einstein, cientista e fil³sofo?

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  • Einstein, cientistae filsofo?MICHEL PATY

    P arece findo o tempo no qual os dentistas eram tambm filsofos,ou o inverso. A poca no mais dos Descartes e dos Leibniz. Ja filosofia natural de Newton inclina-se decididamente para olado cientfico; mas devemos reconhecer que Newton colocou con-ceitos que alimentaram de forma duradoura as filosofias dos sculosseguintes (o tempo, o espao, a causalidade) e regras de metodologiacientfica que servem em parte, ainda hoje, de referncia.

    Em seguida a clivagem ocorre de forma mais brutal e parece quese pode, da em diante, classificar os pensadores em categorias separadase mesmo, logo depois, estanques. No sculo XVIII d'Alembert figuracomo exceo, embora ainda seja muito pouco considerado como umfilsofo importante. J no sculo XIX ns enumeramos muitos casos decientistas-filsofos nos diversos ramos da cincia; da lgica com Bolzanoou Frege e da matemtica de Riemann a Clifford, Peano ou Poincar, scincias naturais em transformao e sem falar nas cincias sociais nas-centes ainda estreitamente ligadas terra me da filosofia. Para nos res-tringir fsica e aos fsicos ou fsico-matemticos mais notrios, Am-pre, von Heimholtz, Kirchhoff, Hertz, Boltzmann, Mach, Poincar denovo e Duhem respondem a esta qualificao.

    Mas so estes cientistas realmente considerados como filsofos nosentido pleno? Eles mesmos no o reivindicaram, porque tinham cons-cincia da clivagem. De seu lado, os filsofos que se interessam pelopensamento destes cientistas se satisfazem em geral com as partes filo-sficas destas obras que lhes dizem respeito diretamente, medida emque elas podem contribuir para instruir seus prprios debates. Rara-mente preocupam-se com a relao entre estes escritos epistemolgicosou filosficos e o trabalho cientfico que os acompanha. Sobre o pen-samento destes dentistas-filsofos pesa, em geral, a suspeio de no sernem sistemtico nem de alcance suficientemente geral; e de demonstrarexcessiva preciso em suas anlises das proposies da cincia. Em suma,estes pensadores no caracterizaram suficientemente a diviso do tra-balho entre o filsofo e o sbio (1) (ou, mais modestamente, o cientista,como dizemos hoje).

  • O sculo XX conta igualmente com cientistas preocupados com afilosofia e, dentre eles, Einstein. Diferentemente dos pensadores prece-dentes, porm, no so tanto suas concepes epistemolgicas que re-tm de sua contribuio s idias filosficas, mas certas implicaes desua prpria obra cientfica considerada sobretudo sob o aspecto dasnovas concepes do espao e do tempo, e da causalidade relativstica.

    Sobre a filosofia propriamente dita de Einstein, existe uma opi-nio corrente, formada sobre um conhecimento indireto e vago de seupensamento, que lhe atribui todas as caractersticas do ecletismo. Isto acentuado na Frana, onde a filosofia esteve largamente afastada, desdea segunda guerra mundial, da cincia e de seus problemas. Ele reco-nhecido, nos meios melhor informados, como dentista-filsofo (alis umlivro com este ttulo foi publicado em 1949, sob a forma de uma cole-tnea de contribuies de cientistas e filsofos a propsito de Einsteine, em alguns casos, dialogando com ele) (2). Mas alguns, duvidando queseu pensamento filosfico tenha sido sempre coerente (ele teria feito,segundo Holton (3), de sua juventude maturidade uma verdadeiraperegrinao filosfica atravs das posies as mais variadas, do positi-vismo ao realismo e do empirismo ao racionalismo), chegam a afirmarque ele professava um oportunismo epistemolgico (4) e ento deve-secompreender filosfico, segundo o qual todas as concepes so vlidas,ao menos no que diz respeito sua relao com as cincias.

    A relao entre pensamento cientficoe pensamento filosficoUma obra cientfica de alcance filosfico

    O que impressiona na obra de Einstein, a ponto de ocultar osoutros aspectos de seu pensamento, o alcance considervel das modi-ficaes que ela causou nas vises que tanto cientistas como filsofosestavam acostumados a ter. Mais que seu pensamento propriamentedito, foi sobretudo o contedo cientfico de sua obra que prendeu aateno. Caso excepcional entre os cientistas-filsofos, ele no interessavaaos filsofos profissionais pelo que escreveu mas pelo que fez: ele lhesteria entregue, de todo modo, o material bruto de conceitos e teoriasnovas, do qual estavam eles a decifrar a significao profunda.

    No h dvida que os temas filosficos ligados s transformaesda fsica como de toda cincia escapam aos primeiros atores paradesenhar um espao que lhes prprio, e no qual se exerce livremente areflexo crtica. Mas o prprio pensamento do criador tem um interesseno menor, e talvez um interesse muito particular para os olhos do

  • filsofo, pois aquele soube, qualquer que tenha sido a maneira, e cons-cientemente, ou no trazer luz objetos de pensamento to ricos deimplicaes. Por esta razo provavelmente, os autores do Manifesto doCrculo de Viena mencionam em variadas ocasies, entre os inspiradorese os representantes do movimento que eles querem promover, o nomede Einstein. Mas, precisamente o Crculo em suas origens reivindicavapara seus membros a condio de no serem filsofos e de terem traba-lhado em um ou outro dos domnios da cincia. E proclamava, poroutro lado, afirmando a necessidade de pesquisas filosficas sobre osfundamentos, que "no h filosofia como cincia fundamental e uni-versal, ao lado ou acima dos diferentes domnios da nica cincia daexperincia". Os escritos epistemolgicos do cientista citados peloManifesto so pouco numerosos e vo at 1921 mas afirmado,com preciso e de maneira significativa, que "importantes considera-es filosficas se encontram igualmente nos trabalhos originais deEinstein" (5) (esta ltima observao nos aproxima da perspectiva quequeremos apresentar).

    Pela estatura de sua obra e por sua situao na histria do desen-volvimento das idias, Einstein ocupa um lugar privilegiado que o im-pe ateno do filsofo. Mas, atravs e para alm dele, so as cinciascontemporneas em seu conjunto, por seus contedos, suas modalida-des, e pelo papel a que se vem destinadas no campo social, que parecemdeterminar uma nova relao com a filosofia. Com freqncia as trans-formaes nas representaes e teorias cientficas pareceram implicarmudanas de alto a baixo nas nossas concepes sobre o conhecimento,em sua natureza e condies de possibilidade. As redistribuies dequestes tradicionalmente consideradas como sendo de natureza filo-sfica parecem responder, no s como eco mas como conseqncia emprofundidade, s crises sofridas pelos conhecimentos positivos, sejamdas cincias formais (ver a questo dos fundamentos da matemtica),ou da natureza (fsica, biologia), ou relativas s cincias humanas esociais (das quais este sculo registra o crescimento).

    Com relao a este estado de coisas, o caso do pensamento e daobra de Einstein no nico, mas exemplar e significativo. Ele igual-mente particular, e ns evitaremos, com todo o cuidado, erigir em con-cluses universais os elementos de significao que poderemos nele en-contrar. A questo preliminar que se encontra colocada desde o inciono nosso estudo a da relao entre cincia e filosofia na formulao esoluo de problemas colocados por uma dada cincia, seja consideran-do estes problemas em si mesmos, tal como eles so postos ao exame decada um, ou o caminho particular adotado por um criador individual nasua abordagem.

  • A mais prxima corrente filosfica: o Crculo de Viena ?

    A perspectiva adotada a este propsito por um movimento depensamento como o Crculo de Viena, e seus prximos, pode aqui nosservir, provisoriamente, de fio condutor. A anexao muito relativa de Einstein pelo Crculo nao o faz um adepto mesmo que momen-tneo. Mas se preciso designar, nos debates de idias que acompanha-ram as renovaes da fsica, uma corrente que seria mais prxima queoutras da atitude de Einstein seno do contedo preciso de seupensamento, por suas intenes gerais, a escolha dirigir-se-ia de bomgrado para aquela reunida em torno dos Crculos de Viena e de Berlim.

    Moritz Schlick, animador do primeiro, foi, alis, quem props(bem antes da constituio do Crculo) logo aps a publicao dos tra-balhos que estabeleciam a teoria da Relatividade geral, a crtica, fundadanesta teoria, do a priori kantiano. Crtica retomada e desenvolvida no-tadamente por Hans Reichenbach figura de proa do segundo. ESchlick teve certamente influncia, poca, sobre a evoluo das con-cepes epistemolgicas de Einstein, como testemunha sua correspon-dncia (6); no poderamos falar de uma influncia semelhante de Rei-chenbach apesar de o ltimo ter mantido com Einstein seguidos inter-cmbios filosficos desde seu perodo comum em Berlim, at suas lti-mas conversaes em Princeton (7).

    um trao do perfil intelectual de Einstein ter, ao longo de suavida, dialogado com filsofos contemporneos ou do passado, atravsde intercmbios diretos ou de leituras. Desde seu perodo de formaoele leu, e mais tarde releu, Kant (este muito cedo, ao que parece com aidade de dezesseis anos), Hume, Mill, Mach, Poincar e os cientistas-filsofos ja citados, mas tambm Schopenhauer, que invocava de bomgrado e, sobretudo, Spinoza, do qual ele se sentia to prximo. Istoposto, antes de tudo prpria filosofia de Einstein, considerada emseu movimento e sua estrutura, que ns nos prenderemos.

    Einstein, o cientista, pode ser igualmente considerado como fil-sofo? E, em caso afirmativo, quais lies podemos disto extrair para afilosofia em sua relao com as cincias? Mais precisamente: que espciede questes filosficas encontramos estudando um pensamento cient-fico criador? Tal , de fato, a questo que ns nos esforaremos pararesponder nesta obra: admitiremos, preliminarmente questo colocadanestes termos, que as cincias e a filosofia esto, por sua natureza, emuma relao estreita e que, sem se confundir, elas podem se encontraraplicadas considerao de objetos comuns. Esta solidariedade da cin-cia com a filosofia, afirmada anteriormente com fora pelos filsofos das

  • Luzes, ao mesmo tempo