elementos argumentativos na composição do gênero “carta do leitor”

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  • matraga, rio de janeiro, v.20, n.33, jul/dez. 2013212

    ELEMENTOS ARGUMENTATIVOS NA COMPOSIODO GNERO CARTA DO LEITOR*

    Gerson Tavares do Carmo(Universidade Estadual do Norte Fluminense)

    RESUMOO presente trabalho ocupa-se da reconvocao dos elementosda retrica clssica presentes nas obras de Aristteles eQuintiliano, com destaque para o entimema, bem como do usodesses elementos como conhecimento necessrio para o proces-so de ensino e aprimoramento da escrita argumentativa de estu-dantes de ps-graduao na produo de um gnero especfico:a carta do leitor. A metodologia empregada neste artigo tevenatureza qualitativa, com o propsito de construir um instru-mento para anlise de cartas argumentativas produzidas em umexperimento realizado num curso de ps-graduao. Dentre ascartas produzidas por doze ps-graduandos, foram escolhidascartas de uma mestranda de psicologia como ilustrao da apli-cao do instrumento. Nesse sentido, foram apresentados a essaestudante os elementos da retrica clssica, assim como a dispo-sio e o funcionamento destes na produo do gnero em ques-to, partindo do entimema como elemento central. Simultanea-mente, foram analisados exemplares do gnero carta do leitorenviados Revista Carta Capital, a fim de reconhecer neles apresena desses elementos e analisar de que maneira estes secombinam e contribuem para tornar o texto argumentativo ob-jetivo, claro e persuasivo. Ao final de cada encontro, a partir daleitura de matrias da revista, a estudante passou a produzircartas semelhantes s enviadas para a seo do leitor, com opropsito de empregar os elementos reconvocados vistos atali. A experincia mostrou que o uso desses elementos foi capazde contribuir para a melhoria da prtica da escrita argumentativadessa aluna.PALAVRAS-CHAVE: Carta do leitor - entimema - retrica -ensino da argumentao.

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    Gerson Tavares do Carmo

    Introduo

    Como contribuir para que estudantes do ensino mdio, e mes-mo estudantes do ensino superior, se tornem capazes de defender ourefutar, por escrito, argumentos, de maneira objetiva, clara e persua-siva? esta pergunta que norteia todo este trabalho. No raro escu-tar esses mesmos estudantes se queixarem de dificuldades na hora deredigir, quer sejam os denominados textos de opinio (artigo deopinio, crnica esportiva, carta do leitor, entre outros), quer sejamos denominados textos acadmicos (fichamento, resumo, resenha,entre outros).

    Quando ouvidos, esses estudantes apontam como problema exceo feita s particularidades de cada gnero no s no saber oque dizer, mas no saber por onde comear o texto, e como distribuirao longo dele as ideias, medida que elas lhes surgem. Ou seja, quei-xam-se de, por no saber onde encontrar as ideias necessrias e comofazer a distribuio delas no texto, no se fazerem compreender, in-clusive por eles prprios. Surge, da, a seguinte indagao: uma dascausas da dificuldade de colocar ideias no papel no seria o desco-nhecimento generalizado do que caracteriza um texto argumentativo,isto , seus elementos constitutivos?

    Diante do problema da dificuldade na prtica da escritaargumentativa, mesmo entre estudantes com mais de dez anos de es-colaridade, a dvida transformou-se na seguinte hiptese: o uso cons-ciente dos elementos reconvocados da retrica clssica para a produ-o textual auxilia na superao das dificuldades referentes escrita.

    O percurso deste trabalho procurou compreender dois trata-dos da retrica clssica, escritos por dois ilustres pensadores daAntiguidade, a saber: Retrica, de Aristteles (sc. IV a. C.), e Insti-tuies Oratrias, de Quintiliano (sc. I d. C.), na inteno de encon-trar, nessas obras, elementos empregados supostamente para evitarou solucionar problemas no processo de produo do textoargumentativo, poca, e reconvoc-los com o propsito de empreg-los na soluo de problemas que enfrentamos hoje.

    Dessa forma, este estudo tem como objetivo geral realizar umainterveno pedaggica de ensino da escrita argumentativa a partirdo gnero carta do leitor por meio da reconvocao dos elementosda retrica clssica, em especial o entimema. Como objetivos espec-ficos, pretende-se: a) demonstrar teoricamente a centralidade do

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    ELEMENTOS ARGUMENTATIVOS NA COMPOSIO DO GNERO CARTA DO LEITOR

    entimema na produo do texto argumentativo, no gnero carta; b)comparar conjuntos de cartas produzidas em cada etapa de produ-o; e c) avaliar a evoluo das produes textuais de modo a verifi-car se a demonstrao terica apresentada corresponde a uma de-monstrao prtica nas cartas do leitor em sua ltima etapa.

    Quanto escolha do peridico, optou-se pela Revista Carta Ca-pital1, porque, alm de publicar na ntegra as cartas selecionadas paraa seo do leitor, intitulada Cartas capitais, ela premia mensalmente amelhor carta enviada, considerando a argumentao inteligente e con-cisa. Trata-se de uma garantia de que tais cartas podem ser aproveita-das como corpus privilegiado para a anlise com os estudantes.

    Este artigo est organizado de modo a estabelecer associaoterica entre a retrica em especial o entimema e a carta doleitor. O instrumento metodolgico foi construdo a partir das orien-taes de Leach (2002) e da anlise em si das cartas selecionadas paraobservar-lhes a evoluo e, portanto, identificar os resultados da in-terveno pedaggica realizada. Estes so sintetizados nas conclu-ses deste estudo.

    O entimema e a carta do leitor

    H vinte e cinco sculos, logo na abertura da sua Retrica poderosa sntese, apoiada numa investigao sistemtica, que abran-gia todos os tratados anteriormente publicados (MARROU, 1966, p.310) Aristteles (sc. IV a.C.) hasteou o entimema como elementocentral do discurso argumentativo. Isso ocorreu antes mesmo de apre-sentar uma definio para retrica como faculdade de observar,em cada caso, o que este encerra de prprio para criar a persuaso(ARISTTELES, 2011, p. 44) , o que s feito no incio do segundocaptulo da mesma obra.

    O entimema, do grego antigo ideia, pensamento (PLATIN,2008, p. 51), , pois, considerado por Aristteles a substncia dapersuaso, ou a corporificao do que possvel compreender atual-mente por argumento (COSTA, 2008, p. 34). Em Retrica, o filsofodefine esse tipo de argumento a partir de duas outras obras atribudasa ele, Analticos Anteriores e Analticos Posteriores, em que trata dosilogismo analtico / lgico. Ambos tm estreitas semelhanas, aponto de o filsofo assegurar que o entimema um tipo desilogismo, e que, por consequncia,

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    Gerson Tavares do Carmo

    [...] aquele que est melhor capacitado a perceber como e a partirde que elementos um silogismo produzido dispor igualmente damelhor habilidade para o manejo do entimema quando conheceradicionalmente os objetos de que tratam os entimemas e as dife-renas que o distinguem dos silogismos lgicos (ARISTTELES,2011, p. 42).

    Para o filsofo grego, diferentemente do silogismo analtico, oentimema (ou silogismo retrico) pode assentar-se sobre premissasnecessrias, ao passo que a maior parte delas ter apenas um cartercontingente (ARISTTELES, 2011, p. 49). Em outros termos, paraele, o silogismo analtico caracteriza-se por fundamentar-se sobreevidncias, enquanto o entimema, no apenas sobre evidncias, masprincipalmente sobre a opinio geral.

    No que diz respeito ao emprego do entimema e do silogismolgico, Aristteles (2011) declara que se trata de empregar o meioapropriado aos fins do discurso argumentativo, ou seja, persuaso.Nesse caso, o entimema figura como [...] o mais eficaz dos meios depersuaso (ARISTTELES, 2011, p. 42).

    O gnero sobre o qual este artigo se detm a Carta do leitor.Definido como geralmente de opinio (argumentativo) (COSTA, 2008,p. 54), caracteriza-se por ser

    [...] um texto utilizado em situao de ausncia de contato imedi-ato entre remetente e destinatrio, que no se conhecem (o leitore a equipe da revista/jornal, respectivamente), atendendo a diver-sos propsitos comunicativos: opinar, agradecer, reclamar, solici-tar, elogiar, criticar, entre outros. um gnero de domnio pblico,de carter aberto, com o objetivo de divulgar seu contedo, possi-bilitando, assim, ao pblico em geral sua leitura (BEZERRA, 2002,p. 210).

    Acerca dos diversos propsitos comunicativos arrolados aci-ma na definio de Bezerra (2002), possvel acolh-los comohipnimos de opinativo, e, portanto, de argumentativo (SAVIOLI;FIORIN, 2001).

    Para Aristteles (2011, p. 212), o assunto global da retricatange unicamente ao que se relaciona com a opinio. Por esse moti-vo, defende-se aqui a reconvocao dos elementos da retrica clssi-ca, como o entimema, para a produo da Carta do leitor, visto quetanto esta quanto aquele se dedicam mesma matria.

    possvel considerar a argumentao do territrio propcio ao

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    ELEMENTOS ARGUMENTATIVOS NA COMPOSIO DO GNERO CARTA DO LEITOR

    entimema, conforme observava Aristteles. Porm, antes de avanarno que se refere ao funcionamento do entimema e sua manifestaona carta do leitor, necessrio destacar qual concepo de argumen-tao norteia este trabalho, uma vez que esta fundamental na com-preenso da importncia do entimema para a prtica da escritaargumentativa e do discurso em geral.

    Primeiramente, faz-se necessrio convocar dois importantesautores que tratam da argumentao: Perelman e Olbretchs-Tyteca,considerados responsveis pelo processo de reabilitao das ques-tes prprias da retrica, no sculo XX. Para os autores,

    O objetivo de toda argumentao [...] provocar ou aumentar aadeso dos espritos s teses que se apresentam a seu assenti-mento: uma argumentao eficaz a que consegue aumentaressa intensidade de adeso, de forma que desencadeie nos ouvin-tes a ao pretendida (ao positiva ou absteno) ou, pelo menos,crie nele