Edyleine Bellini Peroni Benczik; Erasmo Barbante Casellar ?· ou, ainda, preguiçoso, mal-educado e…

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  • ComPreendendo o imPaCto do tdah na dinmiCa familiar e as PossiBilidades de interveno

    rev. Psicopedagogia 2015; 32(97): 93-103

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    ArTiGo DE rEViso

    RESUMO Este artigo visa a focar o poderoso efeito que o transtorno de dficit de ateno/hiperatividade promove nas interaes familiares, seja entre pais e filhos, na relao conjugal e na interao entre irmos, afetando sobremaneira a dinmica familiar. A reviso terica foi fundamentada em pesquisas nacionais e internacionais, obtidas por meio do PubMed, SciELO e em livros sobre o tema. Os resultados obtidos demonstram urgncia na elaborao de projetos de interveno e de orientao junto aos pais, a fim de promover a sade mental de todos os membros da famlia e do prprio portador, minimizando o impacto negativo e os prejuzos decorrentes.

    UNITERMOS: Transtorno do Deficit de Ateno com Hiperatividade. Relaes familiares. Sade mental.

    CorrespondnciaPsiqu Ncleo de Psicologia e Neuropsicologia AplicadaEdyleine Bellini Peroni Benczik Rua Artur de Azevedo, 1767 14 andar cjto 142 Pinheiros, SP, Brasil CEP 05404-014E-mail: benczik@ig.com.br

    Edyleine Bellini Peroni Benczik Doutora em Psi-co logia Escolar e do Desenvolvimento Humano pelo Ins tituto de Psicologia da Universidade de So Paulo (IPUSP), So Paulo, SP, Brasil.Erasmo Barbante Casella Mdico Neuropediatra da Infncia e Adolescncia, Professor Livre Docente em Medicina pela Universidade de So Paulo, Res ponsvel pelo Ambulatrio de Distrbios do Aprendizado do Instituto da Criana do Hospital das Clnicas de So Paulo, So Paulo, SP, Brasil.

    ComPreendendo o imPaCto do tdah na dinmiCa familiar e as PossiBilidades

    de intervenoEdyleine Bellini Peroni Benczik; Erasmo Barbante Casella

  • BenCzik eBP & Casella eB

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    INTRODUOO Transtorno de Dficit de Ateno/Hipera-

    tividade (TDAH) considerado uma desordem neurobiolgica que afeta entre 3% a 7% da po pulao infantil, tanto no Brasil quanto em outros pases do mundo. Hoje, estima-se que 50% a 80% das pessoas que tiveram o TDAH na infncia continuam a apresentar na vida adulta, sintomas significativos associados a importantes prejuzos em diversas esferas da vida cotidiana1,2.

    O TDAH considerado como um transtorno multifatorial e heterogneo do ponto de vista clnico3 e reconhecido como um dos maiores desafios para pais, professores e especialistas, em funo da ampla variedade de comprometi-mentos que o quadro promove4.

    O DSM-5 descreve o TDAH como um con-junto de sintomas de desateno, hiperatividade e impulsividade que se manifestam por meio de um padro persistente e frequente ao longo do tempo. Esses sintomas dizem respeito ao excesso de agitao, inquietao, falta de autocontrole, falar em demasia, interromper os outros, res-ponder antes de ouvir a pergunta inteira, inca-pacidade para protelar respostas, como tambm distrair-se com facilidade, no prestar ateno a detalhes, dificuldade para memorizar com-promissos, organizar e realizar tarefas, perder objetos, entre outros5.

    Pesquisas mais recentes apontam tambm para a existncia de dficits em alguns aspectos das funes executivas, entre as quais cita-se a o dficit na inibio de respostas, ateno sustentada, memria de trabalho no-verbal e verbal, planejamento, noo de tempo, regulao da emoo, perseverana e na fluncia verbal e no-verbal6.

    No mbito familiar, esse transtorno sentido como um fator que promove dificuldades no convvio e no dia-a-dia7. Em casa, os pais acu-sam a criana de no escutar, de no seguir regras e normas, de no conseguir completar as solicitaes mais simples, de reagir com agressi-vidade e de no tolerar frustrao4. O excesso de atividade motora, o alto nvel de impulsividade evidenciada na antecipao das respostas e na

    inabilidade para esperar a sua vez, diante de um acontecimento, pode provocar, geralmente, um impacto negativo nas relaes sociais e ou fami-liares e promover um alto nvel de estresse com quem convive com a criana ou adolescente8.

    As interaes familiares de pais e filhos que tenham o diagnstico de TDAH so marcadas, frequentemente, por mais conflitos, sendo a vida da famlia caracterizada, geralmente, pela desar-monia e discrdia, impactando na qualidade de vida de todos os membros do ncleo familiar9. Muitos pais relatam depresso, um nvel baixo de autoestima e fracasso em seu papel como pais, bem como, pouca satisfao com o envol-vimento em suas responsabilidades paternas, sentimentos de incompetncia em relao s suas habilidades de educar e bem-estar psicos-social inferior, em comparao outros pais10.

    Por outro lado, os pais tendem a encarar o seu filho como inoportuno, aversivo e desobediente ou, ainda, preguioso, mal-educado e inconve-niente, e que tem muita dificuldade para se adaptar no ambiente onde convive e para cor-responder s expectativas dos adultos4,11.

    Alm da dificuldade de convivncia com os seus filhos com TDAH, os pais se deparam com outra questo: a frequente rotina de evitao, postergao e esquecimento das tarefas coti-dianas. Os pais descrevem uma rotina familiar estressante, pois as tarefas mais simples podem se tornar uma misso quase impossvel de o filho realizar, como, por exemplo, tomar banho, escovar os dentes, sentar para as refeies, de se preparar para dormir, pegar no sono e fazer as tarefas de casa. Os pais tendem a reagir com maior direcionamento, controle, sugesto, enco-rajamento e, finalmente, raiva12. Sem superviso de um dos pais, o filho poder comear outras trs atividades sem terminar o que comeou e os pais ficam rapidamente desencorajados, ocupando grande parte do seu tempo de lazer com a criana, principalmente com o dever de casa, que se manifesta como uma das mais im-portantes incapacidades invisveis da criana11.

    A certa altura, pode resultar nos pais frustra-o e exasperao devido a repetidas ameaas e

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    diretivas. Quando essa abordagem falha, como frequentemente acontece, em motivar a criana com TDAH a ouvir e obedecer; os pais podem evoluir para o uso habitual da disciplina fsica ou outras formas de punio para tentar retomar o controle sobre o comportamento rebelde da criana12.

    Alguns pais podem, simplesmente, desistir nesse ponto, concordando ou fazendo as tarefas eles prprios ou simplesmente deixando a tarefa por fazer. E, com o passar do tempo, alguns pais tendem a atingir um estado de fracasso na con-duo de seu filho que pode ser descrito como sendo um estado de impotncia aprendida. Eles podem fazer o mnimo ou nenhum esforo para dar ou reforar ordens aos seus filhos, dei-xando-os fazer o que lhes agrada, deixando-os com pouca ou nenhuma superviso11.

    Em alguns casos, os pais podem alternar o seu comportamento, dependendo de seu humor ou irritabilidade no momento, entre um despren-dimento completo e reaes demasiadamente severas, diante da m conduta de seus filhos. Isso pode levar prontamente a reaes negativas imediatas ou severa disciplina fsica, quando a criana comear a mostrar os mnimos sinais de comportamento disruptivo11.

    Por outro lado, diante da cobrana excessiva dos pais, os filhos tendem a reclamar, resmungar e brigar de forma impulsiva, incoerente e sem autocontrole. Pesquisadores relatam que as crianas com TDAH, por sua vez, em funo da falta de competncia social, seja por retraimento, ou por comportamento agressivo, resultantes de um autocontrole deficiente, sentem a rejeio de seus pares e, tambm, de seus familiares que muitas vezes no os compreendem, o que pode levar criana com TDAH a um crculo de perpetuao de comportamentos agressivos13.

    Desde 1980, aproximadamente, um grande nmero de estudos cientficos tm sido publi-cados sobre comportamento de crianas com TDAH em relao a seus pais e s reaes destes para com elas. Os primeiros estudos de observao direta de interaes de mes e seus filhos com TDAH foram realizados por Susan

    Campbell, da University of Pittsburgh. Ela obser-vou que meninos com hiperatividade iniciaram mais interaes do que outros meninos quando trabalhando com suas mes e necessitaram tambm de mais ajuda. Essas crianas pareciam necessitar de mais ateno, mais conversa e solicitavam mais intensamente a ajuda de suas mes durante a interao com elas. As mes de crianas portadoras de TDAH deram mais sugestes, aprovao, reprovao e orientaes relacionadas ao controle de impulsos do que as mes de outras crianas. Em outras palavras, as mes de crianas com TDAH controlaram mais o comportamento e se envolveram no autocontrole de seus filhos mais do que mes de crianas sem TDAH14.

    Em estudos iniciais, pode-se verificar que crianas com TDAH eram muito menos submis-sas, mais negativas, mais capazes de se abster de tarefas e menos capazes de persistir em con-cordar com as diretrizes impostas por suas mes. Suas mes deram mais ordens, foram tambm mais negativas e, por vezes, menos responsivas s interaes de seu filho se comparadas ao ob-servado em relao a mes de outras crianas11.

    Em observao, as crianas com TDAH fala-ram mais durante as interaes. E, os conflitos de interaes mudaram com a idade, embora no com o sexo. Crianas mais novas com e sem TDAH apresentaram muito mais conflitos do que crianas mais velhas, em ambos os grupos. Entretanto, em nenhuma das idades estudadas, as crianas com TDAH se comportaram como seus semelhantes sem TDAH e, obviamente, nenhum dos dois grupos de mes se comportou de maneira semelhante. Assim, existe esperan-a de que os relacionamentos dessas famlias melhorem um pouco, mas h evidncias de que no se tornaro completamente normativos14.

    Em outra pesquisa, foram gravadas e compa-radas as interaes entre mes e crianas com TDAH com aquelas entre pais e crianas, e os autores no encontraram muita diferena no total. Notaram, porm, que as crianas eram menos negativas com seus pais e mais capazes de perma-necer em tarefas do que quando com suas mes.

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    Eles alegaram que deve haver algo relacionado ao fato tpico de que as mes se encarregam mais com a responsabilidade de interagir com crianas do que os pais no ambiente de casa, especial-mente em orientar trabalhos e executar tarefas domsticas, mesmo quando as mes trabalham fora de casa15. Um pai que reprova os dficits de comportamento de seu filho com TDAH ter cla-ramente conflitos maiores com essa criana. As mes tambm parecem contar mais com razo e afeto para conquistar a submisso de seu filho, por meio de instrues. Como as crianas com TDAH no seguem instrues muito bem e no so sensveis a elogios, essa abordagem parece motiv-las bem menos. Os pais podem racio-nalizar e repetir menos ordens, podendo impor punio imediata pela no-submisso. Talvez, ento, um pai que age rapidamente, proporcio-nando alguma consequncia ao bom e ao mau comportamento da criana, consiga obter mais submisso de seus filhos11.

    O estresse parental em mes de crianas com TDAH foram investigados tambm e os pesqui-sadores concluram que as mes apresentaram mais estresse parental do que mes de crianas com desenvolvimento normal. A hiperatividade, em especial, emergiu como um preditor signi-ficativo do estresse, denominado de sobrecarga emocional nos grupos clnicos15. Os sintomas de hiperatividade/impulsividade envolvem inquie-tao e emisso de respostas precipitadas pela criana, o que pode conduzir ao estresse materno em funo da agitao do filho, podendo lev--lo expor-se a riscos, aumentando a tenso materna e, as tentativas de controle do filho, sem efeito, podem levar as mes a um senso de impotncia12.

    Estudiosos realizaram pesquisas analisando o funcionamento familiar de crianas com TDAH e observaram que os pais dessas crianas sentem mais estresse na criao de seus filhos, mais in-satisfao em seus papis e um sentido reduzido de competncia e autoestima16.

    No Brasil, com o objetivo de verificar de que modo os efeitos do TDAH interferem na estru-turao, na dinmica e no comportamento da

    famlia, pesquisadores analisaram a qualidade de vida de quinze famlias, bem como os efeitos que o TDAH traz para as suas vidas17. Os dados levantados demonstraram que a maioria dos pais possua um bom conhecimento sobre o quadro de TDAH dos filhos. Os problemas relatados foram de aprendizagem (59,34%) e de relacio-namento social (69,23%). Os pais declararam sentimento de cansao (7,6%), irritao com a criana (53,84%) e culpa pelos problemas apre-sentados (15,38%). Alguns pais demonstraram considerar as situaes decorrentes do TDAH como uma influncia negativa para a harmonia do casal (15,38%), que os irmos dos portadores se irritam com eles (46,15%) e os outros fami-liares no gostam da convivncia com o filho hiperativo (23,07%). Apenas 7,06% responsa-bilizaram o filho pela desorganizao da casa. Apesar das dificuldades, os pais afirmaram ter prazer em passear com os filhos (84,61%), mas um grupo prefere no sair de casa (15,38%), pe-los incmodos que a criana provoca em outros ambientes. Alguns pais gostariam que o filho fosse diferente (30,76%). A maior preocupao do grupo pesquisado est relacionada com as consequncias que o comportamento e os problemas de aprendizagem da criana podem trazer para o futuro dela (61,53%).

    Um estudo avaliou por meio da PedsQL TM, a qualidade de vida de 88 crianas, sendo 45 com TDAH e 43 crianas do grupo controle, sem TDAH. A autora avaliou tanto a percepo das prprias crianas, quanto de seus respectivos pais. Os resultados obtidos apontaram que o grupo com TDAH apresentou pontuao inferior ao grupo controle, com diferena significante nos domnios relacionados ao aspecto social, atividade escolar, na sade psicossocial e na qualidade de vida total. No houve diferena significante nos domnios de capacidade fsica e no aspecto emocional. J, a pontuao foi in-ferior em todos os domnios avaliados, segundo a percepo dos pais e ou responsveis das crianas com TDAH, quando comparada ao grupo controle, como nos domnios de capaci-dade fsica, aspecto emocional, aspecto social,

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    atividade escolar, sade psicossocial e qualidade de vida total. Esse estudo ressalta que tanto a criana portadora desse transtorno quanto os seus pais possuem a percepo sobre o impacto e as consequncias negativas do TDAH para a qualidade de vida, bem como a limitao fun-cional que esse quadro clnico proporciona18.

    O TDAH, muito frequentemente, pode cau-sar problemas matrimoniais para os pais ou de relacionamento para um deles. Nesse caso, o pai pode julgar exagerados os relatos da me ou decidir que a criana piorou de comporta-mento pelos resultados maternos, por a me ter sido muito permissiva. Ele pode concluir que a me, e no a criana, que necessita de assis-tncia profissional. Pode acontecer, tambm, do mdico no ter dificuldades para lidar com uma criana com TDAH, e a ele rotula a me de his-trica e incompetente19. No entanto, j passou da hora de os pais e profissionais perceberem que crianas, especialmente aquelas com TDAH, diferem em suas respostas dia...

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