p>construo endgena de uma nova economia pr-requisito para se (inter)relacionar </p><p>com a economia regional, nacional, latino-americana e mundial. uma via exatamente </p><p>inversa, que inclui a soberania alimentar como nica garantia da autonomia das </p><p>comunidades e da soberania das naes. </p><p>Deveria ser a prpria comunidades quem decide as prioridades dos projetos e </p><p>programas em seus territrios, e seus objetivos. Por consequncia, s mediante a sua </p><p>participao decisria se deveriam articular os planos. </p></li><li><p> Mas acontece que uma comunidade pode estar sentenciada por um projeto de </p><p>investimento que nem sequer conhece, que leva anos gestando-se em escritrios de </p><p>transnacionais e de seus scios. Isso s possvel porque a democracia representativa </p><p>afasta dos centros de planejamento a deciso das comunidades, cujos integrantes </p><p>devem se limitar a votar a cada perodo de tempo em uns mandatrios e </p><p>representantes. </p><p>Os grandes investimentos se dedicam primeiro obteno de recursos </p><p>prioritrios relativamente escassos como todos os que permitem gerao de energia </p><p>(petrleo, gs, carvo, urnio, ltio, represas), ou a extrair determinados minerais </p><p>(coltan, bauxita, ouro, diamantes); segundo, s construes de grandes vias de </p><p>comunicao e transporte; e terceiro a diversas atividades altamente rentveis, desde </p><p>os agronegcios, como agrocombustveis, carcinicultura, ou de explorao da </p><p>biodiversidade; at o turismo. </p><p>Neste momento o capital transnacional trata de obter a qualquer custo petrleo e </p><p>outros recursos energticos. a prioridade imediata da poltica dos Estados Unidos, da </p><p>Europa e do Japo. Os Estados Unidos, por exemplo, consideram vital garantir o </p><p>fornecimento de recursos energticos e prover o acesso s regies onde eles se </p><p>encontram (KLARE, 2002). A isso se adicionam os objetivos geoestratgicos de longo </p><p>prazo sobre o acesso a outros recursos naturais, enunciados para o hemisfrio norte no </p><p>Informe Kissinger, (KISSINGER, 1974) e para o mundo inteiro no Informe Cheney. </p><p>(CHENEY, 2001) </p><p>Por outro lado, a construo da infraestrutura de transporte para a comunicao </p><p>internacional em grande escala uma necessidade do capital internacional que nem </p><p>sempre coincide com as necessidades das comunidades e que pode significar o </p><p>deslocamento definitivo destas. Os principais megaprojetos de infraestrutura so o </p><p>Plano Puebla-Panam (PPP), rebatizado como Projeto Meso-Amrica (LPEZ, 2009); e </p><p>a Integrao da Infraestrutura Regional de Sul- Amrica (IIRSA). </p><p>Plano Puebla-Panam ou Projeto Meso-Amrica </p></li><li><p> O PPP resultado da sistematizao dos megaprojetos formulados para a regio </p><p>mesoamericana durante as dcadas anteriores, como o Sistema de Interconexo </p><p>Eltrica Para Amrica Central SIEPAC, formulado a partir de 1991, com seu </p><p>antecedente na Agenda Centro-Americana para o Sculo XXI, na qual se formulavam </p><p>32 projetos regionais. Foi proposto como PPP o dia 12 de setembro de 2000, pelo </p><p>ento presidente do Mxico, Vicente Fox, e adotado o dia 12 de maro de 2001, com o </p><p>apoio do Banco Interamericano de Desenvolvimento BID, por oito pases: Mxico, </p><p>Guatemala, Belize, Salvador, Honduras, Nicargua, Costa Rica e Panam, aos quais se </p><p>adicionou a Colmbia a partir do dia 11 de julho de 2006 (FIGUEROA, 2007). </p><p>O PPP fundamenta-se em quatro componentes: </p><p>- Rede Internacional de Rodovias Mesoamericanas (RICAM), assinada no dia 18 </p><p>de julho de 2002, articula corredores virios, canais secos Caribe-Pacfico, portos, e a </p><p>conexo terrestre Panam-Colmbia pelo trecho do Tampo do Darin - Pau de Letras </p><p>(da Rodovia Pan-americana) (FIGUEROA, 2007). </p><p>- Represas hidreltricas: no comeo 32 no Mxico e outras 26 na Amrica </p><p>Central (GODINEZ, 2002), articuladas com o SIEPAC permitem um sistema de </p><p>interconexo eltrica continental desde a Amrica do Sul at a Amrica do Norte. </p><p>Transnacionais como a originalmente espanhola e hoje italiana ENDESA e as </p><p>estadunidenses como Harken Energy, Applied Energy Services (AES), Duke Energy e </p><p>Harza tm interesses nestes projetos (WARPEHOSKI, 2002). </p><p>- Indstrias articuladas a portos privatizados e portos livres. Em novembro de </p><p>2000 foi outorgada a Olympus Venture Capital, como representante de Desarrollos </p><p>Latinoamericanos DELASA, do grupo de investidores estadunidense Prescott &amp; Follet, </p><p>um contrato de aluguel por 25 anos para usufruto e modernizao do porto de Bilwi / </p><p>Puerto Cabezas no litoral caribenho da Nicargua. Este projeto incluiu a construo de </p><p>rodovias e de uma zona de maquiladoras (WARPEHOSKI, 2002). Parte chave do </p><p>PPP o projeto Marcha para o Sul, que cria condies trabalhistas e de infraestrutura </p><p>para expandir a indstria maquiladora transnacional (CHIAPAS, 2002). Uma estratgia </p></li><li><p> a construo de aldeias perto desses projetos em que os habitantes se deslocam de </p><p>suas comunidades originais pela construo de barragens ou de rodovias. (LPEZ, </p><p>2009). </p><p>- Agronegcios e negcios florestais ou com a diversidade biolgica. As </p><p>empresas estadunidenses de produo de papel, International Paper e Boise Cascade </p><p>tm comprado terrenos em Chiapas e Oaxaca para convert-los em plantaes para </p><p>extrair polpa de madeira. A International Paper est pesquisando como produzir rvores </p><p>transgnicas para melhorar sua produo de papel. O Grupo Pulsar, empresa mexicana </p><p>de biotecnologia, tem investimentos e plantaes em Chiapas e pesquisa sobre rvores </p><p>transgnicas (WARPEHOSKI, 2002). </p><p>-Os tratados de livre comrcio, como novo marco jurdico que garanta os direitos </p><p>aos investidores, acima dos direitos coletivos estabelecidos. O PPP foi desenhado </p><p>quando estava em vigncia o TLCAN e se planejava o estabelecimento da rea de </p><p>Livre Comrcio das Amricas (ALCA), que no se estabeleceu pela resistncia dos </p><p>povos, mas que tem sido parcialmente substituda na Amrica Central pelo Tratado de </p><p>Livre Comrcio entre Repblica Dominicana, Centro Amrica e Estados Unidos de </p><p>Amrica (DR-CAFTA), e na Colmbia por vrios TLC e mais recentemente pela </p><p>Iniciativa para a Prosperidade das Amricas, que agrupa a todos os pases que </p><p>firmaram TLC com os Estados Unidos. </p><p>O Banco Interamericano de Desenvolvimento, o Banco Japons para a </p><p>Cooperao Internacional, o Fundo de Ajuda ao Desenvolvimento FAD, da Espanha, </p><p>a Unio Europeia, e vrias agencias bilaterais financiam projetos vinculados ao PPP. </p><p>Integrao da Infraestrutura Regional de Sul-Amrica </p><p>A IIRSA surgiu a partir da Reunio dos Presidentes de Amrica do Sul, em </p><p>agosto de 2000 em Braslia, com o objetivo de impulsionar a modernizao da </p><p>infraestrutura regional com uma viso estratgica: a partir de eixos de integrao e </p><p>processos setoriais. </p></li><li><p>Inicialmente a IIRSA definiu 10 eixos de integrao da infraestrutura fsica. </p><p>Porm, em 2009, como resultado da discusso poltica e estratgica da UNASUL, </p><p>estabeleceu-se o Conselho Sul-americano de Infraestrutura e Planejamento </p><p>(COSIPLAN) que acordou 8 eixos prioritrios, com 31 projetos estruturantes, divididos </p><p>em 88 projetos individuais (COSIPLAN, 2012). </p><p>Os eixos de integrao fsica prioritrios so: </p><p>1- Amaznia; </p><p>2- Andino; </p><p>3- Capricrnio (Chile - Argentina - Paraguai - Brasil); </p><p>4- Escudo das Guianas; </p><p>5- Hidrovia Paraguai-Paran (Bacia do Rio da Prata); </p><p>6- Interocenico Central (Peru - Chile- Bolvia - Paraguai - Brasil); </p><p>7- Mercosul-Chile; </p><p>8- Peru - Brasil - Bolvia. </p><p>Trata-se de conseguir especialmente a intercomunicao entre os Oceanos </p><p>Atlntico e Pacfico de forma que seja possvel o trnsito contnuo de leste a oeste, e </p><p>Amrica Central. Na prtica estes eixos esto conformados por redes de autopistas e </p><p>outras rodovias, especialmente vias que articulam centros de produo e portos. Assim </p><p>como acontece com parte dos canais fluviais do megaprojeto de Integrao Fluvial Sul-</p><p>americana (SERRANO, 2003), do qual fica por agora excludo o eixo Norte-Sul, que </p><p>inclui grandes canais de comunicao entre a bacia amaznica e a bacia do rio da </p><p>Prata. </p><p>IIRSA inclui, alm de vias de comunicao e portos, projetos de redes de </p><p>interconexo eltrica, gasodutos e oleodutos conectados s barragens hidreltricas e </p><p>as jazidas exploradas ou a explorar. </p><p>O principal problema da IIRSA a nula participao das comunidades e dos </p><p>povos no planejamento estratgico, na definio dos eixos, no conhecimento de seu </p></li><li><p>impacto ambiental e social e na planificao setorial. A IIRSA uma obra de governos, </p><p>empresrios e insti...</p></li></ul>